• sábado, 4 de outubro de 2014 13:34

    Eles nos representam?

    Eu queria escrever uma crônica simples, sobre a intensidade das chuvas, sobre os estragos, sobre as inevitáveis catástrofes e as evitáveis também (ou pensam que a gente não vê onde falhou o sistema que deveria nos proteger?). Mas, entre tanta água suja e lodaçal, ocorreu-me que não devo deixar de lado a política, as eleições.

    Então brotou em mim a pergunta: eles nos representam?

    A torcedora gremista que xingou o “Aranha” representa o Grêmio? Sim, mas apenas até decidir ofender! A ofensa é uma decisão pessoal, ora! Quando um vereador resolve apresentar um projeto que é de interesse pessoal, ignorando aquilo que pensam seus eleitores, ele deixa de representá-los e os ofende! Eles pensam que, uma vez eleitos, podem tudo.

    Realmente é uma pergunta que não cala: eles, os eleitos, nos representam? Não quando se colocam com o rei na barriga, se servem do bom e do melhor e não nos convidam à festa. E como tem desses! Tanto é que mais de 23% das pessoas não votaram ou anularam sua participação no pleito, em 2010. E, pasmem, esse número cresce a cada ano. Entendeu? Um em cada quatro brasileiros não quer nem saber da eleição, não aparece, anula, diz “cansei”! São os inconformados, os que pensam exatamente assim: “eles não me representam!”

    Eles nos representam, sim, mas apenas porque escolhemos os que julgamos “melhores ou menos piores” entre aqueles que nos foram postos na lista. Talvez, por isso, infelizmente, não são poucos que depois de colocados em seus tronos representam seu cetro, apenas isso! São os tipos “Heman”: “Eu tenho a força!”.

    Eleição deveria ser aberta. Eu escolheria votar no meu sogro ou na minha esposa. Ou no Madril ou no Paulinho. Aí seria democrático. E talvez fosse mais fácil olhar o sistema sem partidos, afinal, servem apenas para barganhar em nome de meia dúzia.

    Eu queria escrever uma crônica simples, sobre a intensidade das chuvas, mas aí pensei que este é o ano das chuvas ou talvez “Ano do choro de Deus”. Porque doído está, ah está!

  • sábado, 30 de agosto de 2014 08:58

    Que bicho é esse?

    Um “bichinho” muito estranho está em nosso meio. Deu pouco as caras até agora, no entanto, tem se manifestado onde menos se esperava, entre os jovens. Ainda não consegui definir se é um vírus, daqueles que passa rápido, feito gripe que nos tonteia e se vai sem marcas, ou se é uma espécie que andava em extinção, mas que conseguiu sobreviver e está se ambientando neste mundo novo. Certo é que está entre nós!

    Também não sei se esse “bichinho” pica, morde ou dá choque, porque, aparentemente, não deixa marcas. Mas, pelo visto, tem sintomas claros. Sei que, na maioria das vezes, começa com uma coceira (uma vontade danada de mandar tudo àquele lugar), depois passa a enjôo, cara de vômito e uma rejeição a tudo que oferecem prontinho para comer. Ainda é cedo para saber se os sintomas permanecem por meses ou são vitalícios. No entanto, percebe-se que os infectados apresentam certo grau de intolerância... a começar pelos discursos ensaiados.

    O “bichinho deu as caras” a primeira vez no ano passado, no meio dos movimentos estudantis que se espalharam pelo Brasil como um fogo abrasador. Passeou livre, infectou um bom número de pessoas e, antes de ser flagrado e acusado de incitar arruaceiros, ensaiou uma retirada de cena. Não quis se misturar aos falsos que se pareciam muito com ele. Nós, jornalistas, após algumas investigações de campo, descobrimos rastros da espécie por aí, sinal de que ele está em nosso meio.

    Dia desses esteve no programa Noroeste Debate uma meninada da USES e do Instituto Farroupilha para falar dos problemas e das virtudes do movimento estudantil. Fui surpreendido com o conhecimento político, com a noção clara sobre avanços e retrocessos no País e também com os valores que permeiam seus pensamentos, com forte ênfase da família e dos princípios advindos dos lares. Esses garotos, aparentemente, já foram atacados e são soropositivos.

    Quem está no poder, seja no município ou na esfera federal, está sofrendo com o bichinho. Ou com a falta que ele faz, principalmente, em regiões onde a natureza foi completamente extinta. É que as pessoas mais antigas ainda não se deram conta da presença do animal, muito embora estejam sentindo na pele os seus efeitos. As constantes quedas de secretários e diretores, os protestos constantes contra a venda de patrimônio público e exemplos como o da Câmara de Vereadores de Canoas, são exemplos claros de que a nova espécie está atuante. Alguns números da campanha política também mostram claramente o efeito desse danado, derrubando tudo o que encontrar pela frente.

    A espécie não quer nada assombroso, quer o seu habitat de volta. O bichinho tem infectado os jovens com maior frequência porque estes são mais propensos à novidade, embora o que eles pedem, depois de contaminados, é algo que eu imaginava que havia morrido de velha. Esse bicho, antigamente atendia pelo nome ética, sobrenome, dignidade. E, ao que parece, com as novas descobertas tecnológicas, tipo Facebook e redes, tem encontrado ambiente propício para se procriar. Em meio ao matagal do “rouba mas faz”, essa tal de ética tem se mostrado fogo puro.

  • sábado, 23 de agosto de 2014 16:10

    Sangue no asfalto

    Esquina em frente à Rádio Noroeste, segunda-feira à noitinha. O som de uma batida, um motoqueiro estendido no asfalto, sobre a faixa de segurança, e um motorista que não prestou socorro no local. Justificou-se depois; alegou que conduziu a esposa (ferida) ao hospital. Vi tudo. Ficamos no cenário até vir a polícia e a ambulância dos Bombeiros, os primeiros a chegar, como sempre! Somente isso, essa demora entre ligações e chegadas, renderia uma crônica...

    As cenas de uma guerra sempre impressionam pela sua extrema crueldade, por mostrar a outra face do homem. Talvez a verdadeira face daqueles que não foram tocados pela luz! Isso vale também à nossa guerra urbana de todos os dias, a guerra travada ruidosamente no trânsito desta cidade e de todas as demais do Brasil. É, sim, uma batalha campal conduzida por pessoas desprovidas de sentimento, por gente que ignora o sublime mandamento: amar o próximo.

    O trânsito é a nossa Síria. Nossos motoristas são os combatentes que tentam depor um ditador para instalar outra ditadura, pior ainda. Coitado daquele povo! Coitado do nosso povo! Estamos em guerras diferentes, sim, mas ainda assim, o combustível que move a matança é o mesmo: a falta de amor ao outro.

    Corpo estendido no asfalto, poça de sangue na faixa de segurança, moto retorcida na via pública, uma dezena de pessoas em volta do ferido para auxiliar no que fosse possível e imbecis insistindo em usar a Travessa Praça da Bandeira para cruzar com seus carros. Imbecis. Não consigo encontrar outra palavra para definir motoristas que vindos das ruas Cristóvão Colombo e Minas Gerais faziam contorno ao redor de todo o cenário como se ali não estivesse ocorrendo nada.

    Custa andar uma quadra a mais para fazer a volta? Precisa mesmo passar rente ao corpo e ao aglomerado de pessoas como se o acidentado fosse nada? Essa insensibilidade me chocou. Não pode ser simplesmente pressa dessa gente. É falta de sentimento, falta de amor! É “tô nem aí pro cara machucado!” Não foi um, foram vários motoristas em 15 minutos de cena, alguns até nos olhando com ferocidade, afinal, estávamos atrapalhando seu feliz deslocamento.

    Eis a nossa guerra! Eis uma foto do quanto “evoluímos” com todo o conhecimento adquirido ao longo dos séculos! Não estou ácido, leitores, estou realista. Enquanto houver tempo, semeie amor ao teu redor!

    A Guerra

    “Acidentes de trânsito deixaram mais de 536 mil pessoas mortas no Brasil em 10 anos. Foi o que contabilizou uma pesquisa do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia, da Coppe/Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A principal base de dados utilizada foi a da Seguradora Líder Dpvat (fonte: jornal O Povo)”.

    Esperança

    Esperança na geração que vem aí! Obrigado pais que levaram seus filhos pela mão para a Feira do Livro. Crianças pequenas, vindas pela mão do pai, dezenas em família! Um show à parte, especialmente no sábado. Nem tudo está perdido!

  • sábado, 16 de agosto de 2014 11:45

    Pela mão do pai

    Das imagens que gravei nestes dois dias iniciais da Feira do Livro, a que minha retina gravou foi um pai levando o filho pela mão para comprar livros. Impressionou porque essa é uma imagem freqüente, mas as crianças chegam acompanhadas de mães, avós, tias. Homens que fazem isso são raros.

    Nós, homens, incentivamos nossos filhos a jogar bola, a planejar a carreira, a pescar, “coisas de homens”. Não fomos instruídos a ensinar a eles as belezas escondidas nas entrelinhas de um livro ou a compreender a sensibilidade que emana de um ipê florido ao lado de uma prefeitura velha. Isso é “coisa de mulher” ou de poetas malucos.

    Nós, os brutos, não choramos a morte de entes queridos, mas abrimos covas profundas em nosso interior onde muitas vezes nos afundamos. Sentimos as mesmas angústias, mas quando não vemos a magia da vida, não encontramos luzes nos bretes dos túneis. Por isso as mulheres passaram a dominar os cenários, porque passaram a ler, a interpretar e a conquistar o universo interpretado.

    Aquela figura inicial do texto, talvez fosse apenas um pai com pouco tempo para o filho, querendo dar a ele um “entertimento” para suas longas horas de trabalho. Talvez fosse um pai que não lê. Talvez... Não conversei com ele, não colhi suas impressões, mas guardei a imagem em meu baú.

    Adultos ganham dinheiro. Crianças brincam, sonham. Por que não podemos criar uma ponte entre ambos? Por que não estabelecer um elo entre o materialismo e a inocência? Precisamos construir casas de dois andares, de alicerces fortes. Um pai que lê estabelece uma ponte, finca os primeiros degraus de uma escada por onde o filho acessará o andar acima. E quem sabe, da janela ou da sacada, ele veja bem mais longe.

    xxx

    Há famílias inteiras que vêm à Feira no final de tarde, num passeio que só a felicidade explica. É ir além do comércio do livro. É dialogar, é mergulhar, é conviver. Não sei o quanto espero em vendas, mas sei que esse partilhar vida e vivências não tem preço.

    xxx

    Em tempo:

    O primeiro dia da Feira foi tomado pela morte do Eduardo Campos. A tarde e a noite foram de comentários em torno do assunto. Certo é que um novo cenário se desenha. Melhor ou pior, em uma semana se saberá. Agora, quem sabe, o contexto eleitoral tome ares de eleição. Até agora, tudo era insosso.