• sexta-feira, 5 de agosto de 2016 14:46

    Pela hora da morte

    Pela hora da morte estão os preços de alguns alimentos indispensáveis à mesa. Pela hora da morte está a reforma da Previdência e a estagnação do Rio Grande.

    O ônibus passou em frente a um posto de combustíveis em Apíuna, à margem da rodovia em Santa Catarina, onde li em letras garrafais: Gasolina comum a R$ 3,15. Limpei os olhos do sono da madrugada, atentei outra vez para me certificar do escrito e estava lá, tal qual. O preço mais elevado que encontrei no Estado vizinho foi R$ 3,49. Aqui em Santa Rosa, girando muito, se consegue a R$ 3,99. É uma bomba contra o desenvolvimento!

    Era a primeira constatação. Depois vieram outras, como a infestação de gaúchos em cidades como Joinville e Jaraguá, Mecas da esperança de retirantes. Tá, infestação é uma palavra pesada! A andar pelas ruas ou nas rodoviárias é fácil compreender o comentário de um ouvinte durante o Noroeste Debate na manhã do sábado. Ele escreveu mais ou menos assim: “Agora estou ainda mais convencido a ir embora”. Desesperança é o nome disso!

    Falávamos sobre o preço dos alimentos que estão pela hora da morte, como leite a R$ 4,30, dúzia de ovos a R$ 6,00, etc. Aumentos médios cinco vezes maior que a inflação em vários produtos da cesta básica ao longo da última década. Leis demais para quem comercializa itens da agricultura familiar. Custos elevados de produção, logística precária, mão de obra envelhecida no campo... Indicativos de que a situação vai piorar.

    A culpa disso tudo não é o preço da gasolina. Tem a ver com a falência do Estado, tem a ver com as exportações de soja e milho que monopolizam atenções dos produtores com preços nas alturas, tem a ver com falta de incentivos dos governos aos agricultores familiares. Tem a ver com um Brasil rico que não sabe enriquecer seu povo.

    O taxista catarinense tinha 65 anos, aposentado, que parou de “trabalhar” após 35 anos em serviços gráficos. Ganhava do governo 3,5 salários no primeiro mês. Hoje ganha 1,5. Deveria receber R$ 3.080,00. Ganha tão-somente R$ 1.320,00. Está na ativa a 50 anos e não pode nem pensar em parar. Pior, ele não é exceção! É regra! E aí vem o governo e um bando de parlamentares que nem aí estão para nossos sofrimentos e querem fixar a aposentadoria aos 65 anos? É medievalismo!

    Como medieval é o nosso Estado, completamente estagnado há anos. Nessa briga de republicanos versus imperialistas, hoje somos todos farrapos (com F minúsculo mesmo). Santa Catarina não parcela salários. Santa Catarina não manda embora empreendimento de R$ 150 milhões e que geraria 1.200 empregos. Ah, isso não foi no governo do PT. Foi em julho deste ano (Sierra Móveis, de Gramado). Talvez esteja na hora de alugarmos o nosso Rio Grande para os catarinenses ou paranaenses por algum tempo, tipo um arrendamento, e ver no que dá. Nosso orgulho já não produz mais façanhas!

    P.S.

    Parabéns Santa Rosa. Bem não estamos, mas ainda somos uma ilha de paz e desenvolvimento em meio a um cenário de poucas esperanças. E tenho imenso orgulho de ter minhas raízes fixadas aqui.

  • sexta-feira, 29 de julho de 2016 17:31

    O Brasil que mete medo

    A partir da próxima semana os brasileiros, e eu também, estarão à frente do televisor, aprisionados pela Olimpíada.

    Há semanas que leio a respeito de atletas de vários países que desistiram de competir no Brasil nestes jogos olímpicos. A explicação oficial é medo do Zika Vírus. Microcefálicos não, mas um tanto acéfalos são eles! Ora, um brasileiro não deixa de ir à França por conta de um bando de radicais que vivem na idade da pedra a cometer atentados. Ou deixa de ir ao parque da Disney devido os confrontos raciais que agitam os queridos Estados Unidos da América!

    A verdade é que a imagem que vendemos de nós mesmos é péssima. Mostramos praias lindas em ridículas produções da “Bobo Filmes”, mas um simples acesso à internet mostrará ao estrangeiro mortes de indígenas nas lutas por terra, estupro coletivo no Rio, roubo dos equipamentos da TV da Alemanha, presidente deposto por Impedimento, corrupção generalizada, chacinas e decapitações nas periferias assoladas pelo tráfico.

    Os Estados Unidos não são um paraíso, mas fazem questão de apregoar que o inferno são os outros. O Brasil não! Ele faz questão de mostrar que engatinha em todas as áreas, a começar pela segurança pública. Aí, para desmentir sua incompetência prende uma dezena de amadores e vincula-os ao terrorismo!

    A nossa violência policial não difere da norte-americana, nem os alvos são outros (negros, pobres e favelados). Isso só quer dizer que o problema é o mesmo dos EUA: perdemos a guerra para as drogas. E para piorar não conseguimos produzir uma sociedade justa economicamente. Educação pública sucateada, cultura inexistente e zero opção para subir na vida. Sobra o quê? Droga, assalto, prostituição, etc...

    Eles estão com medo do Brasil por causa do Zika Vírus ou da violência nas grandes cidades? Ou de atentados terroristas? Ou da incompetência que o país apresentou em suas obras de infraestrutura? Sequer conseguimos concluir as obras da Copa (que acabou já faz dois anos). O que eles veem é um País de terceiro mundo. E não somos... somos de segundo.

    Um maluco invade uma clínica no Japão e mata 19 pessoas... É um país top! O Rio de Janeiro foi comparado a Atlanta em patamar de violência. Como assim? Atlanta, nos Estados Unidos? Ué, eles são top! É isso, eles não divulgam para o mundo os seus problemas. Preferem mostrar os bombardeios na Síria. Assim tornam menos cruéis os massacres nas escolas ou a onda de violência racial que sacode o país na ferida que sangra sem cessar desde a Guerra da Sucessão há 150 anos.

    O Brasil que mete medo nos atletas e delegações que devem ou deveriam vir à Olimpíada é real, é problemático. Mas também existe outro Brasil, imenso em terras ricas, em biodiversidade e pessoas maravilhosas, com potencial de crescimento para se tornar potência mundial em poucas décadas. Esse País que os atletas preferem não ver mete medo nas lideranças planetárias. Somos potencialmente gigantes. Por ora, eles não precisam depor contra nós para nos boicotar. Infelizmente, nós mesmos depomos ao não resolver nossos problemas internos e jogá-los ao ventilador mundial.

  • sexta-feira, 22 de julho de 2016 10:25

    Eram 40 bitucas de cigarro

    A crônica deveria se intitular “Um roteiro no interior de Tuparendi”, mas não poderia me omitir diante de 40 bitucas de cigarro.

    Eu, a Dé e a Thaíssa resolvemos almoçar ao ar livre, no Tape Porã. Maravilhoso! Até percebermos como nossos humanos-porcos cuidam dos bens públicos. Contei mais de 40 bitucas de cigarro em um metro quadrado atrás de um assento. Como não se indignar?

    Ah, sim, vou escrever sobre algumas visitas que tenho feito no interior de Tuparendi aos Ferro, Cavedon, Molinari, Perin, Facchinello, Zalamena e tantas outras famílias. Come-se bem, vive-se melhor ainda. Vive-se. Longevidade é marca acentuada de um povo que sedimentou sua fé e seu modo de vida. Adoro cada instante de aprendizado com essa gente pacata e resistente com histórias maravilhosas para contar.

    Eles também se queixam dos venenos nas lavouras. Eles se queixam das sangas sem peixes. E da solidão do campo sem jovens que obriga a muitos abandonarem tudo para viver nas vilas ou na cidade. Há incontáveis taperas, algumas de invejável estrutura de casa e galpões. Não há mais colonos jovens interessados em produzir alimentos, há um campo envelhecido e mecanizado.

    Quando você vai ao mercado e se depara com uma dúzia de ovos a R$ 7,00 ou um litro de leite a R$ 4,39 se pergunta: o que está acontecendo? Claro que há conjunções econômicas diversas, mas no caso do preço do leite e dos produtos agrícolas, Itálico Cielo diz que os atravessadores levam bem mais que o produtor. Há atravessadores demais até chegar a nossa mesa. É apenas um lado da moeda.

    Já falta alimento no planeta, simples assim. E usamos o potencial da terra para produzir soja que vira farelo para engordar animais de abate. E, num campo sem jovens, faltam braços para trabalhos mais complexos como a horticultura. O preço chegou à mesa enquanto festejamos aumento das exportações, saca de milho a R$ 50,00 e soja a R$ 90,00.

    Prepare-se para o futuro, que já é agora! E o ar custa caro...

    No interior de Tuparendi estão quase todos aposentados, mas eles estão preocupados com a reforma da Previdência. A real dessa nova alteração é que ela vai ferrar mais uma vez os pobres. Os nossos filhos irão pagar a conta. Ou até, nós mesmos, que estamos no mercado de trabalho. Lembro de uma família à qual minha mãe trabalhou nos anos 90. Eu tinha 14 anos e era metalúrgico. Os três filhos da patroa de minha mãe estudaram até os 27. Só depois foram trabalhar. Pergunte quem está melhor financeiramente? Quem teve as melhores oportunidades? Ricos estudam até perto dos 30 anos e depois ganham bem, não precisam do INSS. Pobres vão entrar no mercado aos 16 ou 18 anos e trabalhar até os 60 ou 65 para ter mixaria depois. Essa é a real da reforma da Previdência, de um INSS que não é deficitário como todos os governos tentam provar, é deficitário por excesso de sonegação mesmo...

    As 40 bitucas de cigarro mostram quão porcos somos e que a qualidade de vida em nossos ambientes urbanos ainda é um sonho a perseguir... como a tal da igualdade, porque certas notícias nos levam a pensar no Brasil em construção: “TEMER autoriza 41% de aumento ao Judiciário” ou “CAIXA vai financiar imóveis de até R$ 3 milhões”. Simples assim!

  • segunda-feira, 18 de julho de 2016 08:18

    A provocação do empresário

    Recebi um email indigesto durante a semana passada, a respeito das prisões envolvendo a Lei Rouanet, a fraude e os desvios.

    Pensei, repensei e, depois de muito refletir, respondi. Não é meu feitio responder provocações quando vêm endereçadas ao meu email. Raramente me exalto com algum leitor que me agride após discordar de texto. Com email, ocorre o mesmo. Porém, esse, em especial, mexeu com meus brios de jornalista e de artista.

    Em resumo, repassava a matéria da prisão dos fraudadores da Lei Rouanet, dos produtores culturais e envolvidos no esquema que lesou os cofres públicos em R$ 180 milhões e pagou até a dita festa de Jurerê. Até aí, tudo bem, que está certo. A sequência é um elogio ao Temer, que deveria ter mantido a posição de fechar o Ministério da Cultura, e esculhamba com produtores e com artistas que usam verbas públicas. “Vagabundos”, escreveu.

    Inflamou-me. É por isso, por pensamento desses, que nunca seremos a Alemanha, o Japão ou a Inglaterra, porque nossas políticas de educação e cultura são inconsistentes e porque não há continuidade em nada, nem mesmo em projetos que deram certo. Isso vale aos três níveis de governo.

    Inflamou-me porque novamente os produtores culturais e os artistas apanham. Mas, são os mesmos que criticam as falcatruas na LIC ou Rouanet que, quando procurados para financiar um projeto cultural, exigem o “retorno” daquela verba que sai do cofre da empresa. É o que denunciou a RBS não faz muito tempo... Ocorre que ao requerer devolução - por fora - do seu dinheiro, esse “doador” está obrigando o produtor e o artista a fraudarem notas e contratos (superfaturar) para encaixar a matemática nefasta. E aí, quem é o pilantra? Todos, porém, como sempre, a corda rompe no lado fraco.

    Se eu levar pela lógica de propor o fechamento do Ministério da Cultura, então fechemos o Congresso, o Senado e quase todos os ministérios, afinal são alvos constantes de denúncias por desvios e maracutaias. E talvez devêssemos fechar um sem fim de empresas (tipo mostrou a Zelotes).

    A real é que a podridão é do sistema, é do Brasil, e por conseguinte, do brasileiro. Disse um pensador renomado nesta semana, em evento literário: “não há governo desonesto com um povo honesto”. É isso! Todos falam que pagamos impostos demais, mas todos sabem como fazer para burlar o sistema.

    Como disse o Gilberto Kieling na Rádio Noroeste na semana passada: “se aplicássemos valores mais elevados em cultura, gastaríamos muito menos em saúde e segurança pública”. Disse tudo! A educação de hoje, tecnicista, não produz mudança cultural, produz resultado financeiro. Mudança, de verdade, é provocada pela transformação cultural, a capacidade de pensar.

    Quanto ao email: chega de reproduzir meias verdades. É preciso saber pensar!

    Quanto à cultura: claro que é imoral ter lei para financiar Bruna Surfistinha!