• sábado, 12 de dezembro de 2015 09:17

    Janela ao retrocesso

    Uma viagem pode encantar ou assustar. No meu caso, no mínimo, o passeio me deixou preocupado. Nada que já não soubesse, porém, contra as imagens que nossos olhos colhem não há argumentos.

    Estamos na praia com alunos e professores da Escola Giordani, da Planalto, em Santa Catarina. Viagem longa, de lindas paisagens a apreciar. E impactante ao jornalista habituado a olhar duas vezes para todos os elementos que compõem a paisagem.

    O choque veio através das janelas do ônibus e das muitas impressões que ainda tenho das viagens recentes pelo Rio Grande do Sul. Sabia que nós, rio-grandenses, estávamos atrasados, empobrecendo, porém, não pensava que estávamos parados no tempo ou em franco retrocesso.

    A riqueza do Rio Grande deve trotear sobre lombos de cavalos, como a nordestina anda sobre lombos de jumentos. A catarinense é movida de forma mais rápida que isso, talvez sobre rodas.

    Mas, também, a nossa nem tem como se locomover mais depressa, porque as estradas não comportam deslocamentos como aquele próximo a São Martinho ou aquele de Ijuí a Júlio de Castilhos. Há trechos cada vez piores em nossas rodovias, ainda temos municípios sem acessos asfálticos e eternas promessas que apenas se renovam a cada quatro anos.

    Até quando uma economia rica como Horizontina vai permanecer refém de uma rodovia ridícula como aquela que a liga a Três de Maio? Até quando pequenas cidades, como a minha Senador Salgado Filho, continuarão isoladas, ignoradas pelos governos? Até quando o Estado continuará a utilizar os impostos para pagar dívidas e juros abusivos a bancos que sugam nossas riquezas em vez de gerar progresso?

    A quem viaja pelo Rio Grande e depois se vai a Santa Catarina e ao Paraná, com tempo para olhar pelas janelas do ônibus ou do carro, fica evidente que a única coisa em movimento em nosso querido pago pampeano é o veículo a rodar sobre o asfalto quente. No mais, estamos parados, paralisados talvez.

    E vê-se que não paramos por conta desta crise nacional de agora. Paramos por conta de várias crises estaduais, das quais a mais emblemática é a política.

    Acho que estamos orgulhosos demais de nossas façanhas, de nosso passado, atados à dualidade Gre-Nal que já impregna todos os setores de nossas vidas. Ou somos contra ou a favor. E para piorar, nunca entramos em acordo. Preferimos fomentar o separatismo a provocar elementos de união. Assim, a cada quatro anos recomeçamos tudo, politicamente.

    E tome retrocesso outra vez.

  • segunda-feira, 7 de dezembro de 2015 07:10

    Não sei se faz diferença

    Perguntava-me: o que realmente é importante? Em respostas brotaram outros dois questionamentos: importante para mim? Ou para o todo?
    Incrível que tenha passado em branco o centenário de Santa Rosa. A Colônia foi fundada em 1914. A instalação oficial da Vila 14 de Julho iniciou em 1915. Não houve menção às datas em momento algum. É como se o esquecimento fosse proposital. Ou como se não tivesse significado algum para todos nós.
    Alguém me procurou para falar sobre isso. Ouvi-o atentamente. Assim como ouvi a história de um profissional liberal que toda a vida trabalhou na Avenida Rio Grande do Sul. Ele me contou que quando a Xuxa nasceu sua família nem vivia naquela casa. Vivia, teoricamente, na casa ao lado. Faz diferença? Nenhuma. Afinal, ela morou também na casa que hoje é o museu.
    Não sei se faz diferença. Assim como não sei se faz não ter havido desfile Pátrio em 7 de setembro e o desfile Farroupilha ou o Carnaval de Rua que não vai acontecer. Assim como não faz diferença que uma pessoa do próprio grupo tenha lesado a ASES em R$ 7,5 mil em caso que foi parar na Polícia. É tudo muito longe de todos nós!
    Li o mais recente romance do Charles Kiefer e tem uma “tirada” genial. Em um determinado momento ele explica que a China não está comprando a nossa soja, está comprando a nossa água. Isso, porque eles já não a têm sequer para o sustento, quanto mais para produzir alimentos. Levam quase de graça, aterram nossos rios e envenenam nossas gentes. Simples assim.
    Isso não faz diferença, como também não diferença que alguns usufruam, para bem próprio, de área da ferrovia que está destinada ao futuro do Tape Porã. Ou que as pessoas continuem comprando terrenos e construindo na beira de nossos rios, inclusive mansões, sim, porque ricos também invadem, mesmo que não admitam isso. Cidade ou não, a máxima é a mesma: se é área verde, tem que tirar de lá o intruso.
    É o nosso jeito de gritar bem alto “corrupto, ladrão” e apontar o dedo a esse ou aquele que está envolvido em casos sórdidos de roubalheiras. Enquanto isso o dedo não se volta ao próprio peito para admitir que usa indevidamente as vagas destinadas aos idosos ou até que é idoso e empresário e que deixa o carro o dia todo na vaga que deveria servir a todos.
    Que importa se guardas municipais de Foz do Iguaçu bateram no Josafa? É apenas mais um artista de rua, um menino que em vez de roubar está lá apresentando performances para ganhar alguns trocados e pagar as contas do mês. Ah, sim, ele poderia estar trabalhando!!! Quem disse isso ao meu ouvido? O capitalismo, claro, como se o garoto apaixonado por teatro e literatura não tivesse direito de optar por algo menos insosso que ver novela das 9!
    No fim das contas, nada disso importa!
    A menos que você ainda seja humano-pensante e que não tenha desaparecido em você a última essência colocada por Deus.

  • sábado, 28 de novembro de 2015 00:51

    A tal usina de energia elétrica

    Rosa Santa é uma cidade lá no fim do fim do fim do mundo. Lá também acontecem coisas estranhas, bem estranhas...

    Conto, tal qual ouvi. A fonte, reservada, é segura. De modo que o fato é, no meu entendimento, sério e carece de análise social e comunitária bem apurada. Em tese, algumas pessoas, empreendedoras, querem fazer um investimento em geração de energia que afetará um dos principais pontos turísticos do município.

    Em boa parte do território de Rosa Santa cruza um rio que leva o nome de outro santo. É, mas o santo nada tem a ver com o negócio proposto. Um dos locais mais visitados e fotografados de toda a região é justamente a cascata, grande e bela, que fica quase na divisa com o outro município santo. Pois é ali, bem ali, que vão construir uma barragem para gerar luz.

    Não estou a escrever bobagem. A fonte que me trouxe o assunto tem conhecimento de causa. Os empreendedores já teriam conseguido os laudos necessários, de impacto ambiental, para executar a obra. E, pasmem, a FEPAM, ao que consta, autorizou a construção da usina. Faltaria apenas a liberação da ANEEL.

    A dita usina seria construída acima (antes) da cascata, com um alagamento muito pequeno de terras próximas. Ou seja, o lago teria impacto mínimo no ecossistema. Porém, somente 10% da água iriam para a cascata. Os outros 90% seriam desviados para a geração de energia elétrica. Assim, a bela queda de água praticamente desapareceria. Ah, sim, claro poderiam liberar o fluxo de água em eventos especiais, tipo uma semana de conscientização, visitas programas e tal...

    As perguntas iniciais e básicas são: a população da vila que fica ao lado da cascata foi ouvida? O povo da tal cidade santa foi ouvido em audiência para se manifestar se prefere o investimento energético ou se prefere o ponto turístico e de veraneio? Creio que não.

    Outra indagação que cairia bem, é: como a FEPAM (Governo do Estado) libera um investimento desses? Claro, já liberaram outros, inclusive em Rosa Santa, que são duvidosos do ponto de vista técnico.

    Há muito, muito, muito tempo, um homem visionário, empresário que levou a luz à cidade e semeou o progresso, tentou fazer uma usina perto do mesmo local. Naquele tempo de guerras e revoluções, de poucas preocupações ambientais, o Estado não autorizou.

    Um vereador de Rosa Santa, dono de terras lindeiras, e empreendedores estão consorciados no investimento. É legítimo? É. Mas, Clairto, se não vai causar grandes impactos ambientais aparentes, então por que essa crônica?

    Por que a pergunta que me faço é: é legítimo que duas ou três pessoas se apropriem de uma paisagem que pertence ao coletivo em nome do progresso e dos dividendos financeiros?

    A resposta pode ser dada pelas entidades organizadas, as autoridades (do Estado e, inclusive, do Município) e a população.

     

  • segunda-feira, 23 de novembro de 2015 06:54

    Coisas que não entendo muito bem

    Minha cabeça fervilha, tantos são os incompreensíveis assuntos que atulham a mente e soterram a sobriedade.
    De longe e de perto, há fatos e situações que, sinceramente, são perturbadoras. Nem é uma referência ao modo parcial e deturpado como a imprensa narra as guerras e os atentados, tão intimamente ligados quanto semeadura e colheita. A crônica é menos mundo, é mais na pele.
    Uma incompreensão é a precária situação do asfalto que liga Horizontina a Três de Maio (e o Zelindo me disse que Tuparendi a Tucunduva está pior ainda). Como pode o governo do Estado abandonar à própria sorte uma das maiores economias regionais, de onde saem centenas de colheitadeiras todos os anos? Acaso querem que a empresa decida mudar de endereço? O mínimo que o município merece é uma rodovia em perfeitas condições, porque melhor seria duplicá-la.
    Cadê a força política regional? Cadê os partidos? E não é uma indignação com Sartori, apenas, porque Tarso deixou em iguais condições. Outra nessa linha de questionamento aparece quando você vê Santa Rosa sediar um evento como o encontro nacional dos Pracinhas da FEB (hoje e amanhã ainda). Como deslocar esses veteranos sem aeroporto regional? Como desenvolver a região se a ponte nunca sai do papel, o aeroporto vai à ré e a hidrelétrica é apenas vento?
    O futuro sempre é de difícil compreensão, mais ainda quando está atrelado a componentes monetários. Como poderíamos, nós da Cidade Interativa, explicar aos santa-rosenses o que seria o Tape Porã? Era impossível. E vinham críticas! Agora, com ele pronto (15 anos passados), tudo são elogios. Eis que me foge ao entendimento a necessidade de lotear o Mato do Busque, em Tuparendi. É como se a visão de futuro e do uso da área para algo maior que construir casas jamais conseguisse passar pela mente dos proprietários. O futuro exige coragem para ser diferente.
    A celeuma Carnaval x Desfile Farroupilha é outra análise que não consegui tecer. Se falta grana, falta para ambos. Ou sobra coragem aos carnavalescos e falta organização e peito aos tradicionalistas? Quem pode mensurar o que é mais importante para uma cidade? Uma pessoa? Por estas e outras que, à pergunta da vereadora Sônia: “Por que o Céu das Artes continua fechado?”, um engraçadinho respondeu “porque os anjos estão em greve!”
    Nessa terráquea vila, fica difícil entender que o poder não está justamente com quem aparenta possuir o poder, de modo que ninguém mais estranha a volta dos que já foram. É difícil compreender que em era de tecnologia tão adiantada continuemos a ver o mesmo filme, em VHS, repetidas vezes.
    Tantas são as coisas que não compreendo que meu pensamento chega a supor que o idiota seja eu.