• segunda-feira, 23 de março de 2015 08:45

    A Três-Marias não morreu

     

    Temos uma planta ao pé da casa, uma flor da espécie Três-Marias que supus ter morrido no início da semana passada.

    Você pensará: em meio a tantos protestos, sofrer a quase-morte da Três-Marias? Ver a flor minguando, murchando, me entristeceu da mesma forma que ver o Brasil atolado em tamanho mar de lama e noticiado no exterior a toda hora. A planta é minha, é íntima, é alimentada com meu carinho e zelo para que os gatos não destrocem as folhas uma a uma como fazem constantemente.

    Triste, num final de tarde, constatei o óbito da planta olhando-a de longe. Senti dor, sim, pois a planta estava no auge de sua floração. Não faz muito, na verdade faz menos de dois anos que um forte vendaval sacudiu toda a ramagem, girou o tronco, e a plantinha foi torcida, lascou o caule. Cuidado aqui, poda ali, aplicados os curativos, sarou, pegou ainda mais corpo. Agigantou-se. Linda, estupendamente linda em matizes de rosa.

    No meu jardim bateu outro vendaval, mais forte ainda. A flor foi toda retorcida, machucou a casca. Sobreviveu por alguns meses, reagiu, se fez viçosa e anunciou a floração. Então precisou de mais força, mais seiva, mais tudo, para sustentar seu porte. Aí se fecharam os canais. Sem casca, sem vida. E, em poucos dias minguou até retorcer todas as folhas e deixar cair as primeiras flores...

    A Três-Marias agonizava, morria. Percebi que as folhas retorciam. Dei mais água. Não adiantou. Não me pus de joelhos para ver a ferida exposta no caule retorcido. Não sou jardineiro, fui posto jardineiro da casa, por isso demorei a perceber a doença, a morte que se avizinhava. Num vapt secaram flores e folhas ao mesmo tempo, sem que água alguma pudesse fazer efeito.

    Ouvi outras vozes, pessoas que me disseram a verdade sobre o quadro real de quase-morte. Quando percebi o machucado foi necessário amputar a maior parte da planta, cortar o restante das folhas e flores que ainda resistiam sugando a pouca seiva que ainda havia.

    Findado o corte, restou somente um talo de alguns palmos, da grossura de um dedo mingo fincado no chão. Que cena dolorida! Ou, que cena de esperança! Vindo, de logo abaixo da ferida, um broto com suas folhas em verde-claro a gritar que a vida ainda estava ali, que é mais forte que um vendaval.

    Ainda verei viçosa e florida a mesma Três-Marias. Antes terá de se recompor toda, ganhar galhos e folhas novas, até formar aquela copa que me encantou quando explodiu em floração.

  • sexta-feira, 13 de março de 2015 16:47

    Não vou ao protesto

    Sei que vou desapontar metade dos meus amigos, dos leitores como a Mara, a dona Rute, o Jaime, mas preciso me posicionar, afinal seria covardia ausentar-me em discussão tão importante.
    Não vou porque o Movimento 15 de Março nasceu pedindo o Impeachment da Presidente Dilma. Não concordo com esse pleito, ele tem bases podres. Não há o que justifique o pedido. Há, sim, um grande número de reclamatórias que eu levaria na bandeira, como o aumento dos combustíveis, a volta da inflação e as constantes roubalheiras promovidas na Petrobrás e em tantas obras públicas executadas Brasil a fora. Mas nenhuma justifica o impeachment. E hoje, olhando o passado, não sei se o do Collor era justificável. Golpe por golpe, não podemos aplicar um novo.
    Não vou ao protesto porque não vou endossar o pedido de impeachment com minhas bandeiras. Eu já escrevi noutras oportunidades que me senti verdadeiramente patriota, amante do País, quando milhões de jovens saíram às ruas há menos de dois anos para exibir cartazes e sua indignação com essa podridão. Esses eram legítimos. Mas quando eles sentiram que seriam usados e que “invasores” estavam corrompendo a manifestação, foram todos para casa.
    Em parei várias vezes nos bloqueios dos caminhoneiros e até sem combustível fiquei, mas sempre, em todos os instantes, mantive meu apoio. Quando é legítimo, tem que ser apoiado. Vale o mesmo ao protesto da Fetag nas ruas de Santa Rosa nesta semana. A verdade é que estamos cansados, os brasileiros não suportam mais escândalos de corrupção, estão fartos dessa política podre, dessas maracutaias que são notícias diárias. Não é a imprensa que inventa isso, embora o PT afirme isso. Os fatos são reais e muitos.
    O povo também está farto do apoio que o PT dá a governos totalitários e insanos como do Nicolás Maduro (embora o empresariado faça sólidas alianças com a China, muito pior que a Venezuela). Não há o que justifique algo assim. Não há o que justifique o BNDES liberar milhões em financiamentos para obras em países como Cuba, Nicarágua, Venezuela e continente africano. A verba é pública, é nossa, para nossas estradas, pontes, investimentos em empresas locais. É grana para as empreiteiras, para que volte aos bolsos de alguns políticos salafrários.
    Mas, se a Dilma cair, quem assume o comando do Brasil? O Michel Temer, o Calheiros, o Sarney (que já tem fatia expressiva do poder)... Vai mudar o quê? Só de ver esses nomes já fico assustado. Mas tanto o PT, o Governo, quanto o Judiciário (das Comarcas ao STF) sabem que o Brasil está em uma crise ética sem precedentes. Ou se adota agora postura rígida, com punições reais e severas, como exemplo ao País, ou todos os cidadãos estarão autorizados a roubar, a pilhar, a meter-se em falcatruas envolvendo cargos e verbas públicas. E eu quero ensinar a meus filhos o preceito da honestidade. É meu direito.
    Sim, o PT fez algumas maravilhas. Deu casa própria a milhões de brasileiros, deu escolas técnicas, universidades, melhorou a saúde, deu mais poder de compra ao povo... Sei disso. Mas eu apoio o movimento que for para as ruas, apoio mesmo, desde que a bandeira do impeachment desapareça dela, afinal eu sou brasileiro e também estou cansado de tanta podridão na capital.
    Em tempo:
    Os milicos estão de prontidão nos quartéis, inclusive em Santa Rosa, já faz algumas semanas. Não, eles não pretendem dar outro golpe (embora muitos brasileiros os apoiem). Estão em prontidão para intervir caso as manifestações saiam do prumo, caso o caos se desenhe. Eles são a garantia da ordem. O progresso é com a gente!

  • sexta-feira, 6 de março de 2015 17:00

    Que o prefeito não volte atrás

    O prefeito Vicini usou uma seringa boa para aplicar a vacina nos motoristas e alguns oportunistas. Doeu. Por isso a lamúria.

    Tenho acompanhado a torrente de críticas que se abateu contra o prefeito Alcides Vicini no que tange à ciclovia recém instalada. Porém, também há um contingente expressivo que o apóia nessa. Estou entre eles.

    Ainda que me tachem de vicinista, vou defender a ciclovia, não o prefeito. Não a ciclovia anterior, aquela que expunha todos os ciclistas ao risco constante, mas essa, a que está implantada, com sua mureta de proteção. Sem essa muralha haveria motoqueiros invadindo-a a toda hora, haveria carros usando o espaço em lentos passeios ou, pior, estacionados ali.

    Que o secretário Losekan e a equipe que dá suporte ao prefeito não deixem margem a cogitar voltar atrás na ciclovia. Os contrários que esperneiem. Alguns argumentam que esses blocos expõem o motorista de carros ao risco de colisões. Outros sustentam que é risco ao próprio ciclista em caso de queda. Não deixam de ter razão, porém, sem a barreira física o espaço não seria respeitado. Não somos civilizados a ponto de assimilar o avanço.

    Os garagistas não precisam deste espaço. Eram eles que usavam praticamente toda a extensão do estacionamento, de Cruzeiro ao Centro, transformado num imenso shopping de automóveis usados à venda. As empresas instaladas ao longo da Expedicionário também não precisam usar o espaço público para fim privado como fazem.

    Prefeito, não volte atrás como fez no estacionamento implantado pelo secretário Douglas, não se turve à pressão de uma dúzia. O próprio Lozekan já mostrou, em números, que os motoristas ganharam mais de um metro de largura na pista. Os acidentes iniciais foram imperícia ou imprudência. Ali, mais adiante, se for para incluir a ciclovia no Tape Porã, tudo bem, se discute isso... mas, até lá, ainda há muitos natais.

    O choro de agora é porque estamos tão habituados a pensar como cidade pequena que não abrimos mão do conforto estabelecido. Sabe, prefeito, que o senso coletivo é muito maior que a necessidade de dois ou três. O coletivo dos ciclistas vai aumentar se tiver segurança. Ainda mais com esse preço da gasolina! E, não sabemos mudar se não for sob pressão. Infelizmente, no Brasil a conscientização não resolve. O que resolve é a imposição.

    E espero mais, espero que complemente as mudanças na Avenida. Que retire os retornos que existem a cada 100 metros (esses sim são atentados, são risco constante) e impeça as entradas diretas nas vilas, como aquele pandemônio na entrada da Vila Flores. Ali é o caos. Toda mudança dói, sabemos. Vacina também, mas ela cura.

  • segunda-feira, 2 de março de 2015 06:24

    A visão do Apocalipse

    Não vi discos voadores no céu, tampouco um apagão geral. Mas por um minuto pensei estar vendo um filme apocalíptico.
    Vi pessoas acometidas do pânico porque poderia faltar gasolina. Filas intermináveis nos postos de combustíveis, ruas trancadas, desordem e aglomerações sem fim. Quem estava a meio tanque foi encher! Pânico! A última vez que presenciei algo assim foi na vacinação contra a Gripe A quando milhares de pessoas formaram filas histéricas no centro em busca da dose salvadora.
    Não era o fim do mundo, não dessa vez. Era a greve dos caminhoneiros, tão pacífica e simples, tão incisiva a nos mostrar o caos provocado por estes sucessivos governos brasileiros vendidos às montadoras de automóveis internacionais e que, por causa disso, sucatearam as vias férreas. Sem carros, sem caminhões, sem petróleo o Brasil (e qualquer economia ocidental) afunda. Três dias de meia paralisação e vimos o prenúncio do Apocalipse.
    Afora dois ou três petistas de carteirinha, todos os demais brasileiros criticaram o aumento dos combustíveis quando ele veio. Chiamos, berramos, criamos piadas inteligentes para o Face; nada além disso. Ou somos covardes ou vemos nosso umbigo como centro do planeta! E em época de vacas gordas como esta, que se dane o coletivo!
    Onde estão os motoristas de pequenos carros (eu incluído, claro, embora nem carteira tenha)? E a sociedade organizada, a adesão voluntária a esse protesto que é nosso também? Apoiamos, concordamos com os caminhoneiros, acenamos para eles, mas não paramos. Seguimos para nossos trabalhos, nossas escolas, nossas jornadas cotidianas.
    Não paramos para parar o Brasil como deveríamos fazer para mostrar que nos importamos com os demandos, que estamos fartos desta roubalheira e dessa choldra política. Pior que isso, nos irritamos quando a fila no protesto se alonga e somos obrigados a ficar sem poder seguir viagem por 10 minutos.
    Estamos no limiar de uma oportunidade única de mudança. Nossa tolerância enquanto sociedade acabou faz muito tempo. A individual ainda vai, porém também está no limite. Mas ainda há um grande obstáculo a vencer antes que algo realmente aconteça, algo significativo, algo capaz de mudar o Brasil: precisamos vencer nossos umbigos.
    Não adianta xingar o Sartori por seus erros iniciais. Nem pedir o impeachment da Dilma no dia 15 de março. Nem entrar na primeira fila de posto que aparecer. Precisamos da coletividade.
    Quando pensei que era o fim dos tempos, o sinal revelador do Apocalipse, abro um site de notícias da capital e vejo coisa ainda mais sem noção. A Justiça devolveu o direito de exercer a profissão ao advogado de Passo Fundo que lesou seus clientes em R$ 100 milhões. Definitivamente, se não é o fim do mundo, é certamente o fim da ética e do resto da esperança que havia em mim quanto ao Brasil digno e justo.