• sábado, 27 de setembro de 2014 10:08

    A realidade que nos foge aos olhos

    Vicini se decepcionou com o público na noite de abertura do Festival de Cinema de Santa Rosa. Não apenas ele. Todos, a meia dúzia de gatos pingados que estava lá, sentimos o mesmo desconforto. Desconforto, sim, porque atesta, na prática, o que sabemos mas teimamos em aceitar, a maioria das pessoas ou não tem tempo ou não dá a mínima para a cultura.

    Aliás, não damos a mínima para quase tudo. Damos o máximo para um mínimo, mínimo de pessoas, mínimo de escolhas... Não damos a mínima para o que é do outro. Talvez estejamos no limite de Sodoma, na colina de onde já podemos avistar a cidade, porque maquiamos com gaze nova para esconder velhas feridas.

    Se muitos que são do universo das artes não foram ao Festival, que esperar daqueles que sequer sabiam que a Mostra de Cinema está acontecendo (sim, a divulgação ou falta dela, é um pecado para um evento desse porte). Mas não é a respeito do público que pretendo escrever. É a respeito de dois filmes que vi recentemente, desses que abrem nossos olhos para o que as TVs não mostram (afinal, estão por demais ocupadas em vender a homoafetividade). Um filme vi ontem, o documentário sobre a tragédia na Boate Kiss. Outro, aquele feito pela Lanterna Mágica sobre a realidade dos alunos e familiares da APAE em Santa Rosa.

    É óbvio que a sociedade mudou muito nos últimos anos, cada vez mais isolada em problemas pessoais, mais isolada em salas, pessoas confinadas em seus micromundos. E aí, quando nos defrontamos com o outro extremo, somos arrastados ao mar da angústia que se avoluma no peito dos sensíveis. Não é a Kiss, nem a APAE, são pessoas, são histórias de amor mesmo quando a dor dita o texto do script.

    Não damos a mínima para o que é do outro. Não damos a mínima para a dor que é do outro, tão entretidos estamos em nossas ilusões que chamamos realidade. Pena que tão poucos viram o documentário da Kiss com os relatos de pais de jovens mortos na boate! Pena que não viram o Seu Castilhos (pai da Andressa), gritando em silêncio no Centro Cívico.

    BAM!!! Foi um tiro em nossas mentes adormecidas quando a estadunidense contou sobre o caso de lá, há uma década. Tudo igual: aglomeração excessiva, lucro, fogos no interior de um prédio sem saídas. BAM!!! Um baque quando pais daqui contaram sobre a pressão silenciosa para que eles esqueçam o ocorrido (em nome do progresso e do futuro de Santa Maria!). BAM!!! Isso mesmo, vamos esconder da frente dos olhos, dormir com vendas, fazer de conta que não aconteceu!!!

    Se não foste, vá hoje à noite ao cinema, ou vá aos livros, vá à vida amigos, sinta, abra-se para entender com que alegres versos Deus pensou no homem.

     

  • sexta-feira, 19 de setembro de 2014 17:27

    Mas quem não é?

    Não lembro de uma Semana Farroupilha mergulhada em tamanha “guerra verborrágica”. Fomos, gaúchos, achincalhados por conta de dois episódios que ecoaram em todas as fronteiras: o tal casamento homossexual no CTG em Santana do Livramento e o racismo no estádio do Grêmio.

    Não tenho dúvida que as mesmas situações seriam bem menos noticiosas na mídia nacional se ocorressem em outro Estado. É fato! Não é questão de certo ou errado, é lucidez de análise, amigos. Sabemos que o julgamento moral imposto aos gaúchos é porque somos gaúchos. Muito embora estivessem equivocados aqueles que xingaram o “Aranha” e aqueles que queimaram o CTG. A questão é a intensidade negativa da divulgação.

    Somos bairristas, sim. Mas quem não é? Nosso bairrismo é igual ao do Rio, da Bahia ou de São Paulo. Eles também tem seus amores próprios. Ocorre que a mídia que controla o Brasil nos esculhamba sempre que pode... e nós a eles. Essa ponta de rusga entre Sul e Centro é um ranço que vem do tempo do Império, que piorou na era de ouro da República Café com Leite e nos tempos do Getúlio. É ranço graúdo!

    Nosso bairrismo é igual ao do Rio e de São Paulo, só que eles têm mais força econômica. Compramos tudo deles, do Paulo Coelho ao Lepo-Lepo. Mas, a nossa literatura não entra lá, nossa fala não entra lá (a menos que queiram nos ridicularizar), nossa música não chega lá (a menos que se rebaixe àquele cachorro perigoso).

    Por quê? Porque eles têm as TVs de alcance nacional... Só isso. É temos uma forte aqui no Sul, que trabalha para eles. Somos bairristas, sim, basta ver que aqui o futebol é oito ou oitenta, é A ou B ou... ou televisor desligado. Isso se chama orgulho.

    Eles têm mais força, nós temos mais amor... Empobrecemos ano a ano, mas não nos vergamos e encontramos formas de sair do buraco. Sofremos com o frio dizemos que o amamos. Eles falam em trem bala e nós em cavalo. Esse contraditório nos fortalece.

    Eles podem usar um título “Sexo e as nega” sem que soe preconceito racial, enquanto isso falam que somos racistas, truculentos e atrasados. Não somos isso. Somos gaúchos, temos identidade e sabemos de onde vem esse vento que não é Minuano.

    Não estamos certos ou errados, estamos como sempre estivemos, com o Sul latejando em nossas veias.

  • sexta-feira, 12 de setembro de 2014 16:01

    Era uma vez...

    Antigamente, quando um texto começava assim, o leitor, já sabia que final teria... Assim, também há, na vida, assuntos que sabemos de antemão que terão certo desenrolar. Se é no andar da carroça que as abóboras se ajeitam, também é verdade que sacolejando demais, algumas caem fora. Não é vidência, é previsibilidade.

    Por exemplo, todos sabiam que determinado candidato, em nossa cidade, seria eleito vereador no pleito passado, mesmo aparecendo como novidade. Não era preciso bola de cristal para adivinhar. Um mais um é dois, simples. As urnas foram o final perfeito daquela história começada em “era uma vez”...

    É tipo assim: qualquer entendedor de futebol sabia que a Seleção Brasileira não chegaria à final da Copa (claro que ninguém esperava o fiasco!). Nunca convenceu, então, era fato que haveria queda. É a mesma linha de raciocínio que ter uma área verde com casas desocupadas e sem fiscalização: vai rolar invasão, ora.

    Então, pergunte cá e lá, entre seus conhecidos e amigos, se eles não tinham certeza que todos os fatos recentes, registrados nas últimas semanas, terminariam exatamente assim: “vão atear fogo naquele CTG em Santana do Livramento”. Pimba! Não é vidência, é previsibilidade! Nuvens muito escuras no céu e clima abafado são prenúncios de temporal, poxa!

    Seja franco contigo mesmo, vai dizer que não pensaste: “Isso não vai acabar bem. Alguma hora o Cláudio Schmidt vai levar uma surra!”. Pimba! Era chover no molhado. Raio pra cá, raio pra lá, trovão a toda hora... vai uma hora que a tempestade se completa. Não é vidência, é previsibilidade! É tipo assim: com os dias mais longos e o calor chegando, há boas chances de novos temporais.

    Nos dois casos, do CTG de Santana e do Cláudio Schmidt, embora bem distintas histórias, os personagens se movimentam de modo que o leitor preveja a próxima cena. Nem é uma questão de saber se há certo ou errado, se há vencido ou vencedor, se você está de um lado ou de outro! O que observo é que um fato puxa o outro, uma abóbora cutuca a outra, até tudo se alojar ou uma cair da carroça!

    “Era uma vez...” sempre tinha final feliz. Agora, com as muitas readaptações para a literatura e ao cinema, esse chavão pode não terminar bem assim...

    E, tenho cá para mim que os próximos capítulos destas histórias serão muito interessantes. Não creio que esse seja o ponto final.

    xxx

    Em tempo:

    leitura do Rio Grande continua idêntica: 65% de reprovação nas autoescolas.

  • segunda-feira, 8 de setembro de 2014 10:25

    Dama, xadrez e outros jogos

    Gosto de jogar damas e xadrez. Atrai-me a possibilidade de calcular com antecedência a jogada, imaginar o que o outro está planejando, algumas vezes entregar uma peça para ganhar outra em posição mais estratégica.
    Na vida, amigos, quase tudo é jogo. Sedução é jogo. Avançar no emprego é jogo. Imprensa é jogo. Claro, alguns, como dama e xadrez, sem maldade alguma. Em outros, como na atividade política, ingenuidade é falecida faz séculos.
    Então, quando se diz “vamos derrubar o Moroni”, pode ser algo “se não chiarem, vendemos”. Ou pode ser algo mais complexo ainda, uma jogada várias casas adiante. Ou seriam apartamentos? Ou nada disso, porque também é arte fazer o óbvio para ganhar o jogo por 1 a 0.
    Bah, ter uma dama feita é meio jogo ganho. Ter cartas na manga é possibilidade de xeque-mate. Por isso, quando alguém aparece com um catatau de granadas, é quase óbvio que outro alguém levantou uma cerca de arame farpado, provavelmente, bem na divisa que ele usava. Por isso tivemos tantas notícias nos últimos dias (que semanas vibrantes), sinal de que o jogo está bem calculado.
    Acreditar que o julgamento do Grêmio não tem ingrediente extra é ingenuidade. A TV quer o Koff ferrado porque ele durante muito tempo liderava a oposição. É um crime semelhante ao que cometeram contra o Inter naquele campeonato roubado pela CBF para o Corinthians. Qualquer maldade é mera coincidência. Aliás, alguém poderia explicar para os gaúchos porque o clássico Gre-Nal, na lista dos maiores do mundo, não foi transmitido ao vivo pela tal emissora do Rio Grande.
    Há perguntas que nem sempre se consegue responder. Eu não sei por que querem vender o terreno do Ginásio Moroni. Da mesma forma como não sei a quem interessa passar jogo do “Chorinthians” em cada rodada. Como saber o que se pretende com a desconstrução social em curso no Brasil? A quem interessa acabar com os valores da família? A quem interessa acabar com os regionalismos? A quem interessa termos um pensamento único neste país imenso?
    É tudo um jogo. Somos todos bonecos, marionetes, mesmo quando achamos que somos atores. Acima de nós certamente há outros que orquestram tudo, que riem da nossa inteligência porque já fizeram cálculos e avançaram várias casas no jogo que recém movemos a segunda peça.
    Contam que o xadrez foi inventado como se fosse reprodução de um campo de batalha. Discordo: xadrez é um campo político em miniatura, onde peões dão à vida pelos cavalos e bispos. O que vale é salvar o rei, afinal ele é o cara, mesmo quando nunca soube de nada.