• sábado, 27 de fevereiro de 2016 11:41

    Os ETs de São Leopoldo

    Domingo de manhã é um bom dia para ler jornais. Acordamos renovados, cabeças mais leves e podemos degustar as notícias, ler as entrelinhas.
    Aí você abre o jornal Correio do Povo (online) no domingo de manhã e se depara com uma notícia mais ou menos assim: “moradores de São Leopoldo viram luzes estranhas no céu e ouviram sons enigmáticos ao amanhecer... Uma senhora disse que a grama do jardim está toda amassada”. Opa! Meia hora depois a notícia mais lida daquele dia havia desaparecido da capa, tão rapidamente como a nave. Que mistério!
    Entre um mate e outro, alcanço a mão ao lado, pego o Noroeste para ler a coluna do Beto Kieling (que não leio antes de impressa) e o tal do Bem-te-vi. Paro antes de chegar nessa página. Tenho de reler a notícia em que o deputado Jerônimo Goergen fala sobre a ponte internacional que não vai sair do papel, mais uma vez. Eu li sobre a inviabilidade devido o baixo fluxo de veículos. Eu não li, mas li, que estudos técnicos atestam que não há vontade política dos governos para que se concretize.
    Sábado, com Conselho de Trânsito, Secretaria de Mobilidade e Brigada promovemos um bom debate sobre os problemas em nossas estradas urbanas. Estamos, finalmente, evoluindo, segundo os dados apresentados pelo Capitão Anderson Foliatti. Boa notícia. Penso nisso enquanto saio da leitura do Kieling e acesso sites regionais, a essa hora com suas páginas invadidas pelo sangue das tragédias de pelo menos três mortes em poucas horas. Ainda teríamos mais três mortes no começo da semana. E aí o mate azeda, a saliva trava. A gente não lê, mas lê no vazio, que é álcool ou velocidade. Ou os dois juntos.
    Não foi no domingo, mas foi durante a semana, que uma criança de quatro meses foi arremessada pela janela do carro pelo padrasto. Isso ocorreu em outro planeta, claro. Sim, no planeta de Novo Hamburgo. Pior que isso, quando a multidão quis surrar o cara, a mãe pegou a criança e, diante de uma multidão estupefata, também atirou o filho no chão como a dizer “concordo com o meu macho”.
    Minha filha chorou no dia em que eu disse a ela: “teu pai vai ficar careca quando velho”! Não há como não ficar careca com tantas manchetes sobre Lula, FHC, Samarco e Petrobrás, tanta lama pingando em cada página que se lê. Lama e ódio. Na verdade, estamos carecas de saber quais são os trâmites e esperas, os tempos que ficaremos na fila até vermos os investimentos se tornarem realidade outra vez. A ponte é um estudo eterno. Como são eternas nossas esperanças no País do Futuro.
    ETs em São Leopoldo? Vai saber! Mas se chegaram à região e pousaram foi para beber água na torneira. Ou foi engano de endereço. Pelo visto, até mesmo eles já perderam o interesse por manter contato com nossa inteligência. ETs somos nós. Estranhos Terráqueos.

  • sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016 11:41

    Mais ciência, menos saúde

    As profecias asseveram que a ciência se multiplicaria e o amor esfriaria. Bem, chegamos a esse estágio. Sabemos mais, conhecemos mais, mas vivemos com medo da próxima peste. Ainda temos na memória o pânico mundial que se instalou quando surgiram casos da “gripe suína”. Eu lembro todas as cores daqueles filas que serpenteavam ruas ao redor do Centro Cívico, santa-rosenses apavorados diante do quadro tenebroso que se delineava. Logo, logo, será assim com o Zika Vírus se a coisa continuar no ritmo de descobertas científicas e alardes mundiais.

    Avançamos anos-luz. Mais ciência para diagnosticar antecipadamente as doenças e combatê-las ainda em seu estágio inicial. Isso é bom. É maravilhoso, eu diria. Ocorre que os cientistas usam as mesmas descobertas para trabalhar contra a vida. De que nos adianta buscarmos melhores resultados para combater o câncer se, ao mesmo tempo, estamos modificando os alimentos e animais, injetando corpos estranhos neles? Ou então, usamos para produzirmos novos e mais potentes agrotóxicos que chegam a nossa mesa em todos os alimentos que ingerimos. Mais ciência, mais casos de câncer a cada dia.

    O que rege a sociedade não é a ciência. É outra palavra bem parecida em sonoridade: ganância. Santos Dumont inventou o avião pensando no futuro da humanidade, nos progressos que o homem poderia fazer com esse aeroplanador. Uma década depois, estava deprimido, decepcionado ao extremo, ao perceber que sua invenção era usada nos campos de batalhas da Primeira Guerra Mundial para lançar bombas e dilacerar vidas.

    A ciência fez progressos imensos em poucas décadas, a ponto de os estudiosos aplicarem milhões de dólares em pesquisas sobre possibilidades de plantio no solo desértico de Marte. Que maravilha! Enquanto isso milhares de crianças morrem de fome todos os dias em países africanos, na Índia, na Síria. A ciência ainda não conseguiu produzir uma pílula que estimule o cérebro a amar o próximo.

    Eu tenho cá minhas dúvidas se o Zika Vírus não foi alterado em laboratório, mesmo que involuntariamente, a partir de alguma mutação genética. Os cientistas já mexeram no mosquito e vendem milhões de insetos “geneticamente modificados” para combater a dengue. E aí? Dá para confiar cegamente? Afinal, a pergunta que me faço com mais frequência é: o que não sabemos ainda? Sim, porque a cada dia lança-se nova informação negativa, a ponto de o Exército entrar na luta contra o pernilongo.

    Eu até gostaria de ver os militares na rua sim, mas para combater o tráfico e o crime que se alastra a ponto de transformar o Brasil em um dos países mais violentos do Mundo. Viva!!!! A nossa querida POA já está entre as 50 cidades mais violentas do planeta!!! E enquanto isso, enquanto a imprensa e o povo se preocupam com casos de Zika, um bando de indivíduos “microcefálicos” dá as cartas no tablado do poder em Brasília.

    Ah, sim, o amor esfriaria. Um filósofo europeu escreveu recentemente que a sociedade atual é a do amor líquido. Ele está errado. O amor nos dias atuais é gasoso, evapora no menor sinal de calor.

    Não sei se precisamos que a ciência se multiplique. Os cientistas dizem que a Fé exterminou milhões de pessoas ao longo dos séculos. Chegamos ao inverso, pois hoje é o mau uso da ciência que faz isso. Insisto: deveriam gastar tempo pesquisando uma pílula que estimule o amor ao próximo.

  • sábado, 6 de fevereiro de 2016 09:47

    A violência e o Estado

    A coluna ainda poderia ser sobre o Estado mínimo, porque, como creio, em algumas áreas tem que ser o Estado máximo. É o caso da segurança pública. Precisamos de policiais em todas as esquinas, bem capacitados e ganhando bons salários. E (embora isso jamais vá constar em lei) deveria prever punição triplamente severa ao policial envolvido com crime.

    Não gosto de escrever sobre a violência, até mesmo porque parece que nos atolamos tanto nela quanto na lama da barragem da Samarco. Porém, há horas em que não podemos ignorar os fatos como se não fizessem parte de nosso cotidiano.

    Na semana passada, acompanhando os noticiários de Porto Alegre, não fiquei estarrecido com os números. Sei que a emissora de TV está fazendo uma campanha enorme, difamatória até, e isso tem a ver não com o aumento da violência (que é real), mas tem a ver com a queda de receita da empresa porque os clientes públicos resolveram não mais destinar fortunas a ela. Mas é verdade, a violência campeia solta.

    Mas o que me assustou foi outra coisa...

    Em uma matéria de jornal, dessas de entrelinhas, noticiaram a execução de um traficante. Vingança. Retaliação porque a facção rival havia assassinado um jovem, decapitado, e deixado o corpo em uma vila e cabeça em outra área da cidade. Um belo recado sobre quem manda. Leu algo sobre isso? Foi em Porto Alegre, gente!

    As decapitações viraram moda. Quarta-feira ocorreu uma em Santa Catarina, quase da mesma forma. Três jovens, não satisfeitos em decapitar outro adolescente com 30 suaves machadadas, resolveram filmar tudo e largar o vídeo nas redes sociais. Onde estamos?

    Por que ninguém se horroriza a ponto de exigir mudança? Porque não é na Síria e o inimigo não está com a roupa do Estado Islâmico? Aposto meu salário que se fosse um gato ou um cachorro degolado desta forma nós teríamos passeatas, marchas noturnas, pressão por mudanças na Constituição.

    Há muito estamos prisioneiros atrás das grades altas que rodeiam nossas casas. Há muito sabemos que nossas prisões estão superlotadas e não recuperam ninguém. Mas o pior não é isso! Pior é que sabemos que no Brasil bandido não tem medo de prisão. E até por isso virou moda matar policiais. Atirar em um brigadiano não é mais “pena de morte”.

    Eles não têm medo da prisão. Por isso, em nossa guerra, degolar é permitido. A diferença é que os mortos não usam uniformes alaranjados, não serão manchetes internacionais porque não temos petróleo enterrado sob as nossas ruas.

    A toda hora vemos notícias que, em um primeiro momento, não impactam em nossas vidas, passam despercebidas, como: Bombeiros têm apenas a metade do efetivo necessário e faltam soldados no quadro da Brigada Militar. Talvez quando as degolas forem tantas que faltem manchetes, talvez daí nos daremos conta que a Síria é aqui!

    Se bandido não tem amor à vida então que o Estado tenha amor pelas nossas vidas!

  • sexta-feira, 29 de janeiro de 2016 11:42

    O Estado que queremos

    Há algo errado com a sociedade quando uma pessoa que tem bom poder aquisitivo, vida bem encaminhada, vai ao posto de distribuição de medicamentos para requisitar a gratuidade em um remédio que custa R$ 50,00. Alguém dirá que está certo o cidadão, afinal, é (ou foi) pagador de impostos e está a usufruir de sua parcela. Já eu questiono: ele realmente precisa se valer desse artifício? Outra pessoa não ficará sem?

    O remédio é apenas um exemplo. Ocorre o mesmo em outras áreas. Somos todos brasileiros, queremos o mel que produz a pátria-mãe. Ocorre que não há Estado, ou melhor, caixa no cofre do Estado, para todos. Nem para tudo. A hora é outra, é de nos perguntarmos que Estado queremos ou, talvez, em que áreas é essencial que contemos com seu amparo?

    Os juízes estão enlouquecendo de tantos processos que dão entrada todos os dias em nossos fóruns. Queremos tudo do Estado, da Prefeitura, da União. A vaga na creche, o medicamento, a fralda geriátrica, o conserto do carro que quebrou no buraco. E batemos nas portas da Justiça. É isso, há alguns anos, mais ainda depois da Constituição de 1988, passamos ao mágico pensamento que o Estado é responsável por resolver todos os nossos problemas.

    E aí ferrou tudo! É bem verdade que no Brasil, os governos (União, Estado e Município) pouco fizeram no aspecto social para o cidadão até bem poucas décadas. Era cada um por si, no salve-se quem puder, e alguns, claro, por suas tetas. Cabia à Pátria atuar no fomento, na execução de obras de envergadura, na promoção do desenvolvimento. Mas, direto ao povo, pouco se fazia.

    No entanto, o estágio atual também não é promissor. Esperamos tudo do Estado. Facilita vamos exigir o ar que respiramos enlatado com o selo “Made in governo brasileiro”. Passamos da fase de ensinar a pescar para o contexto de dar os peixes na mesa, algumas vezes em demasia. Em algum momento o açude estará vazio. Já está, na verdade, em vários segmentos.

    No caso do Rio Grande, a saúde, a educação e a segurança estão moribundas. Alguns setores nem existem, como a Cultura. O entendimento é simples: não há Estado possível para todos. Talvez devêssemos mudar nossos discursos sociais e exigir menos para ganhar mais. Exigir menos em áreas de menor expressão e pretender ganhar mais na saúde, segurança de verdade e educação. Sem isso não há vida.

    Precisamos discutir com urgência o tema. O ente público não é obrigado a nos dar tudo. E pensamos que é. E é por isso que o Brasil não anda, porque as pessoas esperam demais do governo, sugam demais do governo, não aceitam pensar em um Estado mais enxuto, mais prático, voltado a atender o que realmente deveria atender. Social, sim, mas fundamental para todos.

    Por isso Santa Catarina está andando em outra linha e por isso a Venezuela quebrou. Não dá para o Estado ser pai e mãe do cidadão. Se for, logo o cidadão estará duplamente órfão.