• sábado, 23 de setembro de 2017 10:46

    A maior mentira nacional

    Há muitos leitores alinhados com a ultradireita que me contestam a toda hora, e o elogio mais utilizado é pseudopensador de esquerda. Ora, isso não me incomoda. O desconforto, eu o sinto, diante de indivíduos com meias-verdades, sejam elas de direita ou de esquerda. Este é o ponto cruel do Brasil de hoje: meias-verdades. E, por conta delas, se instalaram os donos das trincheiras que nos afundam.
    Ninguém quer abrir mão dos seus pontos de vista. Poucos querem construir algo que seja realmente bom para todos. É o individualismo que está acima do coletivo, e aqui, individualismo aplico a categorias que defendem apenas seu quinhão.
    O Brasil estabeleceu que somos iguais perante a lei. É a mentira mais deslavada que ensinam aos brasileiros.
    Há toda sorte de privilégios para algumas classes de servidores públicos, para a classe política, aos militares e aos agentes do Judiciário. Posto assim, se evidencia que não somos iguais.
    Um deputado, por exemplo, tem imunidade parlamentar para roubar e se safar. Então ele não é igual.
    O juiz ganha auxílio moradia e, mesmo corrupto, recebe benefícios na aposentadoria. Então ele não é igual
    O militar pode se aposentar aos 48 anos. Então ele não é igual.
    Quem tem curso superior assegura direito a cela especial. Vai ver que ele é menos bandido que o traficante...
    O clube de futebol pode atuar normalmente sem certidões negativas, enquanto empresas não.
    Criamos leis específicas para feminicídio e homofobia, como se matar um homem ou jovem qualquer seja menos crime.
    Esse é o ponto! Deixamos de ser iguais. As bandeiras coletivas sumiram. Sem elas teremos uma guerra de clãs. Os LGBT contra os evangélicos, os professores contra o Estado, o Moro contra o Fachin, etc.
    Esse é um dos pontos do caos nacional. Quem está no topo não quer abrir mão de nada para construir algo melhor, em que todos se beneficiem. Quem está nas trincheiras (sindicais, esquerda ou direita tipo cura gay) também não quer ceder. O que há de vir depois? Apenas cenários piores.
    Eu sou socialmente engajado, sim. E sou cristão. E não sou míope. Por tudo isso, me entristece a ausência de um movimento que tenha bandeira coletiva que troque o lema ordem e progresso por: ética e honestidade.
    Não é possível que alguém em sã consciência consiga crer que o PT roubou e o PMDB não. Quem defende isso é míope. Da mesma forma como é crer que é justo um militar ou policial se aposentar aos 48 anos e querer que o povo se aposente aos 65 anos ou mais.

  • sexta-feira, 15 de setembro de 2017 14:43

    Antigamente era melhor...

    Há um clamor público por maior rigor na aplicação das leis, punições mais duras e até volta dos milicos ao poder.

    Pois bem, estava eu no encontro da Família Neske, a conversar com parentes, vários deles bastante saudosistas, em relação a muitos cenários, inclusive político. Uns a citar a paz vivida no período militar, outros a dizer que com Bolsonaro vai ser diferente, etc e tal. Constatei, então, de fato, a existência do mito de que o passado era melhor.

    Ora, nós estamos sempre querendo voltar ao passado, porque era melhor naquela época. Endeusamos a infância, aumentamos os feitos ou os enfeitamos. É típico do homem isso. Mas era melhor mesmo? Era nada. Em nossas vidas o cérebro vai anulando, vai resfriando, esquecendo o que era ruim, nos cicatrizando de feridas para que possamos seguir vivos. Por isso “guardamos” em gavetas inacessíveis os momentos ruins.

    Há um clamor pela volta do militarismo, do autoritarismo, que é representado pelo Bolsonaro. Ele tem legiões de fãs entre meus parentes também, podem crer. Eu já vi esse filme com o “Caçador de Marajás”, mas tudo bem!

    O que as pessoas querem é segurança, rigor judicial, fim da corrupção. No passado isso não existia.

    Vou cutucar um pouco, então. Eu cheguei a Santa Rosa nos anos 80. Na época dos milicos na metade das vilas de nossa cidade quase não se podia entrar, a menos que tivesse ligação com o povo de lá. Até 1993 a violência corria solta, com muitos assassinatos. O que mudou? O desenvolvimento, o progresso para os pobres mudou a realidade.

    Mais longe, um pouco. Só para citar, Maluf e Delfim, dois dos maiores ladrões que esse país já produziu, são crias do governo militar e estiveram nele em cargos do mais elevado escalão. Um jornal francês disse que em apenas um dos governos militares foram listados mais de 2.000 casos de corrupção. Claro que o cidadão brasileiro não ficou sabendo disso. Tinha corrupção e deixaram o país quebrado quando saíram o poder, bem mais que agora, basta ver o que ocorreu no governo Sarney.

    Outro mito é que as escolas militares são melhores porque têm autoridade impositiva. É conversa. São melhores porque lá só entram os alunos que passarem em seleção que é mais rígida que o melhor vestibular para medicina.

    Estamos nesse pé de podridão porque faliram ao mesmo tempo várias instituições desse País, a começar pelos entes políticos, o modelo Judiciário, a escola pública e a família. Olhe ao seu redor, leitor, veja quantas famílias caqueadas, sem eira nem beira, e os pais a defender uma sociedade autoritarista e rígida sem sequer controlar os filhos. É basófia, balela!

    Eu não estou desmerecendo o Exército, que tem outro papel, e que deve sim ser empregado com maior intensidade.

    Estamos fazendo com os problemas nacionais a mesma coisa que com a política. Há muitos por aí que apregoam que a culpa desse caos todo é do Janot e do Fachin, que seriam petistas disfarçados. Não é deles. A culpa é dos políticos, especialmente do PT e PMDB que assaltaram o País, em conluio com os outros que também receberam polpudas granas. E depois se ponha no seu lugar o MBL, assumindo sua responsabilidade, porque agora está silencioso como se o atual governo não fosse tão corrupto quanto o anterior.

    A questão não é o passado. A questão é a inércia de hoje. Ponto!

  • sexta-feira, 8 de setembro de 2017 08:26

    O meu amor cívico acabou

    Aliás, meu civismo jamais foi exatamente um modelo a ser seguido na Semana da Pátria. Não, meu amor cívico não é este dos jovens atuais que falam e ouvem música em inglês ou acham que o melhor lugar do mundo é New York. Tampouco carrego o velho separatismo sulino como resposta aos nossos problemas.
    Ah, sim, o meu amor cívico acabou.
    Ele, o meu amor cívico, estava indo pro brejo há meses, desde que percebi o vergonhoso esquema de corrupção que foi instalado neste país. No entanto, o resto de meu sentimento foi esmigalhado nesta semana, com as tantas notícias, tantas que eu precisaria de todo o Noroeste para que coubessem em colunas.
    Manchete 1: O presidente da CBF, órgão máximo do futebol brasileiro, não irá ao sorteio dos grupos da Copa do Mundo. Não pode deixar o país porque será preso. Ah, mas no Judiciário nacional nada depõe contra ele. Ah, o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro também não pode sair.
    Manchete 2: Gasolina sobe a cada dois dias, por culpa do furacão nos EUA (dá para acreditar numa asneira dessas). O gás de cozinha sobe 12%, e um botijão já vale quase 10% do salário mínimo. Paga, pobre!
    Manchete 3: O Ministério Público Federal em Santa Rosa obtém condenação de coronel do Exército que chefiou o Regimento por improbidade administrativa. Ué! Os militares também?
    Manchete 4: O Tribunal de Contas do Estado mandou a Prefeitura parar de dar o sacolão de alimentos aos aposentados/pensionistas. E o pior, quem diz isso é o STF, o nosso lindo Supremo do Gilmar Mendes. Paga, aposentado!
    Manchete 5: O trabalhador brasileiro já ganha menos que o trabalhador chinês. Leu bem? Os “explorados” comunistas chineses têm rendimentos salariais melhores que os nossos. Viva os pobres desse país!
    Manchete 6: Partidos estão mudando de nome para tentar se afastar da nhaca política nacional. Roupagem diferente para velhos nomes. Prepare-se para conhecer o Podemos, o Republicamos, o Novo e tantos outros.
    E prosseguem manchetes açucaradas que vão da endêmica corrupção dos governos petistas às malas encontradas, com R$ 33 milhões, e “supostamente” do ex-ministro do Temer.
    Ai. Chega! Meu resto de amor cívico acabou.
    O que salvaria meu amor cívico da morte? O MBL. É, o MBL. Caso ele volte à rua neste final de semana e peça a saída do Temer, do Aécio, do Alibabá e seus 400...
    Mas o MBL não se importa com o preço do gás de cozinha, né Colla?

     

  • segunda-feira, 4 de setembro de 2017 07:27

    Professora sangrando parte dois

    Acho que preciso escrever sobre o juiz que ganhou folha salarial de 500 mil no mês passado, em Mato Grosso. E a sua fala: “é legítimo, fiz por merecer”.
    Ele está certo. A lei estabelece tal. Errada está a lei, e aqueles que governam este país e nada fazem para alterar os desmandos produzidos por um Judiciário que cria as próprias regras ou um parlamento que escreve tudo em benefício próprio.
    Antes de prosseguir quero retomar o assunto “soco na cara”. Nem um, nem dois discordaram da reflexão que produzi na semana passada. Para muitos, o entendimento é: “a professora é uma militante petista, incita o ódio aos adversários, portanto, merecido o soco”. Ora, apague o rosto dela da memória e perceberá que o contexto da agressão não foi político, de modo que a agressão foi contra a educação como um todo.
    Volto, pois ao juiz. Sei que ele não é regra, como também não é a professora. Quero apenas ilustrar o seu ganho mensal. Uso como parâmetro um professor universitário, com doutorado, que é o nível equivalente de estudo do nobre togado.
    O educador ganhará, se for bem pago, R$ 10 mil mensais. Ou seja, ganhará em salários R$ 120 mil no ano. Traduzindo, o doutor em educação levará quatro anos para receber o que o magistrado recebeu naquele mês. Caso não tenha lhe parecido cruel, leia da seguinte forma: em um ano o tal juiz receberá o equivalente ao que o professor receberia por 48 anos de trabalho em sala de aula. É aqui que estamos falhando.
    Como um professor poderá dizer a um jovem que ética e trabalho são importantes em um país sem ética e que não valoriza o trabalho?
    Não é teto que precisa ser estabelecido, é uma distância entre o mínimo e o máximo... Por exemplo, entre o salário nacional da doméstica e do juiz não pode haver uma distância maior que 20 vezes. Fora disso, é crime de perpetuação da pobreza.
    Vou ser mais cruel, então! Você aplaude o Neymar em suas jogadas de gênio, mas não pensa que ele recebe R$ 10 milhões mensais, algo como R$ 330 mil por dia. Vou colocar desta forma: UM DIA DE TRABALHO DELE equivale a 29 anos de trabalho de um assalariado brasileiro.
    Eu e a Dé, juntos, ganhamos R$ 3.500,00 em um mês. Algo como R$ 42 mil no ano. Que beleza! Em oito anos de trabalho teremos recebido o equivalente a um dia do menino prodígio. Ou seja, juntos, eu e a Dé trabalharíamos 240 anos para ter direito ao que ele ganhará em um ano. Você leitor, caso tenha um salário de R$ 3 mil mês, precisaria viver/trabalhar 480 anos para receber um ano do Neymar.
    Definitivamente, não entra na cabeça das pessoas que não somos um país pobre, como também não somos um planeta pobre. Somos escravos modernos de uma economia cada vez mais cruel, especialmente com países de líderes que seguem a cartilha das grandes potências empresariais.
    Apenas para arrematar: defender justiça social não é ser socialista/comunista, é ser humano.