• sábado, 11 de julho de 2015 09:52

    Não vai ser fácil vender o Moroni

    Goooooollllll! É no Moroni, ginásio que viu muitas glórias. É gol dos preservacionistas da história...

    É a sensação que ficou (para mim) após findar o debate produzido na Rádio Noroeste para lançar luzes sobre as três correntes que se posicionam a respeito do ginásio de esportes João Batista Moroni: uma é pela preservação total, outra é pela manutenção do terreno e a de Vicini, que quer vender tudo. Fiquei com a sensação que não vai ser fácil o prefeito convencer a comunidade a concordar com seu posicionamento.

    O prédio está lá, cercado de tapumes, desde novembro do ano passado. Nesse tempo, nada se fez. E tudo segue na Justiça. O prefeito espera um temporal para que o ginásio caia e facilite as coisas pro seu lado. O Conselho de Cultura e a OSCIP Defender esperavam laudos técnicos para endossar a preservação. E a oposição política espera os desdobramentos para se mover.

    Nesse compasso de espera, o primeiro gol foi anotado pelos preservacionistas. A turma liderada pela Luciane Miranda recebeu dois descritivos técnicos, um do IPHAE e um de engenheiro ligado ao Ministério Público. Garantem que o prédio é de valor histórico e cultural e que pode ser reformado. Pode. É pepino para a Promotoria descascar. É de lá que virá o próximo movimento. Por ora, a bola segue na marca do cal.

    Foi um dos debates mais acalorados que produzimos nas manhãs de sábado. A possibilidade de venda da área sobre a qual está assentado o ginásio de esportes João Batista Moroni é uma cama de espinhos, nisso todos concordam. Vicini, Salsicha, Fonseca, Luciane Miranda e Osório trocaram argumentos contundentes, algumas vezes com farpas bem pontiagudas. Mas, discordam em quase tudo.

    Vicini insiste na venda do terreno através de leilão (o lote engloba também o espaço ao lado, o antigo Restaurante Chaleira Preta). Reformar custaria muito caro e o município não tem esse recurso em caixa, segundo ele. O prefeito quer conseguir R$ 2,5 milhões ou mais e iniciar a construção de um novo ginásio, aquele futurista, no Parque de Exposições. E refuta os dois laudos técnicos, por completo. Não vai levá-los em conta.

    Luciane Miranda não quer nem ouvir falar nessa possibilidade de venda e demolição. Fonseca também não. A diferença entre ambos é que o vereador aceita derrubar o prédio se não houver outra alternativa, mas mantendo a área sob domínio público para outros projetos. Já o Osório teme que o Moroni se transforme em caso semelhante à Prefeitura velha, um baita problema que se arrasta por década.

    Não apenas pelas posturas enérgicas de Fonseca e Miranda, mas também pela quantidade de mensagens recebidas via Facebook e celular, imensamente favoráveis a ambos, creio que não vai ser fácil o Vicini conseguir vender o imóvel. Ainda mais se com R$ 600 mil é possível reformar o Moroni e devolvê-lo à comunidade para uso. A bola segue na marca do cal, à espera da juíza (no caso, promotora).

    Por ora, assim posto, o pênalti favorece Luciane Miranda.

  • domingo, 7 de junho de 2015 09:35

    Nos perdemos na burocracia

    Tudo complicado demais, tudo cheio de leis demais, tudo engessado, tudo chato demais.

    Nesse país do “nada podemos, mas eles podem tudo” um dos maiores incômodos é o excesso de trâmites e fiscalizações. Tudo para quê? Teoricamente para evitar que os políticos e seus amigos colocados no poder lesem os cofres públicos. Ou para que o cidadão faça mau uso da sociedade. Mentira. Na verdade, tudo para abrir novas torneiras, novos gotejamentos por onde a verba possa sumir.

    O Brasil não é um país competitivo nos dias atuais por conta de seus excessivos impostos que atravancam algumas áreas, mas também porque há leis demais, há papéis demais, há deuses demais a quem devemos pedir autorizações. Quando o empreendedor pensa que venceu uma etapa, vem outra, e assim prossegue o martírio, até que ele praticamente desista.

    São asneiras em demasia, muitas delas para emparedar o cidadão, para que possa gerar uma multa ou uma ação judicial que impacte em verba para os cofres públicos. Morre alguém de forma estranha e lá vai algum político inteligente criar lei para garantir a segurança no elevador. Se alguém morrer ao abrir uma garrafa de cerveja com os dentes, engasgado, por exemplo, daqui a pouco um nobre proporá que o líquido seja vendido em embalagens plásticas ou coisa semelhante.

    Se vivêssemos rigidamente dentro dos princípios constitucionais, para cumprir todas as leis que criaram, não sairíamos de casa, não nos moveríamos do lugar. E talvez criassem então uma lei para dizer que estamos consumindo o ar do planeta sem contrapartida alguma e exigissem o pagamento de alguma cota.

    Na verdade são pequenas leis, muitas vezes idiotas, que nos levam algum dinheiro e nada acrescentam à nossa vida. Lembram dos kits de primeiros socorros exigidos dos motoristas? Pois é, para quê?

    A questão não é nova lei para cada “pum” que o indivíduo solta. A questão é punir o sujeito se o “pum” dele derrubou um prédio. É simplificar. Mudamos todo o sistema legal em função do incêndio na Boate Kiss. Engessamos tudo. Está complicado fazer uma festa, abrir uma empresa ou promover um evento. A questão é punição exemplar a quem excedeu, a quem provocou a tragédia. Mas no Brasil se faz o inverso, criamos leis que pouco acrescentam e novas faculdades de Direito para formar advogados que encontrem brechas nas leis criadas.

    É a mesma lógica para motoristas que bebem, dirigem e matam. Se assumiram o risco, incorreram em tentativa de homicídio. É cadeia, meses de cadeia pelo menos. Simples assim. Sim, o sistema carcerário está superlotado. Coloque essa gente a trabalhar, a gerar alguma renda. Aí criamos a Lei Seca, que o bom cidadão respeita e os bebuns continuam burlando... e matando nas rodovias.

    Alguém me disse noutro dia: “Não precisamos que o Governo nos ajude. Se não atrapalharem está ótimo”. É isso. Queremos viver. Precisamos de um país menos chato, de um governo mais simples, de uma vida mais simples, de gente menos chata. Precisamos rir. Chega de bombas sobre nossas cabeças e peso sobre nossos ombros.

  • sexta-feira, 29 de maio de 2015 16:24

    O Vicini é candidato à reeleição

    Acabo de desligar o televisor, depois de ver o Inter ganhar do Santa Fé. Sei não, mas isso ta com cara de título.

    Aí alguém dirá: o que tem isso a ver com o prefeito Vicini? Nem sei a qual time ele torce, mas pensava, exclusivamente, no mandato atual e repassava algumas situações que pareciam de arrasar quarteirão, como a CPI dos Tubos. E quando tudo se desenhava para dar errado, um temporal por semana pros lados da Prefeitura, aí os jogadores se ajeitam, o time alinha e goooool. Agora está na fase de festa, rindo à toa.

    Ah, sim, o jogo do Inter. No caso da partida de quarta-feira, nós, desta vez secadores, já vimos esse filme outras vezes. Já vimos o Rogério Ceni entregar uma final de Libertadores. Campeão. Ou neste ano mesmo, naquele jogo com o Cruzeiro (Poa), ou na final do Gauchão quando o Grêmio entregou dois gols, um deles de forma bisonha. Faixa neles! Aí vê o lance de hoje: bola na mão do atleta colorado ou tiro de meta. O bandeirinha, a um metro, não marca nem um, nem outro. Dá escanteio, ridiculamente errado. Gol do Inter, gol da classificação. Tem cheiro de título!

    Pensava nisso e pensava no Vicini. Ele teve seu inferno astral no começo do governo, administrando um time desentrosado, com algumas contratações novas. Errou vários penais. Quer dizer, erraram. A bola não entrava, e vaia nele. E no meio disso, sua vida pessoal atingida. Ajeita cá, ajeita lá, espera, troca peças, ensaia novas jogadas e tudo dá certo, tudo em paz com a torcida.

    Quando a fase é boa, todo vento é a favor. O Inter teve méritos sim, mas o vento tem empurrado o barco também. O Vicini também tem ventos favoráveis hoje. Alguns seus. Outros são presentes do adversário, afinal basta abrir qualquer jornal, qualquer site de notícias, ligar qualquer noticiário e lá está: Dilma (leia-se PT) alvo de críticas, Petrobras e seu escandaloso campo de corrupção... e assim segue a lista. O Vicini nem precisa marcar gol. Os adversários têm jogado contra as próprias redes. E o prefeito vai pro abraço da galera! Sim, porque essa "nhaca" toda que está borrando o Brasil maculou o PT (mesmo que indiretamente em alguns casos), principal adversário no momento.

    Aí você deduz: Se quando Vicini disse que não ia concorrer, ele foi candidato... Agora então, que anda silencioso sobre o assunto, agora é nome na cédula. Está escrito em seu sorriso e certamente na sua releitura dos fatos. Claro, ainda há muita água para rolar até outubro do ano que vem e sempre tem enchente de São Miguel em setembro, mas...

    Quando a fase está a favor, até Gabiru faz gol. Esta é a questão. O temor dos gremistas é que os ventos continuem soprando no Guaíba. Já na política, bem, as outras siglas têm um ano para mudar o cenário, formar times fortes e brigar pela faixa. Neste instante é o nome da hora.

    Em tempo:

    lancei um livro com algumas das melhores crônicas que publiquei nos últimos anos. "A Dé, o tempo e o mate". Se quiserem, peçam pelo email acima ou no site da Café Pequeno.

  • sexta-feira, 22 de maio de 2015 21:08

    As bordas do pão

    Ainda ontem eu era um menino que sentava ao lado da vó para ouvir histórias de outros tempos. Hoje, quando abro os olhos, estou na Empresa Jornalística Noroeste há 20 anos.

    A vó, mãe da mãe, contava histórias de matas fechadas e bichos que eu não conheci. E ela tinha algumas manias como usar um pano leve sobre os cabelos e uns modos de nos ensinar que nunca apaguei. Eu odiava comer a casca do pão, as bordas, mais rijas e queimadas. E ela ralhava em dialeto alemão: “Se não comer, vai ficar com as bochechas bem vermelhas”. A gente, então, fazia aquele esforço e engolia. Afinal, ninguém queria ficar para sempre com o rosto feito “cara de piá envergonhado”. É claro que ela sabia que não era verdade, mas usava o artifício para nos ludibriar. Cresci assim, entre histórias e ensinamentos, colhendo dos mais velhos a semente da vida.

    Eu ainda morava na Linha Giruazinho quando ouvia pela Rádio Noroeste as transmissões de um time chamado Dínamo. Nascia ali uma paixão que eu nunca entendi. Minha mãe ouvia um cara chamado Zelindo Cancian e adorava aquele programa. Então, imagine a felicidade dela ao saber que uma jovem vizinha nossa casara com o tal radialista (na época, a Meri). E no giro do mundo das impossibilidades, o filho, criado a campo, dá nos costados da mesma emissora de rádio e se aquerenciou.

    Ainda como as cascas do pão, com melado e nata, de preferência. E conto e escrevo minhas histórias. A filha não precisou do artifício ensinado pela avó, mas talvez um segundo ou terceiro precise. Registro isso porque nas memórias guardo aquele rincão, sua gente e ensinamentos tão puros quanto o mel de Jataí.

    Então, na semana que a Noroeste comemora 52 anos, qualquer um que tenha vestido a camisa transborda orgulho. Não somos perfeitos, não resolvemos os problemas do mundo, não somos a verdade total, mas certamente contribuímos muito na construção dessa amada cidade. O guri da Giruazinho está a 20 anos no Jornal Noroeste. Tempo para escrever milhares de notícias, incontáveis crônicas, dezenas de poesias e alguns contos.

    Fechamos uma Feira do Livro excepcional, vibrante, encantadora. Todos que a fizeram foram magistrais (sem nomes, tá?). Percebo que os jovens voltaram a ler e que a magia de contar histórias nunca desaparecerá. Apenas muda a forma, a tecnologia, mas ainda transborda naquele que atinge. (E sobre a Feira, não sei como - legalmente - mas precisamos encontrar um modo de levar o vale-livro às escolas estaduais como CIEP, Mercedes Motta e Tiradentes, só para citar algumas. Vamos pensar juntos!)

    A Feira debateu intensamente a liberdade. A Rádio Noroeste, na manhã do sábado, debateu o mesmo tema. E não sei se há alguém completamente livre (pois todos nós temos nossas amarras sociais, culturais, religiosas, etc), mas estamos vivendo a graça de um país livre para manifestações e divergências, com problemas sim, mas democrático. E, claro, nenhum homem de imprensa é 100% livre para dizer tudo o que quer, tudo o que pensa. Mas nos esforçamos para darmos liberdade, para sermos livres e para deixar a comunidade usufruir desta mesma liberdade.

    Vou continuar a comer a casca do pão para não ficar com as bochechas vermelhas feito um peru; isso ajuda a lembrar da minha vó. Vou continuar contando histórias porque é o que sei fazer. E a Noroeste vai continuar por muitos anos na mente das pessoas, alimentando histórias que passarão de geração em geração.

     

    P.S.

    Obrigado, Claudiomiro Sorriso, pela coluna da semana passada.