• sexta-feira, 24 de julho de 2015 13:26

    A paz é uma piada de mau gosto

    O Noroeste Debate deste sábado foca a paz. Eu lanço meu ponto de vista, meu argumento inicial: não creio que a paz seja algo possível ou alcançável.

    Qual é a raiz dos escândalos das empreiteiras? Ou dessa operação local que investiga superfaturamento em reformas de máquinas? Ou desses supersalários pagos pelo Estado que sangram as contas públicas? Ou dessa onda de CPIs lançadas pelo Cunha para derrubar a presidente? Ganância. Olho grande. Grana. Ter grana é ter a chave desse céu chamado terra.

    Na raiz de tudo está nossa alma de Caim. Queremos para nós, apenas para nós. O outro que se ferre, que se lasque, que passe fome na esquina. Enquanto eu estiver na proteção do meu apartamento “estou nem aí” para os 30 assassinatos ocorridos em Manaus em apenas seis horas. Isso é guerra! É guerra porque o Estado já perdeu a batalha para o tráfico, como ocorreu no México e na Colômbia.

    O que pensa um pai de família ao receber R$ 1 mil por mês e ver manchetado em jornais que certos funcionários públicos do Rio Grande Amado do Sul ganham R$ 68 mil de salários mensais da CEEE e outras estatais? Perto desses “sortudos”, o salário dos vereadores é piada. É essa injustiça social que vai se traduzir na guerra da esquina, que vai fomentar o ódio.

    O bolso em primeiro lugar. Poucos ainda dão bola ao bom nome, ao ético, ao justo. Vale é ter grana na conta, vale tudo para lucrar. A nossa operação lava-jato, essa que está na mesa do promotor Manuel Figueiredo Antunes, que encontrou indícios de superfaturamento em contratos com as prefeituras de Santa Rosa e Horizontina no reparo de máquinas, essa não foge à regra. O nome disso é ganância. E gente assim é capaz de tudo, é tal qual o traficante, o bandido que assalta banco.

    A política nacional nos mostra exatamente como a paz é possível. Na hora em que mexeu na fatia do bolo do Cunha e dos seus amigos, a resposta foi a instalação de 11 CPIs contra a presidente Dilma. Nada há de social aí, nada é pelo povo. Nada há de comunitário nos avanços propostos. Há uma guerra política que implode o País (e que continue assim, a imprensa agradece!). Ganância, poder.

    No meio disso tudo, sobra crer na Justiça como elo reparador de equilíbrio. Mas até mesmo o Judiciário tem legislado em causa própria, aumentando salários e concedendo mordomias que ofendem o trabalhador, aquele que ganha R$ 1 mil ao mês. Porém, ainda é nela que o cidadão se esteia. E quando as varas judiciárias estão mega-híper-super abarrotadas de processos é porque a justiça social e a dos indivíduos falharam. É porque a ganância comeu a paz.

    Sou cristão. Acompanho com tristeza o agravamento das lutas sectárias nascidas no seio da religiosidade. A paz de Deus morreu nos homens. Nunca aprendemos a conquistar o outro pelo amor. Queremos impor nosso certo. E impor é subjugar. É sangue, é guerra. Nunca entenderão que Céu ou Inferno é arbítrio. Escolho eu. A nós cabe instruir. Só.

    Sou cristão. Sei que a paz, essa, almejada pelo homem, não é possível. A Bíblia nos diz que a paz virá nos destroços, no Vale de Megido, uma paz de mil anos. Até lá, reinará a ganância. Por isso não creio que a paz seja algo possível ou alcançável, mas eu a semearei porque em meu arbítrio optei pelo amor.

     

     

  • sexta-feira, 17 de julho de 2015 16:03

    Eu queria abrir uma farmácia

    Enquanto a Unijuí briga e esperneia por perder o curso de Medicina, faço planos para abrir uma farmácia. Talvez para vender colírio.

    Somos cegos quando nos é conveniente. E nessa imensa gelatina social, o que menos importa é colírio. A crônica era para ser a respeito dos índios que vivem alojados no entorno do Trevo do Porco. Vivem, sim. Vivem porque ficam alguns meses, saem, e depois voltam. A crônica era para versar sobre as condições precárias, inexistentes, degradantes a que estão expostos os donos reais do Brasil.

    Mas resolvi escrever sobre a cegueira nossa de cada dia, essa que nos faz passar cotidianamente ao lado daquelas lonas plásticas pretas sem ao menos nos perguntarmos: estão bem? Na visão a que estão acostumados, se lhes perguntarem, eles dirão que sim. Mas, estão bem?

    Há alguns dias escrevi uma crônica sobre a vinda dos haitianos ao Brasil. Levei “um pau federal” de um leitor que discorda do meu ponto de vista. Segundo ele, devemos fechar as portas do País a esta “invasão”, afinal sequer temos empregos ao nosso povo. Talvez o moço devesse acessar algum site para se inteirar sobre a realidade do Haiti nos dias atuais, a miséria, a guerra entre gangues e a pestilência. Sem colírio, nem adianta acessar sites mesmo.

    A dor dos outros não dói nesse moço. O que me diria ele sobre os gaúchos que estão acabando com a floresta da Argentina (Missiones) e do Paraguai para plantar soja ou fumo? O que me diria a respeito dos brasileiros que usam coiotes para entrar nos Estados Unidos ou pagam fortunas por passaportes para a Europa? Diria que eles devem ser presos e mandados embora porque buscam uma vida melhor?

    Mas somos cegos apenas quando nos é conveniente. Tanto faz os mendigos em nossas praças, os presídios com gente empilhada feito lixo, as crianças prostituídas nas periferias. Tanto faz. Tanto faz que os índios estejam ali no trevo. Tanto faz que façam as necessidades no mato, que mal tenham água, que fiquem semanas abaixo de chuva (como nestes últimos dias).

    Tanto faz, afinal colírio custa caro e não nos sentimos doentes para que precisemos usar o líquido que limpará nossos olhos. Afinal, como diria meu leitor que não suporta a invasão dos haitianos, eles, os índios, estão ali porque querem... É verdade. Mas não estaria na hora de o poder público fazer algo mais?

    No começo eu me incomodava com as lonas pretas e aquele monte de lixo que fica exposto na margem da rodovia. Isso foi antes do colírio. Agora me entristeço com as condições de vida daquela gente. Melhor não colocar estrutura para eles, diria aquele leitor, porque daí bem que eles acampam eternamente ali. Mas eles vão e voltam, voltam e vão... Por que não garantir um piso cimentado, uma casa de moradia, umas barracas de artesanato, alguma estrutura básica?

    Somos cegos enquanto não fazemos perguntas difíceis de responder. Somos cegos enquanto aplaudimos a Unijuí perder o curso de Medicina para forasteiros. Somos cegos porque não nos ousamos pensar: por quê? Somos cegos quando nos é conveniente. E somos todos sábios quando usamos o pensamento pronto, enlatado, confortável. Somos todos sábios com as barrigas cheias, sem a dor dos outros a nos incomodar.

    Eu gostaria de vender colírio. Mas eu não vou abrir uma farmácia. Não enquanto Deus me der a palavra e com ela eu souber produzir algum elixir.

  • sábado, 4 de julho de 2015 08:48

    Acho que estou ficando velho

    Acho que estou ficando velho, ou estou com saudade do tempo em que tínhamos algumas certezas.

    Penso nisso enquanto concluo o livro biográfico do prefeito Anacleto Luiz Giovelli, ele que reúne amigos, amanhã, no Parque de Exposições para celebrar seus 80 anos. Admito, conheci um gigante. Não é em vão que sempre adicionem a palavra prefeito ao seu nome, como se fizesse parte do próprio nome: prefeito Giovelli. E cada vez me lamento mais que nós, a geração que tem a minha idade ou menos, ignoramos os vultos que construíram Santa Rosa e os seus feitos.

    Ah, sim, a crônica é sobre a velhice. É não! É sobre valores. Não que o Anacleto esteja velho, porque facilita está melhor que eu em vitalidade. Mas, são 80 anos nos ombros. Quanto temporal esses olhos já viram e quantas léguas andaram seus sonhos! Pensava eu em quantas mudanças culturais, sociais e de valores referenciais do ser humano ele já presenciou e às quais teve de se adaptar. Pensava nisso, e em como é difícil manter convicções nesse mundo de gelatina dos nossos tempos.

    Até alguns meses, quando Giovelli adentrou ao Jornal Noroeste para “hablar” sobre a possibilidade de ajudá-lo a escrever um livro, nunca conversáramos. Sabia que foi prefeito. Quase nada mais sabia, nem da sua personalidade, nem da história de vida. Mas bastaram algumas poucas prosas, em semanas de convivência, para que me desse conta que estava diante de um “cerne do Cerne”.

    Quando escrevo que estou ficando velho é porque tomei por empréstimo alguns dos pensamentos que ele expôs em meio às entrevistas na montagem do livro (em tempo, tenho de agradecer ao Wilson, da Gráfica Coli, pela eterna mão). E, enquanto o Anacleto destrinchava o verbo, assim, no más, percebi que já escrevi colunas sobre esses temas, com olhar semelhante. A questão toda é: precisamos ter valores ou afundamos nessa nhaca gelatinosa que nos sufoca. E de onde eles virão? Família, escola e igreja.

    Vou deixar algumas frases do Anacleto... ta, são minhas também... Ah, antes de ser prefeito ele foi professor em escolas rurais, diretor, coordenador regional de Ensino, secretário de Educação e Cultura, professor universitário, e assim segue o currículo.

    “A figura do professor, hoje, é pouco valorizada. No contexto em que atuei, o educador era o líder máximo das comunidades, referência e autoridade”.

    “Hoje há direitos demais e deveres de menos, de modo que se estabelece uma relação que sempre favorece o infrator. Isso atinge frontalmente a Escola e o professor, e claro, por via indireta, a família e a sociedade”.

    “Após tantos anos no magistério, após acompanhar as mudanças sociais, vejo que as alterações não produziram o efeito esperado. Hoje os professores não possuem autoridade e nem são respeitados. É preciso voltar a ter linguagem comum entre a escola e a família, centrada em valores que permitam ensinar e educar. Não pode a escola ensinar e educar. São conceitos diferentes e a família não pode abrir mão de sua parte no processo”.

    Está dito! Se pensar parecido é estar ficando velho, então estou ficando velho!

  • sábado, 27 de junho de 2015 10:23

    Tudo acontece no Bela Vista

    “Tudo acontece em Elizabeth Town” é um filme maravilhoso, com roteiro bem acabado e que principia sobre como reagir a um grande fracasso. Na verdade a um retumbante fracasso. E claro, é sobre o amor também.

    Esse título me veio à mente quando eu pensava no embate travado pelos moradores do Bela Vista com a Prefeitura por conta daquela ponte que a chuva levou no ano passado. Sim, é o Bela Vista (jardim ou loteamento). O nome foi escolha do Guidolin, do Benaldo Liberalli e do Claudio Carmargo porque dali se vislumbra o centro da cidade em paisagem de encher os olhos.

    O projeto do loteamento era ousado. O prefeito Erni Friderichs morou lá. O Vicini tinha terrenos lá, sem contar tantos outros proprietários afamados que foram atraídos pelos lotes grandes e a proximidade com a sede campestre do Clube Concórdia. O que era para ser um condomínio fechado isolou tudo e a má fama pegou, pegou tanto que ficou por muitos anos.

    Um filme sempre tem um episódio que desencadeia todos os demais. No caso deste “Tudo acontece no Bela Vista” não sei exatamente quando começou a sucessão de cenas negativas. Talvez lá na origem, quando prometeram um anel rodoviário que cruzaria ali, ligando a AGCO e o Distrito Industrial com Cruzeiro (que até saiu o empreendimento, mas em outro traçado). Ou se foi quando fizeram o Jardim Ouro Verde e este se tornou o xodó das pessoas abastadas, algo como é hoje o Esplanada.

    Ou se foi quando assassinaram em sua casa o empresário Gerson Lunardi e aquele episódio ficou meses latejando na imprensa. Ou se foi quando arrombavam algumas casas por semana. Ou se foi quando a Bela Vista Empreendimentos quebrou. Ou se foi a demora em construir o calçamento da ligação Bela Vista ao Ouro Verde, que demorou séculos para ser concluído (e foi igual como a outra ponta, a que liga à Planalto).

    Bem, não há mal que dure para sempre, diz o ditado. Um dia a urucubaca passa. Um dia... Porque o martírio daquele povo segue. A escola nova do Bairro Planalto foi parar na Justiça antes mesmo de a obra iniciar. A ponte que encurta o caminho ao centro, caiu, desabou. E os prédios recentemente entregues pelo Minha Casa, Minha Vida exalam um mau cheiro que não tem explicação (e não tem quem assuma solução definitiva para tanto fedor...).

    Morei muitos anos no Bela Vista. É um lugar maravilhoso para se viver, especialmente pela área verde que circunda o Rio Pessegueiro que ali ainda tem águas limpas e adequadas a banhos. Os seus moradores, sempre à margem de respostas do poder público, se habituaram a construir alternativas. Esse micromundo é tão diferente que mercadinho não sobrevive naquela ilha urbana, de modo que os vizinhos ainda emprestam erva, açúcar e alguns ovos. Ah, e tem a Arlise Callai que briga sozinha mais que os 15 vereadores, se bem que ela tem alguns assessores.

    Não moro mais lá, mas meu mano sim. Sei o que se passa por aquelas bandas. Então, quero dizer aos belavistenses que mantenho o espírito romântico. O filme “Tudo acontece em Elizabeth Town” tem final feliz. Por isso é de imaginar que isso também possa ocorrer após as muitas cenas entristecedoras do nosso filme local...