• sexta-feira, 27 de janeiro de 2017 16:45

    Ser de direita ou esquerda

     

    Há três anos, quando iniciamos os debates na Rádio Noroeste, o Beto Kieling disse que a retórica de esquerda e direita estava ultrapassada, nem existia mais.

    Talvez, apenas talvez, estejamos vivendo um período sem esquerda e direita no contexto político. Talvez eu concorde com o Beto, desde que ele concorde comigo que estamos na era da ultra. E essa é bem pior.

    A ultraesquerda e a ultradireita... Uma produziu o Chaves, outra o Trump e todos os seus adeptos (e nunca é demais lembrar de Hitler, Mussolini, Franco, todos eram de ultradireita). Qual é pior? A moeda é a mesma. O comunismo produziu os massacres daqueles que eram vozes discordantes; já o capitalismo produziu o Vietnã e todas as guerras petrolíferas atuais no Oriente.

    Esses discursos ultra, da direita e da esquerda, sempre se sustentam no populismo exagerado, nos valores da Pátria, no nacionalismo e na riqueza ou divisão igualitária dela. Não faltam adeptos aos dois blocos. No entanto, o que se percebe a falta de diálogo entre eles. A partir desse contexto, qualquer palito de fósforo causa o maior incêndio.

    O modelo alinhado à ultraesquerda não deu certo na América Latina de Chaves e Morales, da mesma forma como fracassaram os governos de ultradireita que vestiam fardas no Brasil, Argentina, Paraguai, etc. Ambos produziram péssimos exemplos sociais, culturais e humanitários.

    Além da falta de diálogo entre os blocos ultra, o que preocupa mesmo é a disseminação do “meu”. Enquanto sociólogos e filósofos tentam explicar em que momento a era líquida supervalorizou o “eu” das selfies e trivialidades, eu, mero leitor de jornais, tento compreender em que época deixamos de ser sociedade para nos tornarmos indivíduos desconectados dela.

    É a era do Meu. Meu trabalho (fora imigrantes!), meu dinheiro (fora miseráveis!), minha carreira (fora às cotas!), meu país (fora refugiados!)... Não faço defesa do socialismo, até porque ele não deu certo como experiência de governo, afinal temos ambições e sonhos diferentes e eles ditam nosso modo de viver! Faço aqui uma defesa do aspecto humanitário da vida.

    É verdade que o modelo capitalista tecnológico consumista nos proporciona produzir alimentos para saciar a fome de 9 bilhões de habitantes (somos apenas 7,5 bilhões no planeta). Curiosamente a ONU afirma que 1 bilhão de pessoas passa fome. Isso porque o alimento é meu, mesmo que eu o jogue no lixo ou use para alimentar cães.

    Sinceramente, não sei se um dia o homem chegará ao estágio de compreender que o grande mandamento é amar ao próximo. Acho que não! Porque para chegar a isso teria de abrir mão do eu e do meu. Esses dois pronomes crucificam qualquer possibilidade de evolução.

    É, Sávio, ainda “somos os mesmos e vivemos como nossos pais”.

     

  • sábado, 24 de dezembro de 2016 09:33

    A mão que me acena

    É dia para um texto mais sóbrio, menos dolorido e capaz de abrandar a dureza deste ano que, felizmente, já acena adeus!

    A mão que me acena desde a infância e que tanto me fez falta na urbanidade é a mão do colono; do agricultor humilde em seu modo de viver, mesmo quando é homem de grandes posses. Esse vivente do campo, pelo menos em nossa microrregião com descendência de imigrantes, tem o respeito como um dos pilares da sua formação social e cultural.

    Essa gente do campo acena “bom dia” sempre que passa. É regra de conduta no interior esse breve aceno de mão, um cumprimento singelo e respeitoso. Se passar de carro ou mesmo a pé por um vizinho do interior e não levantar a mão, de certa forma, está negando o “bom dia ou boa tarde”, e isso é um modo de ofendê-lo. Esse breve aceno é uma frase sem palavras, mas de muitas traduções. É um “bom dia”, ou “tudo bem?” ou “eu respeito você, meu vizinho”.

    Quando me negam o aceno ao passar em nosso trajeto de vir à cidade, sei que aquele indivíduo é da cidade. Se não me retribui o gesto de “bom dia” é desconhecedor do afeto que o gesto traz. No interior o breve aceno é para o estranho, para quem nunca vimos, mesmo que ele nos sufoque na poeira do seu carro. No interior o avanço do tempo ainda não tem relógios digitais, mesmo que desfrutemos de toda a tecnologia.

    Falta disso quando estou em Santa Rosa ou noutras cidades maiores. Falta o bom dia cheio de afeto e respeito para nos lembrar que somos humanos. Creio que em Tuparendi e Mauá esse “Buenos dias” ainda está presente, porque os relógios não seguem a mesma velocidade em cidades menores. E por isso o afeto ainda é mais puro, mais cotidiano.

    Na cidade, nos idos tempos, ainda aprendi a pronunciar “bom dia” para gente que via apenas de cruzada, mas com o passar dos anos a nossa pressa transformou o termo apenas em “ôa”, no modo rápido de abreviar o “boa tarde” ou “boa noite”. E abreviamos tudo, a começar pelo nosso tempo. É tudo para ontem, tudo pressa, tudo avião... quase sempre sem se dar conta que a vida passa a jato.

    E você, quando vai tirar um tempo para pensar nisso, pensar em se aproximar do outro? Quando tirará tempo para abraçar, para amar, para curtir o próximo?

    O Natal é apenas um dia e dura apenas um dia. O sentimento, esse pode enraizar e ficar. Tenha tempo para acenar...

  • sábado, 17 de dezembro de 2016 10:20

    Uma semana de quedas

    Pensava eu nas notícias da semana e que palavra a encerraria de forma perfeita. Queda! E nem vou me reportar à queda do Inter à Série B, se bem que também está no contexto.

    Na semana em que integrantes do governo municipal caíram porque rompeu a malha da fossa, caiu a Lina Michalski, figura que acompanhou o prefeito Vicini em todos os seus passos desde que se tornou a lenda que é. Lina, Lozekan e Giovelli são aqueles nomes eternos no PP. Pois a Lina foi exonerada! E quando se pensava que o desgaste estava elevado, há uma queda acentuada de braço entre governo e oposição porque, em tese, o governo atesta que não é preciso estudo para ocupar diretorias e secretarias na Prefeitura. Ora, assim há queda de popularidade.

    Uma semana de dores de cabeça para o governo da Nação, tendo em vista que há um desespero do Temer e seus aninhados em anular a delação da Odebretch. Já vimos a queda do assessor direto do Presidente da República, no entanto o Jucá e dúzias de grandes estão nas listas da construtora. Sem contar os tantos ministros que já caíram. Não para de cair a popularidade do esposo da Dona Marcela, e apenas 61% dos brasileiros pedem novas eleições já. Isso que a Reforma da Previdência nem começou a feder ainda.

    Teve também a queda do STF a um patamar abaixo do lixão depois da decisão envolvendo a recondução do Renan Calheiros à Presidência do Senado. Aliás, o Supremo tem se mostrado bem abaixo da crítica em vários momentos. Não seria agora que se mostraria à altura de um país de primeiro mundo.

    Mas de tudo isso, o que me intriga mesmo é a queda de braço entre Câmara e Senado e o Judiciário, tudo abrandado a vinho tinto e jantares de milhões de reais. Não é uma briga por moralidade ou por avanços nacionais, é uma briga por manter suas benesses próprias, seus quinhões de privilégios nessa grande oligarquia escravagista.

    Escravagista sim, porque o Governo quer implementar uma Lei Previdenciária que transforma o trabalhador mais humilde em escravo. Leiam sobre a Lei dos Sexagenários, a dita que dava liberdade aos escravos com mais de 65 anos, quando já não podiam mais trabalhar. Seremos todos escravos, trabalhando para o sistema bancário e meia dúzia de castas privilegiadas.

    Por que não mexe com as aposentadorias dos militares? Por que não mexe com as aposentadorias dos políticos? Por que não termos uma lei igual para todos os brasileiros, tendo em vista que todos são “iguais” perante a lei? Por que não caem todos na mesma malha? Por que cair tudo nos ombros dos mais pobres?

    Se a palavra da semana é queda, eu gostaria que caísse o governo que aí está, e com ele todo o Parlamento e o Senado, ou até ele findar estaremos todos “quedados” na vala da miséria futura.

  • sábado, 10 de dezembro de 2016 11:52

    Eu, tu, o vereador e a fossa

    O que aconteceu em Santa Rosa nesta semana nos remete diretamente à pergunta: qual o papel do vereador?

    Não farei aqui juízo ao vereador Marino, alvo da ação no Tribunal Eleitoral e condenado em função dela até porque isso é papel da Justiça. No entanto, imagino que se nós passássemos o pente fino nas Câmaras por empregarem expedientes parecidos a estes, restariam nelas poucos vereadores, especialmente aqueles que têm governos em suas mãos.

    Errado está o vereador em se valer da máquina pública. Sem dúvida alguma! No entanto, há outros dois culpados (ao menos dois) aos quais precisamos apontar o dedo: a Prefeitura e nós, os cidadãos. Nós, Clairto? Tá maluco?

    Ora, se o vereador é procurado pelo cidadão para resolver um problema em seu favor, é óbvio que ele tentará ajudar, ou por amizade ou por entender que está diante de um voto no pleito seguinte. Nisso, obviamente, no entender desse chato de plantão, extrapola seu papel que é legislar e fiscalizar o serviço público e a Administração.

    No entanto, quase sempre, para que um cidadão procure ajuda do vereador, terá de contar com a ineficiência do serviço público. Com quem devo reclamar a respeito da ponte quebrada (já arrumaram) sobre o Lajeado Antas? Com a Prefeitura, ora. Se tiver que entrar em contato com o Miro Jesse ou o Cláudio Schmidt é porque ninguém no âmbito da Secretaria competente resolveu. (Citados aqui porque são vereadores que têm suas bases eleitorais mais fortes no interior, na região em que moro). Ora, não pode um cidadão procurar várias vezes a Prefeitura até ser atendido em seu pleito... (e aqui não é crítica ao Vicini, é uma referência ao serviço público quando inoperante).

    E nós? Bem, nós fazemos o caminho mais fácil: delegamos ao vereador o papel de resolver nossos problemas. Ora, ele não é servidor do Clairto. É da sociedade. Então, em benefício meu, pessoal, não me cabe pedir nada. No caso das fossas que deram “merda” o caminho correto é procurar a Prefeitura ou pagar um esgotamento privado. Ah, sim, mas se não resolve? Aí vai ao Zelindo... (brincadeirinha, mas séria). O vereador tem que ir sim na Prefeitura, mas não para resolver caso a caso, tem é que ver qual a raiz do problema e encaminhar solução.

    Outra questão é que durante muitos anos os vereadores estiveram sentados sobre montanhas de grana com seus salários completamente fora da realidade (e digo que hoje nem é mais tão elevado assim, comparado há dez anos no passado). Por isso, a população entendeu que seria justo, na hora da eleição, pedir parte desse valor para si, mesmo que fosse em pagamento de uma conta de luz ou um “bujão” de gás. Chega disso! Hora de consciência.

    Ora, não é papel do vereador limpar fossa séptica (poço #### aquele, já que não posso usar a palavra). Aproveito a deixa para dizer o mesmo dos deputados e suas emendas parlamentares porque isso sempre soa como a barganha e aliciamento...

    Por falar nisso, eu não tenho palavras para descrever a vergonhosa atuação do deputado estadual Jardel, aquele que foi ídolo do Grêmio nos anos 90. Um moço desses tem que sair preso do plenário!

    Salve-nos o Judiciário!