• sábado, 12 de março de 2016 08:49

    Não há mais jovens?

    Onde estão os jovens de outrora, aqueles que marchavam nas ruas exibindo cartazes? Não há mais jovens? Não há mais sangue nas veias? Não há mais pelo que lutar?

    As respostas a estas perguntas ajudariam a entender melhor este Brasil sacudido pelos fatos destes dois últimos anos. O silêncio dos jovens constrange, porque eles não estão apenas dizendo “xô política podre”, eles estão dizendo “nada importa”.

    A geração cresceu sem a ameaça do mango da ditadura, sem inimigos e com todas as liberdades, menos a liberação da maconha. O sexo é livre, votar se pode aos 16, assumir a condição sexual é menos traumático e quase todas as tolices caíram por terra. Ficou mais fácil ser jovem. E veio o ostracismo.

    O dinheiro não está mais ausente, o emprego nem tão complicado, não se precisa trabalhar aos 12 anos (como eu fiz), nem juntar cada centavo para pagar uma faculdade que mal garantia acesso ao Magistério. Ficou mais fácil ser jovem! A geração não precisou empunhar bandeiras, não precisou confeccionar cartazes, e quando o fez foi para exigir direito a usar o short curto.

    Penso nos jovens, porque vejo o chamado às massas para o movimento do domingo e lá estão os veteranos de outras batalhas. E alguns filhos deles. Acompanho a mobilização pelas redes sociais e percebo que todos os envolvidos estão na minha idade ou mais, os contra e os a favor do Fora 13. Há um vazio de uma geração inteira.

    Aos jovens, parece que não importa quem vai governar o País, quem estará no poder para fatiar o Brasil depois do PT. Os jovens têm o Face, o Instagram, o Whatts. Os jovens têm os youtubers para diversão e pais que pagam suas contas. Os jovens dormem em berço esplêndido como nunca dormiram antes. E tudo o mais não importa.

    E no final dessa leitura estamos nós, habituados à Regra do Jogo. As pessoas querem apenas viver em paz. As pessoas querem casa, TV e a comida para o mês. E um pouco de alegria. Por isso ainda vibram tanto com os times de futebol! As pessoas querem sossego e algo para se sentir bem. E é paz a palavra que não existe mais no dicionário de nenhum brasileiro há mais de um ano.

    Ah, sim, os jovens deveriam estar nas ruas no domingo, contra ou a favor do movimento. Deveriam estar para não sair de seus quartos daqui a 10 anos sem entender o que aconteceu. Deveriam estar no movimento para encerrar essa batalha que vem desde o início dos anos 90. Deveriam estar na rua para determinar a vitória, independente do lado que escolherem.

    Não sei se o governo cairá, se o PT se reerguerá ou se vão ser milhares de pessoas nas ruas no domingo. Sei é que eu sou brasileiro e quero paz.

  • sexta-feira, 4 de março de 2016 15:02

    O shortinho que realmente importa

    A discussão dos últimos dias foi o tamanho do shortinho das meninas do Colégio Anchieta. Eu li pelo menos 10 artigos sobre isso em dois dias em nossos jornais e sites. Será que nada mais há a discutir?

    Um passo para trás, vou puxar apenas três informações extraídas dos debates que promovo aos sábados de manhã na Rádio Noroeste.

    Faltam 13 bombeiros para o quartel de Santa Rosa, ou seja, falta um terço do efetivo. É óbvio que o trabalho vai atrasar em algum setor.

    Faltam 40% dos soldados ao efetivo da Brigada Militar no Município. E não é exceção no Estado. É regra! É evidente que teremos violência em alta.

    Dito pelo comandante da Brigada Ambiental: Entram agrotóxicos de uso proibido em nossa região. Crime duplo: contrabando e uso indevido.

    E você pensa em discutir o shortinho?

    No Noroeste Debate do último sábado trouxemos dados sobre o uso de agrotóxicos no Brasil. Vou traduzir o que se extrai da prosa: O Brasil é, atualmente, o país que mais usa agrotóxicos em todo o planeta. Porém, o Estado campeão é o Rio Grande do Sul. E, no território sulino, quem ocupa o topo do ranking? A região Noroeste. Ou seja, aqui somos campeões entre os campeões mundiais em uso de venenos na produção agrícola.

    Não se convenceu? Pois vou escrever de outra forma: produção agrícola significa cultivo de alimentos (soja, milho, trigo). Uma safra de soja leva 5 (cinco, five) aplicações de inseticidas, secantes e tais. Meus vizinhos fazem três safras ao ano. Então teremos 15 (isso mesmo, 15) aplicações por ano de produtos químicos. É mais de uma aplicação por mês. Acha isso razoável, amigo leitor?

    Então, aquele se sempre me joga pedras dirá: mas é necessário. Não é não. Em Giruá agricultores conseguem produzir com uma aplicação química apenas. Ah, sim, mas é na soja e no milho, e a gente não come isso... É verdade! A gente só usa o azeite de soja, come carne de bois, vacas e galinhas criadas com rações ricamente industrializadas com soja e milho.

    Clairto, tu és um mala! Sou sim. Os agricultores da região estão usando secante para acelerar o amadurecimento da soja, do trigo e do milho. Assim ganham uns 15 dias no ciclo final e podem fazer mais uma safra. Mata a planta, seca o grão. E aí, nada fica na semente?

    Vai ver que é coincidência que esta é a região no Brasil que mais usa venenos nas lavouras e está no topo nacional dos casos de câncer! Têm estudiosos da saúde pesquisando a relação neurológica entre casos de suicídio e uso de agrotóxicos em nossa microrregião...

    Por que discutir o shortinho? Porque precisamos encobrir os problemas reais, e nada melhor que uma maquiagem bem feita (ou um shortinho bem curto) para conseguir o resultado perfeito.

    Eu quero discutir o tamanho do shortinho, assim não preciso debater a coleta do lixo em Santa Rosa, como faremos no programa deste sábado.

     

     

     

     

     

  • sábado, 27 de fevereiro de 2016 11:41

    Os ETs de São Leopoldo

    Domingo de manhã é um bom dia para ler jornais. Acordamos renovados, cabeças mais leves e podemos degustar as notícias, ler as entrelinhas.
    Aí você abre o jornal Correio do Povo (online) no domingo de manhã e se depara com uma notícia mais ou menos assim: “moradores de São Leopoldo viram luzes estranhas no céu e ouviram sons enigmáticos ao amanhecer... Uma senhora disse que a grama do jardim está toda amassada”. Opa! Meia hora depois a notícia mais lida daquele dia havia desaparecido da capa, tão rapidamente como a nave. Que mistério!
    Entre um mate e outro, alcanço a mão ao lado, pego o Noroeste para ler a coluna do Beto Kieling (que não leio antes de impressa) e o tal do Bem-te-vi. Paro antes de chegar nessa página. Tenho de reler a notícia em que o deputado Jerônimo Goergen fala sobre a ponte internacional que não vai sair do papel, mais uma vez. Eu li sobre a inviabilidade devido o baixo fluxo de veículos. Eu não li, mas li, que estudos técnicos atestam que não há vontade política dos governos para que se concretize.
    Sábado, com Conselho de Trânsito, Secretaria de Mobilidade e Brigada promovemos um bom debate sobre os problemas em nossas estradas urbanas. Estamos, finalmente, evoluindo, segundo os dados apresentados pelo Capitão Anderson Foliatti. Boa notícia. Penso nisso enquanto saio da leitura do Kieling e acesso sites regionais, a essa hora com suas páginas invadidas pelo sangue das tragédias de pelo menos três mortes em poucas horas. Ainda teríamos mais três mortes no começo da semana. E aí o mate azeda, a saliva trava. A gente não lê, mas lê no vazio, que é álcool ou velocidade. Ou os dois juntos.
    Não foi no domingo, mas foi durante a semana, que uma criança de quatro meses foi arremessada pela janela do carro pelo padrasto. Isso ocorreu em outro planeta, claro. Sim, no planeta de Novo Hamburgo. Pior que isso, quando a multidão quis surrar o cara, a mãe pegou a criança e, diante de uma multidão estupefata, também atirou o filho no chão como a dizer “concordo com o meu macho”.
    Minha filha chorou no dia em que eu disse a ela: “teu pai vai ficar careca quando velho”! Não há como não ficar careca com tantas manchetes sobre Lula, FHC, Samarco e Petrobrás, tanta lama pingando em cada página que se lê. Lama e ódio. Na verdade, estamos carecas de saber quais são os trâmites e esperas, os tempos que ficaremos na fila até vermos os investimentos se tornarem realidade outra vez. A ponte é um estudo eterno. Como são eternas nossas esperanças no País do Futuro.
    ETs em São Leopoldo? Vai saber! Mas se chegaram à região e pousaram foi para beber água na torneira. Ou foi engano de endereço. Pelo visto, até mesmo eles já perderam o interesse por manter contato com nossa inteligência. ETs somos nós. Estranhos Terráqueos.

  • sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016 11:41

    Mais ciência, menos saúde

    As profecias asseveram que a ciência se multiplicaria e o amor esfriaria. Bem, chegamos a esse estágio. Sabemos mais, conhecemos mais, mas vivemos com medo da próxima peste. Ainda temos na memória o pânico mundial que se instalou quando surgiram casos da “gripe suína”. Eu lembro todas as cores daqueles filas que serpenteavam ruas ao redor do Centro Cívico, santa-rosenses apavorados diante do quadro tenebroso que se delineava. Logo, logo, será assim com o Zika Vírus se a coisa continuar no ritmo de descobertas científicas e alardes mundiais.

    Avançamos anos-luz. Mais ciência para diagnosticar antecipadamente as doenças e combatê-las ainda em seu estágio inicial. Isso é bom. É maravilhoso, eu diria. Ocorre que os cientistas usam as mesmas descobertas para trabalhar contra a vida. De que nos adianta buscarmos melhores resultados para combater o câncer se, ao mesmo tempo, estamos modificando os alimentos e animais, injetando corpos estranhos neles? Ou então, usamos para produzirmos novos e mais potentes agrotóxicos que chegam a nossa mesa em todos os alimentos que ingerimos. Mais ciência, mais casos de câncer a cada dia.

    O que rege a sociedade não é a ciência. É outra palavra bem parecida em sonoridade: ganância. Santos Dumont inventou o avião pensando no futuro da humanidade, nos progressos que o homem poderia fazer com esse aeroplanador. Uma década depois, estava deprimido, decepcionado ao extremo, ao perceber que sua invenção era usada nos campos de batalhas da Primeira Guerra Mundial para lançar bombas e dilacerar vidas.

    A ciência fez progressos imensos em poucas décadas, a ponto de os estudiosos aplicarem milhões de dólares em pesquisas sobre possibilidades de plantio no solo desértico de Marte. Que maravilha! Enquanto isso milhares de crianças morrem de fome todos os dias em países africanos, na Índia, na Síria. A ciência ainda não conseguiu produzir uma pílula que estimule o cérebro a amar o próximo.

    Eu tenho cá minhas dúvidas se o Zika Vírus não foi alterado em laboratório, mesmo que involuntariamente, a partir de alguma mutação genética. Os cientistas já mexeram no mosquito e vendem milhões de insetos “geneticamente modificados” para combater a dengue. E aí? Dá para confiar cegamente? Afinal, a pergunta que me faço com mais frequência é: o que não sabemos ainda? Sim, porque a cada dia lança-se nova informação negativa, a ponto de o Exército entrar na luta contra o pernilongo.

    Eu até gostaria de ver os militares na rua sim, mas para combater o tráfico e o crime que se alastra a ponto de transformar o Brasil em um dos países mais violentos do Mundo. Viva!!!! A nossa querida POA já está entre as 50 cidades mais violentas do planeta!!! E enquanto isso, enquanto a imprensa e o povo se preocupam com casos de Zika, um bando de indivíduos “microcefálicos” dá as cartas no tablado do poder em Brasília.

    Ah, sim, o amor esfriaria. Um filósofo europeu escreveu recentemente que a sociedade atual é a do amor líquido. Ele está errado. O amor nos dias atuais é gasoso, evapora no menor sinal de calor.

    Não sei se precisamos que a ciência se multiplique. Os cientistas dizem que a Fé exterminou milhões de pessoas ao longo dos séculos. Chegamos ao inverso, pois hoje é o mau uso da ciência que faz isso. Insisto: deveriam gastar tempo pesquisando uma pílula que estimule o amor ao próximo.