• sexta-feira, 8 de setembro de 2017 08:26

    O meu amor cívico acabou

    Aliás, meu civismo jamais foi exatamente um modelo a ser seguido na Semana da Pátria. Não, meu amor cívico não é este dos jovens atuais que falam e ouvem música em inglês ou acham que o melhor lugar do mundo é New York. Tampouco carrego o velho separatismo sulino como resposta aos nossos problemas.
    Ah, sim, o meu amor cívico acabou.
    Ele, o meu amor cívico, estava indo pro brejo há meses, desde que percebi o vergonhoso esquema de corrupção que foi instalado neste país. No entanto, o resto de meu sentimento foi esmigalhado nesta semana, com as tantas notícias, tantas que eu precisaria de todo o Noroeste para que coubessem em colunas.
    Manchete 1: O presidente da CBF, órgão máximo do futebol brasileiro, não irá ao sorteio dos grupos da Copa do Mundo. Não pode deixar o país porque será preso. Ah, mas no Judiciário nacional nada depõe contra ele. Ah, o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro também não pode sair.
    Manchete 2: Gasolina sobe a cada dois dias, por culpa do furacão nos EUA (dá para acreditar numa asneira dessas). O gás de cozinha sobe 12%, e um botijão já vale quase 10% do salário mínimo. Paga, pobre!
    Manchete 3: O Ministério Público Federal em Santa Rosa obtém condenação de coronel do Exército que chefiou o Regimento por improbidade administrativa. Ué! Os militares também?
    Manchete 4: O Tribunal de Contas do Estado mandou a Prefeitura parar de dar o sacolão de alimentos aos aposentados/pensionistas. E o pior, quem diz isso é o STF, o nosso lindo Supremo do Gilmar Mendes. Paga, aposentado!
    Manchete 5: O trabalhador brasileiro já ganha menos que o trabalhador chinês. Leu bem? Os “explorados” comunistas chineses têm rendimentos salariais melhores que os nossos. Viva os pobres desse país!
    Manchete 6: Partidos estão mudando de nome para tentar se afastar da nhaca política nacional. Roupagem diferente para velhos nomes. Prepare-se para conhecer o Podemos, o Republicamos, o Novo e tantos outros.
    E prosseguem manchetes açucaradas que vão da endêmica corrupção dos governos petistas às malas encontradas, com R$ 33 milhões, e “supostamente” do ex-ministro do Temer.
    Ai. Chega! Meu resto de amor cívico acabou.
    O que salvaria meu amor cívico da morte? O MBL. É, o MBL. Caso ele volte à rua neste final de semana e peça a saída do Temer, do Aécio, do Alibabá e seus 400...
    Mas o MBL não se importa com o preço do gás de cozinha, né Colla?

     

  • segunda-feira, 4 de setembro de 2017 07:27

    Professora sangrando parte dois

    Acho que preciso escrever sobre o juiz que ganhou folha salarial de 500 mil no mês passado, em Mato Grosso. E a sua fala: “é legítimo, fiz por merecer”.
    Ele está certo. A lei estabelece tal. Errada está a lei, e aqueles que governam este país e nada fazem para alterar os desmandos produzidos por um Judiciário que cria as próprias regras ou um parlamento que escreve tudo em benefício próprio.
    Antes de prosseguir quero retomar o assunto “soco na cara”. Nem um, nem dois discordaram da reflexão que produzi na semana passada. Para muitos, o entendimento é: “a professora é uma militante petista, incita o ódio aos adversários, portanto, merecido o soco”. Ora, apague o rosto dela da memória e perceberá que o contexto da agressão não foi político, de modo que a agressão foi contra a educação como um todo.
    Volto, pois ao juiz. Sei que ele não é regra, como também não é a professora. Quero apenas ilustrar o seu ganho mensal. Uso como parâmetro um professor universitário, com doutorado, que é o nível equivalente de estudo do nobre togado.
    O educador ganhará, se for bem pago, R$ 10 mil mensais. Ou seja, ganhará em salários R$ 120 mil no ano. Traduzindo, o doutor em educação levará quatro anos para receber o que o magistrado recebeu naquele mês. Caso não tenha lhe parecido cruel, leia da seguinte forma: em um ano o tal juiz receberá o equivalente ao que o professor receberia por 48 anos de trabalho em sala de aula. É aqui que estamos falhando.
    Como um professor poderá dizer a um jovem que ética e trabalho são importantes em um país sem ética e que não valoriza o trabalho?
    Não é teto que precisa ser estabelecido, é uma distância entre o mínimo e o máximo... Por exemplo, entre o salário nacional da doméstica e do juiz não pode haver uma distância maior que 20 vezes. Fora disso, é crime de perpetuação da pobreza.
    Vou ser mais cruel, então! Você aplaude o Neymar em suas jogadas de gênio, mas não pensa que ele recebe R$ 10 milhões mensais, algo como R$ 330 mil por dia. Vou colocar desta forma: UM DIA DE TRABALHO DELE equivale a 29 anos de trabalho de um assalariado brasileiro.
    Eu e a Dé, juntos, ganhamos R$ 3.500,00 em um mês. Algo como R$ 42 mil no ano. Que beleza! Em oito anos de trabalho teremos recebido o equivalente a um dia do menino prodígio. Ou seja, juntos, eu e a Dé trabalharíamos 240 anos para ter direito ao que ele ganhará em um ano. Você leitor, caso tenha um salário de R$ 3 mil mês, precisaria viver/trabalhar 480 anos para receber um ano do Neymar.
    Definitivamente, não entra na cabeça das pessoas que não somos um país pobre, como também não somos um planeta pobre. Somos escravos modernos de uma economia cada vez mais cruel, especialmente com países de líderes que seguem a cartilha das grandes potências empresariais.
    Apenas para arrematar: defender justiça social não é ser socialista/comunista, é ser humano.

     

  • sábado, 26 de agosto de 2017 10:55

    O rosto da professora agredida

    Estou sentado dentro de uma sala de aula, em Porto Vera Cruz, em intervalo, enquanto escrevo estas linhas. Bom lugar para refletir.

    Leitores, levem em consideração que não sou professor, de modo que não tenho motivos “de categoria” para defendê-los. No entanto, causou-me certo espanto ver, infelizmente, dezenas de postagens de internautas que comemoraram a agressão sofrida pela professora em Santa Catarina. Eis algo mais a lamentar: a falência da sociedade.

    O rosto da professora agredida é página de muitos livros, é história que pode ser escrita como um drama ou um filme de terror, nunca, porém, será um conto de fadas.

    Como não é um conto de fadas este país, um dos mais ricos do mundo, que só faz empobrecer a educação, segue a maltratar os educadores e não busca produzir mudança futura.

    No episódio em questão o governo é apenas uma das pontas da boleadeira que amarra nossos pés. Há muitos culpados, sim, no entanto, há bem mais vítimas. E nelas, as vítimas, todos nós estamos incluídos ao passo que vemos retrocesso ou quando não podemos sair de casa porque a violência nos empurra para dentro das grades.

    O rosto da professora estava sangrando e, certamente, sua alma bem mais. Ela, que certamente pensava estar contribuindo para uma sociedade melhor, se viu diante da crueldade de um jovem que não tem tempo para esperar o futuro chegar por vias retas para ganhar seu dinheiro. Ele quer ganhar como outros milhares de jovens, ganha na força, no grito, na facilidade. É o que vemos quando ligamos qualquer aparelho de tevê.

    Nesse jogo de poder e podridão quase tudo está errado.

    Os ultradireitistas veem no episódio um contexto para ridicularizar Paulo Freire e enaltecer a doutrina militar, e sua severidade absoluta.

    Os esquerdistas veem a influência da televisão e da alienação imposta, do abandono do governo à Educação e das teorias de reação tão em voga no mundo.

    Essa é aquela hora em que a esquerda e a direita devem voltar aos bancos escolares até perceber que não se produz educação sem desenvolvimento, como não se produz desenvolvimento sem educação.

    Com o rosto da professora sangrando não é a educação que perde, é a sociedade. A questão não é o menino infrator. A questão é a educação e todas as situações que estão interligadas a ela.

    Infelizmente, o rosto da professora agredida não é o dela, é o meu, o seu, o nosso. Hoje ela sangra, amanhã será qualquer um de nós.

  • sábado, 19 de agosto de 2017 10:18

    O linchamento do bandido

    Em Porto Alegre, a última “moda” é linchar bandidos. Ou melhor: bandidinhos pés de chinelos.

    Eu vi um linchamento, na esquina do prédio onde estive hospedado. Eu vi, fiquei 15 minutos acompanhando a barbárie e, por fim, fiz inúmeras leituras daquele cenário de caos.

    Ah, é preciso dizer que qualquer pessoa que veja uma cena dantesca daquelas e, depois, participar de uma, é um sujeito destituído de sua essência humana. Ele, por ser ali agressor, também já era, já deixou de ser “gente”. É a bestialidade!

    Ao fato: O bandido rouba a bolsa de uma mulher, corre pela calçada com um homem em seu encalço. O dono de uma lojinha sai e se joga heróica e corajosamente contra o marginal, leva-o ao chão, recupera os pertences da moça. Logo, o jovem (que era branco, e claramente viciado), em segundos, está imóvel na calçada.

    Era só chamar a polícia. Não vi sinal de polícia (Centro de Porto Alegre) em quinze minutos que ali estive. O cara estava imóvel. Imaginem mais de 20 pessoas, homens grandes e fortes, a chutar e pisar o rapaz sem piedade! Selvageria pura. Um linchamento sem qualquer chance de reação.

    Até aparecerem duas mulheres! Uma baixinha se jogou sobre o rapaz, aos berros, para cessar a pancadaria. Depois chegou outra, tão pobre quanto o bandido, atirando mil verdades na lata dos linchadores. Corajosas elas. Não cessou a confusão, porque os homens empurravam a mulher baixinha, tentavam afastá-la do bandido para continuar a sessão de castigo “justo e merecido”. Constatei outra cena dessas no noticiário de TV. E depois, em passeio com o Everton Maciel, ele contou que é cena comum na Capital, e que sempre são as mulheres que intervêm. Por quê? Porque nelas os homens não batem. Sério! Caso eu ousasse interceder em favor do bandido, para cessar a pancadaria, seria linchado junto com ele, tal a fúria da massa.

    Clairto, tu com esse papo de defesa de bandido? Não é defesa do bandido. Tem que ser preso, sim. Mas, não somos bestas! E, se a vítima fosse familiar meu? Não sei responder a essa pergunta. Sei, no entanto, que não melhoraremos a sociedade ao nos tornarmos selvagens.

    No caso de Porto Alegre, e outras cidades maiores, a população se defende porque a polícia já não consegue mais fazer isso em prol do cidadão. A polícia está perto de bancos, perto de órgãos de governos... É a ausência do Estado. Aliado à sensação de impunidade no Judiciário, o dito popular “Se prender não dá nada”, então a selvageria é a “justa” punição. Acrescente a estes elementos o extravaso da revolta que está em nós ao percebermos que nada muda nesse país, e, quando muda, é para pior.

    A pergunta que me faço é: por que não levamos esse contexto do “linchamento” a quem realmente produz os danos sociais? Por que não se faz isso com esse bando de “FDP” que está no Parlamento, no Senado, no STF? Por que estão inacessíveis?

    Não estou incitando a violência. Pensem: é óbvio que, se querem segurança em Porto Alegre, os taxistas, os lojistas, os motoristas de ônibus devem fechar as ruas, trancar tudo, fechar o Centro por alguns dias... Então, vamos ver se o Estado sobrevive ao linchamento...

    Porto Alegre está tomada por moradores de rua, principalmente bêbados e drogados. Muuiiiita gente....