• sábado, 17 de setembro de 2016 09:54

    Eleições sem sal

    Eleições sem sal, nem açúcar também, claro. É como se nem estivéssemos em época de escolha dos vereadores e prefeitos.
    Sinceramente, esperava que as novas regras políticas trouxessem alguma mudança drástica no comportamento dos candidatos. Mas, não havia imaginado que o impacto seria tão expressivo no eleitor. Há um ostracismo, um silêncio, uma apatia incômoda no ar. Incômoda sim, porque não discutir política faz um mal danado.
    Nas cidades menores, o contágio se dá pelo ar. São poucos quarteirões, são poucas comunidades, 2 mil eleitores ou alguns mais, e aí, de alguma forma, todos acabam sendo atraídos à discussão política, para um lado ou outro. Estive em Tuparendi final de semana, lá há clima, há movimentações de ambos os lados. Há um burburinho. Em Santa Rosa, quase nada. É como garoa sobre um lago.
    Em cidades médias ou grandes as mudanças na legislação se fizeram sentir de fato. Maiores distâncias, maiores vazios. E isso se aplica ao eleitor também. Com opções de TV a cabo, internet, Netflix, etc e tal, a campanha pela TV aberta e pelos rádios não entra nas casas. Perdemos até o folclórico risonho de certos candidatos.
    Alguém dirá que há uma invasão no Facebook, até com algumas propostas e, em geral, sem baixarias... Mas isso também é ruim, principalmente para a empresa que detém o domínio sobre a rede social, porque os usuários a abandonaram. O Face é uma lavoura improdutiva há semanas, onde agricultores urbanos esperam a próxima boa chuva para plantar.
    A campanha sentiu essa ausência de publicidades em avenidas, em locais de grande tráfego, ausência de comícios ou de artistas que atraiam multidões, sentiu o abandono dos cidadãos. A campanha não saiu às ruas, não chegou às pessoas mesmo com todo o esforço de alguns marqueteiros.
    A população leiga está feliz da vida com estas eleições. A “nhaca” proporcionada pelo nosso Congresso, Senado e governantes, especialmente federais, afastou de vez o interesse dos eleitores. Se é verdade que ninguém mais tinha paciência para o sistema anterior, longo e apelativo, também é verdade que logo sentirão falta de algo mais temperado.
    As eleições deste ano estão restritas aos grupos que estão engajados nas campanhas, em qualquer frente que estejam, por suas relações de parentesco, interesses pessoais ou atuação como dirigentes partidários. E isso é ruim. Não discutir política, não entrar na mobilização só interessa aos ruins, aos que fazem as coisas nos bastidores, porque para estes, quanto maior o silêncio, melhor. E com isso, perde a cidade. Ficar como está traz um grande desserviço: o completo desinteresse por discussões do âmbito político.
    Temos duas semanas para ver se chove, porque essa garoa dá um tom de inverno que deixa o eleitor com vontade de ficar em casa...

  • sábado, 10 de setembro de 2016 10:20

    Sobre o caos, o desarmamento e outras

    Fiasco para o orgulho gaúcho sermos, enquanto Estado, obrigados a acionar a Força Nacional para ajudar a combater a violência extrema que assola as grandes cidades.
    Fiasco sim. Porque isso demonstra a falência do sistema político, do modelo prisional (e do judiciário), e também da sociedade que construímos ao longo das últimas décadas, fundamentada no extremo do capitalismo, em que todos devem ser mão-de-obra barata e a família completamente alijada de tudo. Sem família, sem educação e com TV que estimula a deturpação completa de valores, chegamos a esse poço.
    Poço sim. Porém, profundo e entulhado de lixo, do qual já não se extrai mais água cristalina há muitos anos. Certamente os juristas, os agentes políticos e os sociólogos têm opiniões diversas à mi-nha, no entanto, enquanto jornalista e ativista cultural, estou farto de números, quadros, gráficos e informações que não produzem resultados. Nós não mais queremos explicações. Queremos práticas.
    O atual governador se mostrou ainda mais incompetente que os anteriores para resolver nossos problemas de segurança. Deixou degringolar completamente para chamar a Força Nacional. É pose para foto! É propaganda! Porque a leitura que a maioria dos gaúchos fará é de que, “enfim, ele fez algo”. Fez nada. Cansamos de “não termos dinheiro para nada”. Chega!
    Há muito quero escrever a respeito do desarmamento. Votei favorável, hoje não votaria... Não enquanto o governo não conseguir assegurar a segurança que eu, minha família, minha empresa, minha casa, etc, precisamos. Desarmar o cidadão, mas deixar o bandido se armar até os dentes é convidar a um massacre. E é isso que ocorre agora.
    Sabemos que o modelo americano, de armar todos os cidadãos que desejarem, também não funciona, igualmente produz constantes massacres. O que está errado é a sociedade, estimulada pela indústria do cinema a ganhar tudo na força, a supervalorizar a guerra com grandes aportes da indústria que mais rende no mundo: a bélica. Bandido é bandido, e ponto!
    É preciso defender a polícia enquanto instituição, porque sem ela é o caos. É preciso armá-la adequadamente, pagar salários decentes e ter efetivo em quantidade para suprir as necessidades. Mas, claro, também é preciso coerência da BM para aceitar novas regras, mudar o sistema que coloca um policial na aposentadoria aos 45 anos. O Estado não suporta mais esse modelo.
    Não é defendendo a pena de morte que resolveremos nosso problema, do contrário os EUA teriam resolvido... idem à abertura a qualquer pessoa de se armar até os dentes... idem ao modelo atual de combate às drogas... idem ao sistema prisional nojento que temos...
    Então, qual a saída?
    Aplicações de penas duras aos menores infratores, presídios realmente seguros (sem acesso a internet, telefone e mordomias), celas individuais (mesmo que pequenas, porém humanas), exército forte e engajado constantemente (não apenas na operação Ágata), efetivo policial qualificado, bem pago e em número suficiente para combater o crime, penas severas aos policiais envolvidos em delitos (três ou quatro vezes maior que ao cidadão comum)... e por aí vai a lista... E essa lista não inclui a volta do regime militar.
    Chega! Nós queremos viver em paz!

     

  • sábado, 3 de setembro de 2016 10:57

    Sobre a morte das pequenas propriedades

    Vender leite de porta em porta não pode! Ovos, não pode! Torresmo ou embutidos, não pode!
    Desapareceram os verdureiros que batiam à nossa porta aos finais de tarde para oferecer produtos frescos colhidos na terra. Desapareceram aqueles que vinham nos oferecer leite puro e uma dúzia de ovos a preço mais em conta que o mercado da vila... As grandes indústrias e conglomerados venceram! E tudo ficou caríssimo!
    O leitor, urbano qual eu, logo pensará que está certo o poder público (nas três esferas) em aplicar o rigor da lei de fiscalização sanitária em favor de nossa saúde. Tenho outra visão: a legislação beneficia os grandes produtores. Ela impede que o pequeno venda de porta em porta, de modo que precisará se tornar médio ou grande produtor para abastecer quem? A indústria... E assim, deixamos de pagar R$ 2,00 por litro ao leiteiro para pagar R$ 3,50 ao mercado.
    Ovos, o colono não pode vender na cidade. Ah bom, ele pode transformar em bolacha e cuca... E se tiver sorte, vende na cidade. Discutiu-se a instalação de um entreposto de fiscalização de ovos, por exemplo, projeto que está engavetado, mas, se posto em prática, pouco contribuiria... A salmonela, que é a única preocupação realmente séria, não é detectada nessa avaliação oficial. E o processo todo é muito burocrático para quem quer vender 10 dúzias ao mês e fazer R$ 50,00 para ajudar nas compras do mercado...
    É estranho esse pensamento “protetor de saúde” que nos é vendido pelo mercado final, em conluio com a grande mídia. Todinho contaminado pode vender! Leite recém extraído da vaca não pode. Leite com adição de porcaria pode, leite modificado pode... Meu vizinho, que tinha quatro vaquinhas, teve de parar de produzir porque não recolhem em pequena quantidade. E vender na cidade não pode, só se clandestino...
    Carne do pequeno agricultor, mesmo frango e peixe, não pode, só pode do frigorífico... Não posso carnear um boi e trazer para vender na cidade, mesmo que para parentes... É isso, o pequeno acaba desistindo e vem morar na cidade engrossar a fila dos que vão oferecer mão-de-obra barata... É o caso de um conhecido meu, motorista em empresa privada, que ganha R$ 1.300,00. Ele faturava três vezes mais com um abatedouro familiar e vivendo de quatro hectares. Hoje não possui nem a vaquinha do leite.
    Abrir açude não pode no interior (mas aterrar banhado na cidade pode!). Pode, se for para grandes irrigações. Produzir peixe para quê, se vender na cidade não pode?
    O futuro da produção no campo será assim: o dono da terra será um grande empresário urbano, com um servidor alocado lá apenas para gerenciar as máquinas... Pago como trabalhador urbano.
    É trágico, mas é verdade! Se não houver política agrícola e cooperativista diferenciada, não há lugar para pequenos no campo. Percebo que quem ficar, lá na frente, poderá ganhar dinheiro porque o alimento custará o olho da cara... Por ora, melhor produzir comida apenas para si mesmo...
    Mas, assim como está, o campo é lugar para soja, milho, algum trigo e animais para abate...

     

  • segunda-feira, 29 de agosto de 2016 07:15

    Lição para extrair da crise

    A crise está aí. Ótimo para a sua vida. Você ainda vai agradecer por este momento!
    A crise econômica em curso, que não é do Brasil, é mundial, chama a todos nós, cidadãos, a repensarmos o modelo de vida que pretendemos desfrutar e aonde ele nos levará. Penso eu, pense você! E leve em conta um artigo recente, assinado pelos cientistas, que acendeu o sinal de alerta no semáforo global: a Terra já não é mais capaz de produzir tanto quanto extraímos dela. Ou seja, não há reposição. O nosso lar chegou ao limite.
    Sem casa, logo estaremos vivendo na miséria das ruas! É isso que a Terra nos diz aos gritos! Há espaço, ar, alimento e água para 7 bilhões de “humanídeos”? Sim, porém, mas, todavia... Ou mudamos nosso modo de viver e nos ajustamos harmonicamente à Terra ou ela mesma cobrará seu preço, ela fará o ajuste à sua maneira, com furações, terremotos, pestes, etc.
    O século passado foi emblemático na guerra travada entre comunistas/socialistas e capitalistas. Engana-se quem pensa que os embates terminaram!
    Muito embora a guerra atual tenha viés religioso (na radicalização de uma corrente islâmica), ela é apenas uma cortina para a guerra real pela exploração do petróleo que ainda há em abundância sob as areias quentes dos países árabes. As garras do capitalismo continuam a semear milhares de mortos na Síria, Iraque, Nigéria, etc.
    Porém, na luta de capitalismo x socialismo, o fim é o mesmo: apenas saber quem deterá o capital/poder, se, empresas ou um governo. A discussão que precisamos colocar em voga é outra. É capitalismo x sustentabilidade. Continuarmos nesse ritmo de uso dos recursos da Terra ou estabelecermos um equilíbrio?
    Porém, é preciso partir de uma premissa diferente, de uma resposta verdadeira à questão: de quanto capital eu realmente preciso para viver bem e desfrutar dias agradáveis?
    Alguém dirá que é relativo demais, que somos insaciáveis em nosso desejo de possuir, que sempre almejaremos mais, mais e mais... Não há erro em pretender evoluir. Erro há em trocarmos de celular a cada meio ano, de carro a cada dois anos, de TV a cada novo aporte tecnológico. Erro é usarmos toda a vida do planeta, e nos levarmos à morte.
    Hora de dizermos a nós mesmos que não precisamos de tudo, menos ainda de todos os luxos possíveis. Hora de dizermos que pagar R$ 700,00 por um par de tênis é imbecilidade. Hora de aproveitar o fundo do terreno para plantar uma horta.
    Sim, o país e o mundo estão em crise econômica. Ótimo! Hora de desacelerar o ritmo do umbigo. Hora de puxar para o nosso quintal e se perguntar: do que realmente precisamos para sermos felizes? Hora de reaproveitar. Hora de reaprender. Hora de reviver!