• sexta-feira, 2 de agosto de 2013 16:48

    Se melhorar, estraga?

    Santa Rosa aparece em 31º lugar na lista dos municípios gaúchos no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano, o que pode ser traduzido por qualidade de vida. Está classificada no nível alto. Então, se melhorar, estraga?

    O estudo avalia dados oficiais, de 1991 a 2010. Mostra que nesse tempo houve avanços nas três áreas englobadas: distribuição de renda, longevidade (expectativa de vida) e educação. Os números atestam o que é visível a qualquer pessoa que aqui viveu nesse período. Eu, por exemplo, vim para cá em 1987. Vejo, hoje, outra cidade, bem menos marginalizada, com mais saúde, moradia, emprego e investimentos em infraestrutura básica.

    Há pelo menos duas ótimas notícias advindas do estudo: ocupamos um lugar de destaque no Estado e também no País, e a pobreza, aquela "braba", quase desapareceu por aqui. Mas, há sempre um mas, Horizontina - que é logo ali - dá um vareio em nós ao figurar na 11ª posição entre todos os gaúchos.

    Então, cabe a pergunta: Se melhorar, estraga?

    Englobando as áreas do estudo e outras mais, aquelas que respondem por nossa qualidade de vida, vão uns pitacos. Assim como qualquer pessoa percebe "a olhos vistos" os avanços sociais e econômicos das últimas décadas, também pode verificar que surgiram problemas novos para se somar a alguns insolúveis (?).

    O santa-rosense tem mais grana, daí que os carros se multiplicam em nossas ruas, de cara são pelo menos três reclames gerais: engarrafamento constante, falta de vagas ao estacionamento e ausência de asfalto decente em algumas das principais vias. Isso tudo é para ontem!

    Nesta pequena lista de coisas a resolver: filas em alguns postos de saúde e falta de mão de obra qualificada em vários setores.

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    Nós já éramos?

    Esse mesmo estudo do IPEA/PNUD dá de ripa na pinha da gauchada. Ele é implacável. Dos 20 municípios em melhor posição na lista, 11 estão no Estado de São Paulo. Aliás, os paulistas asseguraram 55 entre as 100 melhores no Índice de Desenvolvimento Humano. É vareio.

    O Brasil, visto por estes números, é uma desproporção só. Entre os 100 primeiros listados, apenas 14 não são de São Paulo e dos três estados do Sul. Esse é o país desenvolvido. Para nós, gaúchos, um alerta: Santa Catarina emplacou 21 municípios entre os melhores, contra apenas sete do Rio Grande do Sul (3 a 1). Mas o Paraná também decepciona, com apenas três.

    Faz muito que Santa Catarina é a "menina dos olhos", inclusive dos empresários da nossa região, pois fazem significativos investimentos lá. Quanto um metalúrgico que aqui ganha R$ 1 mil me diz que está indo embora, nem precisa perguntar para onde. É para lá, para ganhar o dobro, fazendo a mesma coisa. Praias mais quentes, cidades mais desenvolvidas e melhores ganhos salariais. Isso atrai, e muito.

    O Rio Grande do Sul, salvo algumas ilhas, está ficando para trás. Há anos isso é perceptível. Nossos ranços não permitem certos avanços.

    Quando o povo sai à rua para efetuar cobranças das autoridades políticas, está sim, querendo princípios, mas está exigindo uma sociedade que lhe garanta qualidade de vida.

    Então, se melhorar, estraga?

  • sexta-feira, 26 de julho de 2013 16:25

    Se a moda pega!

     

    Há coisas que vêm encordoadas; assuntos também. Por isso, alguns temas aguardam na fila de espera até que outro o desperte.

    Lá no meu Giruazinho se falava que assunto atado no "fio do bigode" não carecia de assinatura. Ou então que "a palavra bastava". É, mas faz tempo que a Gilette pegou meio parelho.

    Recebi de um amigo, a seguinte notícia: "Testemunhas devem pagar multa por prestar falsas informações em juízo", que em termos básicos registra: "A 5ª Turma do Tribunal Regional do Trabalho da 4ª Região (RS) manteve decisão do juiz Maurício Marca, da 2ª Vara do Trabalho de Passo Fundo, que aplicou multa a duas testemunhas que prestaram informações erradas sobre o horário de trabalho de uma reclamante".

    Traduzindo, como atesta o título da matéria veiculada pelo jornal da Serra Gaúcha, as duas pessoas mentiram ao comparecer como testemunhas de uma pessoa que cobrava indenização trabalhista! As figuras foram condenadas a pagar multa, mesmo que de valor baixo, por conta da má-fé diante da Corte.

    Ahã! No decorrer da ação, a juíza percebeu algo errado, pois analisou duas petições distintas do mesmo autor e achou "furo". Mentira da grande! E quem ajudava tecer a mentira (testemunhas) também caíram na malha.

    Quase sempre o empregador marcha nestas ações, principalmente pela dificuldade em conseguir provar o contrário do atestado pelos reclamantes, alguns velhos conhecidos da Justiça.

    Bingo. Se a moda pega, aposto que muita "cosa" muda.

    ***

    Noutro dia, um oficial da Brigada Militar, contava, numa dessas prosas "em off" sobre questões relacionadas à aplicação da Lei Maria da Penha, que tem muito de provalecimento, uso indevido. Mencionou a dificuldade de o acusado fazer defesa antes de ser penalizado de alguma forma. Na maioria das vezes é palavra contra palavra, só.

    Não estou contestando a lei, o seu resultado positivo ou a sua necessidade. Estou citando relatos. Não foi uma pessoa que falou sobre isso, sobre o quão difícil é construir argumentos que livrem de acabar em cana ou sair da casa que também é sua.

    Mas, e quando a mulher mente no registro da ocorrência? Se ela tem clara intenção de prejudicar o marido, pode usar a força da lei para obter vantagem... Então, se no decorrer do processo ficar provado que a mulher mentiu, como fica? Entrar com ação de dano moral?

    Bem caberia uma punição nos moldes dessa aplicada na Serra aos mentirosos.

    Se a moda pega, a "cosa" muda.

    ***

    Para furungar mais longe... Que tal aplicar à política, às promessas feitas em campanha alguma penalização? Uma vez que um candidato registra em plano de governo, que fala na TV e nas rádios, que usa de discurso enganoso para com o povo, deveria haver algum enquadramento legal. Deveria ser punido. Afinal, usam de mentiras para acessar benefícios que são concedidos por voto, ou seja, é quase um estelionato.

    Seria bem simples de acompanhar. Bastaria registrar todos os materiais publicitários de campanha em cartório e depois, no decorrer do governo, observar o que se fez. Claro, caberia defesa, justificativa, mas coerente, tipo: "não fiz porque a arrecadação do município diminuiu xis %". Mas daria seriedade à política.

    Isso tudo posto diante da Justiça ia dar pano prá manga! E no Judiciário, quase sempre, a gente confia.

    Já que o "fio do bigode" anda sumido com tanta similar de Gilette no mercado, é bom ver a Justiça com este zelo.

  • sexta-feira, 19 de julho de 2013 14:59

    Acorda, João!

    Acorda, João, acorda ou a Maria vai estar mil anos luz à tua frente quando você sair do cochilo desta idade de ouro...

    Entenda por idade de ouro a mais bela fase da vida, dos anseios juvenis, dos namoros quentes, das baladas varando a noite. É bom curtir tudo isso, mas é bom também não desligar os motores e ficar para ver os carros em ultrapassagem.

    Acorda, João, que esse Dia do Homem é mais que uma data para pensar na saúde, é para refletir sobre a vida e as portas que se abrem ou se fecham. E esse tom poético e jocoso é para pegar pesado mesmo, que tem muito João dormindo em berço esplêndido enquanto a Maria seguiu seu caminho faz tempo.

    Dia do Homem!!! Um amigo meu suou frio, já pensando que era Dia do Homem lavar louça, fazer a comida, ajeitar a casa! Chegou a dizer: "De novo!"

    Dia do Homem? Para quê? Ah, sim, para alertar para a necessidade de realizar periodicamente os exames de saúde, principalmente aqueles como eu, à beira dos 40 anos, que vão ao médico somente quando a coisa enfeia, mas enfeia mesmo.

    Talvez no futuro o Dia do Homem "cole", dê certo como data comemorativa. Quem sabe também passemos a receber presentes, flores (sim, por que não?) e jantares especiais... Afinal, mamãe ganha presente, papai também, mulher também... Quero o meu todo ano a partir de agora!

    Vou mais longe neste pensar. Acho que Dia do Homem é para o homem acordar. Nesse tempo maluco, em que tudo muda em poucos dias, quem menos voa é jato, e quem não estiver disposto a avançar logo será tartaruga ao sol. Elas sabem disso e aprenderam a decolar Boeing enquanto alguns ainda pilotam teco-tecos.

    Há 20 anos eu ingressava na faculdade de Letras na primeira turma da Unijuí em Santa Rosa. Éramos cinco homens no início do curso. Somente eu me formei, com 20 moças. A proporção era a mesma em quase todos os cursos superiores, com exceção de Educação Física. Era fácil perceber que a mocidade masculina estava fora das salas de aula após o Ensino Médio, que preferia a gandaia. E já falávamos da ascensão feminina, de como elas tomariam o poder.

    O homem é mais prático, mais direto, quer logo fazer carteira de motorista, cair na festa, ou ir para o mercado de trabalho imediato, aquele que rende algum dinheiro para dizer que é seu, para fazer da vida o que quiser. E assim se afasta dos estudos. Quer o hoje, sem tempo para ver o amanhã.

    A mulher, mais ponderada, mais cabeça-feira aos 18 anos, continua nos estudos. Daí que não é surpresa alguma constatar, passadas duas décadas, que elas estão em todos os ambientes de trabalho, com postos de gerências, gestoras e conduzindo rumos. Aproveitaram cada espaço, com maestria e dedicação.

    O estudo já fazia toda a diferença. Fará cada vez mais à medida que o governo investe pesado para oferecer novas portas de acesso. A nova sociedade vai cobrar preço elevado de quem não estudar, se aperfeiçoar, seguir inovador.

    Sempre haverá espaço para o trabalho braçal, a pior parte do serviço e as menores remunerações. Acorda, garoto, que a festa sempre é tentadora, mas a ressaca também vem. Acorda, João, que a juventude é só um breve período no todo da vida!

    Antes que as mulheres encham meu email com farpas, não estou sendo machista. Estou é preocupado com a meninada. Tenho visto muito piá se largando nas cordas depois do Ensino Médio. Acorda, garoto, que a festa sempre é tentadora, mas a ressaca também vem.

  • sábado, 13 de julho de 2013 18:05

    Confesso que esperava mais

    Sou poeta, e por isso, trago impresso na alma um certo romantismo exagerado, ufanista até, como quem não consegue se desapegar de todos os romances que leu. Sempre amei como quem se atira de prédios, sem paraquedas! A Dé que o diga!

    Porque sou romântico, eu esperava mais do movimento de ontem, esse convocado pelas centrais sindicais do Brasil. É que eu, como romântico incorrigível, avivei na memória ao longo dos últimos dias aquelas greves, passeatas, movimentos expressivos de marchas coordenadas pela CUT em outros tempos, quando oposição.

    Antes que digam cá e lá que sou direitista, caros leitores, vale registrar que fui metalúrgico durante nove anos, conheço chão de fábrica, fui grevista e cantei "Vem vamos embora..." Os tempos eram outros e os ventos sempre sopravam contra, com bafo na nuca.

    Então, com tantas forças sindicais aglutinadas a esse movimento de ontem, previamente convocado e organizado com tanta badalação, eu esperava mais. Imaginava que às 18 horas (quando escrevo esta coluna) a Praça estaria tomada, milhares de bandeiras, gente de todos os movimentos sociais... Fui traído pelo romantismo.

    Os sindicatos fizeram sua parte, mostraram força. Mas faltou algo! Faltou correspondência nessa paixão!

    Há três semanas, abaixo de chuva e frio, os estudantes saídos do nada, livres de bandeiras e compromissos, atraíram mais adeptos. E como cantavam aqueles jovens. Aquele dia a Praça tremeu. Meu coração, como o de quem viu, amou cada um daqueles rostos, cada uma daquelas frases pintadas a punho, no sabor de seus encantos juvenis. Sem microfone, sem som, aqueles meninos recém-saídos das fraldas - no comparativo com quem está nos movimentos sindicais - fizeram um alarido capaz de acordar os fantasmas que dormiam na Prefeitura Velha.

    Cada um faça a leitura que quiser, é livre. Mas ontem não havia jovens daquele movimento engajados à paralisação geral. Era de esperar que estivessem ali, inseridos, gritando, reivindicando, como fizeram há alguns dias. Eles não vieram. Provavelmente não se sentiram legitimados. Não se sentiram parte deste todo que aí estava.

    Eu sou uma pessoa romântica, sim. Vejo que o Brasil melhorou, que a noiva ficou mais esbelta em educação e moradias, que o potencial das empresas ganhou ânimo, que houve avanços em saúde e distribuição de renda. O País andou sim.

    Mas um romântico não pode ser cego, do contrário a galhada cresce. Confesso que esperava mais do PT no poder, principalmente depois de 10 anos. Esperava moralismo e ética mais acentuadas. Aí a imagem que lembro é aquela do Maluf, de mãos dadas, formalizando parceria...

    E essa meninada que saiu às ruas no outro dia também é romântica, está apaixonada pelo novo, por aquilo que faz o coração bater forte, com desejo imenso de se ver correspondida. Essa meninada quer amar quem se assemelha, quem tenha perfil parecido, quem tenha sonhos e coragem de pôr estes sonhos em prática. Essa meninada quer políticos, em todas as esferas, que sejam honestos, leais e que saibam ouvir aqueles que ontem lhes disseram "eu te amo" ao depositar o voto nas urnas. Basicamente isso!

    Essa meninada ama o Brasil! Essa meninada sabe que o Brasil é uma noiva linda, mas com pais e tios um tanto ultrapassados. Essa meninada quer casar com o Brasil, mas não quer morar na casa da sogra.