• sábado, 26 de setembro de 2015 02:17

    A cena da semana

    A cena da semana poderia ser o elefante envenenado para roubarem as presas, ou poderia ser a morte de 700 peregrinos pisoteados em Meca, ou as intempéries que atingiram o Rio Grande no seu dizer “bem-vindo primavera”. Poderia ser qualquer uma delas.

    Poderia, mas a minha cena da semana é a Brigada baixando a lenha nos professores durante o ato em Porto Alegre.

    Não quero adentrar no pantanoso terreno do mérito legalista dos soldados que cumpriam a ordem profissional. Estavam lá para isso (para não deixar os manifestantes ingressarem no prédio). Estavam lá por ordem dos superiores que, por sua vez, respondem ao Governador do Estado. A simples lógica remete à conclusão que quem baixou a lenha nos professores não foi a Brigada, mas sim, quem a tem na mão.

    É verdade, os brigadianos apenas agiram porque o movimento estava emparedando o aparato de segurança! Sinceramente, eu vi bem mais que isso. E vi também a ruína da civilidade e da humanidade. E não pensem que não vi os comentários na rede social em posicionamento favorável aos mandatários.

    É evidente a qualquer gaúcho que o CPERS e boa parte do movimento sindical dos trabalhadores têm um alinhamento político com o PT. De certa forma, era sim, um protesto político. Mas também era um protesto social. O que não se justifica é a pancadaria. E também não se justifica a defesa do exagero.

    Sim, porque depois, a pancadaria verbal correu solta na internet.

    A cena da semana envergonha o Rio Grande, muito embora os defensores do “desce a porrada” pensem o contrário. Envergonha porque quando chegamos ao ponto de agredir professores e servidores que protestam estamos dizendo a todos “eles não têm valor algum”. Estamos dizendo aos estudantes “podem xingar, podem ser estúpidos, podem ridicularizar os educadores”.

    Aplaudiu um grupo que não vê mais professores. Aplaudiu um grupo que os vê apenas como petistas empunhando bandeiras do CPERS. Aplaudiu quem quer ver a população cada vez mais inculta (sem educação), sem capacidade de perceber as várias faces da mesma moeda, no mesmo jargão de sempre “quando mais burro, melhor”.

    Aplaudiu quem não precisa ter o filho em escola pública estadual para ser instruído por professores mal pagos e que além de ganhar pouco, têm salários parcelados... Aplaudiu quem ganha R$ 2 mil ao dia ao passo que um educador ganha isso num mês. Ah, claro, se não quer trabalhar por este salário, que caia fora!!! E se caírem fora, quem vai dar aula para os filhos dos pobres?

    A cena da semana deveria ficar um mês rodando sem parar na Tv, exibida em todos os jornais, circulando na internet como forma de dizer: “assim valorizamos os profissionais que educam seus filhos”.

     

     

  • sábado, 19 de setembro de 2015 00:49

    Os muros das explicações

     

    Os arames farpados na Hungria, o muro da vergonha na divisa dos EUA com o México e a volta do movimento separatista têm muito em comum.

    Acho que, no fundo, se fizéssemos um levantamento entre os gaúchos, detectaríamos um percentual elevado de simpatizantes do separatismo. Na Semana Farroupilha, no auge do orgulho, vou ser indelicado com alguns. E certamente, até comigo mesmo, porque por muitos anos vesti a bandeira separatista.

    Sempre entendi que o Rio Grande do Sul era melhor e diferente do restante do País. Mentira. Somos iguais, porque somos humanos. E em alguns aspectos, talvez até piores, principalmente em questão aos preconceitos. Mas, claro, temos incontáveis virtudes. Não há como desmentir a coragem do gaúcho, a lealdade, o amor pelas tradições e tantas outras coisas que poderia mencionar.

    Eu amo o meu Rio Grande, a ponto de usar bandeira sempre que posso. Não escolheria outro Estado para viver e se pudesse dizer a Deus onde pretendia nascer, diria, exatamente ali, no Sul do Brasil. O que nos falta para sermos um país? Nada. Basta comparar ao Uruguai. O que me irrita é o oportunismo...

    O que me irrita nesta hora, quando os barcos estão à deriva - tanto o Brasil quanto o Estado perdidos em meio aos temporais - é a intensidade com que os aproveitadores trabalham. “O Sul é o Meu País” ganha adesões a cada dia e planeja um plebiscito nos três estados sulinos. No fundo, estão dizendo: “Somos melhores. Não queremos mais fazer parte dessa nhaca toda”.

    É assim que começaram muitos movimentos traumáticos da humanidade, como as ditaduras, as guerras e os ódios que perduram por séculos. É o sentimento de que um é melhor. Hitler pensava assim. Os norte-americanos pensam assim enquanto semeiam suas matanças pelo mundo. Foi com sentimento igual que dizimamos os índios na América e o Estado Islâmico trucida milhões de inocentes.

    Se você se choca com a criança síria morta na praia, com aqueles navios entulhados de imigrantes que naufragam no Mediterrâneo ou com as cercas de arames farpados da Hungria ou com o muro da vergonha que os americanos construíram para ignorar a pobreza mexicana, então não há lógica no separatismo que ganha força. Não somos melhores. Somos humanos, todos. Ter imenso orgulho em ser gaúcho, isso sim, mas para gritar a todos que temos uma identidade cultural própria e a valorizamos.

    A repórter húngara que chutou pai e filho imigrantes que furaram o cerco policial para fugir da barbárie da guerra é igual ao repórter de qualquer cidade, inclusive Santa Rosa, que divulga nomes de pobres coitados registrados nas ocorrências policiais, mas se acovarda quando o assunto envolve gente que tem grana. Ela chutou porque tinha medo, como disse. Chutou por covardia e por se achar melhor. O pior de nós ressurge quando entendemos que somos melhores que os outros.

    Não sejamos melhores. Sejamos grandes. Sejamos justos. E assim andemos de cabeça altiva, como os Farroupilhas, a bradar: Sirvam nossas façanhas de modelo a toda terra!

  • segunda-feira, 14 de setembro de 2015 07:51

    A cultura que faz bem à saúde

    O secretário de Cultura deixou a reunião do Conselho na quarta-feira após mencionar a necessidade de pensarmos na criação de uma Fundação para gerenciar o setor.
    Não, não é uma ideia nova. O assunto está em pauta há alguns meses, talvez anos, entre os agentes culturais, sem que haja evolução. No entanto, como há Conferência de Cultura agendada para outubro, torna-se pertinente voltarmos ao tema. Quem sabe se alimentarmos o debate possamos estabelecer uma nova forma de gerenciarmos a cultura em Santa Rosa.
    A Fundação de Saúde foi criada quando ninguém sabia exatamente como funcionaria. Surgiu para propor certa autonomia que lhe assegurava mais verbas federais e estaduais. O resultado está aí. Sem dúvida Santa Rosa tem a melhor saúde pública do Rio Grande do Sul. Não é fruto deste ou daquele prefeito, mas sim, da manutenção e continuidade de um projeto ousado e vitorioso, construído com decisivo aval dos usuários do sistema.
    Pois bem, o que o Anderson Farias propôs e os conselheiros de Cultura têm discutido é algo semelhante. Começa pela autonomia, para não dependermos dos favores e boas-vontades dos administradores. A situação atual é preocupante, pois a maior luta dos artistas, o Fundo de Cultura, se mantém com R$ 150 mil, tal qual como foi criado, e sofre exageradamente para sobreviver em meio a tantos faconaços.
    Uma Fundação Cultural avançaria ao propor captar verbas junto a empresas privadas, outras fundações e esferas de governo (União e Estado). Hoje, os recursos disponíveis para a cultura mal cobrem as despesas com a folha da Secretaria e cada vez mais os bons projetos sucumbem ou são enterrados sob o manto da penúria financeira. É o caso do Festival de Cinema e do Musicanto.
    Um pórtico de acesso à cidade até é necessário, mas não é cultura. Pintura nova ao Pórtico da Xuxa é necessária, mas não é cultura. Cultura é o Brique da Praça, a Jornada Literária, o Musicanto Vai à Escola. Cultura tem que ser o alimento diário do cidadão, tem que ser o ar que ele respira, porque nós, seres humanos, somos mais que braços para o trabalho.
    Queremos mais! Merecemos mais! Artista não é mendigo, é criador. Artista trabalha com a alma das pessoas, trabalha onde o medicamento não age. Artista deveria ser remunerado como médico, tanto é que muitos programas públicos de saúde usam a arte em seus tratamentos. Mais cultura, menos remédios!

  • domingo, 6 de setembro de 2015 15:56

    É fácil jogar para torcida

    A imagem do atleta que faz um gol e corre à torcida a beijar o escudo do time na camiseta é perfeita para explicar certos atos políticos.

    Eu queria escrever uma crônica sobre o não desfile de 20 de setembro em Santa Rosa. Queria argumentar, não apenas porque sou favorável ao movimento que vai à rua, e no que ele é tão diferente do silêncio dos barrados no desfile da Pátria. Queria escrever sobre o orgulho do gaúcho. O imenso orgulho de todos nós. Então mudei de prosa.

    Mudei de prosa ao refletir no porquê de, após tantos atos “impopulares” do governador José Ivo Sartori, a sua popularidade ter aumentado. Estranho isso? Não. Ele sabe jogar para a torcida. Ele é talhado no marketing que guindou Lula, Getúlio e outros populistas. Tem que saber beijar o escudo até na hora de cometer pênalti.

    Nada melhor que usar o brio dos gaúchos, o orgulho ferido dos gaúchos. Sempre é gol. Dizer “Já pagamos essa dívida” é golaço. É afiar facas pra Revolução. E se for preciso conclamemos um novo 20 de setembro! E não faltará empolgados para defender a tese de separar o Estado do Brasil aos gritos de “salve o governador”.

    O povo está ao lado de Sartori. O Rio Grande está do lado do seu Governador. Acompanhe as redes sociais, as manifestações afirmativas e contundentes em defesa do salvador do Estado. Há até grandes empresários, contra o aumento de impostos, mas defendendo todas as demais atitudes. A culpa não é dele.

    A culpa é do PT. A culpa é do PTarso e PTilma. E nada mais fácil nos dias atuais para ganhar popularidade que erguer um cartaz com “Fora PT”. É fácil jogar para torcida, desde que possa ignorar que os principais jogadores do seu próprio time estão por empréstimo a fazer gols no time “adversário”.

    Quando diz que não há outra saída que não aumentar impostos, está jogando para a torcida. Se os deputados não aprovarem, estão do lado dos empresários e levam a culpa. Se aprovarem, as contas estarão salvas. Se rejeitarem, dão o argumento para as privatizações a caminho.

    Quando paga os salários dos servidores em parcelas, está jogando para a torcida. Está anotando golaço. Ele quer a greve, as paralisações, quer porque o povo ficará do seu lado. Quem leva a culpa é o servidor, “os vadios” que o deputado do governo xingou nesta semana. O povo diz em coro que não tem de onde tirar dinheiro, então, o homem está certo.

    A imprensa dos gaúchos, a que elegeu dois dos nossos três senadores, divulga a lista dos super-salários dos servidores e promove um clima fantástico, festivo, um clima de “servidor é tudo igual”. É gol para o governador. Só que a imprensa omite que ele é aposentado do parlamento gaúcho, com generoso salário.

    Quem está no governo ri à toa, ri porque as medidas impopulares são extremamente populares. É só cutucar o orgulho dos gaúchos. Aí sim, mexeu com os machos da espécie, mexeu em vespeiro. “Tamo junto, governador”.