• segunda-feira, 28 de abril de 2014 09:33

    Melhores, mas desiguais

    Embora nem todos compreendam os dados apresentados na capa do Jornal Noroeste na edição passada, eles são ferramenta importante para universidades, Corede, Comudes e outros órgãos que “lêem” a região como um todo. E, antes que algum engraçadinho diga que são apenas números vazios de sentido, é preciso levar em conta que provêm de estudo da Fundação de Economia e Estatísticas do Estado.
    Então, quando o Jornal Noroeste cita que três municípios da Fronteira Noroeste (Grande Santa Rosa) estão entre os 100 melhores no ranking gaúcho do IDESE, faz referência a dados do tripé: saúde, educação e renda. Cruzando estes dados teremos um quadro que nos situa (como região) apenas na faixa intermediária, na linha entre 100 e 200 posições no estudo. No entanto, há municípios em situação bastante delicada, especialmente aqueles que têm o Rio Uruguai como divisor.
    Melhoramos, segundo avaliação do Corede, mas ainda estamos desiguais. Há bons números, como Horizontina e Tucunduva, mas há extremos como Alecrim e as portuárias, dependentes do dinheiro público. É uma triste realidade contra a qual lutamos há décadas. População envelhecida, pouco empreendedorismo e estagnação.
    Melhoramos, sim, mas abaixo do que ocorreu com o Estado, isso porque as ações de desenvolvimento ainda são isoladas. O Pedro Büttenbender não disse isso, no entanto a um fator que acentua essa partilha de miséria: concorremos entre nós, como se o inimigo fosse o município ao lado. Bom para Nova Candelária levar a empresa Chás Prenda, péssimo para Senador Salgado Filho, pois era um grande agregador de renda.
    O que precisamos é trabalhar alternativas conjuntas porque a população de toda a microrregião é duas vezes menor que tem sozinha a cidade de Caxias. Somos, como cidades, pequenos bairros que orbitam em torno do quase-nada. Não estou afirmando que Santa Rosa ou qualquer outra cidade seja inexpressiva, mas que nossa população é pequena demais para manter voos regulares em aeroporto e até mesmo para suportar mais empresas de grande porte, pois logo falta mão de obra.
    Pensar que somos bairros poderia ajudar a unir as vozes regionais. A prefeitura comum destes 20 municípios deveria ser uma entidade como o Corede ou outra qualquer, mas que pudesse determinar um caminho a ser seguido até gerar resultados. Creio sim que a foto melhorou, mas estamos em período de economia aquecida, há uma década em franco progresso. E quando houver um momento ruim, como tivemos nos anos 90, como será?
    Os avanços são lentos. Estamos longe. A logística influencia, mas também a terra ruim para produzir em larga escala. E, a distribuição de renda não é equilibrada. Sempre ela. Nem citarei Santa Rosa, usarei Horizontina, que é 11º no Estado em renda per capita. Mas, em investimentos em saúde aparece apenas na 333ª posição. Então, ser uma cidade rica não significa que tudo esteja bem para sua população.
    Santa Rosa, município que tem um terço dos habitantes da região, também tem muito a evoluir. É apenas o oitavo entre os 20 que compõem a microrregião. O melhor desempenho é em renda (105º lugar entre todos os municípios gaúchos) e mesmo assim um em cada cinco cidades está melhor que nós. Pioramos quando o estudo avança para saúde e educação.

  • sábado, 19 de abril de 2014 10:31

    Minha Páscoa azedou

    Vou aliviar a carga verborrágica nesta semana. Não porque faltem motivos à crítica, mas porque é Páscoa.
    As primeiras lembranças da Páscoa, aquelas da infância, trazem à luz uma época em que os adultos, mesmo imersos nos problemas, encontravam tempo para pintar e enfeitar bolachas feitas no fogão a lenha, para pintar casquinhas mergulhando-as em uma panela com tintas e depois enchê-las de amendoins com açúcar ou chocolate... e nós, crianças, também não escapávamos do serviço, pois havia todo o pátio a varrer - o que incluía embaixo do galpão e estrebaria.
    A nossa Páscoa durava semanas. Semanas de falas e aguardos. Víamos e participávamos da correta quebra dos ovos para que pudessem se tornar casquinhas, afinal, tinha um jeito especial de abrir. Tínhamos expectativas do que o coelho nos traria no domingo (e acreditávamos nisso), mas também ouvíamos falar de Jesus e seu martírio. E havia os rituais, como colher macela nas manhãs da Sexta-feira Santa. Havia encanto!
    E os dias santos eram para silêncio. Não se podia jogar futebol, correr ou gritar. Eram dias chatos para as crianças. Hoje entendo melhor esse hiato, esse dia se arrastando lerdo, quase sem sons.
    Pronto, uma crônica mais leve. Aliviei!
    Mas como aliviar o discurso em uma semana em que todos os canais de TV, rádio e jornais noticiaram incansavelmente a morte bárbara de um menino de 11 anos em Três Passos? Poxa, é logo ali, tão perto. E envolveu pessoas que, teoricamente, tiveram tudo na vida, que podiam dar do melhor. Como, como em pleno 2014 ainda ocorre um ato de tamanha covardia? Como dizer aos nossos filhos que a humanidade está mais humana?
    Está nada. Somos os mesmos animais de dois mil anos atrás. A diferença é que a internet maquia um pouco a crueldade desse mundo louco, nos dá acesso a coisas que suavizam essa nhaca toda. De resto, continuamos com trabalho escravo no mundo (e até no Brasil), com guerras tolas, com ódios raciais. Eu creio que Cristo, se viesse hoje, na mesma condição de outrora, seria outra vez trucidado. A humanidade não tem humanidade.
    Vamos discutir o que agora? Pena de morte? Mudanças nas leis? Amanhã esse crime será substituído por outro tão grotesco quanto, por outro acidente de trânsito com várias mortes, por outro político corrupto. Amanhã será exatamente igual ao hoje. E nós, sociedade, em nossa infinita pressa estamos preocupados apenas em ganhar mais dinheiro.
    A minha Páscoa azedou. Não quero casquinhas, nem bolachas pintadas. Quero que você, leitor, olhe lá no fundo dos olhos das pessoas que ama e deixe-as ver que você ainda sabe chorar.
    Os dias santos eram para silêncio.
    Mas como silenciar diante de uma barbárie dessas?

     

  • sexta-feira, 11 de abril de 2014 08:02

    Governo, Gabiru e Gol

    Dia desses o São Paulo fez cinco gols em um jogo contra o “Timão” e ganhou por 3 x 2. É que dois gols foram contra, do mesmo jogador. Então, nem sempre anotar gols é coisa boa.
    Que tem isso a ver com o governo? Não sei, mas pensei nessa analogia durante a reunião do Conselho de Cultura, órgão que se posiciona frontalmente contra a fusão da Secretaria de Cultura com a Secretaria de Esportes. Frontalmente, sim, porque o presidente já foi para a Rádio dizer isso, com todos os argumentos.
    Estou endividado, é fato. Tenho que pagar de algum modo. E não será trabalhando menos que chegarei ao resultado. Sem ir ao tráfico e aos rolos, serei obrigado à jornada mais intensa. Contas domésticas... Simples assim. Vale o mesmo ao município. Vicini estuda, segundo consta, e se não consta, parece, encolher a máquina administrativa. Parece, pois o Borella tem duas secretarias, o Denir tem duas e a Leila duas ou mais. É gol contra.
    Com todo o respeito que merece, afinal é prefeito pela quarta vez, penso que encolher secretarias é um ato de populismo para fazer média e votos (o que o Vicini não precisa). Mas o governo está arranhado com as denúncias na Secretaria de Obras, riscou no aumento do IPTU e não consegue dizer convictamente “estamos avançando”. Então, precisa de atos enérgicos para mostrar que vai reverter o quadro: demite secretário, estuda fundir secretarias e enxugar gastos na Prefeitura. É a receita certa para cair nas graças do povo.
    Cá entre nós, enxugar não significa crescer, significa apequenar. Usando linguagem do futebol, é jogar para empatar e, quase sempre, quem faz isso perde. Não acrescenta nada recuar, antes, abre mão da possibilidade de criar bons projetos e conseguir novas receitas, como o ginásio de esportes para o parque de exposições. Ganhar o ginásio significa ganhar R$ 4 milhões do Governo Federal. Encolher cinco secretários e 10 diretores (no chutômetro), no período nos três anos que faltam para concluir o mandato, dá no mesmo valor. Uma conquista paga isso tudo.
    Entende-se os argumentos da Administração, cada vez mais engessadas pelas rubricas fixas, pelos Termos de Ajustamento de Conduta, pelas demandas da Justiça, pelos custos crescentes em Educação e Saúde. É nas prefeituras que tudo estoura. É compreensível, mas a saída não é cortar secretarias, a alternativa é colocar técnicos nos cargos (secretários e diretores) que possam consolidar projetos e buscar verbas onde há.
    A sensação que o governo nos passa é que está com menos de meio time e o resto é Gabiru, até pode marcar um gol, mas continua sombra de sombra.

  • quinta-feira, 3 de abril de 2014 20:49

    Liberar ou não a maconha?

    Se tocar no assunto, em crônica, já é difícil, dá para dimensionar o quão complicado é postular uma postura clara quanto a ser contra ou a favor do livre comércio da maconha.

    Abordamos o assunto no Noroeste Debate, no sábado passado. Eu, o Beto Kieling, o Rodrigo Colla e a Marli Rozek (que fez tese de mestrado relacionada ao tema). Com argumentos, com dados, fica bem mais complicado dizer rapidamente: sou contra!

    Inicialmente, sempre me posicionei contrário ao livre comércio de drogas, mesmo ciente que o governo fatura bilhões com impostos advindos de cigarros e bebidas, inclusive com propagandas em todas as grandes redes de TV aberta. No caso da bebida, se compra em qualquer esquina. E quem tem um familiar alcoólatra sabe o sofrimento que é lidar com a situação gerada.

    No que é diferente vender cachaça e maconha? Por que não proibir de vez a venda de bebidas com teor etílico elevado? Não custaria menos tirar as garrafas das prateleiras que impor a lei seca e arcar com os custos dos acidentes de trânsito e seus milhares de novos mutilados a cada ano? Isso sem contar na violência doméstica...

    São perguntas como essa que quase ninguém faz. E que quase ninguém responde nas entrevistas. A repressão não diminuiu a oferta de droga, porque ainda é possível conseguir em qualquer cidade, em qualquer bairro e nas praças do centro. Pelo contrário, a repressão aumentou a violência dos grupos rivais, com banhos de sangue em cidades maiores.

    Ouvir a diretora do presídio afirmar que 60% dos apenados que estão no presídio de Santa Rosa têm relação com o tráfico também choca a gente. Se somar a esse número os roubos e os furtos que têm relação com o consumo de drogas, teremos um percentual maior ainda. Ou seja, sem esse ilícito o presídio estaria com um quinto de sua lotação. Isso também tem custo, elevadíssimo por sinal. Isso sem contar que as prisões não recuperam ninguém.

    Mas dá para liberar maconha e não liberar outras drogas mais pesadas? Quem fumar maconha hoje, não será usuário de crack e cocaína amanhã? O tráfico vai desaparecer se houve comércio legalizado? O Estado está em condições de dar acompanhamento psicológico e social a todos que demandarem cuidados?

    Pois é isso, leitores. Não dá para expor todos os argumentos e questões em uma crônica, mas esse debate deve ser ampliado, e muito. O Brasil está atolado no problema e não pode mais protelar decisões. Temos que abrir cada vez mais espaço àqueles que debatem o assunto, com prós e contras.

    E eu? Nunca usei maconha e similares, sério. Então, pela distância do problema, preciso me informar muito ainda. Em dois anos poderemos olhar ao Uruguai e ver se funcionou a abertura...

    FIM: amanhã o debate (10h) é sobre maioridade penal, criminalidade juvenil e tais. Ouça e participe!