• sexta-feira, 13 de novembro de 2015 11:08

    Emprego e desemprego em Santa Rosa

    Volto ao tema da semana passada, tendo em vista que o Norton me mandou algumas observações. Creio, então, que há leitores interessados no tema.

    É mais uma reportagem que uma crônica, recheada de números. Vale a pena se debruçar sobre eles. Foi o tema do debate na semana anterior, com Fernando Borela, Marcos Scherer e Adriana Leal. Não é para alarmar, é para esclarecer.

    Em dois anos foram mais de 5.300 demissões nos quatro principais segmentos econômicos de Santa Rosa, segundo o levantamento feito e encaminhado ao Jornal Noroeste por um sociólogo (que preferiu não ter o nome mencionado). Os números foram obtidos diretamente com as entidades sindicais nos setores de metalurgia, alimentação, comércio e construção. Em 2014 foram, aproximadamente 2.350 demissões, contra 2.100 até outubro deste ano. Seriam vagas a menos.

    São dados estatísticos e reais. Porém, eles não levam em conta as admissões feitas nesta mesma época, de modo que não expressam a realidade total. Nos lançamentos do Ministério do Trabalho constam, de janeiro ao início de setembro deste ano, 7.465 demissões em Santa Rosa. No mesmo período, no entanto, foram contratados 6.711 trabalhadores. Ou seja, em oito meses o déficit é de 754 vagas.

    O setor que mais está estagnado é a indústria, onde estão localizadas mais de 80% dos desligamentos. Olhando o mapeamento dos últimos 12 meses a realidade é ainda mais cruel. Deixaram de existir 1.192 vagas formais de emprego no município. Outra vez é na metalmecânica o rombo maior (-1.008 vagas). O comércio, ao longo de um ano, fechou 77 postos de trabalho, contra 228 nos serviços e 43 na agropecuária. O mês de agosto, por exemplo, apresentou 60 demissões a mais que admissões na soma dos cinco principais setores avaliados.

    A boa notícia vem do setor da construção civil, que continua aquecido. Entre demissões e admissões, nos 12 meses foram criadas 164 novas vagas. Esse cenário está estável, porque 126 postos novos foram abertos em 2015. Em agosto, mês mais recente avaliado pelo CAGED foram 24 contratações a mais. Mas é o único setor com saldo positivo. A situação não está pior porque a agricultura tem assegurado boas safras e bom preço nos últimos anos, na avaliação do Marcos Scherer, que foi presidente do Conselho Municipal de Desenvolvimento.

    Já Adriana Thomaz Leal, coordenadora do SINE Santa Rosa argumenta que, em números, esta é a maior crise de empregos enfrentada nos últimos 23 anos no âmbito municipal. Ela acompanha os boletins do Cadastro Geral de Empregos, do Ministério do Trabalho. O cenário estadual não é mais animador, só varia o setor atingido, esclarece.

    Fernando Borella, na condição de secretário e professor, diz que acompanha números da FIERGS e era notório que esse efeito de desacelaração da economia vinha desde 2013, porém era maquiado pelo Governo Federal. Em sua tese regional, precisamos urgentemente atrair investimentos dos quais se fala há anos: a ponte internacional, a usina hidrelétrica no Rio Uruguai e o aeroporto. Com isso mudaríamos a realidade.

    O temor é que essa crise que afeta, especialmente, as grandes indústrias e, por conseguinte, as metalúrgicas do nosso polo metalmecânico, possa impactar ainda mais nos outros setores. Resultado disso é que nesta semana reuniram-se a Secretaria de Desenvolvimento Sustentável do Município (Fernando Borella), a Comissão Municipal de Emprego e Renda (João Roque dos Santos) e SINE (Adriana Leal). O grupo promoverá um grande evento nesta sexta-feira para discutir alternativas para amenizar o impacto do corte de vagas, tendo em vista que a crise se prolonga e os trabalhadores logo conviverão com o fim dos recursos do Seguro Desemprego. É isso que se espera dos entes públicos, entidades e instituições: reação!

  • sábado, 7 de novembro de 2015 01:21

    Um escorpião me ferroou

    Essa divagação não é fruto de febre momentânea provocada pela ferroada do escorpião que me levou a procurar a UPA na quarta-feira à noite.

    O que rege o pensamento é um email que recebi no final de semana, de um empresário, expondo razões e preocupações quanto ao cenário econômico de Santa Rosa. Ele estava indignado com a inércia de alguns setores e com a inaptidão de outros. Já eu estou apenas preocupado.

    Dói uma picada de escorpião. Sorte minha que sou prático, instintivo. Por isso, tão logo identifiquei o “bicho”, abri com os dentes a pele mais grossa do dedo atingido, depois espremi o máximo do sangue que pude, isso até chegar ao hospital, já que moro no interior, a 10 quilômetros da cidade, e estava um tanto longe da casa. Assim, o efeito da ferroada foi pequeno. Melhor abrir uma ferida a dentadas que infeccionar todo o dedo e a mão. Dói, sim, mas era preciso ser prático.

    O escorpião, em geral, está escondido e só o vemos quando já nos picou, já injetou seu veneno. Ora, eis a crise econômica em que o Brasil afundou nos últimos meses. E o Rio Grande do Sul afundou mais ainda. Estava sob o manto do pleno emprego, dos gordos recursos do FAT para financiar programas habitacionais. Estava camuflada até que viesse o resultado das urnas, assegurando mais quatro anos ao PT no poder central. Aí nos picou.

    Ok. Saber isso muda os fatos? Não. Dói é saber que temos em nossa cidade algumas centenas de desempregados. O levantamento enviado pelo amigo no email dá conta que 5 mil pessoas foram demitidas em dois anos em Santa Rosa. Isso dói. No entanto, antes de ser catastrófico, fui beber noutra fonte - o CAGED - e um estudo da UNIJUÍ.

    Nessa consulta o escorpião parece menos venenoso, mas apenas à distância. Em agosto, no comparativo entre demissões e admissões o saldo é o corte de 60 vagas. Pouco, né? Sim, mas nos oito meses iniciais de 2015 esse número chega a 754. Ou seja, são pessoas desempregadas. Esse refluxo vem de antes da eleição presidencial, mas se agravou a partir de então, quando o Brasil parou. Em um ano o saldo negativo dessa conta de admissões e demissões é 1.192 postos de trabalho efetivamente fechados.

    Esse número é muito expressivo para um município tão pequeno. Um setor está sofrendo muito: a indústria, onde estão concentradas 85% das demissões. Só a construção civil se mantém contratando. Pior que isso, o veneno da crise começa a se espalhar pelo corpo, a atingir outros membros da economia, como o comércio e os prestadores de serviços que desligaram muitos trabalhadores nos últimos três meses.

    Aí é que entra a resposta imediata à picada do escorpião. Não dá para esperar muito para aplicar o remédio ou procurar um especialista. Dá para curar com cachaça envelhecida ou cobrina, dá, mas, e se o bicho for dos venenosos?

    A resposta imediata, segundo este empresário que me enviou o email, é aproveitar o momento para unir classes trabalhadoras e patronais em torno de um grande projeto de qualificação profissional. Concordo. Porém, é pouco. É preciso garantir políticas públicas de apoio a esses trabalhadores que não encontrarem recolocação, assegurar um mínimo de dignidade às famílias.

    É preciso, urgentemente, dar atenção ao problema, através das secretarias municipais, do Conselho de Desenvolvimento Econômico, do Conselho Municipal de Emprego, universidades e outros entes que possam encontrar mecanismos de amenizar o impacto da ferroada.

    Ou isso, ou piora depois. Menos mal que o Alibem ainda está aqui e que a Camera está dando a volta por cima.

    Um escorpião me ferroou. Ainda bem que não era venenoso. Mais fora a dor mesmo, o incômodo. Mas, e se fosse venenoso?

  • sábado, 31 de outubro de 2015 09:06

    A Reforma precisa de reforma

    Na verdade, hoje não estou feliz com pelo menos três fatos ligados às igrejas. Então, cabe deixar algumas considerações.

    Amanhã é o Dia da Reforma, feriado em Santa Rosa e muitas cidades no Brasil e no mundo. Passados cinco séculos da cisão que levou os seguidores de Martin Lutero a criarem igrejas separadas do catolicismo, talvez a grande pergunta que se deva fazer é: Não seria a hora de fazer uma reforma da Reforma? Quem sabe reformar todo o conceito de Cristianismo?

    As igrejas luteranas lutam arduamente para manter os poucos fiéis e, da mesma forma, sofrem muito as instituições de ensino que tiveram origem em seu berço. Nas pequenas cidades, muitas fecharam (e aqui também, só para lembrar o Colégio São João). É secundária a Educação que sempre foi bandeira de Lutero, ele mesmo um grandioso mestre. E vale o mesmo às outras denominações que tiveram o mesmo berço da Reforma.

    Noutro dia fui a um culto em uma destas igrejas tradicionais da cidade e, pasmem, as pessoas não carregam mais bíblias. Mas como, se a leitura da Bíblia e a aplicação correta dos evangelhos foram bases da Reforma?

    A Reforma talvez precise de outra reforma. Quando passo na porta de templos pentecostais (ou as ditas neopentecostais) não consigo deixar de lado a indignação. Será que tudo que se prega nessas igrejas é bíblico? De onde tiram culto da rosa ungida, uso do sal grosso ou o comércio das miniaturas do templo ou da água beatificada?

    Alguém dirá que as instituições religiosas, a começar pela própria Igreja Católica Romana, continuam em permanente construção ou adaptação aos tempos, o que seria uma atualização. Temas polêmicos na sociedade moderna voltam ao centro das discussões a partir de pronunciamentos do Papa Francisco, um líder mais antenado à presente era.

    Porém, fim de semana, à hora do mate, recebi um desabafo indignado de um amigo, também jornalista, impedido de fotografar um ato litúrgico em uma Igreja Católica de Santa Rosa. Destaque-se: não faria registros do evento para concorrer com o profissional contratado pela comunidade/pais. Estava lá porque uma de suas netas participava da celebração. Iria, portanto fotografá-la. Foi impedido. Argumentou com os cerimonialistas, mas sem sucesso. Tudo por quê? Porque somente o “autorizado”, aquele que faturaria comercialmente, poderia fazer os registros.

    É isso que Cristo pregou? Ou então, mudando o tom da pergunta: Por isso Cristo morreu pregado?

    E vou registrar em apenas algumas poucas linhas, muito embora talvez volte ao tema em outra oportunidade, a completa discordância ao processo de canonização ao índio Sepé Tiaraju. Dom Bosco, Irmã Dulce, etc, são compreensíveis, mas Sepé?

    Nem estou questionando a Igreja Católica em sua fé, estou apenas contextualizando que essa apropriação é indevida. Sepé Tiaraju é um herói latino, um herói indígena-missioneiro, e por consequência herói gaúcho. É assim que o vejo, um guerreiro defendendo a terra e o seu povo. Então, a Igreja não pode se apropriar do que é de todos, do que é maior que a própria Igreja.

  • sexta-feira, 9 de outubro de 2015 21:53

    Quando se ignora o sinal amarelo

    Não gosto quando a política avança sinais, quando ignora o amarelo do semáforo. Sempre há risco nessa manobra, nesse modo de invadir espaço que não é seu.

    E também não gosto de muitas coisas na política dos dias atuais, nesse poder total que os eleitos acham que receberam pelo voto. E talvez, como muitos seduzem ou aliciam a maior parte de seus eleitores, realmente sejam donos do mandato (donos dos votos). Pior ainda é o uso da máquina para proveito próprio, para avançar mais ainda e consolidar a carreira de político profissional.

    Dizem por aí que numa cidade vizinha houve uso da estrutura política na eleição do Conselho Tutelar. Poxa! Dizem que todos os conselheiros eleitos têm relação com algum vereador ou com partidos. Ainda bem que foi noutra cidade. Ainda bem, porque esse atrelamento é mau para a sociedade. É “tipo assim” a política invadir uma rua que não é sua.

    No Conselho devem estar aqueles que verdadeiramente querem trabalhar com crianças e adolescentes, de modo que o próprio salário e a estabilidade por quatro anos venham em segundo plano. No Conselho devem estar aqueles que a sociedade escolhe por confiar no trabalho e no exemplo, não aqueles que seduzem a sociedade já de olho no amanhã. Seduzem porque usam a força de terceiros, usam o poder político para granjear a vitória.

    Como devolverão esse favor? Com votos, claro. E talvez uma pequena comissão do salário mensal. Então, a máquina alimenta a máquina. Assim consolidam uma teia incrível que torna perpétuo o trono. Podem até desempenhar bem o seu papel, podem até fazer boas ações, mas já chegaram devendo favor. E isso é mau.

    Quem deu tanto poder ao vereador ou ao partido político? Não pode um vereador ter direito a cinco ou seis cargos de confiança! Não pode porque ele perde a liberdade de votar, ele se vende sem se vender. Não pode porque o mandato teoricamente não é dele, é da comunidade. Não pode o vereador ter um conselheiro tutelar... ou dois até! Ufa!!! Ainda bem que isso aconteceu em cidade vizinha.

    Por falar em cidade vizinha, dizem por aí que o Frigorífico pensa em se instalar em outra cidade. É só um boato, sei, mas um boato que vem há um ano correndo nos bastidores. Já ouvi isso de gente séria. Já ouvi que dois municípios teriam interesse em receber uma nova planta industrial. É só um boato, sei, mas não faz muito tempo também era boato que a Camera estava com sérios problemas financeiros...

    Isso sim é problema dos vereadores, do prefeito, das entidades todas. Aí sim entra o prestígio político, a construção de uma ponte, como se fez quando todos se uniram pela reabertura do frigorífico na década passada. Hora de pensar na cidade, nos empregos, na geração do imposto. Hora de pensar em todos. Hora de atuação em bloco, mesmo que seja para dizer abertamente à comunidade que tudo não passa de fuxico.

    Eu, sinceramente, não creio que seja verdade, afinal investiram muito em Santa Rosa nos últimos anos. Desejo crer que meus informantes estão errados. Ou crer que querem construir uma unidade nova, sim, mas mantendo tudo o que possuem hoje, em expansão.

    Aqui, no fim do fim do fim do mundo, na hora em que a barca econômica desce desgovernada pelo Rio Uruguai não precisamos de mais notícias ruins.