• sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018 14:49

    A partilha que não fazemos

    Visitei um amigo na Quarta-feira de Cinzas, Católico, que explicou as razões de não comer carne neste dia. Serviu-me, porém, churrasco! Não comi do assado. Estava com ele, precisava partilhar com ele daquele exercício de fé.

    Amanhece a quarta-feira pós-carnaval. A imprensa brasileira fala em ondas de violência no Rio de Janeiro, arrastões generalizados sob a batuta dos chefões do tráfico, um caos de criminalidade, tudo filmado e circulando na internet via redes sociais.

    O governador do belo Estado diz que o aparato de segurança ainda não estava pronto para enfrentar a horda de criminosos. Imagino que, entre quatro paredes, os cariocas com alguma grana no bolso “cochicham” sobre se mudar para os Estados Unidos.

    Quinta-feira pós-carnaval. Jornais do mundo todo estampam um sangrento massacre em uma escola no rico estado da Flórida, inicialmente com pelo menos 15 mortos (creio que são mais). É o repeteco de Columbine, e de outras dezenas de atos sangrentos que ocorrem seguidamente nos Estados Queridos da América.

    Com ou sem liberação do comércio de armas os crimes estão à porta de casa, a violência não regride jamais, aqui ou nos EUA. Ela muda de forma, muda de rostos, muda de cenário, mas anuncia matanças diárias em todos os cantos desse mundo tão redondo.

    Há explicações às dezenas para tanta maldade. Alguns usarão a religião como argumento, outros a economia ou o tráfico, etc. Poucos dirão que a raiz está na ausência de vontade real em gerar dias melhores a todos os humanos. Não queremos partilhar!

    Globalizamos a economia, criamos um mundo sem fronteiras, a tecnologia nos permite centenas de confortos que sequer sonhávamos há duas décadas. Jamais antes fomos tão desenvolvidos e ricos. Porém, os pobres da terra continuam pobres. Eis a raiz de tudo.

    Os condutores do desenvolvimento mundial querem que esse mundo sem fronteiras valha apenas para os grandes conglomerados de empresas que exploram as riquezas. Os países ricos querem a água, o petróleo, as meninas prostitutas, mas não aceitam partilhar com os refugiados, não toleram os míseros da terra.

    Não é sobre direita ou esquerda, é sobre um homem ter 300.000 hectares de terra e sonegarmos a mesma terra aos “vadios” indígenas ou posseiros. É sobre termos o suficiente para todos, com sobra, mas não estarmos abertos à partilha.

    Por isso, só por isso, escolas como a Beija-Flor e a Paraíso do Tuiuti lavaram a alma dos brasileiros, porque exibiram a miséria nacional que nossas tevês insistem em não mostrar. O brasileiro sabe a quem serve a Pátria Amada, e percebe que ela não partilha!

     

  • sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018 09:18

    Da série re/leituras e perguntas

    Algumas frases ou situações não precisam de tradução para o português popular ou internetês. Alguns exemplos...

    “O deputado Darcísio Perondi (MDB) esteve, nessa quarta-feira (31), pela segunda vez, com o embaixador argentino em Brasília, Carlos Magariños, para tratar da construção da ponte internacional entre Porto Xavier, no Brasil, e San Javier, na Argentina. A primeira reunião foi no dia oito de novembro do ano passado e contou com a presença também do deputado Cajar Nardes. Magariños informou que o Chanceler de seu país, Jorge Faurie, está aberto ao diálogo e disposto a receber uma delegação brasileira. Ele sugeriu que haja uma manifestação expressa do governo brasileiro, da pessoa do presidente Michel Temer, diretamente para o presidente argentino, Mauricio Macri, como forma de fortalecer a posição binacional em favor da ponte. Perondi se comprometeu a trabalhar para que essa manifestação aconteça”.

    Essa, por exemplo, que é um Saara de nada... (nada em todos os nadas possíveis).

    xxx

    O post de um internauta sobre um menino de sete anos sair algemado de uma escola porque agrediu a professora. “Nos Estados Unidos é isso que acontece”... O advogado não disse, mas sua postagem sugere que defende a medida, do contrário não a compartilharia, apenas para dizer: “Vejam que notícia curiosa”! É isso que se lê nas entrelinhas.

    É uma provação clara a respostas que desqualificam Paulo Freire e culpam o pensador da educação brasileira pelo sistema atual. Porém omite os fracassos dos nossos governos. E dos EUA também. Se o modelo EUA é tão bom, por que seguidamente lemos notícias de massacres provocados por estudantes que atiram contra professores e colegas, muitas vezes com mortandade bem acentuada, como foi Columbine?

    Volto ao tema noutra oportunidade...

    xxx

    Fique bem claro que não ouço Pablo Vittar, não iria a show dele (nem de graça) e não espero que o tragam a Santa Rosa.

    Houve toda uma agitação na comunidade quando alguém cogitou que a Fenasoja poderia trazê-lo para show. Então, pudemos ver o quanto ainda somos primitivos.

    Pablo Vittar não.

    Mas Mister Catra e suas não sei quantas esposas e quase 30 filhos sim (mesmo sabendo que no Brasil poligamia é crime). Ele é o cara, o espelho do garanhão que dá conta de todas.

    Pablo não.

    Mas a dupla sertaneja sim, aquela que mandou chamar um harém inteiro das mais belas garotas de programa da região para saciar a fome de carne depois do show, enquanto as esposas dormem em casa...

    Não estamos discutindo valor artístico, que sinceramente acho que Pablo não tem.

    Estamos discutindo moralismos.

    É essa a sociedade que alimentamos, que namora com 1964 sem escrúpulo algum.

    xxx

    Há muito que se sabe que nossa sociedade adoeceu, em todos os sentidos.

    “Janeiro de 2018 - Em novembro de 2017, segundo a Associação Brasileira de Distribuição e Logística de Produtos Farmacêuticos (Abradilan) houve crescimento de 10,8% nas vendas de medicamentos e não medicamentos (cosméticos) na comparação com o mesmo período de 2016. As vendas totalizaram R$ 440,3 milhões”...

    Uéh, cadê a crise econômica? Ela está aí, nesses números. Crise acentua problemas de saúde. Há quem lucre.

     

  • segunda-feira, 22 de janeiro de 2018 14:52

    O que os blocos não entendem

    O julgamento do Lula, no dia 24, ainda dará muito pano para manga, e não encerra antes das eleições deste ano. Quem sabe, nem mesmo depois do pleito.

    Eu pensava a respeito dos fatos, a partir do nível de corrupção exibido pela Lava-Jato, e buscava compreender a inércia do povo. Há tanta lama escorrendo de Brasília (Senado, Parlamento e Governo) que, sinceramente, não sei como a população ainda silencia. Silencia porque não se espelha em nada do que vê...

    O que isso tem a ver com o julgamento? Nada. Ou tudo. Haverá movimento nas ruas em Porto Alegre? Creio que sim. Quem? Grupos de militantes, sindicalistas, petistas declarados, enfim, o bloco tradicional da esquerda.

    Eis o ponto um! Estavam enganados aqueles que diziam que conceitos políticos, tais como esquerda e direita, eram ultrapassados. Poucas vezes, ao longo das últimas décadas, estiveram tão claros. Eis o ponto dois! Igualmente, agora se percebe que também estiveram camuflados os ranços de cor da pele, sexualidade e classe social que julgávamos superados. Estavam escondidos sob uma camada de pó, quase adormecidos sobre móveis de luxo. Quase!

    A esquerda promoveu avanços significativos no Brasil, por mais que a direita os negue. Porém, quando a esquerda quer propor uma Venezuela aqui, ela finda em si mesma. Já a direita tenta mascarar que não houve golpe. Houve sim, e conta com a influência dos Estados Unidos e dos grandes capitais.

    O que isso tem a ver com o julgamento de Lula? Tudo. Os blocos estão por trás desse cenário todo. Não é o brasileiro que move peças. São os extremos da esquerda e da direita que se movem e agitam a cortina do teatro. E se der “quebradeira”, será entre eles. O brasileiro estará em casa, a ver TV.

    O que os blocos (esquerda e direita) ainda não perceberam é que o brasileiro não os quer como blocos de ranços. Não quer a esquerda, essa do MST e das invasões às escolas/universidades. Da mesma forma não quer a direita do PMDB/PSDB que entrega o país ao capital estrangeiro.

    O BRASILEIRO QUER UM PAÍS PARA VIVER DIGNAMENTE.

    O brasileiro não quer essa violência desenfreada e uma política de direitos humanos que trata o bandido como se ele fosse o mocinho. Mas também não quer se aposentar aos 65, em regime que se assemelha à escravidão. O brasileiro não quer pagar centavos pela gasolina se tiver que trabalhar uma semana para pagar um quilo de carne, como acontece na Venezuela. Como também não quer pagar uma fortuna pelo litro de gasolina ou um botijão de gás, como no Brasil, porque o petróleo não deve mais ser nosso.

    Eu sou brasileiro, e quero o Brasil (ou um Brasil) para meus filhos. E hoje, sinceramente, não o vislumbro entre os blocos que produzem ranços.

  • sexta-feira, 29 de dezembro de 2017 08:43

    Estimado amigo!

    Sei que lês esta coluna ao final de semana, entre um chimarrão e um minuto de folga na rotina, por isso, hoje, tão-somente hoje, escreverei como se eu fosse o chá posto em meio à erva verde da cuia.

    Hoje o texto é um diálogo/monólogo contigo, estimado amigo(a) que me lê em todas as semanas do ano, que absorve minhas palavras como quem sorve um mate, por vezes suave como se feito fosse com erva adocicada ou, então, amargo qual houvesse usado a folha cancheada que volta e meia cruza o rio a partir da Argentina.

    Sabes tu leitor, e nisso concordo contigo prefeito Vicini, que minhas correspondências têm chegado com gotas de sangue, fel e dor. A inquietude em mim é maior que meus medos, porque em todos os dias desse ano que finda, já no amanhecer, ao abrir qualquer jornal ou site de notícias, li manchetes amargas como se fossem escritas com erva revirada no fundo da cuia azeda em que se fez o mate.

    Hoje, porém, fiz o chimarrão com folhas de ervas de aroma suave. Hoje, ao findar o ano, não foi o 13º dos vereadores que eu vi na tela dos meus olhos (embora estivesse em todas as postagens do Face). Hoje vi a esperança. Talvez porque a erva do mate e a bandeira do País sejam esverdeadas! Já no primeiro canto do sabiá, no taquaral aqui no galpão onde moro, eu senti um revigorar esperançoso.

    Dirás, caro amigo, que me contradigo ao passo que durante todo este ano sempre escrevi o contrário. Sempre estive desesperançado. Tens razão, em parte! Até então, até o dezembro mostrar seu riso claro de verão, nada indicava a existência de alma nos seres humanos que nos cercam. Felizmente estava errado!

    Há muito tempo que não via tantas mãos anônimas estendidas para ajudar pessoas em necessidade. Senhor, obrigado! Talvez nunca antes vi tanta cooperação, tanta gente a estender comida e presentes àqueles que nada teriam no Natal e no fim do ano.

    É como se o brasileiro estivesse dizendo: “já que o governo e os políticos nada fazem, faremos nós”. Estou feliz porque descobri que há alma habitando em nossa gente. Esse foi o grande presente de Natal que recebi. A humanidade reapareceu em muitas pessoas.

    Leio isso com esperança que os brasileiros reagiram, para fazer o bem, semearam afeto, partilharam. A minha gente dá mostras que cansou de esperar. Dá mostras que acorda de um longo sono.

    O sabiá canta lá fora. Com o mate à mão observo o campo esverdeado como se todo ele fosse uma mensagem de esperança. Podemos levar essa energia boa para a rua. Agora creio que podemos capinar fora todo o inço que infesta Brasília nas eleições do próximo ano. E voltaremos a cantar amores que sempre tivemos!

    Hoje, tão-somente hoje, no apagar do ano mais corrupto e podre da história desse país, decidi ser o chá que amaina a tua cólica, estimado amigo. Ou ser o chá da esperança, a erva revitalizadora ou a camomila que apazigua o teu espírito enquanto apazigua a si próprio.