• segunda-feira, 10 de outubro de 2016 07:57

    Algumas leituras pós-eleição

    Teoricamente, um processo eleitoral mais curto, com menor exposição permitida e menor fluxo de grana em circulação (se bem que!), favorece quem está no poder.

    Tanto é que o Gilberto Kieling apostava em renovação quase zero na Câmara de Vereadores. Enganou-se. Eu também. Embora tenha comemorado, em parte, essa postura da sociedade, que não ocorreu apenas em Santa Rosa, ocorreu na maioria das cidades do País. Bem que agora poderíamos discutir seriamente o fim das sucessivas reeleições.

    Mas o fato é que quem está no poder pode trabalhar quatro anos e concorrer valendo-se dessa imagem que construiu. Pegue o exemplo local: Timirinho, Aldair e Rodrigo Burkle vêm de atuações em áreas de governo. Ganham espaço e força. Quem não está nessa condição e quiser disputar assento na Câmara em 2020 deve ter isso claro, agora, como projeto de vida, e lançar desde já suas bases e seus apoios. Ou chegará às urnas sem chance. Até porque está provado que só o trabalho comunitário não rende votos para se eleger vereador.

    Não é possível em uma coluna fazer todos os apontamentos colhidos nesse pleito. Mas, não surpreende a ninguém a guinada conservadora no País. São dois anos de propaganda sistemática contra o PT em todos os veículos de comunicação, como se os demais partidos não tivessem corruptos, tipo o Ministro empossado esta semana pelo Temer, que é réu no STF.

    A gente ouve de tudo nas esquinas. E, por mais que diga que perdeu para o poder econômico e para as forças ocultas, Orlando perdeu também para o PT. Sim, porque basta olhar para os eleitos do PT na Câmara de Santa Rosa e para os números nacionais. O partido, após os resultados das urnas, sabe que tem um tempo curto para reagir, porque na UTI já está.

    Outra questão é entender que a sociedade está cansada de tantas “guerras”. E Vicini nunca foi de entrar nelas. Além disso, pesa a favor do prefeito, sem tirar seus méritos, a capacidade de aglutinar em seu entorno potenciais catalizadores de votos como Miro, Timirinho e Lires. Isso faz muiiiiiiita diferença.

    No entanto, o PP também precisa fazer suas leituras desse pleito, entender ganhou com ressalvas, entender que apenas concluir obras iniciadas na gestão anterior e melhorar a mobilidade urbana não basta. As vilas deram um recado claro, um recado tipo: “queremos atenção”. O centro é elitista, é óbvio que votaria em Vicini... Nos bairros populares, aonde o PP sempre ia bem, em geral foi mal, do qual se extrai leitura simples: deixou a desejar.

    Reflexão minha...

    Gostaria que o Vicini tivesse a ousadia de não chamar vereadores eleitos para ocupar cargos em secretarias, afinal, eles foram eleitos vereadores... Receberam votos para a Câmara, de modo que é lá que as pessoas os querem. Se quiser, chame suplentes então. O povo quer uma nova política.

    PS: não coube escrever sobre as (não) pesquisas, a suposta “minoria” de Vicini na Câmara, o enfraquecimento do PDT, a baixa no PTB, retomada do PMDB, novos nomes no Legislativo...

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  • sábado, 24 de setembro de 2016 11:21

    Eu conheço meus animais

    Sei quando é choro, sei quando é dengo, sei quando é medo, sei quando é brabeza... Eles se denunciam

    Cavalo correndo no campo é susto! Ou hora do lanche no final de tarde. Gato miando na porta pede para sair (ou fará pipi na quina do sofá). Cachorro subido na casinhola enquanto estou na cozinha é espião à espera de alguma sobra dos pratos. É olhar com cuidado, reparar um pouco, que a leitura correta se torna fácil.

    Nessas horas, do processo de impeachment, das folhas salariais parceladas, de parlamentares em movimento para barrar a Lava-Jato ou fazer votações nas surdinas da madrugada é que conhecemos, verdadeiramente, nossos políticos. É preciso que aprendamos a conhecê-los não pelo que falam, mas que externam em gestos e atos. Ali se mostram tais quais são.

    Trazendo ao âmbito da eleição municipal, é na hora de perder o espaço ou manter-lo a qualquer custo, na hora de colocar em risco o assento eterno, aí eles se mostram verdadeiros... Sim, porque se você for um bom leitor de fatos e ditos, saberá que fulano está mentindo, portanto, é um mentiroso. Avivando a mente você também consegue saber por que tais atos executados ao longo dos anos tinham tal intenção...

    TRECHO de um email de leitor, professor universitário: “Ninguém apresenta algo consistente em relação à questão pública que nos interessa, já que somos nós que geramos riqueza e que sustentamos o sistema público e que cada vez mais consome nossa energia e não nos satisfaz mais. Tenho muito falado e mostrado aos que me cercam e aos meus alunos durante o tempo que lecionei que devemos entender que o Estado nada cria, só custa, embora seja necessário na nossa estrutura social, e isto posto deve ter uma dimensão correspondente e sem mordomias, excelências e outros penduricalhos”. E segue: “Penso, por que não começamos a mudança no nosso quintal? Ou seja em Santa Rosa. Por exemplo, salário dos vereadores, que tal salário mínimo? Mordomias do prefeito e secretários, quantidade de cargos CCs, e por aí vai. Não esperemos por começar em Chapecó, se me entendes”. O professor fala em público servir ao público e não servir-se do público.

    Eleições são sempre boa oportunidade para lermos as entrelinhas, olharmos com detalhes alguns programas de TV, lembrar as trajetórias - especialmente aquelas que nenhum deles exibe nas aparições, fazermos leituras sem paixões para que não sejamos enganados com a pirotecnia. Se olharmos com cuidado, repararmos um pouco, a leitura correta então se torna fácil.

    Sinceramente, não decidi nenhum de meus votos ainda. Usarei a próxima semana para refletir acerca dos feitos e ditos.

    Ah, sim, os animais de estimação fazem muito barulho e sujeira, mas é com eles que convivemos boa parte do tempo. Sei que você tem um animal de estimação, observe-o cuidadosamente. Observe...

  • sábado, 17 de setembro de 2016 09:54

    Eleições sem sal

    Eleições sem sal, nem açúcar também, claro. É como se nem estivéssemos em época de escolha dos vereadores e prefeitos.
    Sinceramente, esperava que as novas regras políticas trouxessem alguma mudança drástica no comportamento dos candidatos. Mas, não havia imaginado que o impacto seria tão expressivo no eleitor. Há um ostracismo, um silêncio, uma apatia incômoda no ar. Incômoda sim, porque não discutir política faz um mal danado.
    Nas cidades menores, o contágio se dá pelo ar. São poucos quarteirões, são poucas comunidades, 2 mil eleitores ou alguns mais, e aí, de alguma forma, todos acabam sendo atraídos à discussão política, para um lado ou outro. Estive em Tuparendi final de semana, lá há clima, há movimentações de ambos os lados. Há um burburinho. Em Santa Rosa, quase nada. É como garoa sobre um lago.
    Em cidades médias ou grandes as mudanças na legislação se fizeram sentir de fato. Maiores distâncias, maiores vazios. E isso se aplica ao eleitor também. Com opções de TV a cabo, internet, Netflix, etc e tal, a campanha pela TV aberta e pelos rádios não entra nas casas. Perdemos até o folclórico risonho de certos candidatos.
    Alguém dirá que há uma invasão no Facebook, até com algumas propostas e, em geral, sem baixarias... Mas isso também é ruim, principalmente para a empresa que detém o domínio sobre a rede social, porque os usuários a abandonaram. O Face é uma lavoura improdutiva há semanas, onde agricultores urbanos esperam a próxima boa chuva para plantar.
    A campanha sentiu essa ausência de publicidades em avenidas, em locais de grande tráfego, ausência de comícios ou de artistas que atraiam multidões, sentiu o abandono dos cidadãos. A campanha não saiu às ruas, não chegou às pessoas mesmo com todo o esforço de alguns marqueteiros.
    A população leiga está feliz da vida com estas eleições. A “nhaca” proporcionada pelo nosso Congresso, Senado e governantes, especialmente federais, afastou de vez o interesse dos eleitores. Se é verdade que ninguém mais tinha paciência para o sistema anterior, longo e apelativo, também é verdade que logo sentirão falta de algo mais temperado.
    As eleições deste ano estão restritas aos grupos que estão engajados nas campanhas, em qualquer frente que estejam, por suas relações de parentesco, interesses pessoais ou atuação como dirigentes partidários. E isso é ruim. Não discutir política, não entrar na mobilização só interessa aos ruins, aos que fazem as coisas nos bastidores, porque para estes, quanto maior o silêncio, melhor. E com isso, perde a cidade. Ficar como está traz um grande desserviço: o completo desinteresse por discussões do âmbito político.
    Temos duas semanas para ver se chove, porque essa garoa dá um tom de inverno que deixa o eleitor com vontade de ficar em casa...

  • sábado, 10 de setembro de 2016 10:20

    Sobre o caos, o desarmamento e outras

    Fiasco para o orgulho gaúcho sermos, enquanto Estado, obrigados a acionar a Força Nacional para ajudar a combater a violência extrema que assola as grandes cidades.
    Fiasco sim. Porque isso demonstra a falência do sistema político, do modelo prisional (e do judiciário), e também da sociedade que construímos ao longo das últimas décadas, fundamentada no extremo do capitalismo, em que todos devem ser mão-de-obra barata e a família completamente alijada de tudo. Sem família, sem educação e com TV que estimula a deturpação completa de valores, chegamos a esse poço.
    Poço sim. Porém, profundo e entulhado de lixo, do qual já não se extrai mais água cristalina há muitos anos. Certamente os juristas, os agentes políticos e os sociólogos têm opiniões diversas à mi-nha, no entanto, enquanto jornalista e ativista cultural, estou farto de números, quadros, gráficos e informações que não produzem resultados. Nós não mais queremos explicações. Queremos práticas.
    O atual governador se mostrou ainda mais incompetente que os anteriores para resolver nossos problemas de segurança. Deixou degringolar completamente para chamar a Força Nacional. É pose para foto! É propaganda! Porque a leitura que a maioria dos gaúchos fará é de que, “enfim, ele fez algo”. Fez nada. Cansamos de “não termos dinheiro para nada”. Chega!
    Há muito quero escrever a respeito do desarmamento. Votei favorável, hoje não votaria... Não enquanto o governo não conseguir assegurar a segurança que eu, minha família, minha empresa, minha casa, etc, precisamos. Desarmar o cidadão, mas deixar o bandido se armar até os dentes é convidar a um massacre. E é isso que ocorre agora.
    Sabemos que o modelo americano, de armar todos os cidadãos que desejarem, também não funciona, igualmente produz constantes massacres. O que está errado é a sociedade, estimulada pela indústria do cinema a ganhar tudo na força, a supervalorizar a guerra com grandes aportes da indústria que mais rende no mundo: a bélica. Bandido é bandido, e ponto!
    É preciso defender a polícia enquanto instituição, porque sem ela é o caos. É preciso armá-la adequadamente, pagar salários decentes e ter efetivo em quantidade para suprir as necessidades. Mas, claro, também é preciso coerência da BM para aceitar novas regras, mudar o sistema que coloca um policial na aposentadoria aos 45 anos. O Estado não suporta mais esse modelo.
    Não é defendendo a pena de morte que resolveremos nosso problema, do contrário os EUA teriam resolvido... idem à abertura a qualquer pessoa de se armar até os dentes... idem ao modelo atual de combate às drogas... idem ao sistema prisional nojento que temos...
    Então, qual a saída?
    Aplicações de penas duras aos menores infratores, presídios realmente seguros (sem acesso a internet, telefone e mordomias), celas individuais (mesmo que pequenas, porém humanas), exército forte e engajado constantemente (não apenas na operação Ágata), efetivo policial qualificado, bem pago e em número suficiente para combater o crime, penas severas aos policiais envolvidos em delitos (três ou quatro vezes maior que ao cidadão comum)... e por aí vai a lista... E essa lista não inclui a volta do regime militar.
    Chega! Nós queremos viver em paz!