• domingo, 10 de janeiro de 2016 00:33

    O “S” tem que ser social

    Acompanho cá e lá as informações sobre a reestruturação que iniciou no SESI já faz algum tempo, acelarada nos últimos meses. E não posso deixar de escrever que ela me frustra.

    Se é verdade que faltou água aos Bombeiros ao atender uma ocorrência no feriado, o que já uma questão gravíssima, também é verdade que foi um lapso que certamente tem explicações técnicas, muito embora nem sempre toleráveis. Ainda assim, é um incidente, grave sim, mas não intencional.

    No entanto, a reestruturação do SESI é intencional, de modo que vem de um planejamento. Logo esta entidade que se constituiu, por muitos anos, em espaço central de convivência, lazer e cultura em Santa Rosa. E se afasta desse princípio, do S social. Quem vive ou viveu na cidade nas últimas décadas certamente terá alguma ótima lembrança de eventos festivos, campeonatos ou uso das dependências. Era um segundo coração do município.

    Aos poucos, mais recentemente, houve um distanciamento, um isolamento que vai além daquela muralha de concreto que levantaram ao redor da instituição. A comunidade cada vez mais longe, os serviços cada vez mais restritos, ao contrário do que faz o SESC que tem se tornado casa que acolhe a todos, especialmente no que tange a lazer e cultura.

    Há meses circula a informação, inclusive com envio de documento da Câmara de Vereadores às entidades, que o Governo Federal pretende acabar com o Sistema S (SESI, SENAI, SESC, etc). O assunto não é novo, se arrasta há décadas, sob o argumento da autossustentabilidade ou falta de recursos governamentais para dar suporte às ações.

    É verdade o fato. Mas nem tudo é questão de grana. A reestruturação em andamento vai além, é mudança de planejamento estratégico interno. O S do SESI acabará por perder seu sentido se deixar de ser social. A cidade não precisa da entidade somente para fazer qualificação de mão de obra, precisa dela para alcançar lazer e cultura, ensinar crianças e adolescentes caminhos que não sejam apenas produzir, produzir e produzir.

    Os melhores reflexos do SESI sempre foram os campeonatos que promoveu, a Orquestra e o SESI Show que é o celeiro de dezenas de ótimos músicos e artistas, alguns deles atuando em grandes bandas profissionais. E até este grupo está com os dias contados, ao que se conta. Nessas horas, penso que o Guidolin e o Anacleto, que tanto lutaram para trazer a Instituição a Santa Rosa, não devem estar felizes com os rumos que se desenham.

    Os mesmos empresários e sábios que comemoram o ajuste fiscal do Estado mediante o aumento de 1% no ICMS se posicionam contra a CPMF, o que é uma incoerência. Assim é incoerente ser S social e projetar o futuro sem ser social.

  • terça-feira, 29 de dezembro de 2015 08:12

    Torres para o Natal

    Há algumas semanas medito sobre o agigantamento do Natal. E das cidades também. E o nanismo do amor a Deus...

    É um paradoxo. Da janela do estúdio da WebTvSul que dá fundos à Avenida Santa Cruz observo mais claramente a cidade enquanto o ribombar de um trovão sacode a tarde plúmbea. Assim que os olhos se habituam aos relâmpagos deslindam outras imagens, especialmente, colossais gigantes de concreto e aço que são rapidamente erguidos na Cidade Velha, em todas as nobres esquinas onde ora havia um casarão dos pioneiros.

    Não gosto do que vejo. Não pelos prédios em si, afinal, nada tenho contra o progresso (desde que civilizado). Meus olhos tão acostumados a reler tudo, o tempo todo, logo percebem que há mais gigantes disputando o mesmo espaço, disputando para ver quem se eleva sobre toda a paisagem, rumo às nuvens. São edifícios, são antenas das empresas de telefonia e as torres das igrejas construídas há décadas, no tempo em que a cidade se projetava ao novo centro.

    Este ano, fomos várias vezes a Boa Vista do Buricá, cidade que nos acolheu com projetos da Editora. Lá, a torre da igreja matriz é (e certamente, por muitos anos será) o ponto que se sobressai em meio ao concreto das casas e prédios. É a referência. É o orgulho. E já foi assim em Santa Rosa, porque as torres das igrejas ou seus campanários eram divisados a quilômetros de distância, um coroamento à majestade de Deus.

    Dali, do alto da WebTvSul, me dou conta que elas desaparecem em meio aos prédios gigantes e antenas de telefonia, engolidas nesse crescimento acelerado que Santa Rosa faz para o alto, na ligeira verticalização. Para cima, para cima, para as nuvens, que é tempo de fazer dinheiro.

    As torres foram engolidas pelo cimento e pelo concreto, e penso que isso ocorre com a nossa fé. Se Deus é imutável, o sentir do homem não é. A fé de outrora não é mais a mesma. Pela fé de outrora se pedia paz nos tempos de Natal. Hoje, no Natal que compramos de Hollywood (inclusive com neve em nosso verão), todos pedem presentes.

    Apequenam-se as torres das igrejas frente aos gigantes de ferro e cimento. Agiganta-se o mercantilismo. Vence o materialismo sobre a fé que se espreme para sobreviver, para manter seu encanto, para manter sua imponência e seu lugar. Então, com tudo aquilo que não se vende ou se compra, eu te abraço, querido leitor, neste Natal.

  • segunda-feira, 21 de dezembro de 2015 08:27

    É só mais uma vez

    Em viagem, nas férias, percebi como as notícias chegam sem efeito, passam em branco por nós, como se nada nos dissesse respeito.
    Estava em Santa Catarina, abri o site do Jornal Noroeste, estava lá a tragédia: uma morte em acidente de trânsito em Santa Rosa. Visitei outro portal regional e li que uma criança de quatro anos falecera na queda de uma árvore. Comentamos o assunto, em um grupo de quatro pessoas por alguns segundos. Não mais que isso! E logo voltamos às trivialidades da net e da TV ligada.
    É só mais uma vez. É só mais uma notícia que se repete.
    Quando chegávamos a Santa Rosa na manhã de segunda-feira nos deparamos com o cenário de árvores, postes de rede elétrica e outdoors caídos. Ruas interditadas. Água batendo na caixa dos rios. Juro, eu via toda a destruição e, aflito, pensava no meu galpão (onde moro), se estaria intacto, etc.
    É só mais uma vez. É só mais um temporal que se repete.
    Liguei para minha mãe, informei que chegáramos bem... E ela falou sobre a sua casa invadida pela água, sobre os casais de vizinhos e parentes que estavam lá para auxiliar na limpeza. Sem maiores detalhes, apenas isso. Preocupados, tentamos ir até a Vila Flores. Ficamos no caminho, barrados por árvores caídas e ruas interditadas. Tomamos o rumo de nossa moradia. Ufa! Tudo em pé, tudo certo!
    Acompanhava pela internet: 65 famílias desabrigadas, 16 mil residências sem luz, toda a cidade sem água (e sem previsão de retomar o fornecimento). Fotos da baixada da Avenida Borges de Medeiros com tudo em baixo de água (como se nenhuma das empresas que fez aterro nas imediações do Rio Pessegueiro tivesse nada a ver com a inundação). Fotos da ponte do Bela Vista e do que sobrou dela depois da enxurrada. Fotos do Exército ajudando famílias.
    Até aí era só mais uma vez. Era só mais um temporal que se repetia.
    Quando o Rio das Antas baixou, no final da tarde, voltamos para a cidade, à casa da mãe. Um filme de terror! Lama dentro dos cômodos e nos móveis. Não por transbordo do Rio Pessegueirinho (fica longe), mas porque a Rua 10 de Novembro virou um mar de barro e jogou tudo dentro da casa da Dona Cláudia e de outros vizinhos. Sofá, balcão, estante, guarda-roupa, portas, máquina de costura, cozinha, tudo para jogar no lixo...
    Aí deixou de ser apenas mais uma notícia. Aí não era apenas outro temporal. Aí bateu em mim, era dentro da minha vida, dentro do meu coração. E doeu, e veio a ira, e veio tudo à boca com a mesma fúria do rio transbordando.
    E me dei conta que a morte no acidente, a criança trucidada pela árvore, a inundação, tudo isso não nos afeta mais, tal a quantidade de informações que consumimos, tal a velocidade com que a notícia nos impacta. É tudo tão rápido nesta era da TV digital e da Internet que mal sentimos a dor e ela já passou. É assim mesmo! A morte de hoje será substituída por um evento amanhã, ela sequer chega a nos afetar, a nos atingir verdadeiramente...
    Só quando a água invade nossas casas é que sentimos a dor, porque é à nossa porta. E vemos quão frágeis somos!

  • sábado, 12 de dezembro de 2015 09:17

    Janela ao retrocesso

    Uma viagem pode encantar ou assustar. No meu caso, no mínimo, o passeio me deixou preocupado. Nada que já não soubesse, porém, contra as imagens que nossos olhos colhem não há argumentos.

    Estamos na praia com alunos e professores da Escola Giordani, da Planalto, em Santa Catarina. Viagem longa, de lindas paisagens a apreciar. E impactante ao jornalista habituado a olhar duas vezes para todos os elementos que compõem a paisagem.

    O choque veio através das janelas do ônibus e das muitas impressões que ainda tenho das viagens recentes pelo Rio Grande do Sul. Sabia que nós, rio-grandenses, estávamos atrasados, empobrecendo, porém, não pensava que estávamos parados no tempo ou em franco retrocesso.

    A riqueza do Rio Grande deve trotear sobre lombos de cavalos, como a nordestina anda sobre lombos de jumentos. A catarinense é movida de forma mais rápida que isso, talvez sobre rodas.

    Mas, também, a nossa nem tem como se locomover mais depressa, porque as estradas não comportam deslocamentos como aquele próximo a São Martinho ou aquele de Ijuí a Júlio de Castilhos. Há trechos cada vez piores em nossas rodovias, ainda temos municípios sem acessos asfálticos e eternas promessas que apenas se renovam a cada quatro anos.

    Até quando uma economia rica como Horizontina vai permanecer refém de uma rodovia ridícula como aquela que a liga a Três de Maio? Até quando pequenas cidades, como a minha Senador Salgado Filho, continuarão isoladas, ignoradas pelos governos? Até quando o Estado continuará a utilizar os impostos para pagar dívidas e juros abusivos a bancos que sugam nossas riquezas em vez de gerar progresso?

    A quem viaja pelo Rio Grande e depois se vai a Santa Catarina e ao Paraná, com tempo para olhar pelas janelas do ônibus ou do carro, fica evidente que a única coisa em movimento em nosso querido pago pampeano é o veículo a rodar sobre o asfalto quente. No mais, estamos parados, paralisados talvez.

    E vê-se que não paramos por conta desta crise nacional de agora. Paramos por conta de várias crises estaduais, das quais a mais emblemática é a política.

    Acho que estamos orgulhosos demais de nossas façanhas, de nosso passado, atados à dualidade Gre-Nal que já impregna todos os setores de nossas vidas. Ou somos contra ou a favor. E para piorar, nunca entramos em acordo. Preferimos fomentar o separatismo a provocar elementos de união. Assim, a cada quatro anos recomeçamos tudo, politicamente.

    E tome retrocesso outra vez.