• sábado, 3 de setembro de 2016 10:57

    Sobre a morte das pequenas propriedades

    Vender leite de porta em porta não pode! Ovos, não pode! Torresmo ou embutidos, não pode!
    Desapareceram os verdureiros que batiam à nossa porta aos finais de tarde para oferecer produtos frescos colhidos na terra. Desapareceram aqueles que vinham nos oferecer leite puro e uma dúzia de ovos a preço mais em conta que o mercado da vila... As grandes indústrias e conglomerados venceram! E tudo ficou caríssimo!
    O leitor, urbano qual eu, logo pensará que está certo o poder público (nas três esferas) em aplicar o rigor da lei de fiscalização sanitária em favor de nossa saúde. Tenho outra visão: a legislação beneficia os grandes produtores. Ela impede que o pequeno venda de porta em porta, de modo que precisará se tornar médio ou grande produtor para abastecer quem? A indústria... E assim, deixamos de pagar R$ 2,00 por litro ao leiteiro para pagar R$ 3,50 ao mercado.
    Ovos, o colono não pode vender na cidade. Ah bom, ele pode transformar em bolacha e cuca... E se tiver sorte, vende na cidade. Discutiu-se a instalação de um entreposto de fiscalização de ovos, por exemplo, projeto que está engavetado, mas, se posto em prática, pouco contribuiria... A salmonela, que é a única preocupação realmente séria, não é detectada nessa avaliação oficial. E o processo todo é muito burocrático para quem quer vender 10 dúzias ao mês e fazer R$ 50,00 para ajudar nas compras do mercado...
    É estranho esse pensamento “protetor de saúde” que nos é vendido pelo mercado final, em conluio com a grande mídia. Todinho contaminado pode vender! Leite recém extraído da vaca não pode. Leite com adição de porcaria pode, leite modificado pode... Meu vizinho, que tinha quatro vaquinhas, teve de parar de produzir porque não recolhem em pequena quantidade. E vender na cidade não pode, só se clandestino...
    Carne do pequeno agricultor, mesmo frango e peixe, não pode, só pode do frigorífico... Não posso carnear um boi e trazer para vender na cidade, mesmo que para parentes... É isso, o pequeno acaba desistindo e vem morar na cidade engrossar a fila dos que vão oferecer mão-de-obra barata... É o caso de um conhecido meu, motorista em empresa privada, que ganha R$ 1.300,00. Ele faturava três vezes mais com um abatedouro familiar e vivendo de quatro hectares. Hoje não possui nem a vaquinha do leite.
    Abrir açude não pode no interior (mas aterrar banhado na cidade pode!). Pode, se for para grandes irrigações. Produzir peixe para quê, se vender na cidade não pode?
    O futuro da produção no campo será assim: o dono da terra será um grande empresário urbano, com um servidor alocado lá apenas para gerenciar as máquinas... Pago como trabalhador urbano.
    É trágico, mas é verdade! Se não houver política agrícola e cooperativista diferenciada, não há lugar para pequenos no campo. Percebo que quem ficar, lá na frente, poderá ganhar dinheiro porque o alimento custará o olho da cara... Por ora, melhor produzir comida apenas para si mesmo...
    Mas, assim como está, o campo é lugar para soja, milho, algum trigo e animais para abate...

     

  • segunda-feira, 29 de agosto de 2016 07:15

    Lição para extrair da crise

    A crise está aí. Ótimo para a sua vida. Você ainda vai agradecer por este momento!
    A crise econômica em curso, que não é do Brasil, é mundial, chama a todos nós, cidadãos, a repensarmos o modelo de vida que pretendemos desfrutar e aonde ele nos levará. Penso eu, pense você! E leve em conta um artigo recente, assinado pelos cientistas, que acendeu o sinal de alerta no semáforo global: a Terra já não é mais capaz de produzir tanto quanto extraímos dela. Ou seja, não há reposição. O nosso lar chegou ao limite.
    Sem casa, logo estaremos vivendo na miséria das ruas! É isso que a Terra nos diz aos gritos! Há espaço, ar, alimento e água para 7 bilhões de “humanídeos”? Sim, porém, mas, todavia... Ou mudamos nosso modo de viver e nos ajustamos harmonicamente à Terra ou ela mesma cobrará seu preço, ela fará o ajuste à sua maneira, com furações, terremotos, pestes, etc.
    O século passado foi emblemático na guerra travada entre comunistas/socialistas e capitalistas. Engana-se quem pensa que os embates terminaram!
    Muito embora a guerra atual tenha viés religioso (na radicalização de uma corrente islâmica), ela é apenas uma cortina para a guerra real pela exploração do petróleo que ainda há em abundância sob as areias quentes dos países árabes. As garras do capitalismo continuam a semear milhares de mortos na Síria, Iraque, Nigéria, etc.
    Porém, na luta de capitalismo x socialismo, o fim é o mesmo: apenas saber quem deterá o capital/poder, se, empresas ou um governo. A discussão que precisamos colocar em voga é outra. É capitalismo x sustentabilidade. Continuarmos nesse ritmo de uso dos recursos da Terra ou estabelecermos um equilíbrio?
    Porém, é preciso partir de uma premissa diferente, de uma resposta verdadeira à questão: de quanto capital eu realmente preciso para viver bem e desfrutar dias agradáveis?
    Alguém dirá que é relativo demais, que somos insaciáveis em nosso desejo de possuir, que sempre almejaremos mais, mais e mais... Não há erro em pretender evoluir. Erro há em trocarmos de celular a cada meio ano, de carro a cada dois anos, de TV a cada novo aporte tecnológico. Erro é usarmos toda a vida do planeta, e nos levarmos à morte.
    Hora de dizermos a nós mesmos que não precisamos de tudo, menos ainda de todos os luxos possíveis. Hora de dizermos que pagar R$ 700,00 por um par de tênis é imbecilidade. Hora de aproveitar o fundo do terreno para plantar uma horta.
    Sim, o país e o mundo estão em crise econômica. Ótimo! Hora de desacelerar o ritmo do umbigo. Hora de puxar para o nosso quintal e se perguntar: do que realmente precisamos para sermos felizes? Hora de reaproveitar. Hora de reaprender. Hora de reviver!

     

  • sábado, 20 de agosto de 2016 10:08

    Qual marca vai ficar em você?

    Olimpíada que encerra neste final de semana, campanha eleitoral que teve início há três dias e redes sociais inundadas por “santinhos” e publicações, por ora, tranquilas.
    Que marca ficará em você desta Olimpíada (no singular, por favor)? Ou talvez devesse questionar acerca do momento, da lembrança de valor - positivo ou negativo - que ficará em sua memória quando os jogos findarem, no domingo? Eu tenho alguns apontamentos, meus, uns animadores, outros constrangedores.
    Ficarei com a imagem do Diego Hipólito, que caiu feio em duas Olimpíadas (fiasco mesmo) e deu a volta por cima para conquistar a medalha de prata. O menino abandonado pelos pais que conquistou o alto do pódio no salto com vara. E derrotas doloridas no handebol e futebol feminino, onde claramente pesou o fato de estarem em casa, de perderem por sobrecarga emocional.
    Mas (sempre meu mas), a Olimpíada mostrou que ainda somos racistas demais. Exemplos de Rafaela Silva, alvo de ofensas em 2012, e o ginasta Nory, ele infeliz e já punido por ridicularizar um colega negro. É, racistas sim. E passando a limpo as arquibancadas, ainda vi poucos negros, na leitura de que não têm o mesmo poder aquisitivo para comprar ingressos nos melhores lugares.
    Para que não digam que apenas os brasileiros são corruptos, mais uma vez a Polícia prendeu um gringo ligado ao COI vendendo ingressos desviados... Eles também são corruptos e a FIFA e o próprio Comitê Olímpico já provaram sua sagacidade em apropriações indevidas. Ah, teve o caso dos atletas que mentiram sobre assalto... eles também mentem.
    Para bem ficaram as vaias constantes à goleira Hope, dos EUA, que era apupada em cada lance. Ela ridicularizou o Brasil nas redes sociais antes dos jogos. E não foi perdoada! Essas vaias são diferentes daquelas, desrespeitosas, ao francês no salto com vara (claro que ele também falhou feio em seu comentário posterior ao nos chamar de nazistas). Não somente ele, muitos atletas queixaram-se desta mesma falta de respeito, barulhos demais em esportes que exigem concentração...
    Também vi que ainda omitimos demais, escondemos todas as notícias negativas dos assaltos, das remoções forçadas dos camelôs, do turismo inexpressivo nas favelas do Rio... Não se fala para não ofuscar o brilho das estrelas.
    Como pouco se fala da força policial que impediu protestos (essa é a democracia desse governo?). Certamente lembraremos a passagem relâmpago do presidente Temer e a vaia, e a sua escolha de não ir ao encerramento. Isso demonstra que a marca do impeachment vai demorar a cicatrizar.
    E uma marca que carregarei por anos: minha falta de planejamento pessoal. Espero aprender com isso, aprender por não ter me planejado para ir ao Rio de Janeiro passar alguns dias em férias lá para ver os jogos... Planejado não custaria o olho da cara, tanto é que vi muitos amigos por lá.
    Em meio a tudo isso temos o início da campanha eleitoral... Sem traumas, por hora. E, bem por isso, acho que todos os candidatos e aqueles que lhes dão algum suporte, deveriam pautar suas ações a partir desta mesma pergunta: Que marca vai ficar em você? E eu a mudaria para: Como quero marcar as pessoas?

  • segunda-feira, 15 de agosto de 2016 09:17

    Histórias de Tereza e outras aniversariantes

     

    Quando a professora e historiadora Tereza Christensen disse ao microfone da Rádio Noroeste, no sábado, que o ex-prefeito Alfredo Leandro Carlson matou um homem que o atacou em pleno gabinete ficamos boquiabertos.

    Nunca ouvimos esta história, ela não é contada, desapareceu junto com tantas outras que fazem parte dos 85 anos de Santa Rosa. Amigos, de mais idade que eu, não conheciam o fato. A Tereza deu informações. Claro, se alguém quiser colocar no papel teria de ir mais a fundo, buscar mais dados. Tal como o suposto atentado ao prefeito Alvírio Scalco.

    É dos primórdios do município emancipado, época de homens corajosos, armas ao alcance das mãos, revoluções sangrentas e uma guerra mundial que atingiu em cheio essa terra de imigrantes. Tereza Christensen resume maravilhosamente bem esses homens sobre os quais há dezenas de histórias, onde bondade e banditismo estavam presentes nos mesmos personagens, como Artur Arão e Bráulio de Oliveira: “Eles eram frutos de seu tempo. Não havia como ser diferente naquela época”.

    Há muitas histórias sem versões oficiais, que pedem para ser narradas. A questão é, como fazer isso sem ferir familiares e amigos dos envolvidos? Não faz muito um livro sobre Antônio Carlos Borges foi impedido de circular porque nele constava uma alcunha (apelido) atribuída ao ex-prefeito. Foi grande a polêmica e foram muitos os bombeiros chamados a apagar o incêndio.

    Mas é preciso falar do passado, tal qual foi à época. A noite do quebra-quebra contra famílias de alemães não pode virar pó, nem Artur Arão ou o Pala Branco. Ou teremos uma história contada pela metade, tal qual querem os autores do projeto Escola Sem Partido, ao velho estilo “Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil”.

    Tereza é uma lenda. Ela tem bala na agulha para ir fundo. Na Rádio, falou muito de Alfredo Leandro Carlson, homem que entrevistou para escrever um livro. Prefeito, vindo de família que teve posses, ousado ao comprar a área para o Parque de Exposições que hoje leva seu nome. Político que morreu pobre devido a enleios amorosos, para não dizer que lhe restou quase nada ao final da vida.

    Políticos da época não enriqueciam. Vereadores não recebiam salários. Prefeitos eram empresários e lideranças que se doavam à comunidade em prol de desenvolvimento. Alvírio Scalco, prefeito na década de 60, também morreu pobre. Carlson, Carlos Denardin, Arno Pilz, Anacleto Giovelli, para citar apenas esses, queriam construir algo maior que coligações empregatícias.

    E, por fim, a partir dos próximos dias viveremos clima de campanha eleitoral. Estou me roendo de curioso para saber o que há de vir por aí. Com Orlando e Vicini no páreo, com ânimos que nem amainaram desde 2012, já era certo que teríamos alguns capítulos interessantes a assistir. E com o ingresso do Colla nessa frente, agora é que não se perde mesmo programa algum da eleição municipal. E, sinceramente, guardei minhas fichas no bolso. A esta altura não aposto em número algum!