• sábado, 6 de fevereiro de 2016 09:47

    A violência e o Estado

    A coluna ainda poderia ser sobre o Estado mínimo, porque, como creio, em algumas áreas tem que ser o Estado máximo. É o caso da segurança pública. Precisamos de policiais em todas as esquinas, bem capacitados e ganhando bons salários. E (embora isso jamais vá constar em lei) deveria prever punição triplamente severa ao policial envolvido com crime.

    Não gosto de escrever sobre a violência, até mesmo porque parece que nos atolamos tanto nela quanto na lama da barragem da Samarco. Porém, há horas em que não podemos ignorar os fatos como se não fizessem parte de nosso cotidiano.

    Na semana passada, acompanhando os noticiários de Porto Alegre, não fiquei estarrecido com os números. Sei que a emissora de TV está fazendo uma campanha enorme, difamatória até, e isso tem a ver não com o aumento da violência (que é real), mas tem a ver com a queda de receita da empresa porque os clientes públicos resolveram não mais destinar fortunas a ela. Mas é verdade, a violência campeia solta.

    Mas o que me assustou foi outra coisa...

    Em uma matéria de jornal, dessas de entrelinhas, noticiaram a execução de um traficante. Vingança. Retaliação porque a facção rival havia assassinado um jovem, decapitado, e deixado o corpo em uma vila e cabeça em outra área da cidade. Um belo recado sobre quem manda. Leu algo sobre isso? Foi em Porto Alegre, gente!

    As decapitações viraram moda. Quarta-feira ocorreu uma em Santa Catarina, quase da mesma forma. Três jovens, não satisfeitos em decapitar outro adolescente com 30 suaves machadadas, resolveram filmar tudo e largar o vídeo nas redes sociais. Onde estamos?

    Por que ninguém se horroriza a ponto de exigir mudança? Porque não é na Síria e o inimigo não está com a roupa do Estado Islâmico? Aposto meu salário que se fosse um gato ou um cachorro degolado desta forma nós teríamos passeatas, marchas noturnas, pressão por mudanças na Constituição.

    Há muito estamos prisioneiros atrás das grades altas que rodeiam nossas casas. Há muito sabemos que nossas prisões estão superlotadas e não recuperam ninguém. Mas o pior não é isso! Pior é que sabemos que no Brasil bandido não tem medo de prisão. E até por isso virou moda matar policiais. Atirar em um brigadiano não é mais “pena de morte”.

    Eles não têm medo da prisão. Por isso, em nossa guerra, degolar é permitido. A diferença é que os mortos não usam uniformes alaranjados, não serão manchetes internacionais porque não temos petróleo enterrado sob as nossas ruas.

    A toda hora vemos notícias que, em um primeiro momento, não impactam em nossas vidas, passam despercebidas, como: Bombeiros têm apenas a metade do efetivo necessário e faltam soldados no quadro da Brigada Militar. Talvez quando as degolas forem tantas que faltem manchetes, talvez daí nos daremos conta que a Síria é aqui!

    Se bandido não tem amor à vida então que o Estado tenha amor pelas nossas vidas!

  • sexta-feira, 29 de janeiro de 2016 11:42

    O Estado que queremos

    Há algo errado com a sociedade quando uma pessoa que tem bom poder aquisitivo, vida bem encaminhada, vai ao posto de distribuição de medicamentos para requisitar a gratuidade em um remédio que custa R$ 50,00. Alguém dirá que está certo o cidadão, afinal, é (ou foi) pagador de impostos e está a usufruir de sua parcela. Já eu questiono: ele realmente precisa se valer desse artifício? Outra pessoa não ficará sem?

    O remédio é apenas um exemplo. Ocorre o mesmo em outras áreas. Somos todos brasileiros, queremos o mel que produz a pátria-mãe. Ocorre que não há Estado, ou melhor, caixa no cofre do Estado, para todos. Nem para tudo. A hora é outra, é de nos perguntarmos que Estado queremos ou, talvez, em que áreas é essencial que contemos com seu amparo?

    Os juízes estão enlouquecendo de tantos processos que dão entrada todos os dias em nossos fóruns. Queremos tudo do Estado, da Prefeitura, da União. A vaga na creche, o medicamento, a fralda geriátrica, o conserto do carro que quebrou no buraco. E batemos nas portas da Justiça. É isso, há alguns anos, mais ainda depois da Constituição de 1988, passamos ao mágico pensamento que o Estado é responsável por resolver todos os nossos problemas.

    E aí ferrou tudo! É bem verdade que no Brasil, os governos (União, Estado e Município) pouco fizeram no aspecto social para o cidadão até bem poucas décadas. Era cada um por si, no salve-se quem puder, e alguns, claro, por suas tetas. Cabia à Pátria atuar no fomento, na execução de obras de envergadura, na promoção do desenvolvimento. Mas, direto ao povo, pouco se fazia.

    No entanto, o estágio atual também não é promissor. Esperamos tudo do Estado. Facilita vamos exigir o ar que respiramos enlatado com o selo “Made in governo brasileiro”. Passamos da fase de ensinar a pescar para o contexto de dar os peixes na mesa, algumas vezes em demasia. Em algum momento o açude estará vazio. Já está, na verdade, em vários segmentos.

    No caso do Rio Grande, a saúde, a educação e a segurança estão moribundas. Alguns setores nem existem, como a Cultura. O entendimento é simples: não há Estado possível para todos. Talvez devêssemos mudar nossos discursos sociais e exigir menos para ganhar mais. Exigir menos em áreas de menor expressão e pretender ganhar mais na saúde, segurança de verdade e educação. Sem isso não há vida.

    Precisamos discutir com urgência o tema. O ente público não é obrigado a nos dar tudo. E pensamos que é. E é por isso que o Brasil não anda, porque as pessoas esperam demais do governo, sugam demais do governo, não aceitam pensar em um Estado mais enxuto, mais prático, voltado a atender o que realmente deveria atender. Social, sim, mas fundamental para todos.

    Por isso Santa Catarina está andando em outra linha e por isso a Venezuela quebrou. Não dá para o Estado ser pai e mãe do cidadão. Se for, logo o cidadão estará duplamente órfão.

  • sexta-feira, 22 de janeiro de 2016 11:12

    Sem ginásio, sem futebol profissional

    Esse talvez seja um dos grandes dilemas da Santa Rosa atual. Não temos um ginásio de esportes com dimensões oficiais e estruturado para uma competição estadual.

    Quando eu era menino, nos potreiros da Giruazinho (e depois nos banhados da Vila Jardim e quadras das vilas) as partidas eram disputadas com uniformes: eram os “com camisa” contra os “sem camisa”. Os atletas eram escolhidos a dedo, quero esse - quero aquele e, não raras vezes, tinha um terceiro time à espera de entrar no jogo, no famoso dois vira, quatro ganha.

    Vi a cena reeditada noutro dia, enquanto passava a tarde com amigos na sede campestre do Clube Concórdia (que, por sinal, está aprazível). Com camisa versus sem camisa. E, logo, dois pensamentos passaram a disputar espaço em minha mente. Um: vem aí a campanha eleitoral 2016. Outro: não temos um ginásio esportivo à altura da cidade.

    Sabe-se que será Vicini (nesse momento “com camisa” porque está no poder e foi quatro vezes prefeito) contra os outros. Não que os outros não tenham camisa, mas entram em campo sem vestimenta porque perderam no par ou ímpar das urnas na eleição passada. A questão crucial, para ambos, será a escolha a dedo, na hora do “quero esse - quero aquele”. Outra questão é: teremos um terceiro time?

    Todos os fatores terão peso na eleição. Cada promessa não cumprida é um gol contra. Cada melhoria em serviços ofertados, um gol a favor. Melhorou a saúde, melhorou o trânsito, teoricamente 2 x 0. Centro Cultural parado 2 x 1. Continuamos sem um ginásio de esportes: 2 x 2. E assim podemos seguir a lista, ver até aonde irá o placar.

    Nesse jogo, em especial, quero citar o ginásio de esportes. Debatemos isso na manhã de sábado, com o secretário Luis Fernando Rabuske (Salsicha), o Sérgio Grizza (time da ASE), o Luis Carlos Volkmer e o Sávio Lenz (Papparella). A conclusão é que dois entraves se colocam no caminho da volta do futsal profissional em Santa Rosa: falta de apoio de patrocinadores e a inexistência de um espaço adequado para disputar campeonatos oficiais na esfera municipal.

    A discussão sobre a derrubada ou venda do terreno onde está o Ginásio João Batista Moroni emperrou, enquanto a estrutura se deteriora exposta ao tempo. Captar grana e construir a arena poliesportiva com recursos federais levará pelo menos três ou quatro anos. Sem uma jogada de mestre do Vicini e sua equipe essa partida seguirá tensa e sem vencedor ou então, com muitos perdedores.

    Na esfera privada, a quadra do Liminha, recentemente inaugurada, pode estar pronta em março. É uma alternativa, mas o ginásio comporta apenas 900 torcedores, é pouco. Outra opção seria uma parceria público-privada que permitisse ao município investir um valor (R$ 200 mil) em reforma e adequação do Dom Bosco, utilizando-o posteriormente. Parece mais plausível.

    A brilhante Taça Noroeste é muito pouco para uma cidade do porte de Santa Rosa e que apregoa o seu desenvolvimento em todo o Estado. E poucas janelas garantem tanta visibilidade quanto o futebol. Precisamos, todos juntos, encontrar uma alternativa para voltarmos a ter jogos (e colocar nossos meninos na vitrine outra vez).

    Enquanto isso já rola nos bastidores a escolha dos elencos que estarão no próximo jogo dos “com camisa” contra os “sem camisa”. A partida vai começar, logo, logo.

  • segunda-feira, 18 de janeiro de 2016 08:35

    Essa onda de denuncismo

    O Anderson caiu por denuncismo e levou consigo a diretora da Vigilância Sanitária. Não foi o primeiro no atual governo que pagou preço alto por estar em função pública. E nem estou avaliando erros e acertos. A questão é: Essa é a nova sociedade, a que vigia a todos, o tempo todo.
    Abro o Face uma vez ao dia, mas sei que há pessoas que não fecham ele um segundo sequer. As outras redes sociais quase não uso, embora minha filha acorde e durma com o “Uats”. Muito embora leia jornais eletrônicos continuamente e busque informações onde for necessário, sei que outros realmente “furungam” até encontrar a podridão. Querem semear a flor do ópio. Prefiro uma margarida que a tragédia, prefiro o poema ao conto de terror. Não gosto da teoria do quanto pior, melhor.
    Mas chama atenção que com celulares, que mais parecem máquinas de espionagem ultramoderna, tantos são os seus recursos, todos os seres humanos do planeta se tornaram detetives da vida privada nos últimos meses. Tudo é motivo para denúncia, para expor alguém, de preferência alguém que esteja em função pública, melhor ainda se for algum político. Como é bom jogar pedras neles! Opa!
    Eu refletia sobre o marco de 2015. Pensava se foi o ano da volta da ultradireita brasileira, do Fora Dilma ou da maior crise econômica que o país enfrenta nas últimas décadas. Concluí que nenhum deles está no topo da minha lista. Eu e o Tuy concordamos: O que realmente mexeu com as estruturas nacionais foi a onda de denuncismo. Para nós que fazemos imprensa, foi o ano dos “pratos cheios”, transbordantes.
    Com um Facebook todos são repórteres, todos espionam a obra da esquina, todos xingam quem não recolheu o lixo, filmam as cenas do acidente de trânsito. O ruim é que, sem se dar conta, todos se tornam juízes, todos sentenciam e, (porque não pensar assim?) levam à morte social pessoas que sequer conhecem. Ou, então, que conhecem e realmente querem atingir.
    O ruim é que, mesmo sem querer ou sem se dar conta do efeito cascata, as pessoas espalham uma violência que não produz nada de bom, que produz raiva e desconstroi, que se enraizou e aumenta demasiadamente. No fundo, todos têm um interesse, mesmo quem diz que não tem. Todos têm sua pequena raiva, que se transforma em amargura, e atingem outros.
    O Anderson caiu por conta do denuncismo, dessa máquina que transforma policiais em bandidos, que torna todo político salafrário. Ontem era o nome do Bohn Gass que estava na rede nacional. Esta semana o Osmar Terra. E todos os “juízes” espalhando viralmente as manchetes. O problema, minha gente, é que para esse vírus “facerraivoso” não há cura. O ódio mata.
    O lado bom é que as denúncias provocam reação, mudanças de atitudes, ajustes, levam a medidas de controle e tendem a apresentar reflexos positivos nas urnas. Afinal, todos sabem que estão vigiados, o tempo todo, e que a velha forma do “jeitinho” está com os dias contados.

    Bem-vindos ao BBB da vida real.