• segunda-feira, 24 de novembro de 2014 07:11

    Sucesso e crise do Musicanto

    Vínhamos pela rodovia a caminho de Santa Rosa. À nossa frente um caminhão carregado, até as últimas, com troncos de lenha. Havia risco! Bate aquela dúvida: ultrapassamos ou esperamos outro espaço. Perder alguns minutos para construir uma oportunidade adequada? Ou forçar a barra e, quem sabe, se arrebentar de vez? Esperar, às vezes, é necessário.
    O cenário cultural e econômico é o caminhão carregado de lenha no caminho do Musicanto. Lento, muito lento, a cena se arrasta há alguns anos, sem acelerar. Esse mesmo Festival que projetou Santa Rosa ao Estado e ao País, que nos legou identidade, é um adulto em crise de identidade. Ou talvez seja um motorista que está atrás, à espera de uma reta segura para pisar mais fundo.
    Ao Cláudio Joner, ao Nando Keiber, à equipe do espaço Multifeira, aos entes de governo, aos que se envolveram na organização do Musicanto, todos os elogios. O evento foi brilhante, saudosista, porém atual. Foi uma grande festa dedicada à música e à integração entre as artes. A nova experiência deu certo, sim, não custou uma fortuna e apresentou um formato que pode legar muito ao futuro.
    Teve mais público que nos anos anteriores, mas só pouco mais. Os mesmos de sempre e alguns convidados de convidados. E nesse ponto funcionou maravilhosamente bem porque queríamos ver novamente o Americanto, a Orquestra do Sesi, o Quartcheto, etc, todos com alguma ligação local. Também a gratuidade do ingresso precisa ser sustentada, porque acaba com aquela classificação elitista criada na comunidade, aquela que diz que o Festival é dos ricos e para os ricos. Portas abertas e trânsito livre fomentam essa mescla, esse todo que sempre se buscou com o evento.
    Mas (sempre o mas) faltou o clima que só os festivais criam, aquele que nos faz permanecer até o último instante no aguardo dos classificados, do vencedor, da entrega dos prêmios. Esse Musicanto de 2014 não produz contenda, mas também não planta raízes profundas. É uma festa, não um festival. Sou pela disputa, no estilo de anos anteriores, porém, preservando duas essências desta face criada pelo Joner: a cidade Multifeira e os shows com apelo sentimental aos espectadores, de qualidade, mas inseridos no imaginário do santa-rosense. Foramdois grandes acertos.
    Orlando não fez o Musicanto no último ano de seu governo porque não havia verba para isso. Preferiu não gastar dos cofres públicos. O Vicini não fez no primeiro ano de seu mandato porque não tinha recursos em caixa e nem captados para tal. E neste ano foi viabilizado somente aos 46 do segundo tempo. Há uma crise financeira, sim, porém é mais ampla que nossas divisas geográficas e nossos conceitos políticos, é com todos os festivais.
    Ano que vem não teremos Musicanto, se bem lembro o que disse o próprio prefeito na abertura daquela proposta caseira que se fez no ano passado. De dois em dois anos, então, no mesmo embalo de grandes eventos do Município, no qual ele, o prefeito, enquadrou o Encontro de Hortigranjeiros. Bem, por esta linha tênue, eu que nada tenho a ver com o Carnaval, deduzo que este evento também poderia ser de dois em dois anos, tendo em vista que a Prefeitura investe verbas públicas para garantir sua viabilidade. Quem não gosta da Feira do Livro pode argumentar pelo mesmo viés. Mas cá para nós, fazer Musicanto de dois em dois anos é empobrecê-lo no imaginário popular...
    Sei, caminhão carregado de lenha não se ultrapassa em curva... Aí é ficar atrás, algum tempo, com margem de segurança, mas quando visualizar uma reta, um espaço adequado, dá para fazer tranquilamente a passagem... Joner viu a reta, agora dá para acelerar ou...

  • sexta-feira, 14 de novembro de 2014 17:23

    Medida que agrada a poucos

    Não sei se deveria voltar ao assunto turno único, tema de um Noroeste Debate em manhã de sábado. No entanto,
    embora saiba que é infrutífero, sinto-me impedido a ele. Durante a semana uma pessoa veio até nós, empresa, novamente, irritadíssimo com o expediente reduzido na Prefeitura de Santa Rosa. Também o presidente de uma entidade empresarial da cidade, em prosa pessoal, fez um desabafo contundente na mesma linha.
    A comunidade deixou de se manifestar porque não há eco. É assunto morto. Nenhum prefeito vai se posicionar contra o turno único; é ir contra o funcionalismo público. O administrador sabe que precisa estar alinhado aos servidores para que o trabalho flua o mais naturalmente possível durante sua gestão. Na Câmara, idem, os vereadores não se manifestam contrários, não querem o incômodo de ficar ao lado da comunidade, e repassam aos demais a responsabilidade, porém o assunto não volta à pauta do dia. Enquanto isso, nós cidadãos e usuários, nos adequamos de meio em meio ano às alterações.
    Certa feita precisei de um pintor predial. Uma imobiliária deu-me um telefone. O moço atendeu e disse que poderia executar o trabalho, mas somente após as 14h, pois estava em turno único na Prefeitura. Até aí, tudo certo, nada ilegal. No entanto, na Secretaria em questão se alega que à tarde é muito quente para atividades ao sol. Pensei cá com meus botões: “Então as construtoras, todas, deveriam paralisar as obras que executam, afinal, seus pedreiros estão expostos o tempo todo”.
    Trouxemos ao debate da Noroeste, além do prefeito Vicini e do presidente do Sindicato, o Padilha, o vereador Geraldino Morin, de Tuparendi. Por quê? Porque o turno único se institucionalizou nas prefeituras da região, adotado ano a ano. O que era uma economia em ano de estiagem extrema tornou-se um período de meias férias ao quadro mais seletivo das administrações municipais. Morin criticou duramente a Prefeitura de lá por adotar expediente reduzido em cinco meses do ano. Caramba! Cinco meses!
    Gera, em Santa Rosa, em mais de quatro meses de turno único uma economia de R$ 400 mil, segundo argumentou o prefeito Alcides Vicini. Realmente faz muita diferença em um orçamento de R$ 220 milhões. Mas há municípios que desistiram do turno único porque comprovaram que não houve economia ou ela foi insignificante.
    O turno único não afeta o serviço essencial, argumentam seus defensores! É verdade, não afeta porque cerca de 60% dos servidores públicos não são contemplados com expediente reduzido, ou seja, é privilégio de aproximadamente um terço da categoria. Os demais trabalham oito horas, recebem por oito horas. Os beneficiados trabalham por seis horas, recebem como se fizessem oito, pois não há redução de salários e nem banco de horas, como se faz na iniciativa privada.
    Mais ainda. Contou-me um empresário que servidores de uma secretaria essencial teriam se prontificado a trabalhar à tarde, sem hora extra, para atender a demanda atrasada. Teria sido desautorizados. Mais ainda. Em reunião do Conselho Municipal de Saúde, nesta semana, abordou-se a possibilidade de empregar o turno único na área da saúde no mês de janeiro, como forma de adequar o calendário de férias dos profissionais. Sei não, mas num primeiro olhar me parece que o usuário do SUS será afetado, mais uma vez.
    No fundo, a medida agrada a poucos. Agrada aos servidores e seus familiares. Sei, estou com inveja do meio expe-diente, só por isso escrevo esta crônica..

  • sexta-feira, 7 de novembro de 2014 15:04

    Xingando os cães

    Minha tia xingava os cães em alemão porque era a única língua que, aparentemente, eles (os animais, claro) entendiam. Quando alguém chegava no pátio ela saía em defesa do visitante e afastava os cachorros repreendendo-os com “aus hunt” ou qualquer outro imperativo que eles obedecessem. Simples e funcional.
    Quem não falava o idioma alemão certamente ficava a matutar no porquê de tal efeito. Importa é que funcionava, que os cães saíam do caminho. Ora, a tia falava mais a língua dos meus avós que o português. Por isso, é óbvio que com seus animais domésticos utilizasse a língua afetiva, e claro, com resultado eficiente.
    Minha memória buscou tia Regina essa semana, o modo peculiar de lidar com seus cães. Para quem ia visitá-la, há alguns anos, o importante é que surtia efeito esse ralhar em alemão com os animais. Eu pensava nisso porque associei o fato ao comportamento humano geral, pois as pessoas querem o feijão com arroz, o óbvio, o simples, aquilo que dê resultado. Naquele caso, o resultado era frear o avanço dos cães.
    Para a maioria dos brasileiros, o que é necessário, realmente, é posto de saúde que tenha médicos, condições de comprar as coisas básicas, sonhar com futuro, etc... A imensa maioria de nós, brasileiros, sabe que não terá direito à riqueza (aquela de ostentar), então, quer o simples direito a viver bem! E viver bem é ali onde está, onde sempre esteve.
    O que as pessoas querem é o feijão com arroz. O próximo governador nem precisa se preocupar com “mundo e fundos”, precisa entender que essa região quer a ERS 344 com asfalto em condições de tráfego. Quer acesso decente aos pequenos municípios. A língua que o povo entende é essa: o efeito simples no seu dia a dia. Em alguns momentos Tarso não entendeu isso!
    Vale o mesmo à Prefeitura. Já escrevi isso noutra vez: o município precisa criar uma central de atendimento, com um ou dois funcionários capacitados para ouvir o cidadão, anotar as demandas e fiscalizar se foram executadas. Sei que tem o Protocolo, as secretarias, etc. Mas as pessoas querem o feijão com arroz, a solução para o que está à sua porta. Tem gente que espera há anos, por uma tubulação na Vila Oliveira ou por uma simples abertura de vala para escoar a água da chuva na Vila Flores, simples a ponto de não ter a casa invadida pela água a cada cinco pingos que caem na cidade. As pessoas querem soluções simples, mas definitivas, não soluções que se dissolvam na primeira mínima borrasca...
    Alguém dirá que não quero escrever sobre mais um caso rumoroso na Prefeitura com abordagem do Ministério Público e investigações. Não quero mesmo, como não escrevi sobre o asfalto feito com verba da Corsan no governo Orlando e o episódio Bohn Gass. Tenho minha opinião, sim, mas não vou dar espaço a imbecis me xingarem na esquina simplesmente porque discordam da verdade.
    Minha tia xingava os cães em alemão porque era a única língua que eles entendiam... E, os eleitores xingaram alguns políticos com votos porque é a única linguagem que eles entendem...

  • quinta-feira, 30 de outubro de 2014 17:50

    Para quem semeia ódio...

    Nós, humanos, não sabemos amar pela metade, por consequência, também odiamos por completo.

    Essa eleição deixou isso mais evidente. Por pouco não voltamos aos cenários federalistas, dos chimangos e maragatos passando a faca nos pescoços de adversários. “Menos, menos, Clairto!” pensará algum leitor. Não houve degolas porque o campo de batalha saiu da realidade e foi para o campo virtual. Só por isso! A guerra foi no Face, especialmente, mas também foi aos veículos de comunicação, aos blogs, aos sites em geral. E que guerra! Com todo tipo de ataque.

    O resultado das urnas não significa que acabou a revolta. Chimangos e Maragatos ficaram mais de três décadas entre ataques e ódios. É isso! É orar para que não fiquemos três décadas em trincheiras opostas, odiando como se fosse esse o objetivo da vida.

    Findou a eleição nacional, mas a pacificação está longe porque surgiu a Nova Era: a era do ranço. Ou a era dos miseráveis contra os que estão economicamente melhor estabelecidos. Ou a era dos santos na gloriosa luta contra os corruPTos. Ou a era dos ‘brasileiros’ contra os nordestinos. Ou a era dos moralistas contra os lacaios que sugam o governo.

    A eleição acabou, mas a raiva não. Os moralistas de plantão, de ambos os lados, continuavam no início da semana vociferando ódios. E não são pessoas incultas que estão atulhando as redes sociais com toda sorte de comentários raivosos; antes, são pessoas que se julgam esclarecidas. Ataques que suscitam contra-ataques. Vão construir o que com este ódio? A paz é que não. O desenvolvimento também não. Vão incitar uma revolta...

    Escrevi noutra crônica, há algumas semanas, que se pudesse, não votaria em nenhum dos candidatos. Diretamente, não me senti representado. Fomos, cidadãos gaúchos e brasileiros, obrigados a escolher entre os menos ruins ou aqueles que mais se aproximavam do que comungamos. Só para exemplificar: eu, por exemplo, não me vi espelhado na Marina, mas admiro o Beto Albuquerque. E aí, fazer o quê?

    O Brasil está dividido ao meio, não como a rede nacional mostrou naquele mapa. Não é metade pobre, metade rica. Não é metade nordestina, metade produtora de riquezas. O País está rachado entre: metade PT, metade antiPT. Simples assim! E, como não sabemos amar pela metade, por consequência, também odiamos por completo. Ou se é PT ou se está contra ele.

    Tolice isso. Não perdi ou ganhei eleição. Não votei para meu querer, votei para o Brasil. Não alterarei meus planos pessoais por conta do resultado. Acomodo cá e lá meus sentimentos e sigo meu caminho, ciente que escrevo minha história, que no final será contada por filhos e amigos, independente de governo que está ou estará no poder.

    Em tempo: o Facebook já está bem melhor para os usuários nesta semana, bem mais limpo e navegável. Agradecemos! E você, leitor, que não é político, que não ganha dinheiro dos políticos, que não tem ligação pessoal com os fatos, pense bem antes de entrar na guerra. Não seja usado por santos de plantão, nem pelos arautos dos oprimidos.