• sábado, 19 de abril de 2014 10:31

    Minha Páscoa azedou

    Vou aliviar a carga verborrágica nesta semana. Não porque faltem motivos à crítica, mas porque é Páscoa.
    As primeiras lembranças da Páscoa, aquelas da infância, trazem à luz uma época em que os adultos, mesmo imersos nos problemas, encontravam tempo para pintar e enfeitar bolachas feitas no fogão a lenha, para pintar casquinhas mergulhando-as em uma panela com tintas e depois enchê-las de amendoins com açúcar ou chocolate... e nós, crianças, também não escapávamos do serviço, pois havia todo o pátio a varrer - o que incluía embaixo do galpão e estrebaria.
    A nossa Páscoa durava semanas. Semanas de falas e aguardos. Víamos e participávamos da correta quebra dos ovos para que pudessem se tornar casquinhas, afinal, tinha um jeito especial de abrir. Tínhamos expectativas do que o coelho nos traria no domingo (e acreditávamos nisso), mas também ouvíamos falar de Jesus e seu martírio. E havia os rituais, como colher macela nas manhãs da Sexta-feira Santa. Havia encanto!
    E os dias santos eram para silêncio. Não se podia jogar futebol, correr ou gritar. Eram dias chatos para as crianças. Hoje entendo melhor esse hiato, esse dia se arrastando lerdo, quase sem sons.
    Pronto, uma crônica mais leve. Aliviei!
    Mas como aliviar o discurso em uma semana em que todos os canais de TV, rádio e jornais noticiaram incansavelmente a morte bárbara de um menino de 11 anos em Três Passos? Poxa, é logo ali, tão perto. E envolveu pessoas que, teoricamente, tiveram tudo na vida, que podiam dar do melhor. Como, como em pleno 2014 ainda ocorre um ato de tamanha covardia? Como dizer aos nossos filhos que a humanidade está mais humana?
    Está nada. Somos os mesmos animais de dois mil anos atrás. A diferença é que a internet maquia um pouco a crueldade desse mundo louco, nos dá acesso a coisas que suavizam essa nhaca toda. De resto, continuamos com trabalho escravo no mundo (e até no Brasil), com guerras tolas, com ódios raciais. Eu creio que Cristo, se viesse hoje, na mesma condição de outrora, seria outra vez trucidado. A humanidade não tem humanidade.
    Vamos discutir o que agora? Pena de morte? Mudanças nas leis? Amanhã esse crime será substituído por outro tão grotesco quanto, por outro acidente de trânsito com várias mortes, por outro político corrupto. Amanhã será exatamente igual ao hoje. E nós, sociedade, em nossa infinita pressa estamos preocupados apenas em ganhar mais dinheiro.
    A minha Páscoa azedou. Não quero casquinhas, nem bolachas pintadas. Quero que você, leitor, olhe lá no fundo dos olhos das pessoas que ama e deixe-as ver que você ainda sabe chorar.
    Os dias santos eram para silêncio.
    Mas como silenciar diante de uma barbárie dessas?

     

  • sexta-feira, 11 de abril de 2014 08:02

    Governo, Gabiru e Gol

    Dia desses o São Paulo fez cinco gols em um jogo contra o “Timão” e ganhou por 3 x 2. É que dois gols foram contra, do mesmo jogador. Então, nem sempre anotar gols é coisa boa.
    Que tem isso a ver com o governo? Não sei, mas pensei nessa analogia durante a reunião do Conselho de Cultura, órgão que se posiciona frontalmente contra a fusão da Secretaria de Cultura com a Secretaria de Esportes. Frontalmente, sim, porque o presidente já foi para a Rádio dizer isso, com todos os argumentos.
    Estou endividado, é fato. Tenho que pagar de algum modo. E não será trabalhando menos que chegarei ao resultado. Sem ir ao tráfico e aos rolos, serei obrigado à jornada mais intensa. Contas domésticas... Simples assim. Vale o mesmo ao município. Vicini estuda, segundo consta, e se não consta, parece, encolher a máquina administrativa. Parece, pois o Borella tem duas secretarias, o Denir tem duas e a Leila duas ou mais. É gol contra.
    Com todo o respeito que merece, afinal é prefeito pela quarta vez, penso que encolher secretarias é um ato de populismo para fazer média e votos (o que o Vicini não precisa). Mas o governo está arranhado com as denúncias na Secretaria de Obras, riscou no aumento do IPTU e não consegue dizer convictamente “estamos avançando”. Então, precisa de atos enérgicos para mostrar que vai reverter o quadro: demite secretário, estuda fundir secretarias e enxugar gastos na Prefeitura. É a receita certa para cair nas graças do povo.
    Cá entre nós, enxugar não significa crescer, significa apequenar. Usando linguagem do futebol, é jogar para empatar e, quase sempre, quem faz isso perde. Não acrescenta nada recuar, antes, abre mão da possibilidade de criar bons projetos e conseguir novas receitas, como o ginásio de esportes para o parque de exposições. Ganhar o ginásio significa ganhar R$ 4 milhões do Governo Federal. Encolher cinco secretários e 10 diretores (no chutômetro), no período nos três anos que faltam para concluir o mandato, dá no mesmo valor. Uma conquista paga isso tudo.
    Entende-se os argumentos da Administração, cada vez mais engessadas pelas rubricas fixas, pelos Termos de Ajustamento de Conduta, pelas demandas da Justiça, pelos custos crescentes em Educação e Saúde. É nas prefeituras que tudo estoura. É compreensível, mas a saída não é cortar secretarias, a alternativa é colocar técnicos nos cargos (secretários e diretores) que possam consolidar projetos e buscar verbas onde há.
    A sensação que o governo nos passa é que está com menos de meio time e o resto é Gabiru, até pode marcar um gol, mas continua sombra de sombra.

  • quinta-feira, 3 de abril de 2014 20:49

    Liberar ou não a maconha?

    Se tocar no assunto, em crônica, já é difícil, dá para dimensionar o quão complicado é postular uma postura clara quanto a ser contra ou a favor do livre comércio da maconha.

    Abordamos o assunto no Noroeste Debate, no sábado passado. Eu, o Beto Kieling, o Rodrigo Colla e a Marli Rozek (que fez tese de mestrado relacionada ao tema). Com argumentos, com dados, fica bem mais complicado dizer rapidamente: sou contra!

    Inicialmente, sempre me posicionei contrário ao livre comércio de drogas, mesmo ciente que o governo fatura bilhões com impostos advindos de cigarros e bebidas, inclusive com propagandas em todas as grandes redes de TV aberta. No caso da bebida, se compra em qualquer esquina. E quem tem um familiar alcoólatra sabe o sofrimento que é lidar com a situação gerada.

    No que é diferente vender cachaça e maconha? Por que não proibir de vez a venda de bebidas com teor etílico elevado? Não custaria menos tirar as garrafas das prateleiras que impor a lei seca e arcar com os custos dos acidentes de trânsito e seus milhares de novos mutilados a cada ano? Isso sem contar na violência doméstica...

    São perguntas como essa que quase ninguém faz. E que quase ninguém responde nas entrevistas. A repressão não diminuiu a oferta de droga, porque ainda é possível conseguir em qualquer cidade, em qualquer bairro e nas praças do centro. Pelo contrário, a repressão aumentou a violência dos grupos rivais, com banhos de sangue em cidades maiores.

    Ouvir a diretora do presídio afirmar que 60% dos apenados que estão no presídio de Santa Rosa têm relação com o tráfico também choca a gente. Se somar a esse número os roubos e os furtos que têm relação com o consumo de drogas, teremos um percentual maior ainda. Ou seja, sem esse ilícito o presídio estaria com um quinto de sua lotação. Isso também tem custo, elevadíssimo por sinal. Isso sem contar que as prisões não recuperam ninguém.

    Mas dá para liberar maconha e não liberar outras drogas mais pesadas? Quem fumar maconha hoje, não será usuário de crack e cocaína amanhã? O tráfico vai desaparecer se houve comércio legalizado? O Estado está em condições de dar acompanhamento psicológico e social a todos que demandarem cuidados?

    Pois é isso, leitores. Não dá para expor todos os argumentos e questões em uma crônica, mas esse debate deve ser ampliado, e muito. O Brasil está atolado no problema e não pode mais protelar decisões. Temos que abrir cada vez mais espaço àqueles que debatem o assunto, com prós e contras.

    E eu? Nunca usei maconha e similares, sério. Então, pela distância do problema, preciso me informar muito ainda. Em dois anos poderemos olhar ao Uruguai e ver se funcionou a abertura...

    FIM: amanhã o debate (10h) é sobre maioridade penal, criminalidade juvenil e tais. Ouça e participe!

  • sexta-feira, 28 de março de 2014 20:31

    Bombeiros, bala e cães

    Ao longo da semana anotei alguns tópicos para uma crônica. Como não consegui descartar todos, tomei a liberdade de construir um mosaico um tanto diferente...

    Bombeiros

    Um assunto que rumoreja cá e lá é a necessidade de mais espaço ao quartel do Corpo de Bombeiros. Debatemos isso no sábado, na Rádio Noroeste. Sei que a secretaria do Carlos Nasi também aventou o tema em reunião há algumas semanas. Com todo o respeito a quem pensa que a área em frente ao Mercado Público seria ideal para sediar uma nova e boa estrutura para essa valorosa instituição, sou contra. Ali complicaria ainda mais o trânsito que já é complicadíssimo.

    Sempre pensei que o prolongamento da Avenida América poderia ser este local. Segundo relatou-me o comandante dos Bombeiros, o quartel de hoje está pequeno para as demandas atuais. No entanto, uma pessoa, usando o “Face” deu idéia melhor, de modo que vou partilhar: o novo quartel poderia ser construído no terreno onde está o ginásio Moroni. É amplo, dá acesso rápido para saídas da cidade, etc e tal. É de pensar seriamente no caso.

    Outro leitor, dia desses opiniou que o terreno do Moroni deveria ser reservado para o futuro, para um espaço de convivência da terceira idade, um local de encontro de pessoas, atividades diversas... Tudo menos vender...

     

    Bala

    Nada a ver com os Bombeiros (e vê se não abandona o texto!). Palestramos na escola municipal da Vila Jardim na sexta-feira. Show de bola. Em falas, lembrei de um episódio ocorrido quando minha filha era pequenina e caminhávamos ao largo da Avenida Expedicionário Weber. Ela lançou na calçada um simples papel de bala. Parei. Paramos. Avançamos somente depois de ela recolher o dito e colocá-lo no lixo. Simples assim. Não a vi fazer outra vez.

    Contei isso aos estudantes porque a palestra era sobre meio ambiente, que quase sempre é bem menos que meio. Aliás, deveria chamar-se “quase zero ambiente”. Formidável o relato de um professor, de exemplo da própria escola. Há um ano foram plantadas 17 árvores no pátio e na praça da Vila Jardim. Um ano! Hoje restam apenas quatro mudas.

    Isso somos nós...

    Cães

    Poucas frases impactaram-me tanto nos últimos dias como a que foi dita pelo pai de uma das vítimas do incêndio ocorrido na Boate Kiss: “Se fossem 242 cães, já teríamos alguém punido”.

    Alguém duvida?

    Face

    Dia desses, em email coletivo que também circulou no “Face”, para tentar fazer com que as pessoas se ativessem ao assunto em todo o seu teor, o autor escreveu logo no princípio: “ler até o final”. Valeu o esforço, mas foi preciso gritar para ser “lido\ouvido”.

    Boa net, mas pressa, pressa, pressa e umbigo!

    Essa crônica é tipo assim... nada a ver com nada, embora no fundo, tudo leve ao mesmo ponto: a tal consciência social.