• sábado, 28 de novembro de 2015 00:51

    A tal usina de energia elétrica

    Rosa Santa é uma cidade lá no fim do fim do fim do mundo. Lá também acontecem coisas estranhas, bem estranhas...

    Conto, tal qual ouvi. A fonte, reservada, é segura. De modo que o fato é, no meu entendimento, sério e carece de análise social e comunitária bem apurada. Em tese, algumas pessoas, empreendedoras, querem fazer um investimento em geração de energia que afetará um dos principais pontos turísticos do município.

    Em boa parte do território de Rosa Santa cruza um rio que leva o nome de outro santo. É, mas o santo nada tem a ver com o negócio proposto. Um dos locais mais visitados e fotografados de toda a região é justamente a cascata, grande e bela, que fica quase na divisa com o outro município santo. Pois é ali, bem ali, que vão construir uma barragem para gerar luz.

    Não estou a escrever bobagem. A fonte que me trouxe o assunto tem conhecimento de causa. Os empreendedores já teriam conseguido os laudos necessários, de impacto ambiental, para executar a obra. E, pasmem, a FEPAM, ao que consta, autorizou a construção da usina. Faltaria apenas a liberação da ANEEL.

    A dita usina seria construída acima (antes) da cascata, com um alagamento muito pequeno de terras próximas. Ou seja, o lago teria impacto mínimo no ecossistema. Porém, somente 10% da água iriam para a cascata. Os outros 90% seriam desviados para a geração de energia elétrica. Assim, a bela queda de água praticamente desapareceria. Ah, sim, claro poderiam liberar o fluxo de água em eventos especiais, tipo uma semana de conscientização, visitas programas e tal...

    As perguntas iniciais e básicas são: a população da vila que fica ao lado da cascata foi ouvida? O povo da tal cidade santa foi ouvido em audiência para se manifestar se prefere o investimento energético ou se prefere o ponto turístico e de veraneio? Creio que não.

    Outra indagação que cairia bem, é: como a FEPAM (Governo do Estado) libera um investimento desses? Claro, já liberaram outros, inclusive em Rosa Santa, que são duvidosos do ponto de vista técnico.

    Há muito, muito, muito tempo, um homem visionário, empresário que levou a luz à cidade e semeou o progresso, tentou fazer uma usina perto do mesmo local. Naquele tempo de guerras e revoluções, de poucas preocupações ambientais, o Estado não autorizou.

    Um vereador de Rosa Santa, dono de terras lindeiras, e empreendedores estão consorciados no investimento. É legítimo? É. Mas, Clairto, se não vai causar grandes impactos ambientais aparentes, então por que essa crônica?

    Por que a pergunta que me faço é: é legítimo que duas ou três pessoas se apropriem de uma paisagem que pertence ao coletivo em nome do progresso e dos dividendos financeiros?

    A resposta pode ser dada pelas entidades organizadas, as autoridades (do Estado e, inclusive, do Município) e a população.

     

  • segunda-feira, 23 de novembro de 2015 06:54

    Coisas que não entendo muito bem

    Minha cabeça fervilha, tantos são os incompreensíveis assuntos que atulham a mente e soterram a sobriedade.
    De longe e de perto, há fatos e situações que, sinceramente, são perturbadoras. Nem é uma referência ao modo parcial e deturpado como a imprensa narra as guerras e os atentados, tão intimamente ligados quanto semeadura e colheita. A crônica é menos mundo, é mais na pele.
    Uma incompreensão é a precária situação do asfalto que liga Horizontina a Três de Maio (e o Zelindo me disse que Tuparendi a Tucunduva está pior ainda). Como pode o governo do Estado abandonar à própria sorte uma das maiores economias regionais, de onde saem centenas de colheitadeiras todos os anos? Acaso querem que a empresa decida mudar de endereço? O mínimo que o município merece é uma rodovia em perfeitas condições, porque melhor seria duplicá-la.
    Cadê a força política regional? Cadê os partidos? E não é uma indignação com Sartori, apenas, porque Tarso deixou em iguais condições. Outra nessa linha de questionamento aparece quando você vê Santa Rosa sediar um evento como o encontro nacional dos Pracinhas da FEB (hoje e amanhã ainda). Como deslocar esses veteranos sem aeroporto regional? Como desenvolver a região se a ponte nunca sai do papel, o aeroporto vai à ré e a hidrelétrica é apenas vento?
    O futuro sempre é de difícil compreensão, mais ainda quando está atrelado a componentes monetários. Como poderíamos, nós da Cidade Interativa, explicar aos santa-rosenses o que seria o Tape Porã? Era impossível. E vinham críticas! Agora, com ele pronto (15 anos passados), tudo são elogios. Eis que me foge ao entendimento a necessidade de lotear o Mato do Busque, em Tuparendi. É como se a visão de futuro e do uso da área para algo maior que construir casas jamais conseguisse passar pela mente dos proprietários. O futuro exige coragem para ser diferente.
    A celeuma Carnaval x Desfile Farroupilha é outra análise que não consegui tecer. Se falta grana, falta para ambos. Ou sobra coragem aos carnavalescos e falta organização e peito aos tradicionalistas? Quem pode mensurar o que é mais importante para uma cidade? Uma pessoa? Por estas e outras que, à pergunta da vereadora Sônia: “Por que o Céu das Artes continua fechado?”, um engraçadinho respondeu “porque os anjos estão em greve!”
    Nessa terráquea vila, fica difícil entender que o poder não está justamente com quem aparenta possuir o poder, de modo que ninguém mais estranha a volta dos que já foram. É difícil compreender que em era de tecnologia tão adiantada continuemos a ver o mesmo filme, em VHS, repetidas vezes.
    Tantas são as coisas que não compreendo que meu pensamento chega a supor que o idiota seja eu.

  • sexta-feira, 13 de novembro de 2015 11:08

    Emprego e desemprego em Santa Rosa

    Volto ao tema da semana passada, tendo em vista que o Norton me mandou algumas observações. Creio, então, que há leitores interessados no tema.

    É mais uma reportagem que uma crônica, recheada de números. Vale a pena se debruçar sobre eles. Foi o tema do debate na semana anterior, com Fernando Borela, Marcos Scherer e Adriana Leal. Não é para alarmar, é para esclarecer.

    Em dois anos foram mais de 5.300 demissões nos quatro principais segmentos econômicos de Santa Rosa, segundo o levantamento feito e encaminhado ao Jornal Noroeste por um sociólogo (que preferiu não ter o nome mencionado). Os números foram obtidos diretamente com as entidades sindicais nos setores de metalurgia, alimentação, comércio e construção. Em 2014 foram, aproximadamente 2.350 demissões, contra 2.100 até outubro deste ano. Seriam vagas a menos.

    São dados estatísticos e reais. Porém, eles não levam em conta as admissões feitas nesta mesma época, de modo que não expressam a realidade total. Nos lançamentos do Ministério do Trabalho constam, de janeiro ao início de setembro deste ano, 7.465 demissões em Santa Rosa. No mesmo período, no entanto, foram contratados 6.711 trabalhadores. Ou seja, em oito meses o déficit é de 754 vagas.

    O setor que mais está estagnado é a indústria, onde estão localizadas mais de 80% dos desligamentos. Olhando o mapeamento dos últimos 12 meses a realidade é ainda mais cruel. Deixaram de existir 1.192 vagas formais de emprego no município. Outra vez é na metalmecânica o rombo maior (-1.008 vagas). O comércio, ao longo de um ano, fechou 77 postos de trabalho, contra 228 nos serviços e 43 na agropecuária. O mês de agosto, por exemplo, apresentou 60 demissões a mais que admissões na soma dos cinco principais setores avaliados.

    A boa notícia vem do setor da construção civil, que continua aquecido. Entre demissões e admissões, nos 12 meses foram criadas 164 novas vagas. Esse cenário está estável, porque 126 postos novos foram abertos em 2015. Em agosto, mês mais recente avaliado pelo CAGED foram 24 contratações a mais. Mas é o único setor com saldo positivo. A situação não está pior porque a agricultura tem assegurado boas safras e bom preço nos últimos anos, na avaliação do Marcos Scherer, que foi presidente do Conselho Municipal de Desenvolvimento.

    Já Adriana Thomaz Leal, coordenadora do SINE Santa Rosa argumenta que, em números, esta é a maior crise de empregos enfrentada nos últimos 23 anos no âmbito municipal. Ela acompanha os boletins do Cadastro Geral de Empregos, do Ministério do Trabalho. O cenário estadual não é mais animador, só varia o setor atingido, esclarece.

    Fernando Borella, na condição de secretário e professor, diz que acompanha números da FIERGS e era notório que esse efeito de desacelaração da economia vinha desde 2013, porém era maquiado pelo Governo Federal. Em sua tese regional, precisamos urgentemente atrair investimentos dos quais se fala há anos: a ponte internacional, a usina hidrelétrica no Rio Uruguai e o aeroporto. Com isso mudaríamos a realidade.

    O temor é que essa crise que afeta, especialmente, as grandes indústrias e, por conseguinte, as metalúrgicas do nosso polo metalmecânico, possa impactar ainda mais nos outros setores. Resultado disso é que nesta semana reuniram-se a Secretaria de Desenvolvimento Sustentável do Município (Fernando Borella), a Comissão Municipal de Emprego e Renda (João Roque dos Santos) e SINE (Adriana Leal). O grupo promoverá um grande evento nesta sexta-feira para discutir alternativas para amenizar o impacto do corte de vagas, tendo em vista que a crise se prolonga e os trabalhadores logo conviverão com o fim dos recursos do Seguro Desemprego. É isso que se espera dos entes públicos, entidades e instituições: reação!

  • sábado, 7 de novembro de 2015 01:21

    Um escorpião me ferroou

    Essa divagação não é fruto de febre momentânea provocada pela ferroada do escorpião que me levou a procurar a UPA na quarta-feira à noite.

    O que rege o pensamento é um email que recebi no final de semana, de um empresário, expondo razões e preocupações quanto ao cenário econômico de Santa Rosa. Ele estava indignado com a inércia de alguns setores e com a inaptidão de outros. Já eu estou apenas preocupado.

    Dói uma picada de escorpião. Sorte minha que sou prático, instintivo. Por isso, tão logo identifiquei o “bicho”, abri com os dentes a pele mais grossa do dedo atingido, depois espremi o máximo do sangue que pude, isso até chegar ao hospital, já que moro no interior, a 10 quilômetros da cidade, e estava um tanto longe da casa. Assim, o efeito da ferroada foi pequeno. Melhor abrir uma ferida a dentadas que infeccionar todo o dedo e a mão. Dói, sim, mas era preciso ser prático.

    O escorpião, em geral, está escondido e só o vemos quando já nos picou, já injetou seu veneno. Ora, eis a crise econômica em que o Brasil afundou nos últimos meses. E o Rio Grande do Sul afundou mais ainda. Estava sob o manto do pleno emprego, dos gordos recursos do FAT para financiar programas habitacionais. Estava camuflada até que viesse o resultado das urnas, assegurando mais quatro anos ao PT no poder central. Aí nos picou.

    Ok. Saber isso muda os fatos? Não. Dói é saber que temos em nossa cidade algumas centenas de desempregados. O levantamento enviado pelo amigo no email dá conta que 5 mil pessoas foram demitidas em dois anos em Santa Rosa. Isso dói. No entanto, antes de ser catastrófico, fui beber noutra fonte - o CAGED - e um estudo da UNIJUÍ.

    Nessa consulta o escorpião parece menos venenoso, mas apenas à distância. Em agosto, no comparativo entre demissões e admissões o saldo é o corte de 60 vagas. Pouco, né? Sim, mas nos oito meses iniciais de 2015 esse número chega a 754. Ou seja, são pessoas desempregadas. Esse refluxo vem de antes da eleição presidencial, mas se agravou a partir de então, quando o Brasil parou. Em um ano o saldo negativo dessa conta de admissões e demissões é 1.192 postos de trabalho efetivamente fechados.

    Esse número é muito expressivo para um município tão pequeno. Um setor está sofrendo muito: a indústria, onde estão concentradas 85% das demissões. Só a construção civil se mantém contratando. Pior que isso, o veneno da crise começa a se espalhar pelo corpo, a atingir outros membros da economia, como o comércio e os prestadores de serviços que desligaram muitos trabalhadores nos últimos três meses.

    Aí é que entra a resposta imediata à picada do escorpião. Não dá para esperar muito para aplicar o remédio ou procurar um especialista. Dá para curar com cachaça envelhecida ou cobrina, dá, mas, e se o bicho for dos venenosos?

    A resposta imediata, segundo este empresário que me enviou o email, é aproveitar o momento para unir classes trabalhadoras e patronais em torno de um grande projeto de qualificação profissional. Concordo. Porém, é pouco. É preciso garantir políticas públicas de apoio a esses trabalhadores que não encontrarem recolocação, assegurar um mínimo de dignidade às famílias.

    É preciso, urgentemente, dar atenção ao problema, através das secretarias municipais, do Conselho de Desenvolvimento Econômico, do Conselho Municipal de Emprego, universidades e outros entes que possam encontrar mecanismos de amenizar o impacto da ferroada.

    Ou isso, ou piora depois. Menos mal que o Alibem ainda está aqui e que a Camera está dando a volta por cima.

    Um escorpião me ferroou. Ainda bem que não era venenoso. Mais fora a dor mesmo, o incômodo. Mas, e se fosse venenoso?