• sexta-feira, 17 de julho de 2015 16:03

    Eu queria abrir uma farmácia

    Enquanto a Unijuí briga e esperneia por perder o curso de Medicina, faço planos para abrir uma farmácia. Talvez para vender colírio.

    Somos cegos quando nos é conveniente. E nessa imensa gelatina social, o que menos importa é colírio. A crônica era para ser a respeito dos índios que vivem alojados no entorno do Trevo do Porco. Vivem, sim. Vivem porque ficam alguns meses, saem, e depois voltam. A crônica era para versar sobre as condições precárias, inexistentes, degradantes a que estão expostos os donos reais do Brasil.

    Mas resolvi escrever sobre a cegueira nossa de cada dia, essa que nos faz passar cotidianamente ao lado daquelas lonas plásticas pretas sem ao menos nos perguntarmos: estão bem? Na visão a que estão acostumados, se lhes perguntarem, eles dirão que sim. Mas, estão bem?

    Há alguns dias escrevi uma crônica sobre a vinda dos haitianos ao Brasil. Levei “um pau federal” de um leitor que discorda do meu ponto de vista. Segundo ele, devemos fechar as portas do País a esta “invasão”, afinal sequer temos empregos ao nosso povo. Talvez o moço devesse acessar algum site para se inteirar sobre a realidade do Haiti nos dias atuais, a miséria, a guerra entre gangues e a pestilência. Sem colírio, nem adianta acessar sites mesmo.

    A dor dos outros não dói nesse moço. O que me diria ele sobre os gaúchos que estão acabando com a floresta da Argentina (Missiones) e do Paraguai para plantar soja ou fumo? O que me diria a respeito dos brasileiros que usam coiotes para entrar nos Estados Unidos ou pagam fortunas por passaportes para a Europa? Diria que eles devem ser presos e mandados embora porque buscam uma vida melhor?

    Mas somos cegos apenas quando nos é conveniente. Tanto faz os mendigos em nossas praças, os presídios com gente empilhada feito lixo, as crianças prostituídas nas periferias. Tanto faz. Tanto faz que os índios estejam ali no trevo. Tanto faz que façam as necessidades no mato, que mal tenham água, que fiquem semanas abaixo de chuva (como nestes últimos dias).

    Tanto faz, afinal colírio custa caro e não nos sentimos doentes para que precisemos usar o líquido que limpará nossos olhos. Afinal, como diria meu leitor que não suporta a invasão dos haitianos, eles, os índios, estão ali porque querem... É verdade. Mas não estaria na hora de o poder público fazer algo mais?

    No começo eu me incomodava com as lonas pretas e aquele monte de lixo que fica exposto na margem da rodovia. Isso foi antes do colírio. Agora me entristeço com as condições de vida daquela gente. Melhor não colocar estrutura para eles, diria aquele leitor, porque daí bem que eles acampam eternamente ali. Mas eles vão e voltam, voltam e vão... Por que não garantir um piso cimentado, uma casa de moradia, umas barracas de artesanato, alguma estrutura básica?

    Somos cegos enquanto não fazemos perguntas difíceis de responder. Somos cegos enquanto aplaudimos a Unijuí perder o curso de Medicina para forasteiros. Somos cegos porque não nos ousamos pensar: por quê? Somos cegos quando nos é conveniente. E somos todos sábios quando usamos o pensamento pronto, enlatado, confortável. Somos todos sábios com as barrigas cheias, sem a dor dos outros a nos incomodar.

    Eu gostaria de vender colírio. Mas eu não vou abrir uma farmácia. Não enquanto Deus me der a palavra e com ela eu souber produzir algum elixir.

  • sábado, 4 de julho de 2015 08:48

    Acho que estou ficando velho

    Acho que estou ficando velho, ou estou com saudade do tempo em que tínhamos algumas certezas.

    Penso nisso enquanto concluo o livro biográfico do prefeito Anacleto Luiz Giovelli, ele que reúne amigos, amanhã, no Parque de Exposições para celebrar seus 80 anos. Admito, conheci um gigante. Não é em vão que sempre adicionem a palavra prefeito ao seu nome, como se fizesse parte do próprio nome: prefeito Giovelli. E cada vez me lamento mais que nós, a geração que tem a minha idade ou menos, ignoramos os vultos que construíram Santa Rosa e os seus feitos.

    Ah, sim, a crônica é sobre a velhice. É não! É sobre valores. Não que o Anacleto esteja velho, porque facilita está melhor que eu em vitalidade. Mas, são 80 anos nos ombros. Quanto temporal esses olhos já viram e quantas léguas andaram seus sonhos! Pensava eu em quantas mudanças culturais, sociais e de valores referenciais do ser humano ele já presenciou e às quais teve de se adaptar. Pensava nisso, e em como é difícil manter convicções nesse mundo de gelatina dos nossos tempos.

    Até alguns meses, quando Giovelli adentrou ao Jornal Noroeste para “hablar” sobre a possibilidade de ajudá-lo a escrever um livro, nunca conversáramos. Sabia que foi prefeito. Quase nada mais sabia, nem da sua personalidade, nem da história de vida. Mas bastaram algumas poucas prosas, em semanas de convivência, para que me desse conta que estava diante de um “cerne do Cerne”.

    Quando escrevo que estou ficando velho é porque tomei por empréstimo alguns dos pensamentos que ele expôs em meio às entrevistas na montagem do livro (em tempo, tenho de agradecer ao Wilson, da Gráfica Coli, pela eterna mão). E, enquanto o Anacleto destrinchava o verbo, assim, no más, percebi que já escrevi colunas sobre esses temas, com olhar semelhante. A questão toda é: precisamos ter valores ou afundamos nessa nhaca gelatinosa que nos sufoca. E de onde eles virão? Família, escola e igreja.

    Vou deixar algumas frases do Anacleto... ta, são minhas também... Ah, antes de ser prefeito ele foi professor em escolas rurais, diretor, coordenador regional de Ensino, secretário de Educação e Cultura, professor universitário, e assim segue o currículo.

    “A figura do professor, hoje, é pouco valorizada. No contexto em que atuei, o educador era o líder máximo das comunidades, referência e autoridade”.

    “Hoje há direitos demais e deveres de menos, de modo que se estabelece uma relação que sempre favorece o infrator. Isso atinge frontalmente a Escola e o professor, e claro, por via indireta, a família e a sociedade”.

    “Após tantos anos no magistério, após acompanhar as mudanças sociais, vejo que as alterações não produziram o efeito esperado. Hoje os professores não possuem autoridade e nem são respeitados. É preciso voltar a ter linguagem comum entre a escola e a família, centrada em valores que permitam ensinar e educar. Não pode a escola ensinar e educar. São conceitos diferentes e a família não pode abrir mão de sua parte no processo”.

    Está dito! Se pensar parecido é estar ficando velho, então estou ficando velho!

  • sábado, 27 de junho de 2015 10:23

    Tudo acontece no Bela Vista

    “Tudo acontece em Elizabeth Town” é um filme maravilhoso, com roteiro bem acabado e que principia sobre como reagir a um grande fracasso. Na verdade a um retumbante fracasso. E claro, é sobre o amor também.

    Esse título me veio à mente quando eu pensava no embate travado pelos moradores do Bela Vista com a Prefeitura por conta daquela ponte que a chuva levou no ano passado. Sim, é o Bela Vista (jardim ou loteamento). O nome foi escolha do Guidolin, do Benaldo Liberalli e do Claudio Carmargo porque dali se vislumbra o centro da cidade em paisagem de encher os olhos.

    O projeto do loteamento era ousado. O prefeito Erni Friderichs morou lá. O Vicini tinha terrenos lá, sem contar tantos outros proprietários afamados que foram atraídos pelos lotes grandes e a proximidade com a sede campestre do Clube Concórdia. O que era para ser um condomínio fechado isolou tudo e a má fama pegou, pegou tanto que ficou por muitos anos.

    Um filme sempre tem um episódio que desencadeia todos os demais. No caso deste “Tudo acontece no Bela Vista” não sei exatamente quando começou a sucessão de cenas negativas. Talvez lá na origem, quando prometeram um anel rodoviário que cruzaria ali, ligando a AGCO e o Distrito Industrial com Cruzeiro (que até saiu o empreendimento, mas em outro traçado). Ou se foi quando fizeram o Jardim Ouro Verde e este se tornou o xodó das pessoas abastadas, algo como é hoje o Esplanada.

    Ou se foi quando assassinaram em sua casa o empresário Gerson Lunardi e aquele episódio ficou meses latejando na imprensa. Ou se foi quando arrombavam algumas casas por semana. Ou se foi quando a Bela Vista Empreendimentos quebrou. Ou se foi a demora em construir o calçamento da ligação Bela Vista ao Ouro Verde, que demorou séculos para ser concluído (e foi igual como a outra ponta, a que liga à Planalto).

    Bem, não há mal que dure para sempre, diz o ditado. Um dia a urucubaca passa. Um dia... Porque o martírio daquele povo segue. A escola nova do Bairro Planalto foi parar na Justiça antes mesmo de a obra iniciar. A ponte que encurta o caminho ao centro, caiu, desabou. E os prédios recentemente entregues pelo Minha Casa, Minha Vida exalam um mau cheiro que não tem explicação (e não tem quem assuma solução definitiva para tanto fedor...).

    Morei muitos anos no Bela Vista. É um lugar maravilhoso para se viver, especialmente pela área verde que circunda o Rio Pessegueiro que ali ainda tem águas limpas e adequadas a banhos. Os seus moradores, sempre à margem de respostas do poder público, se habituaram a construir alternativas. Esse micromundo é tão diferente que mercadinho não sobrevive naquela ilha urbana, de modo que os vizinhos ainda emprestam erva, açúcar e alguns ovos. Ah, e tem a Arlise Callai que briga sozinha mais que os 15 vereadores, se bem que ela tem alguns assessores.

    Não moro mais lá, mas meu mano sim. Sei o que se passa por aquelas bandas. Então, quero dizer aos belavistenses que mantenho o espírito romântico. O filme “Tudo acontece em Elizabeth Town” tem final feliz. Por isso é de imaginar que isso também possa ocorrer após as muitas cenas entristecedoras do nosso filme local...

  • sexta-feira, 19 de junho de 2015 08:06

    Um pensamento fora de tempo

    Um pensamento fora de tempo porque a hora parece ser de crise e nestes momentos o que as pessoas menos querem é propor investimentos.

    Quando me atrevo a dizer que o pensamento é fora de tempo, é porque se o tempo é de crise e de ajustes nas contas públicas, a última ponta da corda é o segmento de turismo. Se não temos recursos para custear serviços essenciais como saúde e folha de pagamento dos servidores, como poderemos pensar em ações que estimulem um segmento que jamais soubemos explorar? Mas talvez seja justamente nessas horas, quando as nuvens anunciam frio, que devemos aproveitar esse andar mais lento para tirar as mãos dos bolsos e esfregá-las até aquecer.

    Sempre defendi que deveríamos, como cidade, investir pesado em turismo. Temos tudo para isso, principalmente porque somos o polo de uma microrregião e porque temos, naturalmente, elementos atrativos como o Rio Uruguai e uma série de eventos que atraem público, a exemplo do Musicanto e Fenasoja. Em breve a região contará com a barragem da usina elétrica. Todos creem que o Governo Federal vai bancar o investimento e com ele virão dezenas de outras perspectivas. E vamos esperar que Mauá e Alecrim colham todos os bons frutos ou vamos também preparar nosso pomar com antecedência?

    Se o tempo é de ajustes nas prefeituras, melhor ainda para falar em turismo, isso porque quando o ritmo de produção laboral está mais baixo, então é a hora boa para sentar e usar algumas horas com planejamentos. Hora de tirar do papel aquelas dezenas de sugestões que são anotadas há pelo menos duas décadas porque, lembro, a Claudete Mallmann (isso já faz anos) discutindo essa temática.

    Xuxa e Taffarel são apenas dois dos exemplos clássicos de como exploramos mal nossa economia turística. Godói tem praticamente só o assunto dos gêmeos e aparece 10 vezes mais nas fotos que nós. Por que não exploramos com a devida atenção o nome do Padre Arcanjo? Então, o que nos falta? Tirar as mãos dos bolsos e esfregá-las até aquecer.

    Amigos escritores estão escrevendo, aos cuidados do Juca, Magnus e Karla, um livro cuja temática é “contos santa-rosenses”. Buscamos pela memória alguns fatos e personagens pitorescos para transformá-los em histórias. Inventei, ajudado por alguns fatos bastante reais, duas histórias que exemplificam melhor isso.

    Pus no papel um conto sobre uma menina paranormal que atirava pedras e movia objetos com a força da mente. Bem singular, não? Pois é, tem tudo a ver com a santa-rosense Leonice Fitz, que infelizmente faleceu muito jovem. Mas há certa peregrinação ao seu túmulo, sabiam? A casa da família onde os fatos ocorriam, lá na Linha Boa Vista, ainda está lá, com suas madeiras a desbotar... Outro fato que transformei em texto de ficção é a passagem de Joseph Mengele na região. Ele esteve em Santa Rosa também. Há gente que o conheceu. Por que não explorar o “caminho do nazismo na microrregião?”

    Isso tudo poderia nos render bons filmes, bons livros, e visitas, claro, muitas visitas. É turismo latejando, é poço vertendo na terra fértil. Não adianta ter Diretoria e Conselho de Turismo, têm que ter investimentos impactantes, investimentos grandiosos neste segmento para que ele se torne realmente importante. É como se fez com o Vale-livro. Não adianta falar em livros sem incentivá-los. É a água toca o moinho... Aliás, moinho também é turismo...