• sábado, 4 de fevereiro de 2017 10:57

    Certo em tudo


    Nós, os modernos e civilizados substituímos os conselhos de anciões por Senado e Parlamento. Deu no que deu! A ganância e a manipulação de poder transformaram os países em cópias da pútrida governança romana, movida a traições e artimanhas para conquistar o máximo de influência e, volta e meia, o trono.
    Lá, como aqui, os parlamentares eram barganhados e temidos. Entretanto, vemos que não são respeitados, porque a essa palavra eu atribuo conceitos como carinho e espelhamento. Eu, pelo menos, respeito apenas aquilo ou aqueles a quem estimo. Posso temer uma pessoa e não respeitá-la...
    Mas voltemos aos conselhos de anciões. Está na hora de criarmos mecanismos de valorização da sabedoria daqueles que passaram pelos caminhos pedregosos e os superaram. Não é o Conselho de Idosos, nem os Clubes de Terceira Idade. Ambos existem e têm suas funções, porém, diferem do que penso que poderíamos propor, a começar por um projeto municipal, uma experiência inovadora e que pudesse ser copiada. Por que não?
    Falava eu com o Dr. Seibel esta semana, entremeio a uma consulta rápida no CFC. Em cinco minutos ele expôs pelo menos quatro opiniões suas, todas, extremamente coerentes. E, por mais que eu divirja em alguns pontos, sei que elas carregam a maturidade, a experiência de quem muito viu e viveu.
    Apenas para ilustrar, vão aí duas observações: A) Ele falou sobre a equivocada política de repressão às drogas, que não deu certo nos EUA e não dará certo em lugar algum. B) Equivocada política escolar que não conduz a lugar algum, sem que o jovem se qualifique, sem que trabalhe, e exposto à sociedade (em geral exposto à parte mais podre dela, que vem das ruas, tráfico e vulgaridade de toda espécie - esse acréscimo entre parênteses é meu).
    Nossos jovens não respeitam os mais velhos porque os “vovôs” não dominam a tecnologia, e por via de consequência, nada sabem. Nossos jovens perderam as referências porque as famílias sequer famílias são ao passo que se tornaram uma megajunção sem poderes de afirmação da autoridade de pais, madrastas e padrastos. Nossos jovens pensam que sabem tudo e tudo podem, até caírem na vala da droga, sexualização ou criminalidade.

  • sexta-feira, 2 de junho de 2017 14:17

    Dia de secar a cuia

    Chove tanto que todas as cuias mofaram. Tenho oito. Ontem, à hora do mate, precisei utilizar o fogo para secar uma cuia, naquela arte que tão bem conhecemos... Cuia úmida dá um chimarrão que não desce “redondo”. Amargo sim, azedo não.

    Pois é! Azedos estão os dias. Chove tanto que carros de pequeno porte nem se aventuram mais pelo interior. Na Linha Cascata somente com S10 ou trator. Engraçado isso, porque fiz o interior de Porto Vera Cruz ontem tranquilamente. Algo me diz que a diferença não está apenas nos milímetros de chuva entre um e outro município.

    Chove tanta informação que nem conseguimos discutir a fundo os temas. A coluna era para ser sobre “os prédios do Vicini”. Eu preciso escrever sobre as ideias aventadas pelo prefeito nos últimos dias, especialmente duas: vender o espaço onde está o Ginásio Moroni e vender/permutar/trocar os terrenos onde está assentada a Vila Militar.

    Mas escrever sobre isso é como fazer mate em cuia mofada. Vai azedar o mate. Alguns dirão que demolir o Moroni e a Vila Militar tornará a cidade mais moderna e prática. Outros lamentarão que a cidade ficará sem parte significativa de sua história. Ambas as correntes têm razão. Então, a pergunta que se deve fazer é: o que é mais relevante? Passado ou futuro? História ou economia?

    Escrevo desapegado, como já disse outra vez. Já lutei demais por questões que julgava importantes, como o Parcão, o Tape Porã e o Centro Cultural. Lutamos quando éramos exército de meia dúzia. Tombamos dizimados pelas contas a pagar e as carreiras para salvar. Cansamos. Já deixamos o legado aos nossos filhos.

    Não luto mais. É isso. Se o Vicini quiser derrubar o Moroni e vender o espaço, que venda! Se ele quiser remover a Vila Militar, que remova! Os filhos e netos dele se verão diante do quadro no futuro e farão a leitura e colherão os frutos dessa negociação. Só o tempo dirá se foi acerto ou erro. E nisso sei que a minha filha olhará o Parcão, o Tape Porã e o Centro Cultural e pensará que o pai tinha uma visão bacana dos fatos.

    O que tem isso a ver com as cuias mofadas?

    Eu não luto mais essas batalhas. Sou cuia mofada. Não posso falar pelos outros, mas percebo que sempre os mesmos estiveram na linha de frente, gente que hoje cansou de apanhar. Gente que decidiu cuidar da própria vida. As questões maiores da cidade até vão entrar na roda de mate, como entraram, mas tombarão ali, no ronco da bomba.

    Que surjam novos líderes! Compremos cuias novas. Ou, então, concordemos com tudo e aceitemos o mate amargo e azedado que nos ofertam.

  • sexta-feira, 27 de janeiro de 2017 16:45

    Ser de direita ou esquerda

     

    Há três anos, quando iniciamos os debates na Rádio Noroeste, o Beto Kieling disse que a retórica de esquerda e direita estava ultrapassada, nem existia mais.

    Talvez, apenas talvez, estejamos vivendo um período sem esquerda e direita no contexto político. Talvez eu concorde com o Beto, desde que ele concorde comigo que estamos na era da ultra. E essa é bem pior.

    A ultraesquerda e a ultradireita... Uma produziu o Chaves, outra o Trump e todos os seus adeptos (e nunca é demais lembrar de Hitler, Mussolini, Franco, todos eram de ultradireita). Qual é pior? A moeda é a mesma. O comunismo produziu os massacres daqueles que eram vozes discordantes; já o capitalismo produziu o Vietnã e todas as guerras petrolíferas atuais no Oriente.

    Esses discursos ultra, da direita e da esquerda, sempre se sustentam no populismo exagerado, nos valores da Pátria, no nacionalismo e na riqueza ou divisão igualitária dela. Não faltam adeptos aos dois blocos. No entanto, o que se percebe a falta de diálogo entre eles. A partir desse contexto, qualquer palito de fósforo causa o maior incêndio.

    O modelo alinhado à ultraesquerda não deu certo na América Latina de Chaves e Morales, da mesma forma como fracassaram os governos de ultradireita que vestiam fardas no Brasil, Argentina, Paraguai, etc. Ambos produziram péssimos exemplos sociais, culturais e humanitários.

    Além da falta de diálogo entre os blocos ultra, o que preocupa mesmo é a disseminação do “meu”. Enquanto sociólogos e filósofos tentam explicar em que momento a era líquida supervalorizou o “eu” das selfies e trivialidades, eu, mero leitor de jornais, tento compreender em que época deixamos de ser sociedade para nos tornarmos indivíduos desconectados dela.

    É a era do Meu. Meu trabalho (fora imigrantes!), meu dinheiro (fora miseráveis!), minha carreira (fora às cotas!), meu país (fora refugiados!)... Não faço defesa do socialismo, até porque ele não deu certo como experiência de governo, afinal temos ambições e sonhos diferentes e eles ditam nosso modo de viver! Faço aqui uma defesa do aspecto humanitário da vida.

    É verdade que o modelo capitalista tecnológico consumista nos proporciona produzir alimentos para saciar a fome de 9 bilhões de habitantes (somos apenas 7,5 bilhões no planeta). Curiosamente a ONU afirma que 1 bilhão de pessoas passa fome. Isso porque o alimento é meu, mesmo que eu o jogue no lixo ou use para alimentar cães.

    Sinceramente, não sei se um dia o homem chegará ao estágio de compreender que o grande mandamento é amar ao próximo. Acho que não! Porque para chegar a isso teria de abrir mão do eu e do meu. Esses dois pronomes crucificam qualquer possibilidade de evolução.

    É, Sávio, ainda “somos os mesmos e vivemos como nossos pais”.

     

  • sábado, 24 de dezembro de 2016 09:33

    A mão que me acena

    É dia para um texto mais sóbrio, menos dolorido e capaz de abrandar a dureza deste ano que, felizmente, já acena adeus!

    A mão que me acena desde a infância e que tanto me fez falta na urbanidade é a mão do colono; do agricultor humilde em seu modo de viver, mesmo quando é homem de grandes posses. Esse vivente do campo, pelo menos em nossa microrregião com descendência de imigrantes, tem o respeito como um dos pilares da sua formação social e cultural.

    Essa gente do campo acena “bom dia” sempre que passa. É regra de conduta no interior esse breve aceno de mão, um cumprimento singelo e respeitoso. Se passar de carro ou mesmo a pé por um vizinho do interior e não levantar a mão, de certa forma, está negando o “bom dia ou boa tarde”, e isso é um modo de ofendê-lo. Esse breve aceno é uma frase sem palavras, mas de muitas traduções. É um “bom dia”, ou “tudo bem?” ou “eu respeito você, meu vizinho”.

    Quando me negam o aceno ao passar em nosso trajeto de vir à cidade, sei que aquele indivíduo é da cidade. Se não me retribui o gesto de “bom dia” é desconhecedor do afeto que o gesto traz. No interior o breve aceno é para o estranho, para quem nunca vimos, mesmo que ele nos sufoque na poeira do seu carro. No interior o avanço do tempo ainda não tem relógios digitais, mesmo que desfrutemos de toda a tecnologia.

    Falta disso quando estou em Santa Rosa ou noutras cidades maiores. Falta o bom dia cheio de afeto e respeito para nos lembrar que somos humanos. Creio que em Tuparendi e Mauá esse “Buenos dias” ainda está presente, porque os relógios não seguem a mesma velocidade em cidades menores. E por isso o afeto ainda é mais puro, mais cotidiano.

    Na cidade, nos idos tempos, ainda aprendi a pronunciar “bom dia” para gente que via apenas de cruzada, mas com o passar dos anos a nossa pressa transformou o termo apenas em “ôa”, no modo rápido de abreviar o “boa tarde” ou “boa noite”. E abreviamos tudo, a começar pelo nosso tempo. É tudo para ontem, tudo pressa, tudo avião... quase sempre sem se dar conta que a vida passa a jato.

    E você, quando vai tirar um tempo para pensar nisso, pensar em se aproximar do outro? Quando tirará tempo para abraçar, para amar, para curtir o próximo?

    O Natal é apenas um dia e dura apenas um dia. O sentimento, esse pode enraizar e ficar. Tenha tempo para acenar...