• sexta-feira, 2 de outubro de 2015 23:15

    Nem tudo são más notícias

    Ai ai Brasil de todos nós... É roubo e escândalo na Petrobrás que não acaba mais... E dá-lhe aumento de combustíveis para sanar o rombo aberto pela roubalheira!!!

    Mas, num Brasil onde a cada ano 80 bilhões de reais escoam pelo ralo da corrupção, nem tudo são más notícias. Como diria o Pies, meu colega do Jornal, é questão do ângulo por onde se espiam os fatos. De preferência que seu ângulo não seja obtido pela lente das principais emissoras de TV do país.

    Vamos ficar em Santa Rosa mesmo, para não divagar demais... Uma boa iniciativa é encampada pelo Ministério Público Federal e pela ACISAP. E por todos nós que ainda temos algum orgulho. É um abaixo-assinado que se pretende apresentar ao Congresso em forma de projeto de lei com 10 medidas contra a corrupção. Isso sim faz diferença, tal qual a construção da Lei da Ficha Limpa. Não adianta esperar dos deputados que legislam em causa própria, é preciso continuar o Brasil sem eles.

    Cada cidadão pode ir a uma destas entidades, pegar uma lista e coletar assinaturas na comunidade. É trabalhoso, sim, no entanto, pode ajudar muito a construir o futuro. Sem tornar mais rígida a punição aos pilantras não há conserto. Tem que meter no xilindró os engravatados também.

    Não dá para achincalhar com os políticos como se nenhum prestasse. E boas notícias há nesse meio. Que belo exemplo nos deu a Câmara de Vereadores de Santa Rosa no ano passado quando diminuiu o número de diárias disponíveis aos parlamentares e o valor do benefício! O impacto foi imediato.

    Já tivemos ano em que o Legislativo local gastou R$ 92 mil com diárias dos viajantes. No ano passado gastou R$ 45 mil apenas. Torna-se assim modelo para o Estado, quem sabe ao Brasil. Basta comparar com Santo Ângelo, cidade do mesmo porte e igual número de vereadores. Lá foram destinados R$ 308 mil a diárias em 2014. Isso é sete vezes mais.

    Eu incluo nesta faixa das boas notícias a frase bombástica do vereador Osório Antunes, ao afirmar na Rádio Noroeste que não concorre a prefeito porque (se não eleito) perderia o assento na Câmara. E por consequência, o salário. Sei que “apanhou” bastante por dizer isso assim, na lata. Ora, estava apenas fazendo uso da verdade (Sem me alongar em análises, ok?). Os críticos de plantão apontaram o dedo justamente porque ele diz a verdade! Eis uma característica que precisa voltar a fazer parte do dicionário político: verdade.

    Não vamos salvar o Brasil em um ou dois anos, mas podemos mudá-lo aos poucos para entregar aos nossos filhos e netos uma Pátria bem mais justa e honesta. Aos poucos, nessa nhaca toda, nesse lamaçal, há indícios que renovam nossas esperanças... E a gente sabe que apesar dos muitos entes que legislam em causa própria, é preciso continuar o Brasil sem eles.

  • sábado, 26 de setembro de 2015 02:17

    A cena da semana

    A cena da semana poderia ser o elefante envenenado para roubarem as presas, ou poderia ser a morte de 700 peregrinos pisoteados em Meca, ou as intempéries que atingiram o Rio Grande no seu dizer “bem-vindo primavera”. Poderia ser qualquer uma delas.

    Poderia, mas a minha cena da semana é a Brigada baixando a lenha nos professores durante o ato em Porto Alegre.

    Não quero adentrar no pantanoso terreno do mérito legalista dos soldados que cumpriam a ordem profissional. Estavam lá para isso (para não deixar os manifestantes ingressarem no prédio). Estavam lá por ordem dos superiores que, por sua vez, respondem ao Governador do Estado. A simples lógica remete à conclusão que quem baixou a lenha nos professores não foi a Brigada, mas sim, quem a tem na mão.

    É verdade, os brigadianos apenas agiram porque o movimento estava emparedando o aparato de segurança! Sinceramente, eu vi bem mais que isso. E vi também a ruína da civilidade e da humanidade. E não pensem que não vi os comentários na rede social em posicionamento favorável aos mandatários.

    É evidente a qualquer gaúcho que o CPERS e boa parte do movimento sindical dos trabalhadores têm um alinhamento político com o PT. De certa forma, era sim, um protesto político. Mas também era um protesto social. O que não se justifica é a pancadaria. E também não se justifica a defesa do exagero.

    Sim, porque depois, a pancadaria verbal correu solta na internet.

    A cena da semana envergonha o Rio Grande, muito embora os defensores do “desce a porrada” pensem o contrário. Envergonha porque quando chegamos ao ponto de agredir professores e servidores que protestam estamos dizendo a todos “eles não têm valor algum”. Estamos dizendo aos estudantes “podem xingar, podem ser estúpidos, podem ridicularizar os educadores”.

    Aplaudiu um grupo que não vê mais professores. Aplaudiu um grupo que os vê apenas como petistas empunhando bandeiras do CPERS. Aplaudiu quem quer ver a população cada vez mais inculta (sem educação), sem capacidade de perceber as várias faces da mesma moeda, no mesmo jargão de sempre “quando mais burro, melhor”.

    Aplaudiu quem não precisa ter o filho em escola pública estadual para ser instruído por professores mal pagos e que além de ganhar pouco, têm salários parcelados... Aplaudiu quem ganha R$ 2 mil ao dia ao passo que um educador ganha isso num mês. Ah, claro, se não quer trabalhar por este salário, que caia fora!!! E se caírem fora, quem vai dar aula para os filhos dos pobres?

    A cena da semana deveria ficar um mês rodando sem parar na Tv, exibida em todos os jornais, circulando na internet como forma de dizer: “assim valorizamos os profissionais que educam seus filhos”.

     

     

  • sábado, 19 de setembro de 2015 00:49

    Os muros das explicações

     

    Os arames farpados na Hungria, o muro da vergonha na divisa dos EUA com o México e a volta do movimento separatista têm muito em comum.

    Acho que, no fundo, se fizéssemos um levantamento entre os gaúchos, detectaríamos um percentual elevado de simpatizantes do separatismo. Na Semana Farroupilha, no auge do orgulho, vou ser indelicado com alguns. E certamente, até comigo mesmo, porque por muitos anos vesti a bandeira separatista.

    Sempre entendi que o Rio Grande do Sul era melhor e diferente do restante do País. Mentira. Somos iguais, porque somos humanos. E em alguns aspectos, talvez até piores, principalmente em questão aos preconceitos. Mas, claro, temos incontáveis virtudes. Não há como desmentir a coragem do gaúcho, a lealdade, o amor pelas tradições e tantas outras coisas que poderia mencionar.

    Eu amo o meu Rio Grande, a ponto de usar bandeira sempre que posso. Não escolheria outro Estado para viver e se pudesse dizer a Deus onde pretendia nascer, diria, exatamente ali, no Sul do Brasil. O que nos falta para sermos um país? Nada. Basta comparar ao Uruguai. O que me irrita é o oportunismo...

    O que me irrita nesta hora, quando os barcos estão à deriva - tanto o Brasil quanto o Estado perdidos em meio aos temporais - é a intensidade com que os aproveitadores trabalham. “O Sul é o Meu País” ganha adesões a cada dia e planeja um plebiscito nos três estados sulinos. No fundo, estão dizendo: “Somos melhores. Não queremos mais fazer parte dessa nhaca toda”.

    É assim que começaram muitos movimentos traumáticos da humanidade, como as ditaduras, as guerras e os ódios que perduram por séculos. É o sentimento de que um é melhor. Hitler pensava assim. Os norte-americanos pensam assim enquanto semeiam suas matanças pelo mundo. Foi com sentimento igual que dizimamos os índios na América e o Estado Islâmico trucida milhões de inocentes.

    Se você se choca com a criança síria morta na praia, com aqueles navios entulhados de imigrantes que naufragam no Mediterrâneo ou com as cercas de arames farpados da Hungria ou com o muro da vergonha que os americanos construíram para ignorar a pobreza mexicana, então não há lógica no separatismo que ganha força. Não somos melhores. Somos humanos, todos. Ter imenso orgulho em ser gaúcho, isso sim, mas para gritar a todos que temos uma identidade cultural própria e a valorizamos.

    A repórter húngara que chutou pai e filho imigrantes que furaram o cerco policial para fugir da barbárie da guerra é igual ao repórter de qualquer cidade, inclusive Santa Rosa, que divulga nomes de pobres coitados registrados nas ocorrências policiais, mas se acovarda quando o assunto envolve gente que tem grana. Ela chutou porque tinha medo, como disse. Chutou por covardia e por se achar melhor. O pior de nós ressurge quando entendemos que somos melhores que os outros.

    Não sejamos melhores. Sejamos grandes. Sejamos justos. E assim andemos de cabeça altiva, como os Farroupilhas, a bradar: Sirvam nossas façanhas de modelo a toda terra!

  • segunda-feira, 14 de setembro de 2015 07:51

    A cultura que faz bem à saúde

    O secretário de Cultura deixou a reunião do Conselho na quarta-feira após mencionar a necessidade de pensarmos na criação de uma Fundação para gerenciar o setor.
    Não, não é uma ideia nova. O assunto está em pauta há alguns meses, talvez anos, entre os agentes culturais, sem que haja evolução. No entanto, como há Conferência de Cultura agendada para outubro, torna-se pertinente voltarmos ao tema. Quem sabe se alimentarmos o debate possamos estabelecer uma nova forma de gerenciarmos a cultura em Santa Rosa.
    A Fundação de Saúde foi criada quando ninguém sabia exatamente como funcionaria. Surgiu para propor certa autonomia que lhe assegurava mais verbas federais e estaduais. O resultado está aí. Sem dúvida Santa Rosa tem a melhor saúde pública do Rio Grande do Sul. Não é fruto deste ou daquele prefeito, mas sim, da manutenção e continuidade de um projeto ousado e vitorioso, construído com decisivo aval dos usuários do sistema.
    Pois bem, o que o Anderson Farias propôs e os conselheiros de Cultura têm discutido é algo semelhante. Começa pela autonomia, para não dependermos dos favores e boas-vontades dos administradores. A situação atual é preocupante, pois a maior luta dos artistas, o Fundo de Cultura, se mantém com R$ 150 mil, tal qual como foi criado, e sofre exageradamente para sobreviver em meio a tantos faconaços.
    Uma Fundação Cultural avançaria ao propor captar verbas junto a empresas privadas, outras fundações e esferas de governo (União e Estado). Hoje, os recursos disponíveis para a cultura mal cobrem as despesas com a folha da Secretaria e cada vez mais os bons projetos sucumbem ou são enterrados sob o manto da penúria financeira. É o caso do Festival de Cinema e do Musicanto.
    Um pórtico de acesso à cidade até é necessário, mas não é cultura. Pintura nova ao Pórtico da Xuxa é necessária, mas não é cultura. Cultura é o Brique da Praça, a Jornada Literária, o Musicanto Vai à Escola. Cultura tem que ser o alimento diário do cidadão, tem que ser o ar que ele respira, porque nós, seres humanos, somos mais que braços para o trabalho.
    Queremos mais! Merecemos mais! Artista não é mendigo, é criador. Artista trabalha com a alma das pessoas, trabalha onde o medicamento não age. Artista deveria ser remunerado como médico, tanto é que muitos programas públicos de saúde usam a arte em seus tratamentos. Mais cultura, menos remédios!