• sexta-feira, 31 de março de 2017 14:59

    Carne, leite e o Movimento MBL

    No último domingo não houve movimento nas ruas, mesmo chamado pelo MBL - Movimento Brasil Livre. Não houve porque o brasileiro não legitima o governo e o MBL colocou esse governo ali. Ponto.

    Por que inicio a coluna escrevendo sobre o fracasso da mobilização nacional? Para fazer com que o leitor atente ao trabalho coordenado e tático/técnico desencadeado pela grande imprensa brasileira nos últimos anos, especialmente no ditame dos rumos políticos. Há uma orquestração magistralmente formulada. Nada é acaso.

    Os vazamentos das gravações envolvendo Lula eram legítimos (mesmo ilegais). Os vazamentos atuais envolvendo o governo são crime de Estado. As notícias não ecoam a tempo de provocar alguma reação, pois mal elas surgem na tela, a tempo de você fazer um print ou compartilhar na rede social, logo somem.

    Perceberam, leitores, que durante toda a semana passada, a imprensa nacional, a serviço dos caciques partidários, falou tão-somente sobre a operação contra os frigoríficos? Era estratégico para passar no Congresso a Lei da Terceirização. Logo encontrarão outro cenário para dar ampla cobertura (só que não ampla) à medida que avançará a reforma da Previdência com ditames de equilíbrio fiscal.

    Voltando ao tema da Operação Carne Fraca... Somente eu percebi a reportagem em que o delegado da Polícia Federal afirmou que o esquema desviou milhões para as campanhas políticas do PMDB e do PP? Por que esse assunto não obteve importância? Da mesma forma desapareceu dos noticiários o envolvimento do ministro da Justiça do atual governo na indicação do mentor de todo o esquema... E ele segue ministro. Em que País estamos?

    A imprensa nacional, certamente a mando dos políticos, passou a semana toda tentando fazer com que a Polícia Federal arcasse com as consequências de o Brasil perder exportações e mercados de carne, bem como arcar com o fechamento dos frigoríficos e postos de trabalho... Santo Deus! A Polícia faz o trabalho dela, certíssimo, e é acusada de trabalhar contra os interesses nacionais? Então, ela deveria silenciar, legitimar o roubo?

    A culpa não é da Polícia Federal. A culpa é dos fiscais corruptos que atuavam no esquema, aliados com os partidos políticos que moviam a roda, incluindo aqueles salafrários que os indicaram. Entendam, leitores, que é esta máquina nacional de distorcer fatos que precisa ser desfeita.

    Para finalizar: não é de hoje que tenho escrito a respeito dessas leis severas demais contra os pequenos produtores familiares que já não podem vender ovos, leites e derivados de produtos animais na cidade. Essa construção tem apenas um viés: proteger os grandes conglomerados nacionais e internacionais. E nesse aspecto, pouco se fez nos últimos anos, mesmo em governos petistas que deveriam, na teoria, observar justamente estes negócios.

    Eu defendo a ideia de que o consumidor deve ter o direito de escolha sobre o que vai comprar. Se ele quer comprar o leite do verdureiro, o queijo feito em casa, o frango da vizinha, etc, é um direito dele. Eu busco leite na vizinhança. Pronto. E tenho certeza que faz bem menos mal que estes que são vendidos nas caixinhas. Uma coisa é fiscalizar e aplicar regras a quem produz em escala industrial. Outra é impor um código que penaliza os pequenos.

    Se a intenção é gerar mais mendigos no campo ou expulsar todos os pequenos, parabéns, vão conseguir bem rapidinho.
    Ah, e o MBL deveria passar a MBLP - Movimento Brasil Livre dos Pobres (pois em tal ritmo, logo estarão exterminados).

  • sexta-feira, 24 de março de 2017 15:15

    Entre a utopia e o pragmatismo

    A utopia pura e simples levou Cuba ao fracasso. O pragmatismo fez a Rússia exterminar os chechenos diante do silêncio mundial. Há quem pense que reiteradamente escrevo contra o capitalismo, e que minha visão é demasiadamente à esquerda. Nego. Meu olhar segue a lógica de construir o justo, e este precisa ser voltado ao coletivo.
    Nesses debates de esquerda versus direita, movidos a ranços de ambos os lados, perdeu-se a noção do socialmente justo. Em geral, as propostas em discussão nas mais altas esferas do poder não conduzem à construção de um país com justiça social. Da mesma forma, também muitos dos movimentos de resistência pouco estão preocupados com o coletivo.
    Quem defenderá o desvalido povo? O que temo é que, no andar da carruagem, tudo que os pobres desse país obtiveram de avanços nos últimos anos estará perdido em uma década se forem aprovadas todas as mudanças propostas. Ah, então Clairto, tu és contra tudo que o governo propõe? Devagar com esse andor.
    Leonardo Vicini e Maria Inez Pedrozo, no Noroeste Debate do sábado passado, usaram dois termos bem distintos para delinear o momento atual. A professora e escritora falou em viver e edificar um mundo a partir das utopias (algo mais justo e com sonhos). O jovem político usou o termo pragmatismo para defender seu ponto de vista (praticidade para construir desenvolvimento e progresso, e então devolver justiça social).
    A utopia desenhada pelos brasileiros é contar com saúde, educação pública e segurança. O restante o povo buscará no braço, no trabalho, porque ao contrário do que a corja política apregoa, o brasileiro é sim muito trabalhador e esforçado. O brasileiro apenas quer oportunidade.
    Bem, no olhar do pragmatismo essas oportunidades não virão se não abrirmos mão da aposentadoria, dos direitos trabalhistas e dos financiamentos públicos para casa própria e estudos. Em tese, o que se lê é assim: “se os pobres não ajudarem os ricos a construir uma riqueza maior ainda (desenvolvimento do Brasil), eles (os pobres) nem com as migalhas ficarão.
    Não sou contra o capitalismo. Sou contra o comunismo. Sou contra modelos totalitários. Mas também sou contra esse modelo que propõe que a classe menos favorecida pague a conta dessa roubalheira toda que financiou não o PT apenas, mas sim a compra de praticamente todos os parlamentares desse país, comprovado pela Lava Jato. Sou contra vender nossa terra aos estrangeiros. Sou contra me aposentar aos 65 anos. Sou contra tudo que soe injusto para a maioria.
    A utopia de um país perfeito não funciona, tampouco o pragmatismo simples. É preciso construir um equilíbrio. Precisamos da reforma política, sim, mas não pode ser proposta pelos políticos. Tem que ser proposta pelo Judiciário ou pelas entidades organizadas. Esse é o meio-termo entre a utopia e o pragmatismo. Isso se aplica a todo o contexto. Precisamos da reforma da previdência, sim, da reforma trabalhista também.
    Mas é preciso ouvir as ruas (que por ora estão apenas em rumores)... Antes que elas, as ruas, tenham que marchar outra vez.

     

  • sexta-feira, 17 de março de 2017 15:58

    Um banheiro a R$ 3,00

    Em poucos dias fui duas vezes a Porto Alegre, em ambas me deparei com fatos curiosos que permitem compreender o quão complexo está ler o mundo de hoje.
    Na primeira ida, em minutos de espera na rodoviária, eis que vejo surgir o advogado Elizeu Holz que chegava de uma dessas aventuras pelo Brasil. Lá longe, a gente se encontrar, é coincidência. Não há mais fronteira, não há mais distância. E o que mais não há?
    Nesta semana, estou lá outra vez, comodamente sentado em salão repleto de “viajeiros tipo eu”, quando o noticiário estadual estampa matéria sobre a má conservação das estradas no interior do município de Santa Rosa. Opa! Não bastasse isso, depois repetem uma parte do conteúdo. Lá longe vou descobrir que nossas vias interioranas estão em situação bastante complicada!
    Por que escrevo sobre isso? Porque quando estamos longe de casa, em momentos de meia solidão na viagem ou em estações de bus, nos tornamos mais perceptíveis, ou mais sensíveis a fatos que geralmente passam despercebidos. Nessas horas não foge ao olhar aquela placa no acesso ao banheiro com a indicação R$ 3,00. Ela grita com a gente, mais ainda porque logo adiante há outra em que se lê Café R$ 1,00. Então é isso, pago mais para tirar a água do joelho que por um café?
    Nessa hora nos perguntamos: o que realmente é real nesse todo que nossos olhos e ouvidos percebem no jogo de sons e imagens que nos bombardeiam continuamente? É real o preço do café ou de um banheiro limpo? É real a Santa Rosa abandonada ou a do Tape Porã? Ou ambas, nas duas situações, e apenas muda quem vê e como vê?
    Os habitantes da aldeia capital comemoravam o anúncio de mais 500 policiais enviados do interior para reforçar a segurança na megalópole. E eu lá, sentado no banco da rodoviária, a me perguntar: e nós, do interior, podemos ficar expostos à violência? Ou essa onda de assaltos a bancos e carros fortes é na margem do Guaíba?
    O que é real nesse imenso mar de notícias que lemos todos os dias nas redes sociais e sites de conteúdo? Por que tanta urgência em vender nossas terras aos estrangeiros? Por que tanto empenho em fazer com que o trabalhador se aposente apenas aos 65 anos? Por que tantos privilégios para políticos e algumas castas? Por que a luta tão intensa para manter foro privilegiado?
    Não tenho respostas, tenho a minha leitura social. Ademais, nada disso importa mais ao todo, porque o todo não existe mais. O que importa é apenas o que me importa, afinal, EU sou o centro do mundo.
    O preço do café e da mijada, o encontro com o Elizeu e as estradas do nosso interior são apenas fatos meus... No fim das contas, é tudo mentira! Estamos sempre no mesmo lugar!

  • sexta-feira, 10 de março de 2017 16:34

    A eternidade do prefeito

    Vou riscar dois elogios ao prefeito e uma crítica, e trazer de volta à cena a Cidade Interativa. Simples assim.
    Quando Vicini assumiu a prefeitura, em 2013, escrevi uma coluna em que listava três obras que o colocariam em patamar diferenciado no tocante a obras deixadas para a posteridade. Citei o Tape Porã, a Avenida América e o Centro Cultural. Isto feito, não nessa ordem, necessariamente, o prefeito saltaria ao topo entre grandes homens que Santa Rosa conheceu. Sim, porque não basta ser o gestor tantas vezes, tem que assinar legado!
    Hoje, mesmo com tão pouco tempo de apropriação pela comunidade o Tape Porã é cartão postal do município, talvez o local mais querido pelas pessoas nos dias atuais. E se Vicini ou os prefeitos que o sucederem levarem o projeto adiante, com execução de mais obras e infraestrutura (e a arborização que somente o tempo trará), então teremos o espaço de lazer para nossos netos. Gol de placa do Vicini.
    Quando o projeto Tape Porã foi concebido pela Cidade Interativa (sim, foram os malas que sonharam isso) havia a visão de futuro, muito embora talvez nem mesmo aqueles que estavam no movimento conseguissem dimensionar exatamente quão grandioso seria o impacto do novo parque. Da mesma forma como foi com o Parcão.
    Ocorre o mesmo com a Avenida América, obra sonhada há décadas e que dormiu sobre a mesa de muitos prefeitos, porque sabemos que aciona o play do futuro. Não é de Vicini o mérito todo, não. Mas é dele o esforço para executar a maior parte da via, concluir e entregar para tráfego. Ninguém sabe o que acontecerá em seu entorno nos próximos anos, mas certamente uma nova cidade se desenha a partir dessa obra. Golaço.
    Tape Porã e Avenida América já são do cidadão santa-rosense. Sob minha perspectiva, falta o Centro Cultural. Sei que outros dirão que falta, antes, o ginásio esportivo para cinco ou 10 mil pessoas. É outra prosa! O Centro Cultural é o coração da cidade, é onde todos passam o tempo todo. É local que estará ligado ao Centro Cívico, à Biblioteca, à Praça Cívica, aos nossos principais eventos culturais, inclusive o Brique na Praça (que precisa urgentemente ser fomentado).
    Também o Centro Cultural é luta da Cidade Interativa, OSCIP adormecida nos dias atuais. E creio que todos os políticos certamente comemoram essa dormência. Por que escrevo isso? Porque apenas na última semana ouvi duas pessoas falarem com ganas de trazer a entidade outra vez à luz. Que notícia maravilhosa Dr. Facchin!
    Sim, Borges foi tachado de muitas coisas desagradáveis quando quis fazer o Centro Cívico, aquela babilônia no centro. Hoje se vê quem estava certo. Por favor, concluam o Centro Cultural e revitalizem esse entorno. E depois, por favor, tragam das cinzas o Musicanto.