• sábado, 30 de abril de 2016 09:13

    O Kieling não é petista

    Com Fenasoja começando eu deveria escrever um artigo sobre a Feira e seus 50 anos, sua importância para a economia regional. No entanto, quero partilhar uma preocupação banal...
    Um conhecido meu, em conversa de bastidores, após ver algumas postagens do Gilberto Kieling no Facebook, tascou o seguinte comentário: “Nunca pensei que ele fosse um PTzão como tem se mostrado”. E a sequência é praticamente esta: não vou mais ler os artigos dele porque vai defender os pontos de vista do PT.
    Aí está um dos nós que se produziu nesse Brasil atual: qualquer pessoa que se manifeste como indivíduo com preocupação social é rotulado de petista. Pensa valores da esquerda, é petista! E por ser petista tem que ser colocado à margem, sem direito à opinião que valha ser ouvida. E, por via de consequência, foi ferido todo o olhar social.
    Eu, por exemplo, se fizer defesa das cotas, sou petista, e como tal, não mereço crédito. Se manifestar apoio ao assistencialismo do Bolsa Família, devo ser banido da imprensa. Enfim, os movimentos produzidos nestes últimos anos demonizaram tudo que é projeto de alcance social, como se estes fossem o câncer do País. Não é o assistencialismo que afundou o Brasil. É a corrupção desse sistema político besta que dá poderes de Deus a demônios.
    A mídia de massa desse país, que sempre exibiu apenas um ângulo das questões, conseguiu produzir um efeito fantástico a partir do Mensalão e da Lava-Jato, conseguiu alinhar o pensamento da classe média-baixa (também pobre) com o pensamento dos mais ricos. Dessa forma, é feio defender qualquer tipo de bolsa, qualquer programa que mude realidades.
    O Kieling, presidente da OAB, advogado, grande escritor, não é petista. É um sujeito que vê além da cortina do seu apartamento. Mora em um bom lugar, tem filhos bem encaminhados na vida, goza de certo poder aquisitivo conquistado com seu trabalho. Poderia fazer coro com todas as vozes que clamam o fim de tudo que é social. No entanto, como indivíduo que pensa, que sofre as dores de séculos de desmandos e inércia, entende que é preciso construir bases de justiça social para um Brasil de futuro.
    Com a Fenasoja em curso eu pensava escrever um artigo sobre os entraves que nos colocam no rodapé do Brasil, que nos fazem crer que é melhor alugar o Rio Grande do Sul aos catarinenses que continuar crescendo feito cola de égua.
    Queria pegar pesado com a Ponte Internacional que nunca sairá, o aeroporto que morre à míngua porque o governo não fará nada e os acessos asfálticos aos municípios da região que seguem na interminável fila de espera...
    Mas, por que escrever um artigo em que os maiores beneficiados serão aqueles que já têm bom poder aquisitivo? Sim, porque ponte internacional, asfaltos e aeroporto interessam, primeiramente, à fatia mais abastada, os mais próximos a usufruírem os dividendos. A resposta é: escrever pelo olhar social.
    O mesmo olhar social que levou meu amigo a rotular o Kieling de PTzão. Melhor infraestrutura é um diferencial para mudar nossa realidade, mudar nossas vidas. Isso é olhar social. Não estão errados os poderosos a querer o melhor para si! Porém, cabe ao governo oferecer algo a mais a quem tem menos.
    Vida longa à Fenasoja! Outros 50 anos tão áureos. O mesmo desejo ao Kieling, este Kilieng!

     

  • sábado, 23 de abril de 2016 09:54

    As tolices mais tolas ou a sabedoria do impedimento

    O impedimento da Dilma foi uma comédia séria, digna de concorrer ao Oscar. Tomei assento no sofá com certeza que veria exatamente o que vi. Não esperava nada diferente, nem mesmo o resultado! Quando um parlamentar se vangloria de estar no 10º mandato consecutivo (no poder desde a ditadura militar), evidencia-se que algo está errado com a política nacional. Então, Cunha conduzir o processo é perfeito!

    É preciso dizer que o PT começou a cavar o cenário atual muito antes de meter-se com as empreiteiras e cometer as pedaladas. Começou ao manter aliança com o PMDB e salvar raposas velhas como Sarney e Calheiros. E, também começou ao provocar antipatia até mesmo em quem lhe era simpático ao abrir discursos com “brasileiros e brasileiras” ou “trabalhadores e trabalhadoras”, como se o plural não incluísse o sexo feminino. Piorou ao mudar a própria língua portuguesa para usar o termo “Presidenta” como se ela precisasse gritar que é mulher. Alguém vê o Obama dizer que é negro? Coisas simples, mas que granjeiam antipatia e se acentuam nas horas em que o desgaste assoma.

    Porém, voltando à sessão do impedimento da Dilma, caso algum cineasta edite as melhores pérolas, terá sim um filme para concorrer ao Oscar.

    Mais cômico que os deputados trabalharem em um domingo foram todos os discursos em nome de Deus e da família (só para lembrar que assim começou 1964)! Os petistas também jogaram à plateia com a retórica “contra o golpe!”.

    Antes das frases, porém, há de destacar-se: a imbecilidade do Bolsonaro ao homenagear um coronel torturador; o cuspe do Jean Willys no Bolsonaro; o paulista que votou com farda da Polícia; as incontáveis acusações ao Cunha; o deputado fazendo o gesto do tiro, repetidas vezes (deveria sair preso dali) e até a deputada do PSD que elogiou o marido, do mesmo partido e prefeito de Montes Claros (Minas), moço foi preso no dia seguinte, pela Polícia Federal. Deve ser inocente!!!

    Pérolas do Dia Inesquecível:

    Atendendo pedido da maioria dos brasileiros.

    50 milhões de votos não autorizam o assalto ao País.

    Sim, porque o Brasil chegou hoje ao Juízo Final.

    Esse povo nas ruas não vem da Venezuela ou da Coreia.

    Pelos médicos tão perseguidos por esse governo.

    Em defesa dos milhões de desempregados.

    Aqui estão corruptos que se põem como arautos da moralidade.

    Um réu no STF conduzindo o processo.

    Eduardo Cunha, você é um gângster, como todos os que estão contigo. Cheira a escroto.

    Voto sim, pelos moradores de rua da minha cidade.

    Renovar as esperanças e propor o novo. (?)

    Nunca vi usar tantas vezes o nome de Deus em vão.

    Sim, pela minha inviolável consciência. (Aí!)

    O ladrão está sentado no banco da presidência desta casa.

    Pela paz em Jerusalém (????).

    Pela república de Curitiba (????).

    O impedimento da Dilma foi uma comédia séria, digna de concorrer ao Oscar. No entanto, o assunto é sério. O Brasil é que não é.

  • sexta-feira, 15 de abril de 2016 14:08

    Semana culta em inculto país

    Sim, fôssemos um País culto não elegeríamos deputados estaduais e federais (e, por que não, vereadores?) pelo poder econômico ou pelo que representaram ao futebol ou na TV. A culpa dessa nhaca toda é do Lula, sim, mas também é do povo que se corrompe na hora da escolha e dá voz a hienas. Ocorre que, nessa bola a girar, a seta volta outra vez aos que detêm o poder, pois eles não pretenderam, jamais, dar acesso cultural ao povo. Pessoas a pensar são perigosas! Basta ver quem são os primeiros caçados (e cassados) quando se instala uma ditadura. Os intelectuais estão na mira, sempre. É simples, eles fazem o povo pensar um pouco além da comida que está no prato.

    Certa feita um professor de matemática me interpelou com a seguinte lógica: o ensino da literatura para nada serve nas escolas, deveria ser banido. Seríamos um País melhor, mais desenvolvido, se as pessoas tivessem condições de pensar a vida financeira adequadamente. Eu, escritor e professor, fiquei pasmo. Assim, como ele, centenas de outros pensam. É a lógica da comida no prato.

    Estamos, como País, devendo cultura ao nosso povo. Não carnaval, festas juninas e rodeios crioulos. Isso pode até ser cultura, popular e regional, mas é pão e circo. Com isso os romanos mantiveram o povo sob controle. A mídia, com apoio do governo, fomenta essa cultura. Ela rende turistas e mascara o essencial. Pão e circo é nivelar por baixo!

    A quem surpreenderam as denúncias do repórter da RBS a flagrar o vereador, empresários e produtores culturais envolvidos nas tramoias da LIC? Só a quem não faz cultura, porque todos os que estão nesse meio são sabedores que os empresários fazem essa exigência em troca do patrocínio (devolução do valor aportado do caixa da empresa). Ou seja, do seu bolso nada sai, apenas do governo.

    O Estado não coloca um centavo em cultura há tempos e piorou no ano passado. E será assim até o final deste governo, porque esperar algo dessa porta é acreditar em mula sem cabeça ou bicho-papão. Tenho dó do secretário de Cultura do Rio Grande. Não! Terei dó dos gaúchos.

    O governo federal cortou o que pôde. Repassou com um ano e tanto de atraso as verbas do Mais Cultura. Assim, em 2016 se investe o que deveria ser o crédito de 2015. É tapear, é mascarar que um ano foi inexistente, enquanto nós aplaudimos a próxima Olimpíada.

    Aqui o Musicanto deve ocorrer, sempre lembrando que ficou na inércia, na UTI, de onde assoma vez ou outra para regressar aos aparelhos logo em seguida. O Centro Cultural está não estando. CEU das Artes é aquela briga. O Fundo de Cultura vem, aos trancos e barrancos. Este ano...

    Porém, por pior que seja o cenário, ainda é o governo municipal quem tem investido em cultura. O Vale Livro é uma mostra, a Feira do Livro, as oficinas culturais mantidas, alguns centavos no prédio da Biblioteca e no Centro Cultural.

    No fundo, no fundo, ninguém quer investir em cultura. Governante algum quer correr o risco de ver o povo pensando. Povo não pode pensar! Sem conhecimento cultural, você vive pela boca dos outros. Vira um papagaio a reproduzir frases feitas. E aí o Brasil mergulha em um mar de lama desses e o Estado afunda, enquanto nós, olhamos o foguete ir pro espaço!

    Tire meia hora, vá à Feira do Livro. Apoie o Nando no Musicanto. Diga ao vereador e ao prefeito que não tolera mais o abandono. Grite! Até que o “meu” professor de matemática entenda que não somos números e que todos somamos nessa grande construção.

  • sábado, 9 de abril de 2016 08:42

    Por qual janela você olha?

    Os tempos estão bicudos, como há muitos não víamos. É o que se diz. E, vasculhando notícias que li nos últimos dias, apenas aquelas que dizem respeito ao nosso micromi-cromundo do santo roseiral, arrisco-me a fazer uma leitura.

    Antes, preciso registrar que, a trabalho, vou quinzenalmente a Boa Vista do Buricá, à tardinha. Invariavelmente, sou caroneiro porque a Dé sempre é a motorista. Fatalmente, os meus olhos sempre se deitarão sobre a paisagem à direita da estrada. Nesta condição de estar livre do volante, posso dar mais atenção a detalhes. Porém, a metade dos meus comentários a Dé não ouve, não assimila, porque está com foco noutro ponto: nas curvas, nos carros, etc.

    Certamente, nesse Brasil completamente dividido, um dos fatores mais determinantes é você saber através de qual janela você vê os fatos. É motorista? Ou é apenas o caroneiro? Fala, fala ou está com mão no volante?

    Depois, com cuidado, releia o Jornal Noroeste de hoje. Faça sua nova leitura.

    Mais de mil vagas fechadas em 2015 no município. Santa Rosa teve índices elevados de mortalidade infantil no ano passado. Teve 28 casos de dengue confirmados nestes últimos meses. Há suspeitas de Gripe A, Zika e ChikunCunha. É pouco?

    Então leia que a AGCO vai dar férias gerais por 45 dias (sem mencionar como isso repercutirá nos fornecedores?). Coisa pouca é bobagem, como se diz nos pampas, aí o Vicini vai acordar hoje com o Ministério Público questionando o tão questionável turno único.

    Mas, Clairto, tu só tens notícias ruins?

    Capaz! Recebi o boletim de empregos da Unijuí e fui rapidamente ver os números de fevereiro último. Ufa! Houve 856 admissões, contra 709 demissões. Saldo de 147 empregos gerados em Santa Rosa no mês em questão. Apenas o comércio cortou postos de trabalho. Que notícia alentadora. Alguém poderá dizer que não há mais quem demitir, mas o fato é que a economia se assentou. Não está melhor porque o Brasil está, há um ano, parado para tirar o PT do poder.

    Algumas edições atrás, o Jornal Noroeste contou que a Camera está retomando seu bom ritmo, estabilizada, exportando óleo e com a planta industrial a pleno vapor. A boa notícia é melhor ainda porque a safra regional de soja está em patamar como poucas vezes se viu, com propriedades colhendo entre 50 e 70 sacas por hectare. Os agricultores estão com a boca nas orelhas. E, na mesma esteira, há garantia de movimentação financeira na economia regional.

    No carro sou aquele que olha pela janela à direita, vê as coisas, comenta, ciente que a Dé não ouvirá 50% do que eu disse. Ela está concentrada, dá atenção ao que lhe é mais importante, naquele instante: dirigir com cuidado para que possamos chegar vivos ao nosso destino.

    Na vida, não sou PT ou anti-PT. Ser caroneiro tem suas vantagens, mas me obriga a olhar sempre pela mesma janela. E hoje, no meu Brasil, tenho medo dos motoristas.