• segunda-feira, 21 de dezembro de 2015 08:27

    É só mais uma vez

    Em viagem, nas férias, percebi como as notícias chegam sem efeito, passam em branco por nós, como se nada nos dissesse respeito.
    Estava em Santa Catarina, abri o site do Jornal Noroeste, estava lá a tragédia: uma morte em acidente de trânsito em Santa Rosa. Visitei outro portal regional e li que uma criança de quatro anos falecera na queda de uma árvore. Comentamos o assunto, em um grupo de quatro pessoas por alguns segundos. Não mais que isso! E logo voltamos às trivialidades da net e da TV ligada.
    É só mais uma vez. É só mais uma notícia que se repete.
    Quando chegávamos a Santa Rosa na manhã de segunda-feira nos deparamos com o cenário de árvores, postes de rede elétrica e outdoors caídos. Ruas interditadas. Água batendo na caixa dos rios. Juro, eu via toda a destruição e, aflito, pensava no meu galpão (onde moro), se estaria intacto, etc.
    É só mais uma vez. É só mais um temporal que se repete.
    Liguei para minha mãe, informei que chegáramos bem... E ela falou sobre a sua casa invadida pela água, sobre os casais de vizinhos e parentes que estavam lá para auxiliar na limpeza. Sem maiores detalhes, apenas isso. Preocupados, tentamos ir até a Vila Flores. Ficamos no caminho, barrados por árvores caídas e ruas interditadas. Tomamos o rumo de nossa moradia. Ufa! Tudo em pé, tudo certo!
    Acompanhava pela internet: 65 famílias desabrigadas, 16 mil residências sem luz, toda a cidade sem água (e sem previsão de retomar o fornecimento). Fotos da baixada da Avenida Borges de Medeiros com tudo em baixo de água (como se nenhuma das empresas que fez aterro nas imediações do Rio Pessegueiro tivesse nada a ver com a inundação). Fotos da ponte do Bela Vista e do que sobrou dela depois da enxurrada. Fotos do Exército ajudando famílias.
    Até aí era só mais uma vez. Era só mais um temporal que se repetia.
    Quando o Rio das Antas baixou, no final da tarde, voltamos para a cidade, à casa da mãe. Um filme de terror! Lama dentro dos cômodos e nos móveis. Não por transbordo do Rio Pessegueirinho (fica longe), mas porque a Rua 10 de Novembro virou um mar de barro e jogou tudo dentro da casa da Dona Cláudia e de outros vizinhos. Sofá, balcão, estante, guarda-roupa, portas, máquina de costura, cozinha, tudo para jogar no lixo...
    Aí deixou de ser apenas mais uma notícia. Aí não era apenas outro temporal. Aí bateu em mim, era dentro da minha vida, dentro do meu coração. E doeu, e veio a ira, e veio tudo à boca com a mesma fúria do rio transbordando.
    E me dei conta que a morte no acidente, a criança trucidada pela árvore, a inundação, tudo isso não nos afeta mais, tal a quantidade de informações que consumimos, tal a velocidade com que a notícia nos impacta. É tudo tão rápido nesta era da TV digital e da Internet que mal sentimos a dor e ela já passou. É assim mesmo! A morte de hoje será substituída por um evento amanhã, ela sequer chega a nos afetar, a nos atingir verdadeiramente...
    Só quando a água invade nossas casas é que sentimos a dor, porque é à nossa porta. E vemos quão frágeis somos!

  • sábado, 12 de dezembro de 2015 09:17

    Janela ao retrocesso

    Uma viagem pode encantar ou assustar. No meu caso, no mínimo, o passeio me deixou preocupado. Nada que já não soubesse, porém, contra as imagens que nossos olhos colhem não há argumentos.

    Estamos na praia com alunos e professores da Escola Giordani, da Planalto, em Santa Catarina. Viagem longa, de lindas paisagens a apreciar. E impactante ao jornalista habituado a olhar duas vezes para todos os elementos que compõem a paisagem.

    O choque veio através das janelas do ônibus e das muitas impressões que ainda tenho das viagens recentes pelo Rio Grande do Sul. Sabia que nós, rio-grandenses, estávamos atrasados, empobrecendo, porém, não pensava que estávamos parados no tempo ou em franco retrocesso.

    A riqueza do Rio Grande deve trotear sobre lombos de cavalos, como a nordestina anda sobre lombos de jumentos. A catarinense é movida de forma mais rápida que isso, talvez sobre rodas.

    Mas, também, a nossa nem tem como se locomover mais depressa, porque as estradas não comportam deslocamentos como aquele próximo a São Martinho ou aquele de Ijuí a Júlio de Castilhos. Há trechos cada vez piores em nossas rodovias, ainda temos municípios sem acessos asfálticos e eternas promessas que apenas se renovam a cada quatro anos.

    Até quando uma economia rica como Horizontina vai permanecer refém de uma rodovia ridícula como aquela que a liga a Três de Maio? Até quando pequenas cidades, como a minha Senador Salgado Filho, continuarão isoladas, ignoradas pelos governos? Até quando o Estado continuará a utilizar os impostos para pagar dívidas e juros abusivos a bancos que sugam nossas riquezas em vez de gerar progresso?

    A quem viaja pelo Rio Grande e depois se vai a Santa Catarina e ao Paraná, com tempo para olhar pelas janelas do ônibus ou do carro, fica evidente que a única coisa em movimento em nosso querido pago pampeano é o veículo a rodar sobre o asfalto quente. No mais, estamos parados, paralisados talvez.

    E vê-se que não paramos por conta desta crise nacional de agora. Paramos por conta de várias crises estaduais, das quais a mais emblemática é a política.

    Acho que estamos orgulhosos demais de nossas façanhas, de nosso passado, atados à dualidade Gre-Nal que já impregna todos os setores de nossas vidas. Ou somos contra ou a favor. E para piorar, nunca entramos em acordo. Preferimos fomentar o separatismo a provocar elementos de união. Assim, a cada quatro anos recomeçamos tudo, politicamente.

    E tome retrocesso outra vez.

  • segunda-feira, 7 de dezembro de 2015 07:10

    Não sei se faz diferença

    Perguntava-me: o que realmente é importante? Em respostas brotaram outros dois questionamentos: importante para mim? Ou para o todo?
    Incrível que tenha passado em branco o centenário de Santa Rosa. A Colônia foi fundada em 1914. A instalação oficial da Vila 14 de Julho iniciou em 1915. Não houve menção às datas em momento algum. É como se o esquecimento fosse proposital. Ou como se não tivesse significado algum para todos nós.
    Alguém me procurou para falar sobre isso. Ouvi-o atentamente. Assim como ouvi a história de um profissional liberal que toda a vida trabalhou na Avenida Rio Grande do Sul. Ele me contou que quando a Xuxa nasceu sua família nem vivia naquela casa. Vivia, teoricamente, na casa ao lado. Faz diferença? Nenhuma. Afinal, ela morou também na casa que hoje é o museu.
    Não sei se faz diferença. Assim como não sei se faz não ter havido desfile Pátrio em 7 de setembro e o desfile Farroupilha ou o Carnaval de Rua que não vai acontecer. Assim como não faz diferença que uma pessoa do próprio grupo tenha lesado a ASES em R$ 7,5 mil em caso que foi parar na Polícia. É tudo muito longe de todos nós!
    Li o mais recente romance do Charles Kiefer e tem uma “tirada” genial. Em um determinado momento ele explica que a China não está comprando a nossa soja, está comprando a nossa água. Isso, porque eles já não a têm sequer para o sustento, quanto mais para produzir alimentos. Levam quase de graça, aterram nossos rios e envenenam nossas gentes. Simples assim.
    Isso não faz diferença, como também não diferença que alguns usufruam, para bem próprio, de área da ferrovia que está destinada ao futuro do Tape Porã. Ou que as pessoas continuem comprando terrenos e construindo na beira de nossos rios, inclusive mansões, sim, porque ricos também invadem, mesmo que não admitam isso. Cidade ou não, a máxima é a mesma: se é área verde, tem que tirar de lá o intruso.
    É o nosso jeito de gritar bem alto “corrupto, ladrão” e apontar o dedo a esse ou aquele que está envolvido em casos sórdidos de roubalheiras. Enquanto isso o dedo não se volta ao próprio peito para admitir que usa indevidamente as vagas destinadas aos idosos ou até que é idoso e empresário e que deixa o carro o dia todo na vaga que deveria servir a todos.
    Que importa se guardas municipais de Foz do Iguaçu bateram no Josafa? É apenas mais um artista de rua, um menino que em vez de roubar está lá apresentando performances para ganhar alguns trocados e pagar as contas do mês. Ah, sim, ele poderia estar trabalhando!!! Quem disse isso ao meu ouvido? O capitalismo, claro, como se o garoto apaixonado por teatro e literatura não tivesse direito de optar por algo menos insosso que ver novela das 9!
    No fim das contas, nada disso importa!
    A menos que você ainda seja humano-pensante e que não tenha desaparecido em você a última essência colocada por Deus.

  • sábado, 28 de novembro de 2015 00:51

    A tal usina de energia elétrica

    Rosa Santa é uma cidade lá no fim do fim do fim do mundo. Lá também acontecem coisas estranhas, bem estranhas...

    Conto, tal qual ouvi. A fonte, reservada, é segura. De modo que o fato é, no meu entendimento, sério e carece de análise social e comunitária bem apurada. Em tese, algumas pessoas, empreendedoras, querem fazer um investimento em geração de energia que afetará um dos principais pontos turísticos do município.

    Em boa parte do território de Rosa Santa cruza um rio que leva o nome de outro santo. É, mas o santo nada tem a ver com o negócio proposto. Um dos locais mais visitados e fotografados de toda a região é justamente a cascata, grande e bela, que fica quase na divisa com o outro município santo. Pois é ali, bem ali, que vão construir uma barragem para gerar luz.

    Não estou a escrever bobagem. A fonte que me trouxe o assunto tem conhecimento de causa. Os empreendedores já teriam conseguido os laudos necessários, de impacto ambiental, para executar a obra. E, pasmem, a FEPAM, ao que consta, autorizou a construção da usina. Faltaria apenas a liberação da ANEEL.

    A dita usina seria construída acima (antes) da cascata, com um alagamento muito pequeno de terras próximas. Ou seja, o lago teria impacto mínimo no ecossistema. Porém, somente 10% da água iriam para a cascata. Os outros 90% seriam desviados para a geração de energia elétrica. Assim, a bela queda de água praticamente desapareceria. Ah, sim, claro poderiam liberar o fluxo de água em eventos especiais, tipo uma semana de conscientização, visitas programas e tal...

    As perguntas iniciais e básicas são: a população da vila que fica ao lado da cascata foi ouvida? O povo da tal cidade santa foi ouvido em audiência para se manifestar se prefere o investimento energético ou se prefere o ponto turístico e de veraneio? Creio que não.

    Outra indagação que cairia bem, é: como a FEPAM (Governo do Estado) libera um investimento desses? Claro, já liberaram outros, inclusive em Rosa Santa, que são duvidosos do ponto de vista técnico.

    Há muito, muito, muito tempo, um homem visionário, empresário que levou a luz à cidade e semeou o progresso, tentou fazer uma usina perto do mesmo local. Naquele tempo de guerras e revoluções, de poucas preocupações ambientais, o Estado não autorizou.

    Um vereador de Rosa Santa, dono de terras lindeiras, e empreendedores estão consorciados no investimento. É legítimo? É. Mas, Clairto, se não vai causar grandes impactos ambientais aparentes, então por que essa crônica?

    Por que a pergunta que me faço é: é legítimo que duas ou três pessoas se apropriem de uma paisagem que pertence ao coletivo em nome do progresso e dos dividendos financeiros?

    A resposta pode ser dada pelas entidades organizadas, as autoridades (do Estado e, inclusive, do Município) e a população.