• sexta-feira, 14 de agosto de 2015 10:35

    Bandeira para o 16 de agosto

    Domingo vai ter panelaço, marchas, carros de som, piscapisca de luzes em prédios e muito aproveitador infiltrado no protesto.

    Um segundo para pensar: a crise brasileira é econômica, política ou ética? (.......) Seu segundo acabou. A pergunta abriu o debate no sábado passado, na Rádio Noroeste. O Beto Kieling acha que o Brasil vive uma crise política, afinal, segundo ele, o brasileiro nunca foi lá muito moralista, sempre disposto a se valer do sistema. O presidente da OAB local, Guinter Heinkel, vê uma crise de ética (ou a falta dela). O professor Renê Schubert Júnior e o acadêmico de Direito Vitor Faccin dizem que há os dois.

    Vou além: as três crises vieram a uma só vez. O colapso econômico abalou o Brasil. A guerra política detonou com a governabilidade. E a ausência de ética faz o resto do serviço. Sim, porque pior que a falta de recursos e as diferenças ideológicas é ter que lidar com partidos apodrecidos, tomados por vermes que ontem perderam a eleição e hoje já se vendem para aqueles que conseguiram o poder. Gente assim não conhece a palavra ética.

    Está claro para quem acompanha as notícias estaduais e nacionais que vivemos uma crise econômica. Ainda esta semana questionei proprietários de empresas metalúrgicas da cidade e percebi que há um tom bastante desalentador. O ano está perdido para estas indústrias, pior que isso, com sérios prejuízos à existência de algumas delas. Outras também vão mal das pernas, como a Camera e a Vier, tradicionais marcas nossas. Não dá para negar a crise econômica.

    Está claro que o Sartori não tem dinheiro no caixa do Estado para pagar as contas, do contrário não daria o calote no Governo Federal. O que não está claro é o projeto que ele tem para os próximos anos, salvo, vender estatais e fazer com que os servidores públicos sejam vistos como “aqueles que têm salários exorbitantes”. E olha que ele tem a simpatia do maior grupo de comunicação do Sul do Brasil, tão silenciosa em críticas neste caótico momento. Não dá para negar a crise econômica.

    Mas dessa letargia financeira sairíamos se houvesse coerência de discurso, alinhamento de esforços e diálogo. Porém, a crise política em que o País mergulhou impede construção de “pontes”. Pontes requerem alicerces que não estejam atoladas no barro. E para construí-las é necessária a contratação de empreiteiras, o que sabemos, não é fácil neste momento, pois estão encrencadas.

    A crise política nada mais é que uma estiagem provocada pela Polícia Federal e os entes do Judiciário, responsáveis por secar as fontes de onde jorrava “água” pura e esverdeada, diretamente escoada para os bons mercados europeus. Sem grana, sem votos no Congresso e no Senado. Sem Mensalão, sem acordos. Votos requerem dinheiro, não disponível no momento.

    Simplificando: há uma crise econômica bastante expressiva e, nela, tudo se tornou negociável, inclusive pessoas, especialmente aquelas ligadas a determinados partidos de aluguel. Desta vez não direi, não vá ao protesto. Embora, cá entre nós, derrubar o governo não vai contribuir em nada, afinal o governo é quem menos manda nessa joça toda.

    Vá ao protesto, mas leve bandeira sua. Verdadeiramente sua. Tenho minha bandeira para o 16 de agosto: “Eu quero ética no Brasil”.

  • sábado, 8 de agosto de 2015 08:50

    Josés, Barili, Madeira e os Giovelli

    Choveu demais nesse inverno que já finda (agosto nem faz frio). Alguns rios transbordaram e raios assombraram nossas madrugadas. Tempo bom para ler jornais, para ver manchetes pintadas de sangue ou verdes dólares em contas na Suíça. O Rio Grande em marcha ré, o Brasil adoecido e nós, aqui, com medo das nuvens plúmbeas.

    Quer chover de novo. Céu feio lá fora e eu a escrever uma crônica sobre o Sartori, afinal, como todos os gaúchos com algum senso crítico, estou apavorado com o nosso governador e sua vontade de parar tudo. Melhor, não, afinal a estação recém está no meio... Aí pensei em rabiscar algumas linhas sobre a ponte do Bela Vista e a polêmica que se arrasta há semanas. Melhor não, vai que o rio transborda. E quando eu anotava as linhas iniciais desse todo, vi a cena do José Dirceu preso, outra vez, de novo, pra variar inocente. Mas que droga de temporal é esse que não passa...

    Ah, sim, vou entrar nalgum tema menos complexo e sair pela tangente. Quando Santa Rosa está de aniversário, como agora, fico a imaginar que presente a cidade poderia nos dar... Certamente não é uma ponte ou o prolongamento da Avenida América. Empregos, claro. Um aeroporto. Uma ponte internacional em Porto Mauá (que nos daria uma baita mão). Futuro! E sempre termos bons políticos. Menos poluição na água do Pessegueirinho.

    Fantástico o debate do sábado, na Rádio Noroeste AM, quando compareceram Anacleto e Aquiles Giovelli, Pedro Barili e Paulo Madeira. Dá gosto ouvi-los, principalmente sobre a política, sobre os valores que nortearam suas vidas enquanto fizeram uso do cargo público. E quando ouvimos legendas dessa estirpe não temos a sensação que algo está errado no Brasil, temos certeza que somos navio em naufrágio.

    Pensa no Aquiles, presidente da Câmara, a dizer que não usava diárias em viagens oficiais em nome do município. Ou no Anacleto a dizer que o prefeito recebia menos que um professor de 40 horas. Ou no Paulo Madeira a renunciar para não ser preso por conta de suas ideias “revolucionárias”. Ou o Barili a perder o emprego porque estava na oposição. Eis toda a diferença: fazer política com a sensação de dívida para com o povo. Não o contrário, como hoje, em que o político pensa que o povo é quem deve.

    E fico a pensar em qual presente nós, cidadãos, poderíamos dar a esta cidade maravilhosa... Entrar na política. Na política estudantil, na vida sindical, nas entidades, nas causas comunitárias. Isso é fazer política. É bater o pé quando não concordamos. É provocar explicações, deixar na “saia justa”. Não precisamos todos concorrer a vereador, mas bater na porta deles e dizer: “ei, moço, eu sou teu patrão e você me deve explicações”.

    Sei que até o inverno findar, esse do calendário, outras chuvas virão. Outros temporais estarão no horizonte, afinal, há outras obras públicas a executar, há poderosos forçando privatizações e muitos Josés na política.

  • sábado, 1 de agosto de 2015 00:52

    Em que ilha você vive?

    Há alguns anos vigora o conceito social que vivemos em aldeias. Ou tribos. Pois, em meio às prosas filosóficas mais recentes que estabeleci chegamos a um novo termo para definir isso. Ilhas.

    Quantas vezes no dia a dia você, é você mesmo, se pergunta: o que isso tem a ver comigo? Ou então diz: essa nhaca política não me diz respeito. Não quer saber da lava-jato? Não quer discutir as propostas ou não-proposta alguma do Sartori? Não quer discutir o prédio da Prefeitura velha que vai ficar neste estágio mais um bom tempo? Isso não lhe diz respeito?

    Claro que não, assim como não faz o tarado do matinho da Vila Santos ou a morte trágica do menino na Sulina. É porque nas nossas ilhas o assunto chega, via rádio ou internet, não produz uma lágrima ou um “até quando vai acontecer isso!” Em nossas ilhas não temos esses problemas, ufa!

    É, acho que vivemos em ilhas. Alguns dizem que vivemos em bolhas. Não, bolhas estouram e estão sujeitas ao meio, são frágeis demais. Ilhas não. Ilhas são maiores, garantem a sobrevivência e permitem a real sensação de segurança que todos buscam. E com uma grande vantagem: podemos habitar em mais de uma ilha ao mesmo tempo. Ou seja, estabelecemos aquelas nas quais queremos viveremos.

    Com o termo anterior (aldeias ou tribos) os que amavam livros formavam uma tribo, os que ouviam rock formavam outra, etc., com suas linguagens, seus estereótipos e modo de viver. O conceito de ilha é mais abrangente, é como uma sociedade, mas, mais fechado. Entre as aldeias há certa comunicação, certa afinidade. Entre as ilhas não. Elas se formam países, com vida própria. Elas sabem o que se passa no reino ao lado, mas não são contaminadas por essas influências. Seu povo está seguro.

    Estávamos na Praça da Bandeira, no sábado, no Dia da Paz, e olhávamos o cenário, a tentativa de aproximar todos os elos que estavam interligados no mesmo tema. E ali, eu, o Tuy, o Maurício, o Ribas, olhávamos o todo e discutíamos isso: as pequenas ilhas. Todos no mesmo espaço, em aparente convivência, sem conviver realmente, sem algo comum que una e estabeleça uma vida efetiva (e afetiva).

    Estamos nas ilhas para termos alguma sensação de vida segura, estável, como a criança que precisa do andador para se mover pela casa. Somos todos crianças, aprendendo a viver, mas apegados ao seguro. Na minha ilha espiritual (religiosa) pensamos assim, nos portamos assim, e nos afastamos de ilhas que tenham modelos muito diversos do nosso. Acreditamos que estamos menos expostos às violências do cotidiano. Na minha ilha social não quero me aproximar de quem mora no reino xis.

    As tribos ou aldeias são de excluídos, de quem escolheu um modo contestador. As ilhas não. Nas ilhas vivem povos seguros, gente que consegue ver o mar da rua, mas não vai se lançar à água para salvar um náufrago.

    Até que ponto isso ou aquilo nos diz respeito? Até onde você estiver preocupado com o amanhã. Sim, porque não são as aldeias que produzem guerras. São as ilhas que explodem quando se chocam no oceano.

  • sexta-feira, 24 de julho de 2015 13:26

    A paz é uma piada de mau gosto

    O Noroeste Debate deste sábado foca a paz. Eu lanço meu ponto de vista, meu argumento inicial: não creio que a paz seja algo possível ou alcançável.

    Qual é a raiz dos escândalos das empreiteiras? Ou dessa operação local que investiga superfaturamento em reformas de máquinas? Ou desses supersalários pagos pelo Estado que sangram as contas públicas? Ou dessa onda de CPIs lançadas pelo Cunha para derrubar a presidente? Ganância. Olho grande. Grana. Ter grana é ter a chave desse céu chamado terra.

    Na raiz de tudo está nossa alma de Caim. Queremos para nós, apenas para nós. O outro que se ferre, que se lasque, que passe fome na esquina. Enquanto eu estiver na proteção do meu apartamento “estou nem aí” para os 30 assassinatos ocorridos em Manaus em apenas seis horas. Isso é guerra! É guerra porque o Estado já perdeu a batalha para o tráfico, como ocorreu no México e na Colômbia.

    O que pensa um pai de família ao receber R$ 1 mil por mês e ver manchetado em jornais que certos funcionários públicos do Rio Grande Amado do Sul ganham R$ 68 mil de salários mensais da CEEE e outras estatais? Perto desses “sortudos”, o salário dos vereadores é piada. É essa injustiça social que vai se traduzir na guerra da esquina, que vai fomentar o ódio.

    O bolso em primeiro lugar. Poucos ainda dão bola ao bom nome, ao ético, ao justo. Vale é ter grana na conta, vale tudo para lucrar. A nossa operação lava-jato, essa que está na mesa do promotor Manuel Figueiredo Antunes, que encontrou indícios de superfaturamento em contratos com as prefeituras de Santa Rosa e Horizontina no reparo de máquinas, essa não foge à regra. O nome disso é ganância. E gente assim é capaz de tudo, é tal qual o traficante, o bandido que assalta banco.

    A política nacional nos mostra exatamente como a paz é possível. Na hora em que mexeu na fatia do bolo do Cunha e dos seus amigos, a resposta foi a instalação de 11 CPIs contra a presidente Dilma. Nada há de social aí, nada é pelo povo. Nada há de comunitário nos avanços propostos. Há uma guerra política que implode o País (e que continue assim, a imprensa agradece!). Ganância, poder.

    No meio disso tudo, sobra crer na Justiça como elo reparador de equilíbrio. Mas até mesmo o Judiciário tem legislado em causa própria, aumentando salários e concedendo mordomias que ofendem o trabalhador, aquele que ganha R$ 1 mil ao mês. Porém, ainda é nela que o cidadão se esteia. E quando as varas judiciárias estão mega-híper-super abarrotadas de processos é porque a justiça social e a dos indivíduos falharam. É porque a ganância comeu a paz.

    Sou cristão. Acompanho com tristeza o agravamento das lutas sectárias nascidas no seio da religiosidade. A paz de Deus morreu nos homens. Nunca aprendemos a conquistar o outro pelo amor. Queremos impor nosso certo. E impor é subjugar. É sangue, é guerra. Nunca entenderão que Céu ou Inferno é arbítrio. Escolho eu. A nós cabe instruir. Só.

    Sou cristão. Sei que a paz, essa, almejada pelo homem, não é possível. A Bíblia nos diz que a paz virá nos destroços, no Vale de Megido, uma paz de mil anos. Até lá, reinará a ganância. Por isso não creio que a paz seja algo possível ou alcançável, mas eu a semearei porque em meu arbítrio optei pelo amor.