• sexta-feira, 21 de julho de 2017 14:46

    Os índios, os negros e os pobres

    Quando o Governo Federal lança uma campanha de regularização fundiária que o deputado da sua base diz que vai beneficiar “100 milhões de brasileiros” eu fico com duas pulgas atrás da orelha. A começar porque esse número é surreal, pois somos apenas pouco mais de 210 milhões de nativos. Quero a minha fatia desse bolo!

    O meu receio é que se legalizará a terra grilada. E desta forma lá se vai mais um tanto da Amazônia a virar cinzas! Lá se vai mais um tanto de população pobre empurrada para fora até dos fundos de campo, donde irão às beiradas das cidades.

    Em geral, é isso que ocorre quando o Governo legaliza terras. Quem vai ao cartório registrá-las? Os fazendeiros, os madeireiros, os peixes graúdos que se apossaram das áreas da União. Sem levar em conta quem sobre elas está há mais tempo. Desde a fundação do país este verbo é priori a quem tem ou está do lado do poder: apossar.

    Há menos de 200 anos o Império determinou o registro de terras que pertenciam à União. Nas imensidões do Sul quem estava à frente dos homens de guerra e alguns mandatários registraram seus lotes. Eles foram avisados que deveriam proceder assim. E tinham “recursos” para provar que as terras eram suas.

    Pergunta: onde foram parar os mais de 100 mil índios que viviam nas Missões guaranis tomadas pelos espanhóis e portugueses? Eles ficaram com quais terras? Eles foram para os fundos de campo, depois para os vilarejos, para as povoações e estão em nossas periferias, cruzados com negros, pobres e lusos. E hoje, com os imigrantes também.

    Quando o Governo fala em legalização fundiária é isso que está em marcha. Beneficiar quem, por vias legais, até os dias atuais não conseguiu garantir sua escritura. Quem realmente vai conseguir usufruir dessa vantagem?

    No final do processo, serão regularizadas as terras onde há posseiros, negros, pobres, descendentes de índios vivendo há centenas ou dezenas de anos. Depois, de posse das escrituras, nossos nobres farão o mesmo que fizeram os nossos avós e antepassados quando cá chegaram: a ferro e fogo vão expulsar a todos aqueles que sempre estiveram sobre a terra e dela faziam uso. O papel lhes permite tudo, até pagar polícia para exterminar “invasores”.

    Eu ouvia falar dos “bugres” lá nas bandas da Giruazinho. Os colonos semeavam pânico entre os seus, porque os índios atacavam com arco e flecha, roubavam gado e eram uma ameaça. Eles, os nativos, eram “quase bichos, sem alma”. E assim, nessa guerra pela posse da terra que aos nossos antepassados foi assegurada “pelo documento do governo”, nos tornamos esse centro de excelência progressista.

    Deve-se regularizar sim, mas as pequenas propriedades, os lotes urbanizados nas periferias, onde haja índios, negros e pobres que foram e seguem alijados de seus direitos e conquistas. Regularizar para aqueles que não têm grana para fazer isso porque mal conseguem para o feijão.

    E vamos lá, todos, apoiar a aposentadoria dos nacionais aos 65 anos! Afinal, somos ricos!

  • sábado, 15 de julho de 2017 11:17

    Os militontos e os muitotontos

    Há muito tenho escrito que me entristece a recente divisão entre brasileiros e brasileiros que torna todo o debate pobre, que encerra qualquer discussão já no seu nascedouro.

    A condenação do Lula, por exemplo, é assunto a ser amplamente discutido em qualquer roda de conversa, nos assentos escolares, nas mídias, etc e tal. Porém, sob o viés da legalidade ou não, sob o viés das questões políticas e sociais, e por aí afora.

    Não é o que se vê. Os argumentos deixaram de existir, deram lugar às vulgaridades. Quem abre as mídias sociais ou lê os comentários postados abaixo de matérias publicadas em veículos sérios fica horrorizado com o que lê. Em geral é baixaria, de ambos os lados: os que largaram “caramurus” na quarta-feira e os que sabem de antemão que a condenação foi mais uma pá de cal sobre a quase-lápide do PT.

    Tenho lido bastante essa palavra “militonto” nos comentários. Em tese, todo aquele que defende Lula é um. Chama atenção, no entanto, que, em geral, quem a emprega é igualmente “militonto”, de outra sigla. Aplica-se idêntico raciocínio a quem usa o termo “coxinha”, igualmente pejorativo.

    Para mim, quem emprega “militonto ou coxinha” está fora de qualquer roda de discussão, é tendencioso. Precisamos ter capacidade para ir além destes dois grupos. Não pode ser uma queda de braço entre ricos e pobres, entre ladrões e menos ladrões. Tem que ser uma discussão entre certo e errado (o que não temos hoje), uma pauta em prol da construção de um País para todos (que não é o que temos hoje).

    O brasileiro é duplamente vítima: primeiro porque viu os eleitos depenarem o País em benefício próprio; e depois - não bastassem os roubos - vê-se presa de reformas que fatalmente o tornará ainda mais miserável. Fique claro, não sou contra as reformas, sou contra a forma como é conduzida e a totalidade dos itens aprovados ou em discussão.

    É preciso serenidade a quem fomenta os debates. O mesmo cara que escreve “militonto” é “muitotonto” ao escrever que o massacre de acampados sem-terra foi legítima defesa da polícia. Isto é ser imbecil.

    Nem “militontos”, nem imbecis “muitotontos”. Precisamos de pessoas em condições de argumentar e defender conceitos básicos, como ética, moral e honestidade. E, a partir destas premissas estabelecermos defesa dos nossos pontos de vista e reconstruir a sociedade.

    Tristes estamos nós, brasileiros, roubados por essa quadrilha que estava e está alojada no Governo, no Senado e no Parlamento. E reféns de discussões rasteiras entre “militontos” e “muitotontos”.

  • segunda-feira, 13 de novembro de 2017 07:37

    Uma provocação a mais

    Quando escrevo que a dita “força política” de Santa Rosa é ficcional, chovem críticas e contestações ao meu rompante. Não é minha intenção provocar nenhum parlamentar, assessor ou etc, mas há cravos que são incômodos!

    Os defensores da nossa força dirão que temos milhões de reais em emendas parlamentares a comemorar, investimentos constantes na saúde e outras áreas. Estão corretos! Porém, em pontos cruciais, dá a impressão que perdemos sempre.

    Meu calcanhar de Aquiles (que não é o Giovelli) voltou a ser Santo Ângelo. Há bem poucos anos festejávamos conquistas notórias, uma após a outra, além de possuirmos um destacado potencial industrial em vantagem. No entanto, nos embates mais recentes, as Missões levaram ampla vantagem.

    Santo Ângelo voltou ao centro do mapa e Santa Rosa se posiciona perifericamente, a espiar os avanços. Sequer entramos para valer na disputa para ter o centro de distribuição da Fruki, que foi para lá. Isso faz pouco tempo. Depois, o Alibem anunciou financiamentos volumosos para ampliar a sua estrutura. A proporção de investimento para a planta de abate missioneira, até onde sei, é goleada contra a nossa. E, como todo bom sujeito picado por escorpião, eu tenho medo que haja mais nesse bicho, que o vento mude completamente de direção... Se é que me entendem, nesse caso!

    Não faz muito que Santo Ângelo levou a fatia do investimento prevista para aeroportos, deu de relho em nós. Levaram a modernização, levaram os voos de linha, estão, literalmente, vendo tudo Azul. Pois, nesta semana o Cajar Nardes anunciou mais grana para a mesma obra. E, como regionalmente não há movimentação para dois aeroportos, esse foi! Perdemos!

    Para não dizer que não falei das flores, os tais deputados federais do Rio Grande do Sul, deram um golpe de misericórdia em nossos sonhos de construir a ponte internacional em Porto Mauá. Ah, só para constar, são os mesmos deputados que vêm aqui dizer que defendem a nossa região e levam os nossos votos. Não interessa que não existe projeto da ponte, que não tem nada encaminhado de fato. Essa obra tem tudo para sair do papel agora, até porque se tem coisa que o Grupo Temer sabe fazer é mover pauzinhos rapidamente.

    Então, se não é força política, o que eles têm a mais que nós? Talvez políticos de sangue mais renovado, gente que ainda têm motivos para perseguir alguma coisa?

    Ou talvez conseguiram, enfim, fazer o que os municípios da Grande Santa Rosa jamais conseguiram fazer: formaram um bloco que pensa igual, todos por todos. Aqui, por enquanto é Santa Rosa x Horizontina x Três de Maio x Santo Cristo. O casamento nesse caso é um divórcio por completa “desunião” total de bens e sonhos!

  • sábado, 8 de julho de 2017 10:06

    A galinhada e o cemitério

    Calma! As palavras do título são meros acasos para reportar aos assuntos da coluna e, na verdade, sequer dizem o teor desta.
    Abro a net e me deparo com uma enxurrada de notícias ruins. Quadrilhas e mais quadrilhas de todos os pês que nos assaltam quase impunes. Traficantes, PCC, pacotes dos governos, brigas nas escolas, etc e tal. Credo! Pare esse trem que eu quero descer!
    Percebo então que mergulhamos tão profundamente em nossos aparelhos celulares e redes sociais que nem sempre sabemos onde está a margem na qual encontraremos um galho para nos agarrarmos. Aos poucos, nos afogamos nesse rio caudaloso da net a ponto de esquecermos se lá fora chove ou faz frio. É bem mais simples olhar o visor do celular que abrir a janela!
    Aqui entra na prosa a galinhada na casa do Sávio. Pouco importa a fartura da mesa, a nossa sociedade na Editora ou os negócios pendentes. Importa é que tiramos algumas horas para conversar, rir, prosear sobre os cães, os filhos e coisas de outrora. Sem Tv, sem celular, sem papo cabeça de jornalista e advogado. A galinhada é o momento pausa para a família. Não há o que pague isso que acompanha a galinhada.
    Pensava nisso ontem, quando peguei meus cães e fui esperar a Dé no estradão. Há poucos meses a minha filha percebeu um cemitério velho, praticamente abandonado, na terra dos Fehlauer. Pois, aproveitei a caminhada para ver de perto aquele santuário esquecido no meio da lavoura. Agora alguém começou a cercar a área que nem acesso tem mais. Vi túmulos estragados, lápides que não podem mais ser lidas, coisas quebradas.
    Ali não está mais a morte. Eu não a vi. Eu vi a nossa pressa. Quem se importa em visitar um cemitério onde estão parentes que há muito partiram? Quem para a perguntar ao vazio o porquê das coisas? Eu percebi a mudança da estrada velha que passava ali perto, eu percebi o êxodo rural que ceifou as comunidades do interior, e percebi o vento cantando canção com as folhas do azevém para os finados.
    Estamos assim, cemitérios pálidos! Pequenos municípios da região convivem com altíssimos índices de depressão. Não é apenas efeito do agrotóxico. É o abandono de quem ficou. É a solidão de quem não se junta para uma galinhada descompromissada, uma canastra com risadas soltas ou uma roda de prosa ao redor de um fogão a lenha.
    A sociedade coletiva está adoentada há anos. Ganhamos mais, vivemos mais anos, sonhamos mais e compramos nossas sofisticadas ilhas-net onde construímos castelos.
    Aceleramos tanto que sequer percebemos os vazios em nossos dias, em nossas almas. E quando os percebemos eles já são buracos imensos. Então, já não há mais margem, não há mais o galho do sarandi ao qual se agarrar.
    Junte-se. Juntem-se. Pague a galinhada se for preciso. Vale a pena. E ria, nem que for das tragédias.