• sábado, 1 de junho de 2013 21:45

    É melhor ficar em casa

    São quase fábricas de multas as operações realizadas pelos aparatos policiais para coibir a violência no trânsito nas rodovias do Rio Grande do Sul em dias de feriadão.

    Transcrevo, do site do Governo do Estado, de ontem à tarde: "A Operação Viagem Segura de Corpus Christi registra, no primeiro dia de atuação, 1.991 infrações de trânsito, com a fiscalização de 22.187 veículos". Traduzindo, de forma bem objetiva, praticamente um em cada 10 veículos abordados foi caneteado, percentual que é elevadíssimo. Parece ordenado, matemático. Segue: "Também ocorreu o recolhimento de 27 veículos para depósito e a retenção de seis documentos de habilitação".

    Não estou colocando em dúvida a lisura de policiais que atuam na fiscalização, até mesmo porque confio nos homens da segurança pública. São íntegros. Mas a ordem que vem de cima é "rigor total". Isso é mandamento superior.

    Ainda penso que orientar, sem multar, teria valor educativo maior. Por outro lado, os dados contradizem este poeta. O relatório diz "... Os agentes de trânsito também aplicaram 309 testes de bafômetro e, desse total, 15 condutores se encontravam alcoolizados". Ou então: "O total de acidentes é de 259, com seis vítimas fatais e 109 feridos". Educar como, se culturalmente nossos motoristas seguem com comportamentos de homens das cavernas? Ah, e mulheres das cavernas também!

    Enfim, começamos o feriadão com números de uma guerra, tragédias seguidas no trânsito, que nos enchem de tristeza.

    Uma amiga, em email enviado na terça-feira, queixava-se que na Rua Santa Rosa, próximo a uma grande escola, foi buscar o filho na creche - escola infantil. Ficou horrorizada, porque outra mãe, com toda a pressa de quem vai fechar algum grande negócio nos cinco minutos seguintes, quase atropelou três crianças que atravessavam a faixa de segurança. Ou seja, a dita-cuja foi buscar sua cria e pouco se lixou para as crias dos outros, na completa ignorância e barbárie.

    Dias atrás, a diretora de uma escola foi interpelada por pais apavorados. O filho, uma criança, foi atingida - sem gravidade, graças a Deus - quando cruzava a faixa frontal ao colégio. Mais uma vez era uma senhora, com tanta pressa que sequer parou para pedir desculpas ou ver se machucara o estudante.

    Isso é a sociedade de agora, do agora!

    É isso, há imbecis demais em nossas ruas, com reis na barriga, cheios de toda a razão do mundo, que se veem como donos dos asfaltos. Imbecis, sim!

    Estive em Porto Alegre e São Leopoldo na semana passada. Voltei aturdido com uma constatação: nosso trânsito é muito, mas muito pior, que o deles. Lá as sinaleiras funcionam e as faixas são respeitadas. Há pressa, sim, mas há comprometimento coletivo. A impressão é que lá é menos perigoso que aqui. O motoristas que nos conduzia disse algo como "os motoristas se respeitam, dirigem ligados. Quando há acidentes, geralmente envolvem motos. Esses não têm jeito".

    Em Santa Rosa, todos, eu inclusive, quando o assunto é o elevado número de acidentes, sempre aponto o primeiro dedo para a falta de alternativas de escoamento do trânsito, porque nós temos somente a Expedicionário Weber. Ou apontamos para os muitos buracos para justificar os deslizes cometidos. Nada a ver. A culpa é mesmo dos motoristas, dos aproveitadores, dos estressados, daqueles malucos que não podem perder dois minutos. Preferem perder a vida ou, o que é mais grave, tirar a dos outros.

    Sou contra essa indústria que multa genericamente, afinal o brasileiro já trabalha demais para impostos e taxas. Mas também não vejo lá muitas alternativas para "meter" na cabeça dos motoristas que é preciso valorizar a vida, sua e dos demais.

  • sexta-feira, 24 de maio de 2013 17:42

    Para Taffarel e outros ídolos

    Hoje, quanto Pedro Ernesto Denardin estiver palestrando no Centro Cívico, talvez alguém levante o dedo e pergunte algo sobre Cláudio André Taffarel, sobre a Copa de 94. Mas, talvez, apenas talvez...

    É um tom irônico desta narrativa, porém, expressa a apatia com que este município trata personalidades que levaram além das fronteiras regionais o nome desta terra. Taffarel, Xuxa e Argel figuram nesta relação, como tantos outros. Todos santa-rosenses. Todos pouco reconhecidos aqui.

    Talvez seja um pouco de inveja, talvez seja esquecimento, talvez seja priorizar emergências, ou então, apenas uma forma de desperdiçar elementos que atrairiam turistas e renda.

    O santa-rosense sabe que existe a Rótula do Taffarel, mais por conta daquela magistral escultura do artista Jeferson Furtado. Sabe porque passa por ali todos os dias, afinal nenhum lugar é tão "coração da cidade" quanto aquele ponto. Mas, é como se a rótula e Taffarel apenas estivessem ali, quase deitados no sono do esquecimento. Taffarel merece mais.

    Certa feita, num daqueles momentos em que no Estádio Carlos Denardin era disputado o Campeonato Brasileiro Sub-20, quando dezenas de jogadores de categorias de base dos principais clubes do País e, da mesma forma, canais de televisão aqui aportavam, sugestionei que a Prefeitura tomasse para si a responsabilidade de criar um Museu do Esporte. O assunto jamais chegou a qualquer roda de discussão, ignorado.

    Pois, nesta semana, a vereadora Lires Zimmermann, de olho no fato de o Brasil sediar a próxima Copa do Mundo, a Copa das Confederações e a Olimpíada, apresentou na Câmara um projeto que bate na mesma tecla. Então, se existe um momento oportuno para que a criação de um Museu do Esporte evolua em Santa Rosa, o momento é este.

    Taffarel é muito maior e mais importante para Santa Rosa que uma rótula. É um dos principais goleiros da Seleção Brasileira em todos os tempos, campeão mundial, de trajetória vitoriosa. Merece ter sua história resgatada, com fotos e objetos que contam sua ligação com a cidade, com Cruzeiro, com Crissiumal e Tuparendi, com o Gega, etc e tal.

    Mas não apenas ele. Um Museu do Esporte poderia abranger tudo, ir lá aos tempos do Paladino e Aliança, antes até, rememorar Caieira e Penicilina, Nenê Zorzan e o glorioso Dínamo... Mas outros, mais recentes, ilustraram belas histórias, como Argel e Roberto Gaúcho, nascidos nas vilas de Santa Rosa e multivencedores em grandes clubes. Quem sabe, alargar-se-ia mais o olhar para abranger atletas nascidos na região, como Darci, Danrlei, Paulo Turra e tantos outros.

    Por que não pensar mais longe? Nos jogos da USES, no futebol de salão do Losca, nos esportes poucos citados, como vôlei e artes marciais.

    Gostei da sugestão da Lires, de construir um Museu do Esporte no Estádio Municipal, onde hoje há mais de 200 meninos nas escolinhas do Juventus. Imaginem que vitrine, que incentivo eles teriam ao ver fotos e objetos destes ídolos.

    Isso não é saudosismo, é pensar o futuro.

  • sexta-feira, 24 de maio de 2013 13:50

    As tornozeleiras...

    Há dias, li nos jornais da capital, informação sobre 200 presidiários que aceitaram usar as tornozeleiras desenvolvidas para rastreá-los enquanto gozam do benefício do regime semiaberto. E, mais uma vez, deparo-me com um destes aspectos estranhos da nossa constituição: o indivíduo apenado não pode ser intimado a utilizar o equipamento. Usa se for voluntário.

    Ora, mas que situação mais descabida. Essa é uma daquelas medidas que festejamos, quando são anunciadas, e rimos quando vão à prática. Dar este direito de escolha é rir do cidadão que trabalha e paga impostos.

    Assim como um cidadão deveria ser obrigado a fazer o teste do bafômetro, afinal se não bebeu nada tem a temer, assim um preso deveria ser submetido ao monitoramento da tornozeleira ou qualquer outro método similar, afinal, ele ainda não cumpriu integralmente a pena, não pode ser considerado livre.

    Direitos e deveres devem ser equiparados, do contrário criamos uma sociedade em desequilíbrio. E, ao que parece, nós temos todos os deveres, ao passo que os bandidos têm apenas direitos.

    E estamos, como sociedade, cansados de ver presidiários do semiaberto praticando crimes de dia e retornando à cela em seu horário habitual.

  • sexta-feira, 17 de maio de 2013 10:19

    O governo e os médicos

    A grande polêmica da semana foi o acirrado debate entre os médicos, através das entidades de classe, e o Governo Federal com sua intenção de "importar" seis mil médicos formados em Cuba.

    Posso ficar sobre o muro, porque os dois lados têm razão em seus argumentos. O Ministério da Saúde não consegue melhorar o atendimento aos menos favorecidos, especialmente aqueles que vivem em zonas distantes das cidades-polo. Já o Conselho de Medicina justifica que o índice de reprovação é de 93% para formados em outros países, como Cuba e Bolívia, quando se submetem à prova de validação do diploma. Em tese, suas faculdades não possuem qualidade.

    Mas, não costumo usar o muro. Então, entre as duas versões, tenho meu próprio olhar.

    Santa Rosa é uma cidade com bom padrão de vida, transformada em polo regional de saúde há alguns anos, onde o sistema público funciona bem - dentro de suas limitações. Porém, a Fundação Municipal de Saúde tem dificuldades para encontrar e contratar médicos que queiram se dedicar exclusivamente à saúde pública.

    A situação é idêntica em todos os municípios próximos, e piora a cada quilômetro que se afasta de uma cidade bem estruturada. Isso não é de hoje. A questão é salarial. Em tese sim, mas vai além. Profissionais desta área, mesmo recém-formados, não querem trabalhar por R$ 10 ou 14 mil mensais. Não se pode limitar o olhar apenas por este ângulo, porque como em qualquer carreira, o médico sempre almejará mais, quer buscar novos conhecimentos e tecnologias, e para isso precisa de desafios e recursos... No sistema público trabalhará com deficiências nestes aspectos. Ou seja, se limita.

    No entanto, do modo como está hoje o cenário do atendimento médico, especialmente no sistema público, o povo está jogado à própria sorte. Em cidades menores os hospitais fecharam ou lutam para sobreviver e os atendimentos em postos viram loteria. Nas periferias de grandes cidades, ninguém quer trabalhar.

    Algo precisa ser feito, com urgência. Esse algo é formar mais médicos, preferencialmente pessoas vindas das classes sociais mais baixas. E esse problemas as cotas não resolveram. E, no curto prazo, não resolverão.

    O Conselho Federal de Medicina se posiciona contra a "importação" de médicos cubanos. E, da mesma forma, se posta contra a abertura de novos cursos de Medicina, alegando que o mercado está inflado. Quantos menos formados, mais renda aos que estão estabelecidos. Isso é reserva de mercado, como faz a OAB quando exige a aplicação de uma prova para que o formado em Direito possa atuar como advogado, direito que - aliás - já conquistou ao concluir o curso superior.

    Ninguém diz que temos professores demais, brigadianos demais, taxistas demais, supermercados demais... quem regula a demanda é o mercado, e nele, aqueles que se sobressaem conquistam seus espaços, com ou sem "superpovoação" em sua área profissional. Alguns terão mais qualidade médica outros menos, mas o usuário diferenciará isso, assim com o já faz hoje ao escolher ir a este ou a aquele doutor.

    Eu ainda quero ver o dia em que minha filha, a filha do João-da-Vila, o filho da Maria-do-Beco e outros jovens nascidos em periferias se formarão em Medicina ou em Odontologia, ou em outras áreas seletivistas. Eles, certamente, não se importariam em trabalhar por um salário de R$ 15 mil por mês. E, depois, talvez descubram que poderão ganhar muito mais com especialidades, e talvez migrem para áreas mais rentáveis, e então outros Joãos e Marias estarão na fila para estas vagas e ávidos por este salário básico.

    Está certo o governo em querer que o povo possa acessar a saúde sem deixar metade da vida na fila de espera. Já é hora de entendermos que não apenas uma minoria tem direito de usufruir da vida com dignidade.