• sexta-feira, 13 de outubro de 2017 08:57

    Regras em demasia para quem produz

    Há uma revolução social em marcha no Brasil, à qual, poucos atentam: o esvaziamento forçado do campo.

    Duas cenas recentes, compartilhadas no Facebook, de brigadianos autuando produtores rurais (em Passo Fundo e São Nicolau), causaram muita indignação. Os policiais agiram dentro da lei. Certo! A indignação não é contra eles, em questão, é contra leis que atentam contra cidadãos de boa índole. Impedir que o agricultor vá à cidade de “tobata” ou recolher alimentos vendidos na rua são atitudes que humilham e enterram de vez o pequeno produtor que quer, apenas, viver da sua terrinha.

    Por essas e outras que as pequenas propriedades estão rareando. Há várias razões para tal, no entanto, de certa forma, remete a um processo orquestrado, que conta com agentes de várias frentes. Campo esvaziado significa mão de obra que chega barata ao mercado de trabalho e, na outra ponta, a terra fica para o latifúndio produtor de soja e grãos. De quebra, há chance de o governo aliviar a Previdência no futuro, tendo em vista que o trabalhador da cidade vai se aposentar somente aos 65 anos.

    Trato desses temas no livro Vento Castelhano, que pretendo colocar na rua no próximo mês. A nossa região, outrora caracterizada por pequenas propriedades rurais, já tem imensas glebas formadas pelo esvaziamento. E não são os agricultores mais fortes que compram as terras. São grandes empresários urbanos, gente de poder, que investe em gado e soja.

    Mas esvaziamento forçado, Clairto? Sim, forçado. A pobreza força a ir embora. E a pressão exagerada dos “fiscais” também! Poucos são os projetos que, de fato, aportam dinheiro na agricultura familiar. Produzir já é difícil. Vender, então, é quase uma via sacra. Leite, que é o pão de cada dia do colono, só se viabiliza se for produzido em grande escala. Ovos, queijo, galinha, torresmo e outros itens sofrem severas restrições comerciais por conta dos fiscalizadores.

    O Eclair Moraginski, se vivo, daria um giro dentro do nosso Mercado Público de Santa Rosa e sairia horrorizado. Fui lá contar quantos boxes vazios há. Um terço. Pasmem, leitores, havia naquela sexta-feira 18 espaços ociosos.

    Parabéns a todos aqueles que atuam em prol da “segurança alimentar” do cidadão urbano. Parabéns! Estão cumprindo com zelo sua missão. Há regras demais para penalizar quem produz. E elas protegem apenas os grandes.

    No fundo, mesmo quem não se vê desta forma, trabalha para beneficiar a grande indústria, os conglomerados cooperativos e latifundiários. Em nome da segurança alimentar se massacra o pequeno produtor para que ele não venda leite e nata. Não podemos comprar ovos no Mercado Público. Mas, podemos comprar o leite podre das indústrias e comidas com prazos de validade vencida nos mercados de redes.

    O Ilizeu Reips, vice-presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Tuparendi e Porto Mauá, no Noroeste Debate, pintou o melhor quadro desta cruel realidade: “Das 67 crianças que estudaram comigo no Lajeado Ilhote, só cinco ou seis ficaram no interior... Isso vai piorar, à medida que as escolas do interior são fechadas”.

    ***

    Pensata: Tudo na mão das grandes empresas, as sementes inclusive. Logo será a água.

    ***

    Pensata: No Brasil de tanta terra, não há terra para fazer reforma agrária de fato, mas há de sobra para vender aos estrangeiros que vierem produzir soja.

  • sábado, 7 de outubro de 2017 09:47

    As orquídeas do Paulinho

    É uma crônica menos densa (e tensa), é sobre nosso compromisso com esta geração completamente desamparada.

    Trabalho muito com jovens e adolescentes, percebo neles a ausência da família e um desamparo com o qual não sabem lidar. Eles se defendem, reagem, mas estão completamente expostos. Quando encontram professores que conseguem ser “pais”, eles se desarmam e mostram as faces sensíveis de quem apenas quer um abraço.

    Pensava nessas cenas com os jovens enquanto falava com o Paulinho, meu colega da Rádio Noroeste. Ele cultiva orquídeas em sua casa. A moradia se tornou pequena para suas 300 plantas que ocupam varanda do apê, sala e pátio do prédio. Pensava nele, porque ao contar sobre as flores, insere observações feitas pelo Cauã, o filho ainda pequeno.

    O Paulinho ainda não se deu conta, mas o plantio das orquídeas não é o melhor plantio que ele já fez. O melhor plantio é essa semente de sensibilidade que está a germinar no coração do Cauã. Não é apenas consciência ecológica, é bem mais, tem a ver com o carinho, o cuidado, os valores... Tem a ver com amar outras coisas que o dinheiro não paga.

    Essa conversa com o Paulinho trouxe à minha memória outras cenas, mais antigas, de minha mãe, minha madrinha Celita e tantas outras mulheres (sempre elas) que trocavam mudas e sementes de flores quando morávamos no interior. Havia lindos jardins. E esse compartilhar de mudas e sementes afirmava as lembranças, às vezes parecia que plantava a própria pessoa em nosso meio: “Aquela espécie de gérbera eu ganhei da Fulana”.

    A sociedade caiu na armadilha liberal de colocarmos todos, homens e mulheres, ao mesmo tempo no mercado de trabalho. Assim reduziram-se os ganhos individuais porque sobra mão de obra, depois falimos com as famílias e depois nos tornamos insensíveis. Eu, se a Dé ganhasse quatro mil por mês, teria o maior prazer de ficar em casa e cuidar dos filhos que hão de vir. Ela também adoraria cuidar do jardim e dos filhos durante algum tempo se eu ganhasse esse valor. Mas, não podemos, as contas urgem em nossos calcanhares e nossos sonhos básicos incluem não ingressar no SPC (que não é o Só Pra Contrariar).

    A sociedade adoeceu e não encontra antídotos simples, como plantar orquídeas. Nossa pressa nos impede de esperar alguns anos para melhorar de vida. Nossa pressa nos exige todas as horas do dia. Nossa pressa é tão egoísta que destroça os pequenos jardins que deveríamos cultivar no centro de nossas salas de estar.

    Nós não cultivamos orquídeas porque a pressa não permite. Nós não trocamos sementes e mudas porque já não as temos. Nós não queremos jardins porque “fazem” muita sujeira e exigem cuidados. E assim, aos poucos, caímos na virtualidade e nos contentamos com flores que vêm em “posts” de amigos.

    Talvez por isso, nós (os insensíveis) assistimos o Brasil ser destroçado por duas matilhas de lobos famintos que se avançam no bem público e, no máximo, “compartilhamos” nossa indignação.

    Nós já não trocamos mais mudas, não trocamos mais sementes e perdemos os jardins.

  • quinta-feira, 28 de setembro de 2017 18:55

    A força que não temos

    A força política que pensamos ter, e não temos. É sobre isso o texto, e também sobre algumas constatações urbanas.

    Fizemos um ótimo debate no sábado a respeito do trânsito de Santa Rosa. Sentimos, no dia a dia, que melhorou muito o nosso fluxo, menos na sinaleira de acesso à Vila Flores. Percebemos que o número de acidentes caiu, basta observarmos que a Samu passa bem menos com suas sirenes a mil. Carlos Losekan, diretor de Mobilidade, diz que há redução nos acidentes em 30% em um ano e mais 20% no ano seguinte, 2015 para agora. Ótimo.

    Porém, a mesma esteira de constatação visual nos aponta que nas rodovias que nos margeiam as mortes não diminuíram. Seria bem mais cruel se a imprensa noticiasse as pessoas que morrem uma ou duas semanas depois das colisões, após algum tempo na internação. É muita gente. Rodovias que são um lixo, vide esse trajeto atrás do Parque de Exposições de Santa Rosa. Pior que isso apenas os nossos acessos.

    Os trevos que conduzem a Santa Rosa merecem estudo urgente. Na chegada ao Instituto Federal Farroupilha e Distrito Moveleiro nem existe acesso. Aquele que leva a Tuparendi é caos completo. Esse conhecido como Trevo do Porco é campeão em acidentes. Obviamente que tem muito a ver com as barbeiragens dos motoristas, com a pressa, com a velocidade, mas ainda assim, a ausência do ente Estado/União é lamentável.

    Aqui que pretendia chegar. Nunca na história da região Santa Rosa esteve tão bem servida de força política. Vicini é forte no PP do Estado, Terra é ministro, Bohn Gass e Jerônimo Goergen são deputados federais com base aqui, sem contar parlamentares estaduais como Jeferson Fernandes, Aloísio Classmann, Sérgio Turra, Zilá e outros com ligação direta ao município.

    A gente acha que está bem servido. Mas quando precisa usar os acessos a Santa Rosa, e nem precisa ser em horário de pico quando fica um tempão parado, aí se vê que a nossa força é ficcional. Sozinho, o Cajar Nardes, deputado federal irmão do Ministro do TCU, anunciou obras de acesso a três municípios das Missões, isso há poucos dias. Nem sei se são obras mais necessárias que as nossas.

    Então, não sei se temos realmente a força política que julgamos ter. Até porque a duplicação da ERS 344 está na boca de alguns faz anos.

     

    Pontuando:

    Outros problemas? Sim, muitos. Esses devem ser conduzidos aos vereadores, à Câmara.

    O pior é que o município se dobra a pressões pontuais, como o dono da farmácia que quer sua vaga em frente ao estabelecimento em local onde atrapalha muito.

    Ainda não entendo os estacionamentos permitidos nas laterais das sinaleiras onde estreitam a rua. Acabem com isso!

    Os pedestres de Santa Rosa, na palavra do Tenente Azevedo, são “mal educados”.

  • sábado, 23 de setembro de 2017 10:46

    A maior mentira nacional

    Há muitos leitores alinhados com a ultradireita que me contestam a toda hora, e o elogio mais utilizado é pseudopensador de esquerda. Ora, isso não me incomoda. O desconforto, eu o sinto, diante de indivíduos com meias-verdades, sejam elas de direita ou de esquerda. Este é o ponto cruel do Brasil de hoje: meias-verdades. E, por conta delas, se instalaram os donos das trincheiras que nos afundam.
    Ninguém quer abrir mão dos seus pontos de vista. Poucos querem construir algo que seja realmente bom para todos. É o individualismo que está acima do coletivo, e aqui, individualismo aplico a categorias que defendem apenas seu quinhão.
    O Brasil estabeleceu que somos iguais perante a lei. É a mentira mais deslavada que ensinam aos brasileiros.
    Há toda sorte de privilégios para algumas classes de servidores públicos, para a classe política, aos militares e aos agentes do Judiciário. Posto assim, se evidencia que não somos iguais.
    Um deputado, por exemplo, tem imunidade parlamentar para roubar e se safar. Então ele não é igual.
    O juiz ganha auxílio moradia e, mesmo corrupto, recebe benefícios na aposentadoria. Então ele não é igual
    O militar pode se aposentar aos 48 anos. Então ele não é igual.
    Quem tem curso superior assegura direito a cela especial. Vai ver que ele é menos bandido que o traficante...
    O clube de futebol pode atuar normalmente sem certidões negativas, enquanto empresas não.
    Criamos leis específicas para feminicídio e homofobia, como se matar um homem ou jovem qualquer seja menos crime.
    Esse é o ponto! Deixamos de ser iguais. As bandeiras coletivas sumiram. Sem elas teremos uma guerra de clãs. Os LGBT contra os evangélicos, os professores contra o Estado, o Moro contra o Fachin, etc.
    Esse é um dos pontos do caos nacional. Quem está no topo não quer abrir mão de nada para construir algo melhor, em que todos se beneficiem. Quem está nas trincheiras (sindicais, esquerda ou direita tipo cura gay) também não quer ceder. O que há de vir depois? Apenas cenários piores.
    Eu sou socialmente engajado, sim. E sou cristão. E não sou míope. Por tudo isso, me entristece a ausência de um movimento que tenha bandeira coletiva que troque o lema ordem e progresso por: ética e honestidade.
    Não é possível que alguém em sã consciência consiga crer que o PT roubou e o PMDB não. Quem defende isso é míope. Da mesma forma como é crer que é justo um militar ou policial se aposentar aos 48 anos e querer que o povo se aposente aos 65 anos ou mais.