• segunda-feira, 17 de abril de 2017 08:33

    Quando o post resolve

    Por Jardel Hillesheim

    As redes sociais já mostram para que vieram. Talvez quem saiba utilizá-las de forma harmoniosa e sensata colha resultados satisfatórios. É um lugar para fazer amigos, rever parentes distantes e ainda reclamar de problemas na sua rua. As redes servem como um certo diário, onde expomos nossas alegrias, compartilhamos nossas reclamações e cobramos mudanças.

    Na madrugada do sábado para domingo não foi diferente. Sim, nem bem a chuva começou e as pessoas já pediam por socorro nas redes. Era 23h42min e um post dizia: “Socorro, a água está entrando em minha casa e não tenho como retirar as coisas”, lamentou uma internauta. Não estava na cidade, mas senti na pele a dor daquela senhora ao clamar por ajuda.

    No outro dia quando acordei, a primeira coisa que fiz foi visitar seu perfil no Facebook para saber se todos estavam bem. Seu segundo post foi: “Olá, já estamos na casa do meu irmão..., estamos bem, esperando a chuva passar para limpar a casa e ver o que poderemos reutilizar, mas acho que perdemos os móveis, a geladeira...”, lamentou.

    A segunda-feira chegou, e novamente a internauta postou, “Já estamos em casa, a geladeira estragou, os colchões e o guarda-roupa estão molhados, mas aos poucos reconstruiremos nossa vida”, disse. Sua publicação não ficou por aí não. “Moramos aqui há 15 anos, e sempre que chove sentimos o medo de ficarmos alagados, já fizemos reclamações diversas vezes, mas o Governo Municipal não faz nada”. Na verdade a situação só é vista como problema quando a chuva chega e deixa prejuízos.

    Ela não é a única a reclamar e exigir soluções. Diariamente lemos relatos de pessoas que estão descontentes com o asfalto das ruas, outras imploram para que no mínimo um calçamento seja colocado em frente a sua casa, evitando que seus filhos se embarrem em um dia de chuva, ao ir para a escola. Mas afinal, estamos certos em ser tão questionadores? Sim, estamos. Pagamos impostos ao comprar, desde uma caixa de fósforo a um carro, e todo este dinheiro deveria retornar em investimentos. Nós, da imprensa, somos alimentados diariamente por informações vindas de internautas, que vêem na rede social um espaço para serem ouvidos e atendidos.

    Talvez eles sejam nossos “Digital Influencer”, em português influenciadores digitais. São eles que reclamam da situação da nossa rua, do nosso posto de saúde e do nosso imposto ser investido em coisas improdutivas e desnecessárias. Há poucos dias uma publicação chamou a atenção para a construção de um quiosque no Tape Porã. Considerada desnecessária por muitos internautas, o prefeito teve que voltar atrás e dar uma “estacionada” no projeto. Afinal, se nós não nos apropriarmos do debate, como a venda de patrimônio público, a péssima qualidade de serviços públicos prestados, o exagero dos salários pagos para políticos, do que reclamaremos?

    Hoje uma pessoa questionadora, que promove o debate e mobiliza seus vizinhos na busca de solução para um problema, tem mais importância do que um vereador inativo, que sabe apenas garantir dois ou três cargos de confiança no governo municipal. Claro, podemos criticar, tudo dentro do respeito, e, prontos para ouvir a posição das pessoas sobre isso e aquilo. Posso falar como morador, mas não posso falar nem em nome da comunidade, sem que eu tenha um documento oficial me conferindo à responsabilidade. Talvez ainda falte um manual de “como não agir nas redes”.

    Olha que a moda está “pegando”. Até o “madurão” do prefeito Alcides Vicini criou sua página “Ao Vivo”, para responder aos apontamentos. Mas Vicini precisa entender que nem toda a população tem acesso a rede. Mas ser um prefeito que conversa, sempre será melhor que um prefeito que não vem para o debate.

  • segunda-feira, 10 de abril de 2017 07:23

    O Deputado Comemora

    Nós todos, pelo menos aqueles que acompanham os noticiários, conhecemos algum deputado ou vereador que comemora. Isso mesmo!

    O Deputado Comemora (ou vereador) é aquele sujeito que ocupa bem o espaço que a mídia lhe dá. Em geral, ele jamais aparece com algum projeto relevante ou defende alguma bandeira em que ele creia. No entanto, aparece a toda hora na imprensa das pequenas cidades - que precisa de matérias para preencher suas colunas e programas de rádio. Fulano recebeu as soberanas da ExpoAlgumaCoisa e comemora. Fulano visitou a cidade e comemora. Projeto do governo foi aprovado e Fulano comemora.

    Nada mais inútil para a sociedade que um deputado ou vereador(a) que comemora. Por que isso, Clairto? Porque ele não está preocupado com os projetos relevantes. Ele se preocupa com a sua reeleição, de preferência que seja eterna - o que nem é tão difícil no Brasil em que há as tais emendas e verbas parlamentares. Esse Brasil em que um vereador ou parlamentar se elege pela oposição e “comemora” nos gabinetes do governo ao qual se opunha até o começo de outubro (gente assim tinha que perder o mandato na hora!).

    O Deputado Comemora não quer que mude absolutamente nada na política nacional. Está ótimo assim. Ótimo porque para quem está no trono, com assessores e grana pública à disposição, é tudo muito fácil. Por isso, toda essa conversa sobre reforma política não é interessante para eles. É interessante parecer ao povo que há uma reforma em curso, mas no fundo com intenção que pouco mude efetivamente.

    Por exemplo, o voto distrital, ele não entra em questão. Nem mesmo criminalizar o Caixa 2. Mas querem empurrar na reforma o fato de um político concorrer a dois cargos diferentes na mesma eleição. Que show isso! Assim o Deputado Comemora perde em um nível e assegura outro. E, ainda, querem insistir com o voto em lista, que nada mais é que autopreservação da espécie.

    O Brasil está no rodapé do mundo em tudo. E regrediu muitos anos em apenas dois. É como um doente, do qual os médicos não tratam adequadamente, pois tende a piorar rapidamente e “involuir” até o estado terminal. Isso o Deputado Comemora acha interessante. Mendicância agrada os políticos porque aumenta a dependência do favorzinho, tapinha nas costas e todas aquelas falsidades que o meio tão bem conhece.

    Precisamos da reforma trabalhista. Precisamos da reforma da Previdência. Precisamos da reforma política. Precisamos, porém, que ela seja comprometida com a sociedade toda, e não com as corporações. O que estamos presenciando é justamente o contrário: usa-se o argumento da necessidade, no entanto, as reformas estão a serviço das corporações (algumas delas bastantes criminosas).

    Enquanto isso, enquanto o povo assiste aos espetáculos na grande mídia, o Deputado Comemora usa todos os espaços de mídia nas pequenas cidades para seguir seu caminho para a décima quinta reeleição. E comemora!

    Pelo fim da reeleição já!

  • sexta-feira, 31 de março de 2017 14:59

    Carne, leite e o Movimento MBL

    No último domingo não houve movimento nas ruas, mesmo chamado pelo MBL - Movimento Brasil Livre. Não houve porque o brasileiro não legitima o governo e o MBL colocou esse governo ali. Ponto.

    Por que inicio a coluna escrevendo sobre o fracasso da mobilização nacional? Para fazer com que o leitor atente ao trabalho coordenado e tático/técnico desencadeado pela grande imprensa brasileira nos últimos anos, especialmente no ditame dos rumos políticos. Há uma orquestração magistralmente formulada. Nada é acaso.

    Os vazamentos das gravações envolvendo Lula eram legítimos (mesmo ilegais). Os vazamentos atuais envolvendo o governo são crime de Estado. As notícias não ecoam a tempo de provocar alguma reação, pois mal elas surgem na tela, a tempo de você fazer um print ou compartilhar na rede social, logo somem.

    Perceberam, leitores, que durante toda a semana passada, a imprensa nacional, a serviço dos caciques partidários, falou tão-somente sobre a operação contra os frigoríficos? Era estratégico para passar no Congresso a Lei da Terceirização. Logo encontrarão outro cenário para dar ampla cobertura (só que não ampla) à medida que avançará a reforma da Previdência com ditames de equilíbrio fiscal.

    Voltando ao tema da Operação Carne Fraca... Somente eu percebi a reportagem em que o delegado da Polícia Federal afirmou que o esquema desviou milhões para as campanhas políticas do PMDB e do PP? Por que esse assunto não obteve importância? Da mesma forma desapareceu dos noticiários o envolvimento do ministro da Justiça do atual governo na indicação do mentor de todo o esquema... E ele segue ministro. Em que País estamos?

    A imprensa nacional, certamente a mando dos políticos, passou a semana toda tentando fazer com que a Polícia Federal arcasse com as consequências de o Brasil perder exportações e mercados de carne, bem como arcar com o fechamento dos frigoríficos e postos de trabalho... Santo Deus! A Polícia faz o trabalho dela, certíssimo, e é acusada de trabalhar contra os interesses nacionais? Então, ela deveria silenciar, legitimar o roubo?

    A culpa não é da Polícia Federal. A culpa é dos fiscais corruptos que atuavam no esquema, aliados com os partidos políticos que moviam a roda, incluindo aqueles salafrários que os indicaram. Entendam, leitores, que é esta máquina nacional de distorcer fatos que precisa ser desfeita.

    Para finalizar: não é de hoje que tenho escrito a respeito dessas leis severas demais contra os pequenos produtores familiares que já não podem vender ovos, leites e derivados de produtos animais na cidade. Essa construção tem apenas um viés: proteger os grandes conglomerados nacionais e internacionais. E nesse aspecto, pouco se fez nos últimos anos, mesmo em governos petistas que deveriam, na teoria, observar justamente estes negócios.

    Eu defendo a ideia de que o consumidor deve ter o direito de escolha sobre o que vai comprar. Se ele quer comprar o leite do verdureiro, o queijo feito em casa, o frango da vizinha, etc, é um direito dele. Eu busco leite na vizinhança. Pronto. E tenho certeza que faz bem menos mal que estes que são vendidos nas caixinhas. Uma coisa é fiscalizar e aplicar regras a quem produz em escala industrial. Outra é impor um código que penaliza os pequenos.

    Se a intenção é gerar mais mendigos no campo ou expulsar todos os pequenos, parabéns, vão conseguir bem rapidinho.
    Ah, e o MBL deveria passar a MBLP - Movimento Brasil Livre dos Pobres (pois em tal ritmo, logo estarão exterminados).

  • sexta-feira, 24 de março de 2017 15:15

    Entre a utopia e o pragmatismo

    A utopia pura e simples levou Cuba ao fracasso. O pragmatismo fez a Rússia exterminar os chechenos diante do silêncio mundial. Há quem pense que reiteradamente escrevo contra o capitalismo, e que minha visão é demasiadamente à esquerda. Nego. Meu olhar segue a lógica de construir o justo, e este precisa ser voltado ao coletivo.
    Nesses debates de esquerda versus direita, movidos a ranços de ambos os lados, perdeu-se a noção do socialmente justo. Em geral, as propostas em discussão nas mais altas esferas do poder não conduzem à construção de um país com justiça social. Da mesma forma, também muitos dos movimentos de resistência pouco estão preocupados com o coletivo.
    Quem defenderá o desvalido povo? O que temo é que, no andar da carruagem, tudo que os pobres desse país obtiveram de avanços nos últimos anos estará perdido em uma década se forem aprovadas todas as mudanças propostas. Ah, então Clairto, tu és contra tudo que o governo propõe? Devagar com esse andor.
    Leonardo Vicini e Maria Inez Pedrozo, no Noroeste Debate do sábado passado, usaram dois termos bem distintos para delinear o momento atual. A professora e escritora falou em viver e edificar um mundo a partir das utopias (algo mais justo e com sonhos). O jovem político usou o termo pragmatismo para defender seu ponto de vista (praticidade para construir desenvolvimento e progresso, e então devolver justiça social).
    A utopia desenhada pelos brasileiros é contar com saúde, educação pública e segurança. O restante o povo buscará no braço, no trabalho, porque ao contrário do que a corja política apregoa, o brasileiro é sim muito trabalhador e esforçado. O brasileiro apenas quer oportunidade.
    Bem, no olhar do pragmatismo essas oportunidades não virão se não abrirmos mão da aposentadoria, dos direitos trabalhistas e dos financiamentos públicos para casa própria e estudos. Em tese, o que se lê é assim: “se os pobres não ajudarem os ricos a construir uma riqueza maior ainda (desenvolvimento do Brasil), eles (os pobres) nem com as migalhas ficarão.
    Não sou contra o capitalismo. Sou contra o comunismo. Sou contra modelos totalitários. Mas também sou contra esse modelo que propõe que a classe menos favorecida pague a conta dessa roubalheira toda que financiou não o PT apenas, mas sim a compra de praticamente todos os parlamentares desse país, comprovado pela Lava Jato. Sou contra vender nossa terra aos estrangeiros. Sou contra me aposentar aos 65 anos. Sou contra tudo que soe injusto para a maioria.
    A utopia de um país perfeito não funciona, tampouco o pragmatismo simples. É preciso construir um equilíbrio. Precisamos da reforma política, sim, mas não pode ser proposta pelos políticos. Tem que ser proposta pelo Judiciário ou pelas entidades organizadas. Esse é o meio-termo entre a utopia e o pragmatismo. Isso se aplica a todo o contexto. Precisamos da reforma da previdência, sim, da reforma trabalhista também.
    Mas é preciso ouvir as ruas (que por ora estão apenas em rumores)... Antes que elas, as ruas, tenham que marchar outra vez.