• sábado, 31 de outubro de 2015 09:06

    A Reforma precisa de reforma

    Na verdade, hoje não estou feliz com pelo menos três fatos ligados às igrejas. Então, cabe deixar algumas considerações.

    Amanhã é o Dia da Reforma, feriado em Santa Rosa e muitas cidades no Brasil e no mundo. Passados cinco séculos da cisão que levou os seguidores de Martin Lutero a criarem igrejas separadas do catolicismo, talvez a grande pergunta que se deva fazer é: Não seria a hora de fazer uma reforma da Reforma? Quem sabe reformar todo o conceito de Cristianismo?

    As igrejas luteranas lutam arduamente para manter os poucos fiéis e, da mesma forma, sofrem muito as instituições de ensino que tiveram origem em seu berço. Nas pequenas cidades, muitas fecharam (e aqui também, só para lembrar o Colégio São João). É secundária a Educação que sempre foi bandeira de Lutero, ele mesmo um grandioso mestre. E vale o mesmo às outras denominações que tiveram o mesmo berço da Reforma.

    Noutro dia fui a um culto em uma destas igrejas tradicionais da cidade e, pasmem, as pessoas não carregam mais bíblias. Mas como, se a leitura da Bíblia e a aplicação correta dos evangelhos foram bases da Reforma?

    A Reforma talvez precise de outra reforma. Quando passo na porta de templos pentecostais (ou as ditas neopentecostais) não consigo deixar de lado a indignação. Será que tudo que se prega nessas igrejas é bíblico? De onde tiram culto da rosa ungida, uso do sal grosso ou o comércio das miniaturas do templo ou da água beatificada?

    Alguém dirá que as instituições religiosas, a começar pela própria Igreja Católica Romana, continuam em permanente construção ou adaptação aos tempos, o que seria uma atualização. Temas polêmicos na sociedade moderna voltam ao centro das discussões a partir de pronunciamentos do Papa Francisco, um líder mais antenado à presente era.

    Porém, fim de semana, à hora do mate, recebi um desabafo indignado de um amigo, também jornalista, impedido de fotografar um ato litúrgico em uma Igreja Católica de Santa Rosa. Destaque-se: não faria registros do evento para concorrer com o profissional contratado pela comunidade/pais. Estava lá porque uma de suas netas participava da celebração. Iria, portanto fotografá-la. Foi impedido. Argumentou com os cerimonialistas, mas sem sucesso. Tudo por quê? Porque somente o “autorizado”, aquele que faturaria comercialmente, poderia fazer os registros.

    É isso que Cristo pregou? Ou então, mudando o tom da pergunta: Por isso Cristo morreu pregado?

    E vou registrar em apenas algumas poucas linhas, muito embora talvez volte ao tema em outra oportunidade, a completa discordância ao processo de canonização ao índio Sepé Tiaraju. Dom Bosco, Irmã Dulce, etc, são compreensíveis, mas Sepé?

    Nem estou questionando a Igreja Católica em sua fé, estou apenas contextualizando que essa apropriação é indevida. Sepé Tiaraju é um herói latino, um herói indígena-missioneiro, e por consequência herói gaúcho. É assim que o vejo, um guerreiro defendendo a terra e o seu povo. Então, a Igreja não pode se apropriar do que é de todos, do que é maior que a própria Igreja.

  • sexta-feira, 9 de outubro de 2015 21:53

    Quando se ignora o sinal amarelo

    Não gosto quando a política avança sinais, quando ignora o amarelo do semáforo. Sempre há risco nessa manobra, nesse modo de invadir espaço que não é seu.

    E também não gosto de muitas coisas na política dos dias atuais, nesse poder total que os eleitos acham que receberam pelo voto. E talvez, como muitos seduzem ou aliciam a maior parte de seus eleitores, realmente sejam donos do mandato (donos dos votos). Pior ainda é o uso da máquina para proveito próprio, para avançar mais ainda e consolidar a carreira de político profissional.

    Dizem por aí que numa cidade vizinha houve uso da estrutura política na eleição do Conselho Tutelar. Poxa! Dizem que todos os conselheiros eleitos têm relação com algum vereador ou com partidos. Ainda bem que foi noutra cidade. Ainda bem, porque esse atrelamento é mau para a sociedade. É “tipo assim” a política invadir uma rua que não é sua.

    No Conselho devem estar aqueles que verdadeiramente querem trabalhar com crianças e adolescentes, de modo que o próprio salário e a estabilidade por quatro anos venham em segundo plano. No Conselho devem estar aqueles que a sociedade escolhe por confiar no trabalho e no exemplo, não aqueles que seduzem a sociedade já de olho no amanhã. Seduzem porque usam a força de terceiros, usam o poder político para granjear a vitória.

    Como devolverão esse favor? Com votos, claro. E talvez uma pequena comissão do salário mensal. Então, a máquina alimenta a máquina. Assim consolidam uma teia incrível que torna perpétuo o trono. Podem até desempenhar bem o seu papel, podem até fazer boas ações, mas já chegaram devendo favor. E isso é mau.

    Quem deu tanto poder ao vereador ou ao partido político? Não pode um vereador ter direito a cinco ou seis cargos de confiança! Não pode porque ele perde a liberdade de votar, ele se vende sem se vender. Não pode porque o mandato teoricamente não é dele, é da comunidade. Não pode o vereador ter um conselheiro tutelar... ou dois até! Ufa!!! Ainda bem que isso aconteceu em cidade vizinha.

    Por falar em cidade vizinha, dizem por aí que o Frigorífico pensa em se instalar em outra cidade. É só um boato, sei, mas um boato que vem há um ano correndo nos bastidores. Já ouvi isso de gente séria. Já ouvi que dois municípios teriam interesse em receber uma nova planta industrial. É só um boato, sei, mas não faz muito tempo também era boato que a Camera estava com sérios problemas financeiros...

    Isso sim é problema dos vereadores, do prefeito, das entidades todas. Aí sim entra o prestígio político, a construção de uma ponte, como se fez quando todos se uniram pela reabertura do frigorífico na década passada. Hora de pensar na cidade, nos empregos, na geração do imposto. Hora de pensar em todos. Hora de atuação em bloco, mesmo que seja para dizer abertamente à comunidade que tudo não passa de fuxico.

    Eu, sinceramente, não creio que seja verdade, afinal investiram muito em Santa Rosa nos últimos anos. Desejo crer que meus informantes estão errados. Ou crer que querem construir uma unidade nova, sim, mas mantendo tudo o que possuem hoje, em expansão.

    Aqui, no fim do fim do fim do mundo, na hora em que a barca econômica desce desgovernada pelo Rio Uruguai não precisamos de mais notícias ruins.

     

  • sexta-feira, 2 de outubro de 2015 23:15

    Nem tudo são más notícias

    Ai ai Brasil de todos nós... É roubo e escândalo na Petrobrás que não acaba mais... E dá-lhe aumento de combustíveis para sanar o rombo aberto pela roubalheira!!!

    Mas, num Brasil onde a cada ano 80 bilhões de reais escoam pelo ralo da corrupção, nem tudo são más notícias. Como diria o Pies, meu colega do Jornal, é questão do ângulo por onde se espiam os fatos. De preferência que seu ângulo não seja obtido pela lente das principais emissoras de TV do país.

    Vamos ficar em Santa Rosa mesmo, para não divagar demais... Uma boa iniciativa é encampada pelo Ministério Público Federal e pela ACISAP. E por todos nós que ainda temos algum orgulho. É um abaixo-assinado que se pretende apresentar ao Congresso em forma de projeto de lei com 10 medidas contra a corrupção. Isso sim faz diferença, tal qual a construção da Lei da Ficha Limpa. Não adianta esperar dos deputados que legislam em causa própria, é preciso continuar o Brasil sem eles.

    Cada cidadão pode ir a uma destas entidades, pegar uma lista e coletar assinaturas na comunidade. É trabalhoso, sim, no entanto, pode ajudar muito a construir o futuro. Sem tornar mais rígida a punição aos pilantras não há conserto. Tem que meter no xilindró os engravatados também.

    Não dá para achincalhar com os políticos como se nenhum prestasse. E boas notícias há nesse meio. Que belo exemplo nos deu a Câmara de Vereadores de Santa Rosa no ano passado quando diminuiu o número de diárias disponíveis aos parlamentares e o valor do benefício! O impacto foi imediato.

    Já tivemos ano em que o Legislativo local gastou R$ 92 mil com diárias dos viajantes. No ano passado gastou R$ 45 mil apenas. Torna-se assim modelo para o Estado, quem sabe ao Brasil. Basta comparar com Santo Ângelo, cidade do mesmo porte e igual número de vereadores. Lá foram destinados R$ 308 mil a diárias em 2014. Isso é sete vezes mais.

    Eu incluo nesta faixa das boas notícias a frase bombástica do vereador Osório Antunes, ao afirmar na Rádio Noroeste que não concorre a prefeito porque (se não eleito) perderia o assento na Câmara. E por consequência, o salário. Sei que “apanhou” bastante por dizer isso assim, na lata. Ora, estava apenas fazendo uso da verdade (Sem me alongar em análises, ok?). Os críticos de plantão apontaram o dedo justamente porque ele diz a verdade! Eis uma característica que precisa voltar a fazer parte do dicionário político: verdade.

    Não vamos salvar o Brasil em um ou dois anos, mas podemos mudá-lo aos poucos para entregar aos nossos filhos e netos uma Pátria bem mais justa e honesta. Aos poucos, nessa nhaca toda, nesse lamaçal, há indícios que renovam nossas esperanças... E a gente sabe que apesar dos muitos entes que legislam em causa própria, é preciso continuar o Brasil sem eles.

  • sábado, 26 de setembro de 2015 02:17

    A cena da semana

    A cena da semana poderia ser o elefante envenenado para roubarem as presas, ou poderia ser a morte de 700 peregrinos pisoteados em Meca, ou as intempéries que atingiram o Rio Grande no seu dizer “bem-vindo primavera”. Poderia ser qualquer uma delas.

    Poderia, mas a minha cena da semana é a Brigada baixando a lenha nos professores durante o ato em Porto Alegre.

    Não quero adentrar no pantanoso terreno do mérito legalista dos soldados que cumpriam a ordem profissional. Estavam lá para isso (para não deixar os manifestantes ingressarem no prédio). Estavam lá por ordem dos superiores que, por sua vez, respondem ao Governador do Estado. A simples lógica remete à conclusão que quem baixou a lenha nos professores não foi a Brigada, mas sim, quem a tem na mão.

    É verdade, os brigadianos apenas agiram porque o movimento estava emparedando o aparato de segurança! Sinceramente, eu vi bem mais que isso. E vi também a ruína da civilidade e da humanidade. E não pensem que não vi os comentários na rede social em posicionamento favorável aos mandatários.

    É evidente a qualquer gaúcho que o CPERS e boa parte do movimento sindical dos trabalhadores têm um alinhamento político com o PT. De certa forma, era sim, um protesto político. Mas também era um protesto social. O que não se justifica é a pancadaria. E também não se justifica a defesa do exagero.

    Sim, porque depois, a pancadaria verbal correu solta na internet.

    A cena da semana envergonha o Rio Grande, muito embora os defensores do “desce a porrada” pensem o contrário. Envergonha porque quando chegamos ao ponto de agredir professores e servidores que protestam estamos dizendo a todos “eles não têm valor algum”. Estamos dizendo aos estudantes “podem xingar, podem ser estúpidos, podem ridicularizar os educadores”.

    Aplaudiu um grupo que não vê mais professores. Aplaudiu um grupo que os vê apenas como petistas empunhando bandeiras do CPERS. Aplaudiu quem quer ver a população cada vez mais inculta (sem educação), sem capacidade de perceber as várias faces da mesma moeda, no mesmo jargão de sempre “quando mais burro, melhor”.

    Aplaudiu quem não precisa ter o filho em escola pública estadual para ser instruído por professores mal pagos e que além de ganhar pouco, têm salários parcelados... Aplaudiu quem ganha R$ 2 mil ao dia ao passo que um educador ganha isso num mês. Ah, claro, se não quer trabalhar por este salário, que caia fora!!! E se caírem fora, quem vai dar aula para os filhos dos pobres?

    A cena da semana deveria ficar um mês rodando sem parar na Tv, exibida em todos os jornais, circulando na internet como forma de dizer: “assim valorizamos os profissionais que educam seus filhos”.