• sábado, 8 de agosto de 2015 08:50

    Josés, Barili, Madeira e os Giovelli

    Choveu demais nesse inverno que já finda (agosto nem faz frio). Alguns rios transbordaram e raios assombraram nossas madrugadas. Tempo bom para ler jornais, para ver manchetes pintadas de sangue ou verdes dólares em contas na Suíça. O Rio Grande em marcha ré, o Brasil adoecido e nós, aqui, com medo das nuvens plúmbeas.

    Quer chover de novo. Céu feio lá fora e eu a escrever uma crônica sobre o Sartori, afinal, como todos os gaúchos com algum senso crítico, estou apavorado com o nosso governador e sua vontade de parar tudo. Melhor, não, afinal a estação recém está no meio... Aí pensei em rabiscar algumas linhas sobre a ponte do Bela Vista e a polêmica que se arrasta há semanas. Melhor não, vai que o rio transborda. E quando eu anotava as linhas iniciais desse todo, vi a cena do José Dirceu preso, outra vez, de novo, pra variar inocente. Mas que droga de temporal é esse que não passa...

    Ah, sim, vou entrar nalgum tema menos complexo e sair pela tangente. Quando Santa Rosa está de aniversário, como agora, fico a imaginar que presente a cidade poderia nos dar... Certamente não é uma ponte ou o prolongamento da Avenida América. Empregos, claro. Um aeroporto. Uma ponte internacional em Porto Mauá (que nos daria uma baita mão). Futuro! E sempre termos bons políticos. Menos poluição na água do Pessegueirinho.

    Fantástico o debate do sábado, na Rádio Noroeste AM, quando compareceram Anacleto e Aquiles Giovelli, Pedro Barili e Paulo Madeira. Dá gosto ouvi-los, principalmente sobre a política, sobre os valores que nortearam suas vidas enquanto fizeram uso do cargo público. E quando ouvimos legendas dessa estirpe não temos a sensação que algo está errado no Brasil, temos certeza que somos navio em naufrágio.

    Pensa no Aquiles, presidente da Câmara, a dizer que não usava diárias em viagens oficiais em nome do município. Ou no Anacleto a dizer que o prefeito recebia menos que um professor de 40 horas. Ou no Paulo Madeira a renunciar para não ser preso por conta de suas ideias “revolucionárias”. Ou o Barili a perder o emprego porque estava na oposição. Eis toda a diferença: fazer política com a sensação de dívida para com o povo. Não o contrário, como hoje, em que o político pensa que o povo é quem deve.

    E fico a pensar em qual presente nós, cidadãos, poderíamos dar a esta cidade maravilhosa... Entrar na política. Na política estudantil, na vida sindical, nas entidades, nas causas comunitárias. Isso é fazer política. É bater o pé quando não concordamos. É provocar explicações, deixar na “saia justa”. Não precisamos todos concorrer a vereador, mas bater na porta deles e dizer: “ei, moço, eu sou teu patrão e você me deve explicações”.

    Sei que até o inverno findar, esse do calendário, outras chuvas virão. Outros temporais estarão no horizonte, afinal, há outras obras públicas a executar, há poderosos forçando privatizações e muitos Josés na política.

  • sábado, 1 de agosto de 2015 00:52

    Em que ilha você vive?

    Há alguns anos vigora o conceito social que vivemos em aldeias. Ou tribos. Pois, em meio às prosas filosóficas mais recentes que estabeleci chegamos a um novo termo para definir isso. Ilhas.

    Quantas vezes no dia a dia você, é você mesmo, se pergunta: o que isso tem a ver comigo? Ou então diz: essa nhaca política não me diz respeito. Não quer saber da lava-jato? Não quer discutir as propostas ou não-proposta alguma do Sartori? Não quer discutir o prédio da Prefeitura velha que vai ficar neste estágio mais um bom tempo? Isso não lhe diz respeito?

    Claro que não, assim como não faz o tarado do matinho da Vila Santos ou a morte trágica do menino na Sulina. É porque nas nossas ilhas o assunto chega, via rádio ou internet, não produz uma lágrima ou um “até quando vai acontecer isso!” Em nossas ilhas não temos esses problemas, ufa!

    É, acho que vivemos em ilhas. Alguns dizem que vivemos em bolhas. Não, bolhas estouram e estão sujeitas ao meio, são frágeis demais. Ilhas não. Ilhas são maiores, garantem a sobrevivência e permitem a real sensação de segurança que todos buscam. E com uma grande vantagem: podemos habitar em mais de uma ilha ao mesmo tempo. Ou seja, estabelecemos aquelas nas quais queremos viveremos.

    Com o termo anterior (aldeias ou tribos) os que amavam livros formavam uma tribo, os que ouviam rock formavam outra, etc., com suas linguagens, seus estereótipos e modo de viver. O conceito de ilha é mais abrangente, é como uma sociedade, mas, mais fechado. Entre as aldeias há certa comunicação, certa afinidade. Entre as ilhas não. Elas se formam países, com vida própria. Elas sabem o que se passa no reino ao lado, mas não são contaminadas por essas influências. Seu povo está seguro.

    Estávamos na Praça da Bandeira, no sábado, no Dia da Paz, e olhávamos o cenário, a tentativa de aproximar todos os elos que estavam interligados no mesmo tema. E ali, eu, o Tuy, o Maurício, o Ribas, olhávamos o todo e discutíamos isso: as pequenas ilhas. Todos no mesmo espaço, em aparente convivência, sem conviver realmente, sem algo comum que una e estabeleça uma vida efetiva (e afetiva).

    Estamos nas ilhas para termos alguma sensação de vida segura, estável, como a criança que precisa do andador para se mover pela casa. Somos todos crianças, aprendendo a viver, mas apegados ao seguro. Na minha ilha espiritual (religiosa) pensamos assim, nos portamos assim, e nos afastamos de ilhas que tenham modelos muito diversos do nosso. Acreditamos que estamos menos expostos às violências do cotidiano. Na minha ilha social não quero me aproximar de quem mora no reino xis.

    As tribos ou aldeias são de excluídos, de quem escolheu um modo contestador. As ilhas não. Nas ilhas vivem povos seguros, gente que consegue ver o mar da rua, mas não vai se lançar à água para salvar um náufrago.

    Até que ponto isso ou aquilo nos diz respeito? Até onde você estiver preocupado com o amanhã. Sim, porque não são as aldeias que produzem guerras. São as ilhas que explodem quando se chocam no oceano.

  • sexta-feira, 24 de julho de 2015 13:26

    A paz é uma piada de mau gosto

    O Noroeste Debate deste sábado foca a paz. Eu lanço meu ponto de vista, meu argumento inicial: não creio que a paz seja algo possível ou alcançável.

    Qual é a raiz dos escândalos das empreiteiras? Ou dessa operação local que investiga superfaturamento em reformas de máquinas? Ou desses supersalários pagos pelo Estado que sangram as contas públicas? Ou dessa onda de CPIs lançadas pelo Cunha para derrubar a presidente? Ganância. Olho grande. Grana. Ter grana é ter a chave desse céu chamado terra.

    Na raiz de tudo está nossa alma de Caim. Queremos para nós, apenas para nós. O outro que se ferre, que se lasque, que passe fome na esquina. Enquanto eu estiver na proteção do meu apartamento “estou nem aí” para os 30 assassinatos ocorridos em Manaus em apenas seis horas. Isso é guerra! É guerra porque o Estado já perdeu a batalha para o tráfico, como ocorreu no México e na Colômbia.

    O que pensa um pai de família ao receber R$ 1 mil por mês e ver manchetado em jornais que certos funcionários públicos do Rio Grande Amado do Sul ganham R$ 68 mil de salários mensais da CEEE e outras estatais? Perto desses “sortudos”, o salário dos vereadores é piada. É essa injustiça social que vai se traduzir na guerra da esquina, que vai fomentar o ódio.

    O bolso em primeiro lugar. Poucos ainda dão bola ao bom nome, ao ético, ao justo. Vale é ter grana na conta, vale tudo para lucrar. A nossa operação lava-jato, essa que está na mesa do promotor Manuel Figueiredo Antunes, que encontrou indícios de superfaturamento em contratos com as prefeituras de Santa Rosa e Horizontina no reparo de máquinas, essa não foge à regra. O nome disso é ganância. E gente assim é capaz de tudo, é tal qual o traficante, o bandido que assalta banco.

    A política nacional nos mostra exatamente como a paz é possível. Na hora em que mexeu na fatia do bolo do Cunha e dos seus amigos, a resposta foi a instalação de 11 CPIs contra a presidente Dilma. Nada há de social aí, nada é pelo povo. Nada há de comunitário nos avanços propostos. Há uma guerra política que implode o País (e que continue assim, a imprensa agradece!). Ganância, poder.

    No meio disso tudo, sobra crer na Justiça como elo reparador de equilíbrio. Mas até mesmo o Judiciário tem legislado em causa própria, aumentando salários e concedendo mordomias que ofendem o trabalhador, aquele que ganha R$ 1 mil ao mês. Porém, ainda é nela que o cidadão se esteia. E quando as varas judiciárias estão mega-híper-super abarrotadas de processos é porque a justiça social e a dos indivíduos falharam. É porque a ganância comeu a paz.

    Sou cristão. Acompanho com tristeza o agravamento das lutas sectárias nascidas no seio da religiosidade. A paz de Deus morreu nos homens. Nunca aprendemos a conquistar o outro pelo amor. Queremos impor nosso certo. E impor é subjugar. É sangue, é guerra. Nunca entenderão que Céu ou Inferno é arbítrio. Escolho eu. A nós cabe instruir. Só.

    Sou cristão. Sei que a paz, essa, almejada pelo homem, não é possível. A Bíblia nos diz que a paz virá nos destroços, no Vale de Megido, uma paz de mil anos. Até lá, reinará a ganância. Por isso não creio que a paz seja algo possível ou alcançável, mas eu a semearei porque em meu arbítrio optei pelo amor.

     

     

  • sexta-feira, 17 de julho de 2015 16:03

    Eu queria abrir uma farmácia

    Enquanto a Unijuí briga e esperneia por perder o curso de Medicina, faço planos para abrir uma farmácia. Talvez para vender colírio.

    Somos cegos quando nos é conveniente. E nessa imensa gelatina social, o que menos importa é colírio. A crônica era para ser a respeito dos índios que vivem alojados no entorno do Trevo do Porco. Vivem, sim. Vivem porque ficam alguns meses, saem, e depois voltam. A crônica era para versar sobre as condições precárias, inexistentes, degradantes a que estão expostos os donos reais do Brasil.

    Mas resolvi escrever sobre a cegueira nossa de cada dia, essa que nos faz passar cotidianamente ao lado daquelas lonas plásticas pretas sem ao menos nos perguntarmos: estão bem? Na visão a que estão acostumados, se lhes perguntarem, eles dirão que sim. Mas, estão bem?

    Há alguns dias escrevi uma crônica sobre a vinda dos haitianos ao Brasil. Levei “um pau federal” de um leitor que discorda do meu ponto de vista. Segundo ele, devemos fechar as portas do País a esta “invasão”, afinal sequer temos empregos ao nosso povo. Talvez o moço devesse acessar algum site para se inteirar sobre a realidade do Haiti nos dias atuais, a miséria, a guerra entre gangues e a pestilência. Sem colírio, nem adianta acessar sites mesmo.

    A dor dos outros não dói nesse moço. O que me diria ele sobre os gaúchos que estão acabando com a floresta da Argentina (Missiones) e do Paraguai para plantar soja ou fumo? O que me diria a respeito dos brasileiros que usam coiotes para entrar nos Estados Unidos ou pagam fortunas por passaportes para a Europa? Diria que eles devem ser presos e mandados embora porque buscam uma vida melhor?

    Mas somos cegos apenas quando nos é conveniente. Tanto faz os mendigos em nossas praças, os presídios com gente empilhada feito lixo, as crianças prostituídas nas periferias. Tanto faz. Tanto faz que os índios estejam ali no trevo. Tanto faz que façam as necessidades no mato, que mal tenham água, que fiquem semanas abaixo de chuva (como nestes últimos dias).

    Tanto faz, afinal colírio custa caro e não nos sentimos doentes para que precisemos usar o líquido que limpará nossos olhos. Afinal, como diria meu leitor que não suporta a invasão dos haitianos, eles, os índios, estão ali porque querem... É verdade. Mas não estaria na hora de o poder público fazer algo mais?

    No começo eu me incomodava com as lonas pretas e aquele monte de lixo que fica exposto na margem da rodovia. Isso foi antes do colírio. Agora me entristeço com as condições de vida daquela gente. Melhor não colocar estrutura para eles, diria aquele leitor, porque daí bem que eles acampam eternamente ali. Mas eles vão e voltam, voltam e vão... Por que não garantir um piso cimentado, uma casa de moradia, umas barracas de artesanato, alguma estrutura básica?

    Somos cegos enquanto não fazemos perguntas difíceis de responder. Somos cegos enquanto aplaudimos a Unijuí perder o curso de Medicina para forasteiros. Somos cegos porque não nos ousamos pensar: por quê? Somos cegos quando nos é conveniente. E somos todos sábios quando usamos o pensamento pronto, enlatado, confortável. Somos todos sábios com as barrigas cheias, sem a dor dos outros a nos incomodar.

    Eu gostaria de vender colírio. Mas eu não vou abrir uma farmácia. Não enquanto Deus me der a palavra e com ela eu souber produzir algum elixir.