• segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017 07:22

    Vender ou não bebida no Tape

    Querida vereadora Sônia Conti, compreendo a tua preocupação com o Tape Porã e creia que compartilho dela...
    Sei que estás preocupada com o lixo que encontramos no belo espaço a cada amanhecer, especialmente nos finais de semana; sei que estás indignada com os atos de vandalismo que já em mais de uma oportunidade danificaram o patrimônio público; e imagino que a preocupação em manter o local como área de convívio social e familiar deve estar nesta mesma lista de prioridades...
    Mas, sinceramente, de pouca valia terá proibir os quiosques de vender bebidas alcoólicas no Tape Porã se uma audiência pública assim o decidir. Sentado em um banco no Tape cruzo o olhar e vejo mercados, vejo casa noturna, vejo bares, todos com vendas de bebidas nas ruas próximas ou no simples cruzar a faixa de carros. Em tese, a proibição funcionará apenas para que possamos ter um bar familiar, onde eu possa chegar para comprar água mineral sem ser importunado por algum ébrio.
    Hoje não há quiosques no Parcão e no Tape Porã. E o que temos? Jogados na grama e nas calçadas centenas de garrafas, copos plásticos, latinhas e mijo a tal proporção que envergonha qualquer chiqueiro que eu conheça, até porque os criadores de porcos têm muito cuidado com a limpeza. Sem os quiosques eles compram nas imediações, eles trarão em caixas térmicas, buscarão nos 24 horas, tal qual já o fazem.
    Alguém dirá, Sônia e leitores, que pelo menos no espaço público esta venda não estará ocorrendo e que os menores de idade estarão protegidos. Há leis que vedam o comércio de álcool a menores, todavia, sabemos que poucos a levam a sério, como quase tudo neste “Brasil de meu Deus!!!!!!”.
    Proibir o comércio de bebidas alcoólicas também não resolverá o problema do lixo que temos hoje, porque não é possível, ainda, fazer o transplante de cérebro nos usuários, aqueles que se fazem presentes nas madrugadas. Como já registrei em outra coluna, contei dezenas de bitucas de cigarro em apenas um metro quadrado.
    O vandalismo tem a mesma lógica, porque os bebuns não deixarão de beber, não deixarão de vir, estabelecer seus pequenos territórios divididos em tribos e deixar rolar, volta e meia, uma pequena confusão para testar os músculos ou quebrar alguns objetos para exibir sua masculinidade. Sim, porque são homens (arremedos de homens) que fazem isso.
    Esse demagogo que é ministro da Justiça, esse que quer assumir o STF agora contrariando sua própria tese de doutorado em que sugere que as nomeações não devem ser políticas nem de indicação dos mandatários no poder, ele disse que erradicaria a maconha e o tráfico... Demagogia. Por que não há um programa que vá contra a fabricação de bebidas, tão danosas quanto?
    Os quiosques não são invenção nova, pois eles estavam nas primeiras discussões da Cidade Interativa, dado que bares são espaços de lazer - na teoria. Devem estar no Tape, sim, como deve estar a Brigada, alguns guardas da Prefeitura e muitas lixeiras. É o olho e a intimidação que mantêm a ordem, infelizmente, infelizmente...
    Ah, mas se me perguntarem, Sônia, sou favorável aos quiosques e contra a venda de álcool.

     

  • sábado, 4 de fevereiro de 2017 10:57

    Certo em tudo


    Nós, os modernos e civilizados substituímos os conselhos de anciões por Senado e Parlamento. Deu no que deu! A ganância e a manipulação de poder transformaram os países em cópias da pútrida governança romana, movida a traições e artimanhas para conquistar o máximo de influência e, volta e meia, o trono.
    Lá, como aqui, os parlamentares eram barganhados e temidos. Entretanto, vemos que não são respeitados, porque a essa palavra eu atribuo conceitos como carinho e espelhamento. Eu, pelo menos, respeito apenas aquilo ou aqueles a quem estimo. Posso temer uma pessoa e não respeitá-la...
    Mas voltemos aos conselhos de anciões. Está na hora de criarmos mecanismos de valorização da sabedoria daqueles que passaram pelos caminhos pedregosos e os superaram. Não é o Conselho de Idosos, nem os Clubes de Terceira Idade. Ambos existem e têm suas funções, porém, diferem do que penso que poderíamos propor, a começar por um projeto municipal, uma experiência inovadora e que pudesse ser copiada. Por que não?
    Falava eu com o Dr. Seibel esta semana, entremeio a uma consulta rápida no CFC. Em cinco minutos ele expôs pelo menos quatro opiniões suas, todas, extremamente coerentes. E, por mais que eu divirja em alguns pontos, sei que elas carregam a maturidade, a experiência de quem muito viu e viveu.
    Apenas para ilustrar, vão aí duas observações: A) Ele falou sobre a equivocada política de repressão às drogas, que não deu certo nos EUA e não dará certo em lugar algum. B) Equivocada política escolar que não conduz a lugar algum, sem que o jovem se qualifique, sem que trabalhe, e exposto à sociedade (em geral exposto à parte mais podre dela, que vem das ruas, tráfico e vulgaridade de toda espécie - esse acréscimo entre parênteses é meu).
    Nossos jovens não respeitam os mais velhos porque os “vovôs” não dominam a tecnologia, e por via de consequência, nada sabem. Nossos jovens perderam as referências porque as famílias sequer famílias são ao passo que se tornaram uma megajunção sem poderes de afirmação da autoridade de pais, madrastas e padrastos. Nossos jovens pensam que sabem tudo e tudo podem, até caírem na vala da droga, sexualização ou criminalidade.

  • sexta-feira, 2 de junho de 2017 14:17

    Dia de secar a cuia

    Chove tanto que todas as cuias mofaram. Tenho oito. Ontem, à hora do mate, precisei utilizar o fogo para secar uma cuia, naquela arte que tão bem conhecemos... Cuia úmida dá um chimarrão que não desce “redondo”. Amargo sim, azedo não.

    Pois é! Azedos estão os dias. Chove tanto que carros de pequeno porte nem se aventuram mais pelo interior. Na Linha Cascata somente com S10 ou trator. Engraçado isso, porque fiz o interior de Porto Vera Cruz ontem tranquilamente. Algo me diz que a diferença não está apenas nos milímetros de chuva entre um e outro município.

    Chove tanta informação que nem conseguimos discutir a fundo os temas. A coluna era para ser sobre “os prédios do Vicini”. Eu preciso escrever sobre as ideias aventadas pelo prefeito nos últimos dias, especialmente duas: vender o espaço onde está o Ginásio Moroni e vender/permutar/trocar os terrenos onde está assentada a Vila Militar.

    Mas escrever sobre isso é como fazer mate em cuia mofada. Vai azedar o mate. Alguns dirão que demolir o Moroni e a Vila Militar tornará a cidade mais moderna e prática. Outros lamentarão que a cidade ficará sem parte significativa de sua história. Ambas as correntes têm razão. Então, a pergunta que se deve fazer é: o que é mais relevante? Passado ou futuro? História ou economia?

    Escrevo desapegado, como já disse outra vez. Já lutei demais por questões que julgava importantes, como o Parcão, o Tape Porã e o Centro Cultural. Lutamos quando éramos exército de meia dúzia. Tombamos dizimados pelas contas a pagar e as carreiras para salvar. Cansamos. Já deixamos o legado aos nossos filhos.

    Não luto mais. É isso. Se o Vicini quiser derrubar o Moroni e vender o espaço, que venda! Se ele quiser remover a Vila Militar, que remova! Os filhos e netos dele se verão diante do quadro no futuro e farão a leitura e colherão os frutos dessa negociação. Só o tempo dirá se foi acerto ou erro. E nisso sei que a minha filha olhará o Parcão, o Tape Porã e o Centro Cultural e pensará que o pai tinha uma visão bacana dos fatos.

    O que tem isso a ver com as cuias mofadas?

    Eu não luto mais essas batalhas. Sou cuia mofada. Não posso falar pelos outros, mas percebo que sempre os mesmos estiveram na linha de frente, gente que hoje cansou de apanhar. Gente que decidiu cuidar da própria vida. As questões maiores da cidade até vão entrar na roda de mate, como entraram, mas tombarão ali, no ronco da bomba.

    Que surjam novos líderes! Compremos cuias novas. Ou, então, concordemos com tudo e aceitemos o mate amargo e azedado que nos ofertam.

  • sexta-feira, 27 de janeiro de 2017 16:45

    Ser de direita ou esquerda

     

    Há três anos, quando iniciamos os debates na Rádio Noroeste, o Beto Kieling disse que a retórica de esquerda e direita estava ultrapassada, nem existia mais.

    Talvez, apenas talvez, estejamos vivendo um período sem esquerda e direita no contexto político. Talvez eu concorde com o Beto, desde que ele concorde comigo que estamos na era da ultra. E essa é bem pior.

    A ultraesquerda e a ultradireita... Uma produziu o Chaves, outra o Trump e todos os seus adeptos (e nunca é demais lembrar de Hitler, Mussolini, Franco, todos eram de ultradireita). Qual é pior? A moeda é a mesma. O comunismo produziu os massacres daqueles que eram vozes discordantes; já o capitalismo produziu o Vietnã e todas as guerras petrolíferas atuais no Oriente.

    Esses discursos ultra, da direita e da esquerda, sempre se sustentam no populismo exagerado, nos valores da Pátria, no nacionalismo e na riqueza ou divisão igualitária dela. Não faltam adeptos aos dois blocos. No entanto, o que se percebe a falta de diálogo entre eles. A partir desse contexto, qualquer palito de fósforo causa o maior incêndio.

    O modelo alinhado à ultraesquerda não deu certo na América Latina de Chaves e Morales, da mesma forma como fracassaram os governos de ultradireita que vestiam fardas no Brasil, Argentina, Paraguai, etc. Ambos produziram péssimos exemplos sociais, culturais e humanitários.

    Além da falta de diálogo entre os blocos ultra, o que preocupa mesmo é a disseminação do “meu”. Enquanto sociólogos e filósofos tentam explicar em que momento a era líquida supervalorizou o “eu” das selfies e trivialidades, eu, mero leitor de jornais, tento compreender em que época deixamos de ser sociedade para nos tornarmos indivíduos desconectados dela.

    É a era do Meu. Meu trabalho (fora imigrantes!), meu dinheiro (fora miseráveis!), minha carreira (fora às cotas!), meu país (fora refugiados!)... Não faço defesa do socialismo, até porque ele não deu certo como experiência de governo, afinal temos ambições e sonhos diferentes e eles ditam nosso modo de viver! Faço aqui uma defesa do aspecto humanitário da vida.

    É verdade que o modelo capitalista tecnológico consumista nos proporciona produzir alimentos para saciar a fome de 9 bilhões de habitantes (somos apenas 7,5 bilhões no planeta). Curiosamente a ONU afirma que 1 bilhão de pessoas passa fome. Isso porque o alimento é meu, mesmo que eu o jogue no lixo ou use para alimentar cães.

    Sinceramente, não sei se um dia o homem chegará ao estágio de compreender que o grande mandamento é amar ao próximo. Acho que não! Porque para chegar a isso teria de abrir mão do eu e do meu. Esses dois pronomes crucificam qualquer possibilidade de evolução.

    É, Sávio, ainda “somos os mesmos e vivemos como nossos pais”.