• sábado, 22 de setembro de 2018 09:49

    Os recortes de jornais do PHF

    O PHF, o mesmo que foi patrono da mais recente Feira do Livro de Santa Rosa, me “brinda”, frequentemente, com recortes de jornais enviados pelos Correios. Como ele é leitor assíduo e assinante de impressos aos quais não tenho acesso, salvo pela internet a fragmentos, sempre encontro novas e preciosas leituras a fazer em periódicos editados em São Paulo, Rio, PoA, etc.
    Embora em questões políticas e econômicas tenhamos visões bem distintas, eu e o PHF somos bons leitores de entrelinhas. Daí, partilhar esses recortes de jornais amplia minhas perspectivas de leitura social, especialmente do mundo dito globalizado. É importante isso quando estamos às voltas em processo político tão conturbado quanto este vivido nos últimos anos, pois mais e mais se faz necessário olhar para além das cortinas chamadas fronteiras.
    A Inglaterra saiu da União Europeia recentemente em doloroso processo interno. A maioria da população quer que o governo proteja os seus interesses e se feche um pouco para o mundo. Há outros países do bloco Europa se fechando contra o mercado global porque entendem este explora ao máximo para devolver o mínimo. Isto tudo enquanto acompanhamos uma guerra comercial declarada entre China e EUA.
    Pois é, há nações que se fecham ao que denominam mercado aberto e liberal! Já o Brasil do atual modelo, ele não se abre, ele se doa - se dá. Os governantes estão a nos entregar de graça à fome do mercado. Não estou a afirmar que a política anterior estivesse certa, apenas estou a registrar que não há nada animador no horizonte, apenas servidão para o brasileiro.
    Em recorte do PHF li um texto fantástico, longo, sobre a era Trump e sua imensa reprovação (que nem de longe se aproxima a do Temer, que deve ser a pior da história do Brasil). O analista internacional afirma que vai faltar mão de obra barata nos Estados Unidos em dois anos. Sabe por quê? Porque o senhor das armas fechou as portas aos imigrantes.
    Pior que isso, essa falta terá reflexos em pelo menos três anos depois do Trump porque 50% dos trabalhadores da agricultura são imigrantes, especialmente mexicanos - que ganham menos e se sujeitam a sujar as mãos. Na construção civil e nas indústrias pesadas eles são pouco menos, porém, são aqueles que fazem todos os serviços pesados, de modo que também estas serão afetadas.
    Os recortes de jornais do PHF me permitem ir além de visões de esquerda e direita nacional que se digladiam com a aposta simples de usar a falta de educação/cultura de uma parcela do povo ou os muitos preconceitos que o brasileiro ainda carrega latentes na alma.
    Jornais e livros são preciosos clareadores para deixarmos essa época de trevas para trás, se é que a deixaremos. Aqui, uso uma frase que vi no Face do amigo Gerson Lauermann durante a semana e que me agradou “por demás”: A única lei que pode salvar o Brasil - LEI-Tura.

  • sábado, 25 de agosto de 2018 09:40

    O avô do Chico e as revoluções

    A semana de tempo acinzentado nos horizontes dachácara onde moro reviveu a imagem de uma entre vista que fiz há alguns anos com o avô do Chiquinho, esse mesmo moço que é locutor da Rádio Guaíra.

    Para iniciar prosa, preciso registrar que adoraria refazer a entrevista hoje, se vivo o avô do Chico ainda fosse. À época eu contava com pouco mais de 20 anos e, confesso, minha visão de mundo era primária, de modo que pouco extraí das histórias que ele narrava sobre as revoluções das quais participara sobre o lombo de um cavalo.

    Guardei, porém, impressas na memória, a imagem do vivente de modos simples e a sua forma de ver o mundo a partir do que havia experimentado em sua jornada que já beirava os 100 anos. Se não me falha a lembrança, ele faleceu com 107, aqui mesmo, em Santa Rosa.

    Aquela tarde de prosa com ele marcou profundamente os meus dias. Eu era um guri ainda, daqueles que achava saber tudo da vida e da história, a pensar que apenas minhas convicções eram suficientes. Ele, um veterano campeiro, contador de causos, narrador das muitas agruras da vida e de algumas peleias em que andara metido por conta das revoluções que marcaram época nos primeiros anos do século passado.

    Tropeiro que fora, rude e simples, o avô do Chico, aos 100 anos, vivia só em um casebre aos fundos do terreno de uma filha no Bairro Cruzeiro. Não porque ela não o acolhesse ou não pudesse lhe dar algo diferente, não! Ele queria aquele estilo rústico, sem mobílias mais que as básicas, assentos de madeira e um fogão a lenha ao canto da casa de duas peças, uma que era o todo e um quarto, tão simplório quanto ele.

    “Assim que vivi, e isso basta”, respondeu-me quando questionei a simplicidade da moradia. Vivera sobre o lombo de um cavalo, peão em fazendas, habituado ao rústico. Estava suprido com aquilo.

    Orgulho ele tinha do seu passado, de estar em meio às revoluções entre chimangos e maragatos, e muitas outras escaramuças que, sinceramente, não gravei na lembrança (e a reportagem publicada não a tenho para conferir agora).

    Ele, o avô do Chico, precisava apenas de suas lembranças para ser feliz. Café sobre o fogão à lenha, o mate à mão, e a casinha que mais remetia a um galpão de estância. Adoraria poder trazê-lo de volta hoje daquele lugar que chamamos Paraíso e sentar ao pé do fogo com ele para ouvir atentamente todas as suas histórias. Aproveitaria muito mais!

    O avô do Chico se adaptou às revoluções sociais, veio encerrar seus dias na cidade; ele, homem habituado às imensidões de campo, se viu entre os pequenos limites de um lote urbano. Ele não era triste; era grato a Deus pelo que seus olhos haviam visto.

    As nossas revoluções atuais são diferentes, com menos sangue e degolas, mas ainda estão aí, pautadas na mesma e surrada pauta: assumir o poder político para se fartar nas gordas tetas públicas. Nada mais!

    E há também outras revoluções, aquelas que nos são interiores, onde peleamos as nossas principais batalhas. Nessas lutas, entre vitórias e derrotas, aprendemos a sobreviver, a nos adaptarmos, sem perder a essência que nos atiça o sorriso à face. O avô do Chico soube ser feliz!

  • segunda-feira, 20 de agosto de 2018 10:32

    Por que ler autores locais?

    A Feira do Livro de Santa Rosa encerrou, e as avaliações gerais são de saldo positivo, claro, com sugestões para evoluir. Visitar a feira, conversar com autores locais e adquirir algum exemplar deles é apenas uma forma de fomentar esses corajosos escritores que peleiam contra toda sorte de adversidades para mostrar o que fazem. Creiam, há pelo menos uma dúzia de são bons nomes na lista. Leia-os!

    Eu prezo muito os autores regionais, tanto que em 1994, ao concluir a faculdade de Letras, desenvolvi minha tese de conclusão de curso baseada na obra de Charles Kiefer. À época, Charles recém ensaiava os passos literários que viriam a afirmá-lo como um dos grandes nomes da literatura gaúcha e brasileira. Eu lia “Valsa para Bruno Stein” ou “Caminhando na chuva” e via-me retratado naquelas personagens tão próximas de nós. Devorava cada página daquelas obras.

    Por isso fomento os escritores regionais, porque somente eles são capazes de colocar no papel personagens fiéis ao que somos. Já estou com meu exemplar de “O fundo invisível do olho”, reedição do Gilberto Kieling. É magistral. O livro é de 1987. Quando o li, na faculdade, vi-me em algum lugar no interior de Alecrim a dialogar com aquelas pessoas. Juro!

    Dirão que estou a promover os autores locais porque estou nesse bloco e busco proveito próprio. Não lhes tiro a razão, leitores, porém é a respeito de um multipremiado Roque Weschenfelder que escrevo, ou de um singular Ariceu Simão Paiva com sua inigualável e rica poesia carregada de beleza e crítica. Ou, ainda, de Maria Inez, Sonia Lorena, Juliano Marques, Débora Rodrigues e tantos outros que se firmaram e têm obras de grande valor cultural.

    Quanto ministro oficinas de criação literária aos integrantes dos projetos de jovens autores sempre os desafio a utilizarem nomes e situações que estejam no contexto regional. Chega de Peter, Mark ou Melory. Nós somos João, Ana, Manu. Nós temos histórias tão belas para contar quanto qualquer autor de “best seller”. Temos sim. O que não temos é a força da grande mídia, das redes sociais e da indústria de cinema dos EUA.

    Eu lancei nesta Feira o livro Vento Castelhano. Eu pretendo que meu leitor se pergunte onde a história acontece, que vila é Vassouras e se é verdade que as terras costeiras estão virando fazendas de gado nas mãos de empresários da cidade. Quero que o leitor se sinta parte da leitura. Não será um autor de São Paulo que fará essas perguntas. Somos nós, autores locais, que instigamos esse debate.

    Por que ler um autor regional? Porque ele nos conhece, sabe os dilemas que vão nessa gente que é cruzamento de imigrante com nativos sulinos, e entende o que se revela nas frestas da alma desses homens e mulheres que construíram uma região tão singular.

    É um pedido, agora: escolas de Santa Rosa e região, chamem os escritores daqui para atividades. Não se arrependerão!

  • sábado, 16 de junho de 2018 09:13

    O brasileiro está nem aí pra Copa

    A Copa do Mundo começou ontem? Pois é, nem parece. Nada vi de bandeirolas em verde e amarelo, salvo em um banco estatal.

    É como se não houvesse clima algum, em lugar algum. Por quê? Deixamos de amar o futebol? Deixamos de amar a Seleção? Ou simplesmente compreendemos que, haja o resultado que houver, mesmo que venha o título, isso não nos tornará mais felizes no despertar de agosto?

    Desencanto. Não com a Copa em si. Mas com o Brasil. Não é a Seleção, é o país mesmo. Gostamos do Tite, até são idolatrados alguns atletas, mas o povo sabe que nenhum deles pagará as nossas contas no final do mês ou levantará a taça de campeão para gritar em brado retumbante “Independência ou Morte”. Eles não nos amam tanto assim!

    Não é da Copa que estamos fartos, mesmo antes dela começar. É dos rumos deste país. E isso nos incomoda. Até veremos alguns jogos, teremos assuntos por algumas horas, porém estamos preocupados. Sim, pela primeira vez em muitos anos o brasileiro dá mais importância ao cenário político que à Seleção. Nem a Rede Bobo conseguiu animar a nação.

    Estamos em um pesadelo sem fim há três anos. E não se iludam, os ânimos seguirão ácidos por mais quatro ou cinco anos. O povo não consegue acordar. Até há uns lampejos de luz, como na greve dos caminhoneiros, mas logo queima a lâmpada do abajur e mergulha-se na noite outra vez.

    O brasileiro quer um herói, espera alguém que lhe dê esperança, que sinalize um futuro melhor e justo, e certamente já se deu conta que não é Neymar com seu salário de R$ 330 mil por dia que virá como salvador da pátria. Isso mesmo, R$ 330 mil por dia, sem os anúncios.

    O brasileiro alimentou sonhos nas últimas décadas, graças aos governos de FHC, Lula e Dilma, gostemos deles ou não. E a rejeição estupenda ao presidente Temer prova que o povo tem consciência do tamanho da manipulação entreguista em que é enterrada sua esperança de futuro. Esse governo está apenas nos tornando mais colônia que sempre fomos, infelizmente. Colonizados são explorados ou escravos. Simples assim. E o povo sabe disso.

    Que bom que o povo está nem aí para a Copa! Talvez assim, na eleição, as escolhas sejam condizentes com o tamanho do maior e mais rico país do mundo, apequenado por pústulas entronados pelo voto.