• sexta-feira, 3 de agosto de 2018 15:43

    Uma leitura sobre Rosa Santa

    Em dias de Feira do Livro tenciono provocar a uma leitura divergente sobre a Santa Rosa que cultuamos.

    Amo a cidade, não tenha dúvida, leitor. Estou há mais de 30 anos radicado cá e, provavelmente, jamais a deixe. Porém, tal qual o menino que aprende a andar de bicicleta e rala os joelhos, também eu, volta e meia, me machuco ao ir por novos caminhos e descobertas.

    Acompanhei na semana passada uma fala da promotora Ana Paula Mantei e outras profissionais do Fórum que esclareciam dúvidas sobre adoção. Éramos umas 30 pessoas no evento, praticamente todos de classe média/baixa, o que me leva a deduzir que ricos têm restrições quanto a adotar crianças.

    Escrever que adolescentes são ignorados na fila de espera é bater na velha tecla. Em Santa Rosa há cinco meninos e meninas entre nove e 15 anos que esperam uma família que aceite abrir-lhes as portas. Ninguém os quer. São crescidos, dão mais problemas, vão testar os limites, etc. e tal. É a cruel verdade. O nosso amor não resiste a essas lutas!

    A leitura dos cadastrados de Santa Rosa traz dados interessantes, como, por exemplo, a informação de que mais de 50% dos futuros pais e mães adotivos não aceitam criança negra. Sei que a promotora não colocou desta forma, mas eu extraí a ducha de água fria daqueles números que ela lia. Isso nos mostra muito bem como somos.

    Em tese, queremos adotar, mas tem que ser criança pequena, bem pequena, e branca. Deus me livre criar um menino negro. Bah, Clairto! É verdade, ora. Dizemos que não somos preconceituosos, mas na primeira leitura social que fazemos vai aparecer que negros e pobres não são bem-vindos à nossa mesa.

    Insisto. Não querendo falar, mas falando, não havia casais ricos na sala da promotora naquela noite. Por quê? Não é demagogia minha, nem provocação a embate social, mas adoção vai bem além da filantropia que tanto amamos apregoar como fruto nosso.

    Será que algum dia realmente aprenderemos a amar? Será que compreenderemos a essência do Criador e seremos merecedores do Seu amor?

    Por “falar” em tema social, já aproveitem para pensar na campanha de incentivo ao aleitamento materno que o Ministério da Saúde irá promover nas próximas semanas. “Me diz”, para quê?

    Não adianta incentivar a amamentação se a mulher tem que voltar ao mercado do estresse (trabalho) quatro meses depois do parto. Não há leite que resista!

    É demagogia isso!

    Ah, sim, boa Feira do Livro a todos nós. Vá lá adquirir meu livro “Vento Castelhano” e outras obras de autores locais. A Editora Café Pequeno tem várias dicas.

  • segunda-feira, 23 de julho de 2018 08:42

    Com quais marcas viveremos

     

    Não é uma crônica sobre a Copa em si, tampouco sobre a política, mas sobre a gente.

    A Copa da Rússia findou, mas deixa alguns traumas para nós brasileiros, a começar pela eliminação “inesperada” contra a Bélgica. Mais ainda porque não superamos o mal-estar daquele 7 x 1 contra a Alemanha. E, seguramente, jamais superaremos.

    Nós, eu e você, temos em nossas almas algumas marcas que são verdadeiras pedras de tropeço, dores que atrapalham o caminhar e nos impedem de acessar o melhor que a vida oferece. Todos temos traumas, menores ou maiores, e demoramos a entender a melhor forma de lidar com eles. Uma nação também os têm.

    Observa os traumas futebolísticos que carregaremos para sempre, a exemplo do Maracanazo de 50 e a Seleção de Zico, Falcão, Sócrates e cia. Os ingleses têm aquela Copa de 86 engasgada, aquela perdida com o gol de mão anotado pelo Maradona. Outros países têm as suas também. E nós temos o 7 x 1, é trauma.

    Penso que Tite merecia mais; Neymar menos ainda. O craque mostrou em campo exatamente o pior dos nativos de nosso país, da mesma forma como o fizeram os torcedores brasileiros que estavam a passeio na Europa - que passaram uma péssima imagem ao mundo, como fanfarrões, imbecis e desprovidos de educação (ta, isso é outra história). Tite lidará com o trauma pessoal, nós com o da eliminação.

    Supervalorizamos o futebol. Supervalorizamos os atletas. Endeusamos. Daí, quando falham, nós nos abatemos enquanto torcedores e sofremos enquanto país. Que horror! São necessários vários anos para voltar aos eixos, como foi na década de 80, até 94.

    É igual com a política. Endeusamos homens como Terra, Bohn Gass, Vicini, Orlando e cia. Deveríamos antes erguer monumentos imensos a Felipe Streich (que criou a Ideal) e ao Pedro Carpenedo (Frigorífico) que legaram plantas industriais que hoje são responsáveis por milhares de empregos e sustentar a economia local. Esses dois (e outros) são imensos.

    Não estou menosprezando os políticos, apenas dizendo que os endeusamos demais, a ponto de deixarmos nossos destinos nas mãos deles. Eles falham. Eles anunciam mil e uma coisas que logo poderão ser traumas se não se concretizarem.

    Assim, temos os traumas nacionais na política que, por extensão, se alastram à economia. Apure os ouvidos e ainda ouvirá ecos de Getúlio, do golpe de 64, da morte do Tancredo, do impeachment de Collor e, agora, todo esse enredo Dilma/Lula.

    Talvez jamais encontremos formas de lidar corretamente com a história desses dias ou demoremos décadas para superar os traumas que estão no ar. Talvez fiquem no ar ainda mais “mentiras em tons de verdade”.

    A vida segue. Os traumas ficam. Precisamos aprender a lidar com eles.

  • segunda-feira, 11 de junho de 2018 08:13

    A cor dos dias

    Li um dia desses que as pessoas tendem a ser mais tristes no inverno porque a ausência do sol ou a constância de dias cinzentos arrasta os indivíduos à tristeza. Então, talvez isso justifique uma crônica que dribla entre a alegre poética e a melancolia.

    Mas discordo dos estudiosos, eu adoro dias de chuva, dias de garoa, dias cinzentos, e não sou triste. A cor dos dias não pesa na minha alma. Pesa sim a falta de amor ao próximo ou a dor que vai na alma do outro quando a sinto.

    Não é uma crônica sobre o tempo, nem sobre a política que nos traga na podridão desses dias lamacentos. É sobre a vida, sobre as buscas nossas e o quanto nos importamos com o sem importância. Ou sobre como alimentamos nossos pássaros.

    Na semana passada a Dé me chamou para falar de sua amiga que acabara de perder a filha pequena. Que dor! Inimaginável. Tanta que a sentimos em nós, sofremos. Ela colheu uma dor para a vida toda. Eu não saberia o que lhe dizer hoje, apenas que depois da dor ela precisará pintar outras telas.

    É o oposto da alegria que sentiu o Henrique Scalco ao escalar o Everest, e por extensão todos aqueles que o amam e o cercam. Eles tocaram o céu. Eles colheram raios do sol para estampar as paisagens para sempre. E estão alimentados, se quiserem, até o fim dos dias.

    Noutro dia eu chegava de ônibus a Santa Rosa. Lá na rodoviária ouvi a mensagem do Mauri Carlos a anunciar no sistema de som a origem de quem chegava. Que simples, e que mágico aquilo, que encantador, tão profundo para quem está conectado à vida.

    Os governos não escreverão nossas histórias pessoais, eles, no máximo, serão responsáveis por melhorar nossas condições de vida. O resto é com cada um. Nós escreveremos nossas próprias histórias e colocaremos nelas as cores que pudermos e escolhermos. Escolho gostar de dias cinzentos, ciente de que o sol está ali, ainda que invisível.

    Tem gente que há de amar mais os cães e os gatos que as pessoas e outros que irão se juntar ao redor do fogão para torrar amendoim ou comer pipoca com melado entre amigos e amores.

    Ame, que é tudo que te resta, porque quanto nada surtir efeito, somente o amor colorirá os dias. Ame pai, mãe, irmãos, amigos, com o fundo da alma. E seja um pouco cão, ame sem fazer muitas leituras, porque esse é o amor que sabe perdoar.

    Ame. Esse amor colorirá teus dias.

  • sábado, 2 de junho de 2018 11:47

    A volta dos militares ao poder

    Desde o ano passado, quando a candidatura de Bolsonaro à presidência da República ganhou força, há grupos ativos que associam sua figura ao militarismo e que clamam para que os milicos retomem o poder.
    Ainda que sejam, majoritariamente, jovens alinhados à direita e saudosistas envelhecidos, é preciso admitir que produzam ecos em seu movimento, como se viu no alinhamento à paralisação dos caminhoneiros, ao qual os “nacionalistas” se juntaram.
    Não sou favorável a um governo militar, especialmente, pelo cerceamento das liberdades individuais. Porém, se esses grupos têm conseguido milhares de seguidores em todo o país, a ponto de gritar alucinadamente na porta dos quartéis, é preciso, pelo menos, dar-lhes ouvidos.
    Quem pede os milicos de volta ao poder está dizendo o quê? Em tese, está a clamar por um país sério, que seja honesto, que tenha ética na política, que ofereça segurança ao cidadão e esteja livre dos políticos corruptos que nos afundaram nesse mar de lama (claro, que fazem ouvidos moucos à tortura, prisões e outras).
    Tudo isso, que é decente, eu também quero. É o sonho de qualquer cidadão que paga os impostos e se vê achatado dia após dia. Porém, nem todo o caos é problema da democracia. O que está claro a todos os brasileiros é que o modelo republicano atual não serve, porque foi construído para uma classe de privilegiados que governa a seu bel-prazer.
    A violência não nasceu na democracia. Estava aí, mas foi agravada pela ausência do Estado. A corrupção está no brasileiro, desde sempre, porque o jornal francês Le Monde expôs milhares de casos de desvios de recursos públicos durante o regime militar (é, até eles, os milicos). Sem contar as pensões, aquelas.
    Não quero a intervenção militar como forma de governo. Não. Estou muito bem com minha pobre liberdade.
    Porém, confesso que o povo brasileiro perdeu uma grande oportunidade de sacudir esse país. Faltou dar apoio aos caminhoneiros. Era a hora exata para derrubar o governo mais impopular da história.
    Não quero a intervenção, não como figura que fique no trono de governo, mas comemoraria se nesse instante houvesse uma dissolução geral do Congresso e do Senado até o final desse mandato.
    Quem está nas ruas pedindo a volta dos militares ao poder não quer que eles mandem “na ponta do coturno”. Quem está nesse bloco apenas não quer mais ser mandado pelos 513 parlamentares e meia dúzia de senadores que fazem o que querem e riem de nossa miséria e inércia.