• segunda-feira, 20 de outubro de 2014 08:26

    Por que não temos futebol profissional?

    Fiz exatamente esta mesma pergunta para gerar o Noroeste Debate da semana passada (programa na manhã do sábado, 10h). A provocação surtiu efeito, no ar e no Face através do qual busco interação com a comunidade. Divergentes em suas respostas, mas com olhares bem críticos, percebemos que a ausência de torcedores nos ginásios e estádios é o menor dos problemas a enfrentar.
    Farpas miraram a Administração pública, os que são contra a venda do Moroni, os dirigentes esportivos, os atletas, o alienamento dos jovens, etc. Sobrou ripa para quase todos! Daí se deduz que não há culpados, há limitações que precisamos vencer. Santa Rosa, tão gabola de seu voluntariado, não consegue unir forças em prol do esporte...
    Falta público, especialmente no futebol de campo. Mas clube do interior que pretender contar com essa renda para manter as contas em dia, esse sabe que nem precisa abrir as portas. É fato! Torcedor vai quando o time está bem, e olhe lá! Uma conta simples mostra nossa falência: em dois jogos em casa por mês, média de 500 pagantes a R$ 20,00 (e já dirão que é um horror esse preço), dará R$ 20 mil. Paga um terço das despesas. E todos nós sabemos que a média de público não chega a isso. E o resto da grana virá de onde?
    Então, como fazer futebol profissional? A primeira resposta que se apresenta como lógica é “com apoio da Prefeitura”. Descartada. O Município não pode aportar recursos devido a implicações legais. O Juventus recém agora está conseguindo sair de um “beco” em que se meteu por prestação de contas mal executada. Prefeitura pode apoiar a base, os meninos, como ação social e contribuir com estrutura, e só. O restante deve vir dos cidadãos.
    No “amor à camisa”? Beleza, dá para começar. Isso porque esse amor à camisa também custa caro, afinal tem fichamento do Clube e dos atletas na Federação, arbitragens, viagens, alimentação, materiais de treino e jogo, etc. Carlos Farias, diretor de Futebol do Juventus, foi jogador profissional e é um empresário bem-sucedido. Diz que precisa de R$ 60 mil por mês para dar conta das despesas. Putz, então lascou! Ajuda empresarial, de patrocinadores, é contar com ovo no “ó” da galinha. Sem chance!
    Mas Carlos Farias e a direção do Juventus acreditam que conseguirão fazer futebol com condições de ter um clube vencedor, na primeira divisão até 2019, e lucrativo. Colocaram no papel uma gestão empresarial, voltada ao lucro. O dinheiro viria da venda de atletas, parcerias com grandes equipes, patrocinadores e outras iniciativas. Apostarão em jovens, em pratas da casa, com baixos salários iniciais. O ganho virá na janela. Todos ganham à medida que o trabalho apresentar resultados, inclusive os sócios.
    A boa notícia é que Santa Rosa pretende voltar aos certames profissionais, em breve. O Juventus vai jogar o Estadual da Série C no próximo ano. Já monta time, tem treinador e constitui um planejamento empresarial. São corajosos. Mas tem um plano bom!
    O futsal tem um pepino maior a descascar! Santa Rosa não possui quadra que possa sediar jogos oficiais. A única que possui tamanho é a do Liminha, porém, ainda depende de liberações dos órgãos de segurança, segundo contou o empresário Sérgio Grizza. Voltar ao profissionalismo, somente em 2016. Até lá, incentivar as categorias de base e disputar certames regionais. Manter um time profissional, com talentos da casa, custará menos, talvez uns R$ 20 mil mensais (assim, no amor à camisa). Mas eles também sabem que têm um longo caminho pela frente.
    Em ambos, Juventus e futsal, o começo é quase do zero, dolorido, penoso, porém, com os pés no chão. Acho que os atuais dirigentes entenderam que não é possível tirar dinheiro do bolso, decretar falência pessoal, arriscar seu patrimônio em nome de paixões. Ou dará certo com profissionalismo e porque a comunidade abraçará, e isso inclui patrocinadores, poder público e voluntários, ou nunca se firmará. Mas, uma cidade próspera, uma das grandes do Estado, não pode ficar à margem...

  • sexta-feira, 10 de outubro de 2014 14:59

    O corredor de favores

    O juiz Eduardo Busanello, que responde pela Justiça Eleitoral em Santa Rosa, defendeu a reforma política em entrevista que concedeu no Noroeste Debate, no sábado. Falou em necessidade de mudança.

    Concordo. Concordamos, quase todos, como sociedade, que o sistema atual não vai bem. Mas esperar o quê do Parlamento? Esperar que os deputados e senadores aprovem pontos que irão contra seus interesses particulares, contra seus mandatos? Por isso, as mudanças mais significativas na política nacional dos últimos anos se processaram por imposição do Judiciário.

    Uma reforma política real não poderia vir alinhavada dos políticos. Deveria ser construída pelo Judiciário e depois levada às urnas para um referendo popular. Por exemplo: releeição indeterminada é fria. Dois mandatos, no máximo, e cai fora! Felicíssima foi a Neusa Kempfer, depois do pleito, quando falou sobre a dificuldade de concorrer contra o poder estabelecido. Não tem como ir contra o corredor de favores!

    O Zelindo berrava muito contra os albergues. No entanto, as emendas parlamentares são tão ou mais nocivas nesse aspecto. Precisamos, para o bem do futuro desse País, acabar com o corredor de favores. É isso que vemos no Brasil de hoje, piorando ano a ano com essa salada de partidos nanicos que serve apenas para barganhar cargos e para confundir o eleitor. Meia dúzia de partidos chega.

    Felizmente elegemos representantes locais e regionais. Mas vá lá no site do Tribunal Eleitoral e veja quantos candidatos fizeram votos em Santa Rosa. Centenas! Aí perceberá que tal candidato, sem identidade nenhuma com o município, fez tantos votos aqui. Por quê? Porque a política segue o mesmo curso da atual sociedade, individualista, centrada nos interesses próprios.

    A eleição mostrou isso. Não estamos mais defendendo interesses regionais, nem interesses maiores que dizem respeito à coletividade. Estamos defendendo interesses de cargos xis para partido ipselone, de pessoas, que se traduzem em avanços apenas para meia dúzia. É isso mesmo, estamos produzindo um conceito de política onde o que conta é o bem individual, pracista, localizado.

    Esses políticos de fora, eleitos com votos daqui, nos mandarão uma ambulância, uma academia aberta, um troco pro calçamento na vila tal... Parece uma troca justa. Ocorre que, em troca, vão pressionar os governos em prol de si mesmos ou de uma minoria. Por isso não há espaço para novos, há espaço apenas para quem tem favores, para quem ter o poder econômico construído ao longo de décadas de tetas governamentais.

    Imagino que um juiz não será contra o auxílio-moradia de R$ 4 mil por mês. Então, quem pode ir contra é o poder político. Da mesma forma, um deputado ou senador não proporá reforma política. Então, que a proposta venha do Judiciário.

  • sábado, 27 de setembro de 2014 10:08

    A realidade que nos foge aos olhos

    Vicini se decepcionou com o público na noite de abertura do Festival de Cinema de Santa Rosa. Não apenas ele. Todos, a meia dúzia de gatos pingados que estava lá, sentimos o mesmo desconforto. Desconforto, sim, porque atesta, na prática, o que sabemos mas teimamos em aceitar, a maioria das pessoas ou não tem tempo ou não dá a mínima para a cultura.

    Aliás, não damos a mínima para quase tudo. Damos o máximo para um mínimo, mínimo de pessoas, mínimo de escolhas... Não damos a mínima para o que é do outro. Talvez estejamos no limite de Sodoma, na colina de onde já podemos avistar a cidade, porque maquiamos com gaze nova para esconder velhas feridas.

    Se muitos que são do universo das artes não foram ao Festival, que esperar daqueles que sequer sabiam que a Mostra de Cinema está acontecendo (sim, a divulgação ou falta dela, é um pecado para um evento desse porte). Mas não é a respeito do público que pretendo escrever. É a respeito de dois filmes que vi recentemente, desses que abrem nossos olhos para o que as TVs não mostram (afinal, estão por demais ocupadas em vender a homoafetividade). Um filme vi ontem, o documentário sobre a tragédia na Boate Kiss. Outro, aquele feito pela Lanterna Mágica sobre a realidade dos alunos e familiares da APAE em Santa Rosa.

    É óbvio que a sociedade mudou muito nos últimos anos, cada vez mais isolada em problemas pessoais, mais isolada em salas, pessoas confinadas em seus micromundos. E aí, quando nos defrontamos com o outro extremo, somos arrastados ao mar da angústia que se avoluma no peito dos sensíveis. Não é a Kiss, nem a APAE, são pessoas, são histórias de amor mesmo quando a dor dita o texto do script.

    Não damos a mínima para o que é do outro. Não damos a mínima para a dor que é do outro, tão entretidos estamos em nossas ilusões que chamamos realidade. Pena que tão poucos viram o documentário da Kiss com os relatos de pais de jovens mortos na boate! Pena que não viram o Seu Castilhos (pai da Andressa), gritando em silêncio no Centro Cívico.

    BAM!!! Foi um tiro em nossas mentes adormecidas quando a estadunidense contou sobre o caso de lá, há uma década. Tudo igual: aglomeração excessiva, lucro, fogos no interior de um prédio sem saídas. BAM!!! Um baque quando pais daqui contaram sobre a pressão silenciosa para que eles esqueçam o ocorrido (em nome do progresso e do futuro de Santa Maria!). BAM!!! Isso mesmo, vamos esconder da frente dos olhos, dormir com vendas, fazer de conta que não aconteceu!!!

    Se não foste, vá hoje à noite ao cinema, ou vá aos livros, vá à vida amigos, sinta, abra-se para entender com que alegres versos Deus pensou no homem.

     

  • sexta-feira, 19 de setembro de 2014 17:27

    Mas quem não é?

    Não lembro de uma Semana Farroupilha mergulhada em tamanha “guerra verborrágica”. Fomos, gaúchos, achincalhados por conta de dois episódios que ecoaram em todas as fronteiras: o tal casamento homossexual no CTG em Santana do Livramento e o racismo no estádio do Grêmio.

    Não tenho dúvida que as mesmas situações seriam bem menos noticiosas na mídia nacional se ocorressem em outro Estado. É fato! Não é questão de certo ou errado, é lucidez de análise, amigos. Sabemos que o julgamento moral imposto aos gaúchos é porque somos gaúchos. Muito embora estivessem equivocados aqueles que xingaram o “Aranha” e aqueles que queimaram o CTG. A questão é a intensidade negativa da divulgação.

    Somos bairristas, sim. Mas quem não é? Nosso bairrismo é igual ao do Rio, da Bahia ou de São Paulo. Eles também tem seus amores próprios. Ocorre que a mídia que controla o Brasil nos esculhamba sempre que pode... e nós a eles. Essa ponta de rusga entre Sul e Centro é um ranço que vem do tempo do Império, que piorou na era de ouro da República Café com Leite e nos tempos do Getúlio. É ranço graúdo!

    Nosso bairrismo é igual ao do Rio e de São Paulo, só que eles têm mais força econômica. Compramos tudo deles, do Paulo Coelho ao Lepo-Lepo. Mas, a nossa literatura não entra lá, nossa fala não entra lá (a menos que queiram nos ridicularizar), nossa música não chega lá (a menos que se rebaixe àquele cachorro perigoso).

    Por quê? Porque eles têm as TVs de alcance nacional... Só isso. É temos uma forte aqui no Sul, que trabalha para eles. Somos bairristas, sim, basta ver que aqui o futebol é oito ou oitenta, é A ou B ou... ou televisor desligado. Isso se chama orgulho.

    Eles têm mais força, nós temos mais amor... Empobrecemos ano a ano, mas não nos vergamos e encontramos formas de sair do buraco. Sofremos com o frio dizemos que o amamos. Eles falam em trem bala e nós em cavalo. Esse contraditório nos fortalece.

    Eles podem usar um título “Sexo e as nega” sem que soe preconceito racial, enquanto isso falam que somos racistas, truculentos e atrasados. Não somos isso. Somos gaúchos, temos identidade e sabemos de onde vem esse vento que não é Minuano.

    Não estamos certos ou errados, estamos como sempre estivemos, com o Sul latejando em nossas veias.