• sábado, 28 de abril de 2018 08:57

    O nome carrega o peso em si

    Eu sempre tento entender porque os pais escolhem nomes “assim ou assado” para seus filhos, quanto na verdade, eu mesmo faço escolhas que terei de explicar a eles.

    Vou aceitar a sugestão da “Nice Voice” e escrever uma coluna mais leve, que inclua a experiência de ser pai aos 44. Poderia ir pelo melódico de ninar um toquinho de gente com 2.500 gramas ou dormir em sobressaltos nas madrugadas. Poderia, mas quero propor outras linhas.

    Eu me preocupo com a casa, o trabalho, a grana para as contas, o futuro, sim, como todo pai. Eu e Dé falamos sobre educação, valores, obrigações. E já estabelecemos um não ao consumismo e um sim ao tempo, ao brincar, ao sermos pai e mãe.

    Na outra janela do tempo me angustia esse país caótico, violento, corrompido de alto a baixo, devastado por camadas de imoralidade em todas as áreas. O mundo talvez sempre tenha sido cruel assim, porém, sem a internet nos parecia que nossas utopias poderiam mudá-lo. Não podem. Podemos construir ilhas.

    Entre esperanças simples, como caminhar pelas matas com o pequeno ou me banhar na sanga, e angústias de um país sem rumo, teço minhas mirabolâncias.

    Eu penso muito no que posso oferecer ao meu filho, e nada está relacionado à matéria. Ele estudará em escola pública, terá animais de estimação, pai para jogar bola e mãe para contar histórias. Quero oferecer a ele um abraço e que ele entenda que abraçar os outros não “passa” doença, pelo contrário: cura algumas.

    Quero oferecer ao Joaquim Abiaru uma visão de mundo bem mais ao estilo do ex-presidente uruguaio “Mujica”, em que as pessoas devem ser as mesmas em todas as circunstâncias, com ou sem dinheiro, com ou sem poder. Quero que meu filho compreenda que o humano em nós não cabe em nenhuma máquina ou tecnologia.

    Meu filho tem nome bíblico para que entenda a importância da fé e da religiosidade, para que compreenda o que vem a ser o amor que o Cristo ensinou. Joaquim há de falar do amor com a facilidade que os imbecis falam de armas e guerras.

    Meu filho tem nome de cacique guarani missioneiro para que pesquise e saiba sobre suas origens, respeite o sangue que corre nas veias abertas do chão e aprenda que somos todos iguais. Espero que faça dardos e flechas de versos para contra-atacar ignorâncias.

    É o peso do nome que se carrega. O meu nome sei o que diz. A Dé é abelha. A Thaíssa é Juçara (a filha mais velha) e ainda há de vir outro - ou outra - por adoção. Os nomes são impressões que viram marcas, e até escudos, para que possamos enfrentar as lutas que a vida põe no caminho.

    Em mundo sem certeza alguma, ainda precisamos ter certeza de quem somos, de onde viemos e com quais armas lutaremos.

  • segunda-feira, 23 de abril de 2018 07:54

    Feriado mais besta esse!

    Amanhã é feriado. Poucos sabem que é para honrar o mártir da Inconfidência Mineira. Feriado mais besta esse!

    O 21 de abril deveria ser o principal feriado do Brasil. Deveria ser uma lembrança aguçada em todos os estudantes para lhes atiçar uma chama libertária que há muito nos abandonou. Tivéssemos mais Tiradentes, haveria menos larápios nos assaltando.

    Dia desses, uma pessoa que admiro muito, disse-me: Clairto, estás com visão equivocada, discurso excessivamente social, quando, sabidamente, o ente público não comporta mais arcar com a abertura do poço de água para os moradores da Linha Cascata, da mesma forma como a Prefeitura não deve mais prestar serviços gratuitos como cuidar de um cemitério municipal.

    A Prefeitura não comporta. O Estado não comporta. A União não comporta. Ouvimos isso a toda hora. É quase a mesma discussão com a Previdência que não terá recursos para pagar as aposentadorias. Talvez não tenha mesmo, porque o ex-presidente Sarney (senador) quer receber três aposentadorias que juntas somam R$ 115 mil. Ah, mas a grana não sai do mesmo caixa! Saúde, educação, a aposentadoria do Sarney, tudo sai de um caixa único: o imposto que todos nós pagamos.

    Qualquer prefeitura sempre fará um grande esforço para atender as exigências de empresas interessadas em instalar unidades no município, inclusive doando áreas de terras. Talvez estejam certas. Então, doar terrenos em cemitérios é muito mais necessário e legítimo.

    Ah, mas não comporta, não tem como arcar com os custos dos serviços (e isso se aplica a outras demandas, como estradas de acesso a propriedades)! Comporta sim, se enxugar a máquina pública, especialmente nos cargos de confiança que são pagamentos a débitos de campanhas.

    O Estado não pode bancar tudo para o cidadão! Bah. Esse discurso é tosco, porque o Estado oferece saúde e educação, ambas com muitas deficiências, atua na segurança pública (meia-boca) e não consegue oferecer uma logística adequada em nossas estradas que são cedidas para pedágios. Por outro lado, o mesmo Estado foi tomado por papéis de fiscalização, criou mil e uma maneiras de explorar o cidadão, com taxas novas, com impostos novos, tudo para sugar, sugar, sugar.

    Há verbas para tudo sim, elas apenas estão mal empregadas. Um deputado federal nos custa mais de R$ 100 mil por mês e são 513 desses. Um vereador, seguramente nos custa mais de R$ 15 mil com seu gabinete. Esse Brasil que está aí foi construído para dar lucro e ser benfeitor de apenas uma classe de pessoas: os políticos e apadrinhados. Por isso precisamos de tantas leis, para criar cargos, vagas que serão preenchidas por amigos dos reis.

    É preciso rediscutir o Brasil, sim. Mas é necessário que se faça isso sob um viés de justiça social. Se há verba para custear os altos ganhos de determinados grupos de pessoas, deve haver para custear programas sociais nas vilas. Chega desse discurso de que são todos vadios e querem mamar no governo. Vadios que mamam no governo são os amigos dos reis, e os reis.

    Vamos fazer nós, povo, uma Inconfidência. Em outubro, tenhamos o atrevimento de não reeleger traidores da Pátria. Nenhum! Pense nisso neste feriado!

  • segunda-feira, 9 de abril de 2018 07:36

    O custo de viver na região

    Muito se fala na logística para explicar os altos custos de viver na região. É simplismo demais...

    O preço regional sempre me intrigou. Recentemente o Jornal Noroeste deu voz a uma discussão nascida na rede social: o preço do gás de cozinha. A pesquisa feita pelo Jairo e o Jardel comprovou que os internautas estavam certos. O valor a mais, daqui para Giruá, é uma ofensa à inteligência (e a nós, clientes).

    Naqueles dias em que o gás aqui custava R$ 80,00 fui a Restinga Seca, ali perto de Santa Maria, onde moram meus sogros. Lá o botijão custava R$ 56,00. Voltei de lá pensando que seria um bom negócio trazer uns mil botijões por mês e revender por aqui, com lucro que me daria meio carro novo.

    Ah, naquela mesma viagem percebi a grande diferença praticada no preço da gasolina de Santa Maria até aqui. Fiquei bem desconfiado que o nosso transporte (a tal logística) deve ocorrer em rodovias de cobre, no mínimo. Mas o queixo viu a terra mesmo quando fui visitar minha filha em Santa Catarina. Aí sim me caiu “os butiá” dos bolsos.

    A gasolina mais cara do país está aqui, o próprio Jornal Noroeste apontou isso há duas semanas. Facilita o gás mais caro também. Isso ocorre com outros produtos, basta avaliarmos os preços e compararmos com o que vemos na internet.

    Fui palestrar em São José do Inhacorá. Passei no mercadinho, negócio pequeno, e lá comprei carne de gado com inspeção do abatedouro municipal. Aqueles preços, aqui só se encontram nos “clandestinos”, tipo a R$ 10,00 o quilograma. Em Restinga Seca é assim também. Que lógica é esta? Que tendo frigorífico de porcos pagamos mais caro que onde não tem? Que tendo gado, a carne vá às alturas?

    Tenho familiares, de Caxias do Sul, que se horrorizam quando entram nos mercados por aqui. Perguntam-nos porque tudo é tão caro! Ah, eles também sabem que os trabalhadores que fazem (aqui e lá) os mesmos trabalhos, lá ganham o dobro.

    QQ é isso?

    A logística, tema tão presente nas falas do Artur Lorentz, por si só não explica os custos tão elevados. Seria a ausência de concorrentes, quando vender marcas diferentes não significa concorrer? Seria concentração de renda em mãos de poucos grupos? Seria o preço que pagamos por termos pouca população num raio grande de terra a percorrer?

    A região não é pobre, do contrário não teríamos 50 revendas de automóveis, empresas fortes em todas as áreas e renda per capita de causar inveja a muitos municípios.

    Eu não encontro as razões para o alto custo, e as minhas teorias conspiratórias, guardo-as em meu cofre particular. Mas que isso intriga, intriga.

  • sábado, 31 de março de 2018 09:42

    A lagartixa fedorenta

    A Páscoa requer um olhar para dentro, pede a nós que respiremos outros ares, que deixemos de lado os dias pesados, como estes que atravessamos, com muita podridão ao nosso redor, muito ódio, egoísmo e gente medíocre.

    Na segunda-feira voltarei a me importar com o aumento de 20% no preço da luz, com o alto custo de vida nesta região que tem, inexplicavelmente, a gasolina e o gás mais caros do Brasil. Na semana que virá me importarei com as constantes destilações de raiva, com os joguinhos de poder e até com aquelas pessoas que maquinam o mal.

    Até lá, vou pedir que abram as janelas. Vou abrir as janelas.

    Eu morava em um apartamento, na Rua Minas Gerais, na época da morte da lagartixa. Um animal pequeno e esbranquiçado que descia pelas paredes, vindo do telhado, quase amigo meu de tantas vezes que o via. Era inofensivo, juro, até o dia de sua morte.

    Não percebi quando ela deixou de vir acompanhar a novela conosco. Tampouco suspeitei que ela fosse a origem do fedor que começou a empestear a nossa moradia. Fedor muito intenso, na sala.

    Onde? Procura aqui, ali, mexe no sofá, mexe na estante, move os livros de lugar... Nenhum sinal do ponto podre. Era como um rato morto em alguma fresta. Mas, onde? Parecia tão próximo... Como não víamos?

    O cheiro era bastante insuportável no segundo dia. Nada vi. Desisti de procurar o cadáver. A saída era manter a casa aberta e esperar, pacientemente, que o fedor se desfizesse. Restava-nos suportar a náusea, ventilar, abrir as janelas ou buscar outros ares.

    Alguns dias depois, realmente, a fedentina passou. Esqueci o fato, deletei da memória, afinal, havia outras urgências. Mas, algumas semanas depois, ao abrir a janela da sala encontrei a lagartixa, esmigalhada, prensada no vão das madeiras. Seca, já sem cheiro algum.

    Por alguns dias, alguns breves momentos, aquele fedor foi mais urgente que o preço do gás, da luz, da gasolina...

    Eu queria aproveitar a Páscoa para pensar nisso, nos dias insuportáveis para todos nós porque o “um” quer mais apenas para si mesmo ou porque prefere semear espinhos em solo já pedregoso e seco. Gente que apequena é o que mais tem!

    Há dias insuportáveis em todos os lugares, porque as lagartixas morrem nas frestas das janelas. Há coisas pequenas, que não vemos, mas cheiram mal.

    Então, cabe a nós trazer as flores que tornam o ar bem mais agradável. Abra as janelas da alma, abra as janelas da vida.

    Boa Páscoa!