• sexta-feira, 22 de maio de 2015 21:08

    As bordas do pão

    Ainda ontem eu era um menino que sentava ao lado da vó para ouvir histórias de outros tempos. Hoje, quando abro os olhos, estou na Empresa Jornalística Noroeste há 20 anos.

    A vó, mãe da mãe, contava histórias de matas fechadas e bichos que eu não conheci. E ela tinha algumas manias como usar um pano leve sobre os cabelos e uns modos de nos ensinar que nunca apaguei. Eu odiava comer a casca do pão, as bordas, mais rijas e queimadas. E ela ralhava em dialeto alemão: “Se não comer, vai ficar com as bochechas bem vermelhas”. A gente, então, fazia aquele esforço e engolia. Afinal, ninguém queria ficar para sempre com o rosto feito “cara de piá envergonhado”. É claro que ela sabia que não era verdade, mas usava o artifício para nos ludibriar. Cresci assim, entre histórias e ensinamentos, colhendo dos mais velhos a semente da vida.

    Eu ainda morava na Linha Giruazinho quando ouvia pela Rádio Noroeste as transmissões de um time chamado Dínamo. Nascia ali uma paixão que eu nunca entendi. Minha mãe ouvia um cara chamado Zelindo Cancian e adorava aquele programa. Então, imagine a felicidade dela ao saber que uma jovem vizinha nossa casara com o tal radialista (na época, a Meri). E no giro do mundo das impossibilidades, o filho, criado a campo, dá nos costados da mesma emissora de rádio e se aquerenciou.

    Ainda como as cascas do pão, com melado e nata, de preferência. E conto e escrevo minhas histórias. A filha não precisou do artifício ensinado pela avó, mas talvez um segundo ou terceiro precise. Registro isso porque nas memórias guardo aquele rincão, sua gente e ensinamentos tão puros quanto o mel de Jataí.

    Então, na semana que a Noroeste comemora 52 anos, qualquer um que tenha vestido a camisa transborda orgulho. Não somos perfeitos, não resolvemos os problemas do mundo, não somos a verdade total, mas certamente contribuímos muito na construção dessa amada cidade. O guri da Giruazinho está a 20 anos no Jornal Noroeste. Tempo para escrever milhares de notícias, incontáveis crônicas, dezenas de poesias e alguns contos.

    Fechamos uma Feira do Livro excepcional, vibrante, encantadora. Todos que a fizeram foram magistrais (sem nomes, tá?). Percebo que os jovens voltaram a ler e que a magia de contar histórias nunca desaparecerá. Apenas muda a forma, a tecnologia, mas ainda transborda naquele que atinge. (E sobre a Feira, não sei como - legalmente - mas precisamos encontrar um modo de levar o vale-livro às escolas estaduais como CIEP, Mercedes Motta e Tiradentes, só para citar algumas. Vamos pensar juntos!)

    A Feira debateu intensamente a liberdade. A Rádio Noroeste, na manhã do sábado, debateu o mesmo tema. E não sei se há alguém completamente livre (pois todos nós temos nossas amarras sociais, culturais, religiosas, etc), mas estamos vivendo a graça de um país livre para manifestações e divergências, com problemas sim, mas democrático. E, claro, nenhum homem de imprensa é 100% livre para dizer tudo o que quer, tudo o que pensa. Mas nos esforçamos para darmos liberdade, para sermos livres e para deixar a comunidade usufruir desta mesma liberdade.

    Vou continuar a comer a casca do pão para não ficar com as bochechas vermelhas feito um peru; isso ajuda a lembrar da minha vó. Vou continuar contando histórias porque é o que sei fazer. E a Noroeste vai continuar por muitos anos na mente das pessoas, alimentando histórias que passarão de geração em geração.

     

    P.S.

    Obrigado, Claudiomiro Sorriso, pela coluna da semana passada.

  • sexta-feira, 15 de maio de 2015 16:45

    A vida cabe no verso

    Há, sem sombras de dúvidas, um movimento cultural - e intelectual - muito forte na cidade. Trata-se de um grupo formado por homens e mulheres de todas as idades - muitos deles adolescentes - e de diferentes classes sociais que abriram gavetas da vida para expor ideias e pensamentos. Encorajados por iniciativas de quem os antecedeu, como por exemplo “Companheiros de duro ofício”dos anos 80 e ASES, surgida em 2001, tornaram-se Escritores. Ideias no papel a derramar conteúdo capazes de fazer sonhar os mais incrédulos e céticos. São livros compostos por frases, versos e rimas a nos provar que é possível sim, longe demais das capitais, viver a experiência da produção literária.

    E são inúmeros os autores novatos ou com uma bela bagagem na arte de transformar palavras em belos enredos, em belas histórias, em formas de contos, crônicas, poemas...versos.

    E Santa Rosa agradece, a lembrar Castro Alves em seus famosos versos publicados no Século 19: “Oh! Bendito o que semeia livros à mão cheia e manda o povo pensar! O livro, caindo n’alma é germe - que faz a palma. É chuva - que faz o mar!”....

    A cidade respira literatura. Há versos espalhados no sorriso das pessoas que visitam a Praça da Bandeira em mais uma Feira do Livro.

    Crianças, adolescentes e adultos circulam entre obras poéticas e seus autores presentes, recepcionados pela patronesse desta edição, Maria Inez Pedroso. E entre esta sexta-feira e sábado, se deparam com o escritor homenageado, Jurandir Machado da Silva, que retorna à cidade para um bate-papo sobre livros e literatura.

    Aliás, crianças consumidoras, com uma vontade louca de comprar seus livros prediletos, são vistas em grande número na Feira. Com seu Vale na mão, além do dinheiro destinado pelos pais, elas têm autonomia para adquirir. O Vale, criado e distribuído como incentivo pelo Governo Municipal aos estudantes é o grande diferencial para o sucesso de mais uma edição, que já deu certo. E, se não bastasse este apoio elogiável à cultura, a prefeitura nesta edição incluiu também os professores da rede municipal no projeto.

    É, meus caros, a vida cabe no verso é o título desta coluna, que hoje assino, no lugar de Clairto Martin, poeta e responsável pela Editora Café Pequeno - que está bombando na Feira. E o título quer mostrar exatamente isso. Pois, sim, há vida presente em cada produção literária, em cada verso, cada rima, cada história, contada por nossos - e outros - escritores.

    Vamos à Praça. Vamos à Feira. Vamos aos Livros! Respirar conhecimento e conhecer inspirações!

  • sexta-feira, 8 de maio de 2015 08:48

    Um ensaio para mudanças

    Fazia uma reflexão sobre certas mudanças implantadas no trânsito santa-rosense nos últimos meses e, então, meu pensamento, rapidamente se voltou ao mapa do Brasil.
    O inverno vem aí. Minha mãe já usou o fogão a lenha. Novas alterações no fluxo do trânsito local. E novo panelaço no discurso da presidente (assim mesmo, com e). Seriam assuntos demais a uma coluna. Seriam. Mas estão todos interligados na conexão que estabeleci: a reação às mudanças ou a condição de se adaptar a elas.
    Sempre que o vento sopra gelado a anunciar o inverno me obrigo a puxar o cachecol para fora do roupeiro. Mamãe sempre dizia para tomar cuidado com as mudanças bruscas de temperatura. Tinha razão porque é no primeiro rigor que as viroses se instalam, quando o corpo está desatento.
    Durante a semana foram anunciadas novas alterações no trânsito tão conturbado de Santa Rosa. Havia um Plano de Mobilidade imóvel em alguma gaveta durante um bom tempo. No entanto, aos poucos, mudanças se processam. A preferencial na Rua Santos Dumont, a criação da ciclovia, o estacionamento pago ampliado, as sinaleiras na Expedicionário, a proibição de acesso na entrada da Vila Flores, as conversões na Rua Santa Rosa, tudo vem para bem. Tudo necessário.
    Adaptações lentas para os motoristas, por isso alguns acidentes no princípio do período posterior são normais em casos assim. Mas se tudo fosse feito a uma só vez, seria um caos. Acertado está quem comanda o processo. É preciso que sejam implantadas para o bem do futuro. Mas tem que ser assim, mudar aos poucos, sem traumas, sem que as pessoas sejam obrigadas a rasgar a carne para entender a mudança.
    É assim com tudo. O frio não arrebenta com nossa saúde se vier aos poucos. Devagar os anticorpos preparam defesas. O Brasil está mudando, já deu muitos indícios de que inverte o rumo político. Não precisamos de um Impeachment. Precisamos do outono. E estamos nele. Se daqui a três anos e meio o PT deixar o governo central, provavelmente (assim no condicional) será menos traumática a saída, com menos margem para bruscos temporais.
    É como o inverno. Ele não chega de sopetão e nos mata de frio. Ele vem, dá o ar da graça, diz olá e espera nossa reação. Depois se instala e fica, gostoso de ser curtido, na alternância natural da vida. E mesmo assim, com tudo encaixado no ciclo certo, é comum o corpo acusar os primeiros dias gelados.
    Sim, o PT não será eterno no poder, é uma obviedade. Nenhum grupo se perpetua indefinidamente. Mas que a saída seja natural, tão natural quanto o inverno dizendo adeus. E depois vem outra estação. E depois outra... e assim criaremos nossos netos, habituados a curtir o sabor de brisas suaves e também manhãs de geada.
    Ah, sim, o que não muda é o amor de Mãe (assim, com maiúscula). E se muda, é sempre saindo do frio para nos mostrar a primavera.

  • sábado, 2 de maio de 2015 01:29

    O juiz está certo

    Impor limites aos adolescentes é uma medida necessária, embora, nem sempre vista com bons olhos.
    Não sou tão moralista a ponto de não entender as mudanças culturais que se processam no presente tempo. Mas também não me incluo entre aqueles que dizem amém a tudo, como se todas as possibilidades fossem válidas. Ainda há certo e errado, embora muitos dos “construtores” da nova sociedade entendam que certo e errado é apenas uma questão de ponto de vista.
    Nesse viés, concordo com o rigor da lei nacional que proíbe a venda de bebidas alcoólicas a menores de idade. Igualmente, vejo com bons olhos as portarias assinadas pelo juiz Eduardo Busanello, da Comarca de Santa Rosa, que estabelece regramentos à presença de adolescentes na vida noturna. Atenção, senhores pais: não se aplicam somente às casas de shows. As regras valem também para bares, pizzarias, salões de festas e outros do gênero.
    Vender bebida ao piazedo é crime, e pronto! Sem meias conversas. No entanto, as portarias (seguem regras gerais, mas são específicas para cada estabelecimento) são muito claras e ultrapassam a questão do comércio de “birita”, pois mexem com o comportamento familiar, com o compromisso e comprometimento dos pais ao estabelecer hora limite de presença. Idade “xis” pode ficar no local até hora “ipselone”.
    Aí entram na história os donos dos estabelecimentos. Eles não podem mais fechar os olhos à presença de menores. “Ah, mas não está bebendo!”. Não importa. Após tal horário, “favor, retirar-se”. Claro, sempre pode um adulto comprar bebida alcoólica e oferecer ao menor. Pode, mas neste caso os empresários têm a obrigação de adotar medidas de vigilância nos ambientes e coibirem o ato. Ou corre o risco de ser multado, preso e responder a processo.
    Lugar de gurizada não é a casa. Ou não é tão-somente o lar. Jovens querem sair, querem se divertir, querem curtir os amigos e as baladas. Concordo com isso. E não estou me contradizendo ao concordar com o Dr. Busanello no tocante às portarias. Mas há limites e o princípio de que todo divertimento deve ser sadio. Divertir não pode formar rima com ingerir. E hoje forma, infelizmente.
    Quando o próprio juiz confirma que chegaram a ele casos de menores que ingeriam álcool em inocentes tererês podemos ter a exata noção da criatividade deles para burlar a vigilância dos adultos. Imagina, um domingo à tarde, roda de amigos para uma conversa legal no Parcão, aquela cuia de tererê circulando... Que lindo! Que lindo uma ova - se o líquido for vodka, uísque ou outro etílico semelhante!
    Entendo que a responsabilidade que hoje recai sobre os ombros dos proprietários dos estabelecimentos é muito grande. Esta, deveria recair sobre os pais, em primeiro lugar. Ocorre que muitos pais estão “nem aí” para o que os amados fazem quando estão longe de seus olhos. Dessa ausência decorrem os excessos. Então, se não há como impedir a circulação deles na vida madrugueira, que pelo menos se impeça o acesso fácil ao álcool, curva de acesso a estradas sem volta.
    Nesse primeiro instante quem paga o pato é o dono do estabelecimento. Primeiro porque tem gasto financeiro maior para estabelecer a vigilância necessária para cumprir a lei. Segundo porque sem os menores cai a frequência (menos valor com ingressos) e há uma acentuada queda no comércio de bebidas. Se o Bruno da TAO tem prejuízo superior a 30%, é certo que terá dificuldades para manter sua empresa e precisará se replanejar. Mas, até mesmo ele sabe que é preciso frear um pouco os adolescentes, antes que não tenhamos mais capacidade de controle sobre eles. A sociedade do amanhã agradece hoje.