• sexta-feira, 3 de abril de 2015 01:59

    Para um dia de Páscoa

    Não, não eram os ovos de chocolate e amendoins em casquinhas que adocicavam a Páscoa quando éramos crianças. Era a inocência que adocicava aqueles dias.

    A inocência migrou faz tempo para o pólo Norte, mas ainda guardo alguns rituais em mim, sem saber exatamente o que fazem adormecidos em meus baús. Supersticioso nunca fui, mas desde meninote acordava cedo para lavar meus olhos com o sereno colhido na grama antes de o sol raiar na Sexta-feira Santa. Mal nunca fez! Era o dia do silêncio solene, dos gritos retidos, de uma lentidão carregada de expectativas pelo sábado dos singelos presentes.

    A “marcela” que alivia minha dor ainda é colhida no dia santo, na sexta-feira de nosso Senhor, sempre no amanhecer. Posso buscá-la nos campos a qualquer dia, sei, e isso não mudará a eficácia do chá que guardo para o ano todo. É o meu remédio mais lembrado, afora a oração. Sempre achei que colher na Sexta-feira me torna mais cristão porque me traz à lembrança o significado de reverenciar um dia ao sacrifício. Não me torno mais santo, mas me humanizo na reflexão.

    Não tenho visto macela nos campos próximos da minha chácara. No interior desapareceu. A macela que cura minha dor não está sobrevivendo aos venenos utilizados nas lavouras de soja e milho. Não tem utilidade, não tem espaço. Da mesma forma, os dias santos não sobrevivem aos venenos modernos.

    Páscoa e Natal são coelho e Papai-Noel. Não são mais dias santos. São dias para presentes. Essa apropriação capitalista das festas cristãs é veneno moderno semeado contra a família, o seio de tudo que é bom. Se Jesus desaparecer nestas datas, então estará ausente no todo, e Deus ocupará um espaço tão secundário em nossas vidas quanto o Salvador tem ocupado nestes dias santos.

    O meu menino inocente não perceberia a mudança. Ele pensaria que é a evolução social do presente século. O menino não veria a taça de veneno entornada nas antenas e satélites, nem a orquestração contínua contra os valores do cristianismo que são postos no lixo como se a sociedade futura não precisasse de referências.

    A TV e a net (a serviço de quem?) coordenam a construção da nova sociedade há alguns anos. Determinam padrões de comportamentos, debates de interesse, conduzem a multidão. Como resultado desse processo nós relativizamos tudo, aceitamos que o errado é apenas uma questão de ponto de vista e aceitamos todos os engodos que nos impingem porque já não temos força para ir ao vômito.

    A macela que cura minha dor não está sobrevivendo aos venenos utilizados nas lavouras de soja e milho. Da mesma forma, os dias santos não sobrevivem aos venenos modernos.

     

  • domingo, 29 de março de 2015 11:09

    Os caminhões no centro, de novo

    Uma boa discussão inicia pelo quilate daquelas pessoas que estão envolvidas nela. E a prosa do sábado, no finado programa Noroeste Debate, tinha peso. Daí que apontou um rumo ao assunto.

    O prefeito Alcides Vicini, o secretário de Mobilidade Urbana Carlos Lozekan e os representantes do Sintralog (sindicato patronal da categoria de transportes de cargas), empresários Clóvis Schneider e Arcanjo Schossler, apresentaram argumentos que podem encaminhar uma solução ao problema que vem de longa data e cada vez mais se agrava: a circulação de caminhões no centro da cidade.

    À medida que a cidade cresce em poder econômico e em quantidade de carros de passeio nas ruas, o problema se torna gigantesco. Basta ver a imensa discussão em torno da ciclovia. Em épocas de safras agrícolas, como agora, piora muito, especialmente porque as alternativas viárias são poucas. Neste caso em particular (escoamento da produção) Vicini e Lozekan apresentam uma proposta estudada pelo município que envolve os terminais da Coopermil, Cotrirosa e Cesa. Bem interessante a partir do momento em que se projeta o acesso pelos fundos, pela rodovia do parque.

    Em um ponto todos os participantes do debate concordam: é preciso disciplinar esse transporte, esse fluxo de caminhões pesados nas vias urbanas. Alguns desses gigantes de aço chegam a pesar 50 toneladas quando estão com carga máxima. É desproporcional à camada de asfalto que cobre a maioria das nossas ruas, recém refeitas e, enfim, boas para trafegar tranquilamente.

    Quem esteve no debate e quem contribuiu de casa acentuou alguns gargalos que se tornam incômodos em determinados horários, especialmente começo da manhã e meio-dia. Avenida Santa Cruz, com a Escola da Paz e várias lojas grandes, e Rua Santa Rosa, onde estão quatro grandes escolas particulares e também o Hospital Dom Bosco, merecem um olhar mais atencioso. Mesmo com as sinaleiras, é lento e perigoso transitar nestes picos. Sem mencionar a Avenida Expedicionário Weber, onde há dezenas de grandes empresas.

    Todos concordam em dois pontos: não podemos frear o desenvolvimento da cidade por conta de estabelecer um rigor que engesse as empresas, porém, é preciso disciplinar tamanho dos caminhões que trafegam, quantidade de eixos e horários mais adequados para cargas e descargas. Isso posto, fica patente que um porto seco é, por ora, um sonho e um terminal fora da cidade passa pela necessidade individual de cada empresa, afinal elas têm de arcar com o custo.

    Sempre haverá exceções no tráfego, claro, porque a necessidade leva a estar aberto ao diálogo. É o caso dos caminhões de concreto para obras urbanas e tais. Mas são exceções, não regra. O importante é que se iniciou uma discussão com o aval daqueles que estão diretamente envolvidos na economia que circula nos caminhões. A cidade agradece!

  • segunda-feira, 23 de março de 2015 08:45

    A Três-Marias não morreu

     

    Temos uma planta ao pé da casa, uma flor da espécie Três-Marias que supus ter morrido no início da semana passada.

    Você pensará: em meio a tantos protestos, sofrer a quase-morte da Três-Marias? Ver a flor minguando, murchando, me entristeceu da mesma forma que ver o Brasil atolado em tamanho mar de lama e noticiado no exterior a toda hora. A planta é minha, é íntima, é alimentada com meu carinho e zelo para que os gatos não destrocem as folhas uma a uma como fazem constantemente.

    Triste, num final de tarde, constatei o óbito da planta olhando-a de longe. Senti dor, sim, pois a planta estava no auge de sua floração. Não faz muito, na verdade faz menos de dois anos que um forte vendaval sacudiu toda a ramagem, girou o tronco, e a plantinha foi torcida, lascou o caule. Cuidado aqui, poda ali, aplicados os curativos, sarou, pegou ainda mais corpo. Agigantou-se. Linda, estupendamente linda em matizes de rosa.

    No meu jardim bateu outro vendaval, mais forte ainda. A flor foi toda retorcida, machucou a casca. Sobreviveu por alguns meses, reagiu, se fez viçosa e anunciou a floração. Então precisou de mais força, mais seiva, mais tudo, para sustentar seu porte. Aí se fecharam os canais. Sem casca, sem vida. E, em poucos dias minguou até retorcer todas as folhas e deixar cair as primeiras flores...

    A Três-Marias agonizava, morria. Percebi que as folhas retorciam. Dei mais água. Não adiantou. Não me pus de joelhos para ver a ferida exposta no caule retorcido. Não sou jardineiro, fui posto jardineiro da casa, por isso demorei a perceber a doença, a morte que se avizinhava. Num vapt secaram flores e folhas ao mesmo tempo, sem que água alguma pudesse fazer efeito.

    Ouvi outras vozes, pessoas que me disseram a verdade sobre o quadro real de quase-morte. Quando percebi o machucado foi necessário amputar a maior parte da planta, cortar o restante das folhas e flores que ainda resistiam sugando a pouca seiva que ainda havia.

    Findado o corte, restou somente um talo de alguns palmos, da grossura de um dedo mingo fincado no chão. Que cena dolorida! Ou, que cena de esperança! Vindo, de logo abaixo da ferida, um broto com suas folhas em verde-claro a gritar que a vida ainda estava ali, que é mais forte que um vendaval.

    Ainda verei viçosa e florida a mesma Três-Marias. Antes terá de se recompor toda, ganhar galhos e folhas novas, até formar aquela copa que me encantou quando explodiu em floração.

  • sexta-feira, 13 de março de 2015 16:47

    Não vou ao protesto

    Sei que vou desapontar metade dos meus amigos, dos leitores como a Mara, a dona Rute, o Jaime, mas preciso me posicionar, afinal seria covardia ausentar-me em discussão tão importante.
    Não vou porque o Movimento 15 de Março nasceu pedindo o Impeachment da Presidente Dilma. Não concordo com esse pleito, ele tem bases podres. Não há o que justifique o pedido. Há, sim, um grande número de reclamatórias que eu levaria na bandeira, como o aumento dos combustíveis, a volta da inflação e as constantes roubalheiras promovidas na Petrobrás e em tantas obras públicas executadas Brasil a fora. Mas nenhuma justifica o impeachment. E hoje, olhando o passado, não sei se o do Collor era justificável. Golpe por golpe, não podemos aplicar um novo.
    Não vou ao protesto porque não vou endossar o pedido de impeachment com minhas bandeiras. Eu já escrevi noutras oportunidades que me senti verdadeiramente patriota, amante do País, quando milhões de jovens saíram às ruas há menos de dois anos para exibir cartazes e sua indignação com essa podridão. Esses eram legítimos. Mas quando eles sentiram que seriam usados e que “invasores” estavam corrompendo a manifestação, foram todos para casa.
    Em parei várias vezes nos bloqueios dos caminhoneiros e até sem combustível fiquei, mas sempre, em todos os instantes, mantive meu apoio. Quando é legítimo, tem que ser apoiado. Vale o mesmo ao protesto da Fetag nas ruas de Santa Rosa nesta semana. A verdade é que estamos cansados, os brasileiros não suportam mais escândalos de corrupção, estão fartos dessa política podre, dessas maracutaias que são notícias diárias. Não é a imprensa que inventa isso, embora o PT afirme isso. Os fatos são reais e muitos.
    O povo também está farto do apoio que o PT dá a governos totalitários e insanos como do Nicolás Maduro (embora o empresariado faça sólidas alianças com a China, muito pior que a Venezuela). Não há o que justifique algo assim. Não há o que justifique o BNDES liberar milhões em financiamentos para obras em países como Cuba, Nicarágua, Venezuela e continente africano. A verba é pública, é nossa, para nossas estradas, pontes, investimentos em empresas locais. É grana para as empreiteiras, para que volte aos bolsos de alguns políticos salafrários.
    Mas, se a Dilma cair, quem assume o comando do Brasil? O Michel Temer, o Calheiros, o Sarney (que já tem fatia expressiva do poder)... Vai mudar o quê? Só de ver esses nomes já fico assustado. Mas tanto o PT, o Governo, quanto o Judiciário (das Comarcas ao STF) sabem que o Brasil está em uma crise ética sem precedentes. Ou se adota agora postura rígida, com punições reais e severas, como exemplo ao País, ou todos os cidadãos estarão autorizados a roubar, a pilhar, a meter-se em falcatruas envolvendo cargos e verbas públicas. E eu quero ensinar a meus filhos o preceito da honestidade. É meu direito.
    Sim, o PT fez algumas maravilhas. Deu casa própria a milhões de brasileiros, deu escolas técnicas, universidades, melhorou a saúde, deu mais poder de compra ao povo... Sei disso. Mas eu apoio o movimento que for para as ruas, apoio mesmo, desde que a bandeira do impeachment desapareça dela, afinal eu sou brasileiro e também estou cansado de tanta podridão na capital.
    Em tempo:
    Os milicos estão de prontidão nos quartéis, inclusive em Santa Rosa, já faz algumas semanas. Não, eles não pretendem dar outro golpe (embora muitos brasileiros os apoiem). Estão em prontidão para intervir caso as manifestações saiam do prumo, caso o caos se desenhe. Eles são a garantia da ordem. O progresso é com a gente!