• sábado, 24 de dezembro de 2016 09:33

    A mão que me acena

    É dia para um texto mais sóbrio, menos dolorido e capaz de abrandar a dureza deste ano que, felizmente, já acena adeus!

    A mão que me acena desde a infância e que tanto me fez falta na urbanidade é a mão do colono; do agricultor humilde em seu modo de viver, mesmo quando é homem de grandes posses. Esse vivente do campo, pelo menos em nossa microrregião com descendência de imigrantes, tem o respeito como um dos pilares da sua formação social e cultural.

    Essa gente do campo acena “bom dia” sempre que passa. É regra de conduta no interior esse breve aceno de mão, um cumprimento singelo e respeitoso. Se passar de carro ou mesmo a pé por um vizinho do interior e não levantar a mão, de certa forma, está negando o “bom dia ou boa tarde”, e isso é um modo de ofendê-lo. Esse breve aceno é uma frase sem palavras, mas de muitas traduções. É um “bom dia”, ou “tudo bem?” ou “eu respeito você, meu vizinho”.

    Quando me negam o aceno ao passar em nosso trajeto de vir à cidade, sei que aquele indivíduo é da cidade. Se não me retribui o gesto de “bom dia” é desconhecedor do afeto que o gesto traz. No interior o breve aceno é para o estranho, para quem nunca vimos, mesmo que ele nos sufoque na poeira do seu carro. No interior o avanço do tempo ainda não tem relógios digitais, mesmo que desfrutemos de toda a tecnologia.

    Falta disso quando estou em Santa Rosa ou noutras cidades maiores. Falta o bom dia cheio de afeto e respeito para nos lembrar que somos humanos. Creio que em Tuparendi e Mauá esse “Buenos dias” ainda está presente, porque os relógios não seguem a mesma velocidade em cidades menores. E por isso o afeto ainda é mais puro, mais cotidiano.

    Na cidade, nos idos tempos, ainda aprendi a pronunciar “bom dia” para gente que via apenas de cruzada, mas com o passar dos anos a nossa pressa transformou o termo apenas em “ôa”, no modo rápido de abreviar o “boa tarde” ou “boa noite”. E abreviamos tudo, a começar pelo nosso tempo. É tudo para ontem, tudo pressa, tudo avião... quase sempre sem se dar conta que a vida passa a jato.

    E você, quando vai tirar um tempo para pensar nisso, pensar em se aproximar do outro? Quando tirará tempo para abraçar, para amar, para curtir o próximo?

    O Natal é apenas um dia e dura apenas um dia. O sentimento, esse pode enraizar e ficar. Tenha tempo para acenar...

  • sábado, 17 de dezembro de 2016 10:20

    Uma semana de quedas

    Pensava eu nas notícias da semana e que palavra a encerraria de forma perfeita. Queda! E nem vou me reportar à queda do Inter à Série B, se bem que também está no contexto.

    Na semana em que integrantes do governo municipal caíram porque rompeu a malha da fossa, caiu a Lina Michalski, figura que acompanhou o prefeito Vicini em todos os seus passos desde que se tornou a lenda que é. Lina, Lozekan e Giovelli são aqueles nomes eternos no PP. Pois a Lina foi exonerada! E quando se pensava que o desgaste estava elevado, há uma queda acentuada de braço entre governo e oposição porque, em tese, o governo atesta que não é preciso estudo para ocupar diretorias e secretarias na Prefeitura. Ora, assim há queda de popularidade.

    Uma semana de dores de cabeça para o governo da Nação, tendo em vista que há um desespero do Temer e seus aninhados em anular a delação da Odebretch. Já vimos a queda do assessor direto do Presidente da República, no entanto o Jucá e dúzias de grandes estão nas listas da construtora. Sem contar os tantos ministros que já caíram. Não para de cair a popularidade do esposo da Dona Marcela, e apenas 61% dos brasileiros pedem novas eleições já. Isso que a Reforma da Previdência nem começou a feder ainda.

    Teve também a queda do STF a um patamar abaixo do lixão depois da decisão envolvendo a recondução do Renan Calheiros à Presidência do Senado. Aliás, o Supremo tem se mostrado bem abaixo da crítica em vários momentos. Não seria agora que se mostraria à altura de um país de primeiro mundo.

    Mas de tudo isso, o que me intriga mesmo é a queda de braço entre Câmara e Senado e o Judiciário, tudo abrandado a vinho tinto e jantares de milhões de reais. Não é uma briga por moralidade ou por avanços nacionais, é uma briga por manter suas benesses próprias, seus quinhões de privilégios nessa grande oligarquia escravagista.

    Escravagista sim, porque o Governo quer implementar uma Lei Previdenciária que transforma o trabalhador mais humilde em escravo. Leiam sobre a Lei dos Sexagenários, a dita que dava liberdade aos escravos com mais de 65 anos, quando já não podiam mais trabalhar. Seremos todos escravos, trabalhando para o sistema bancário e meia dúzia de castas privilegiadas.

    Por que não mexe com as aposentadorias dos militares? Por que não mexe com as aposentadorias dos políticos? Por que não termos uma lei igual para todos os brasileiros, tendo em vista que todos são “iguais” perante a lei? Por que não caem todos na mesma malha? Por que cair tudo nos ombros dos mais pobres?

    Se a palavra da semana é queda, eu gostaria que caísse o governo que aí está, e com ele todo o Parlamento e o Senado, ou até ele findar estaremos todos “quedados” na vala da miséria futura.

  • sábado, 10 de dezembro de 2016 11:52

    Eu, tu, o vereador e a fossa

    O que aconteceu em Santa Rosa nesta semana nos remete diretamente à pergunta: qual o papel do vereador?

    Não farei aqui juízo ao vereador Marino, alvo da ação no Tribunal Eleitoral e condenado em função dela até porque isso é papel da Justiça. No entanto, imagino que se nós passássemos o pente fino nas Câmaras por empregarem expedientes parecidos a estes, restariam nelas poucos vereadores, especialmente aqueles que têm governos em suas mãos.

    Errado está o vereador em se valer da máquina pública. Sem dúvida alguma! No entanto, há outros dois culpados (ao menos dois) aos quais precisamos apontar o dedo: a Prefeitura e nós, os cidadãos. Nós, Clairto? Tá maluco?

    Ora, se o vereador é procurado pelo cidadão para resolver um problema em seu favor, é óbvio que ele tentará ajudar, ou por amizade ou por entender que está diante de um voto no pleito seguinte. Nisso, obviamente, no entender desse chato de plantão, extrapola seu papel que é legislar e fiscalizar o serviço público e a Administração.

    No entanto, quase sempre, para que um cidadão procure ajuda do vereador, terá de contar com a ineficiência do serviço público. Com quem devo reclamar a respeito da ponte quebrada (já arrumaram) sobre o Lajeado Antas? Com a Prefeitura, ora. Se tiver que entrar em contato com o Miro Jesse ou o Cláudio Schmidt é porque ninguém no âmbito da Secretaria competente resolveu. (Citados aqui porque são vereadores que têm suas bases eleitorais mais fortes no interior, na região em que moro). Ora, não pode um cidadão procurar várias vezes a Prefeitura até ser atendido em seu pleito... (e aqui não é crítica ao Vicini, é uma referência ao serviço público quando inoperante).

    E nós? Bem, nós fazemos o caminho mais fácil: delegamos ao vereador o papel de resolver nossos problemas. Ora, ele não é servidor do Clairto. É da sociedade. Então, em benefício meu, pessoal, não me cabe pedir nada. No caso das fossas que deram “merda” o caminho correto é procurar a Prefeitura ou pagar um esgotamento privado. Ah, sim, mas se não resolve? Aí vai ao Zelindo... (brincadeirinha, mas séria). O vereador tem que ir sim na Prefeitura, mas não para resolver caso a caso, tem é que ver qual a raiz do problema e encaminhar solução.

    Outra questão é que durante muitos anos os vereadores estiveram sentados sobre montanhas de grana com seus salários completamente fora da realidade (e digo que hoje nem é mais tão elevado assim, comparado há dez anos no passado). Por isso, a população entendeu que seria justo, na hora da eleição, pedir parte desse valor para si, mesmo que fosse em pagamento de uma conta de luz ou um “bujão” de gás. Chega disso! Hora de consciência.

    Ora, não é papel do vereador limpar fossa séptica (poço #### aquele, já que não posso usar a palavra). Aproveito a deixa para dizer o mesmo dos deputados e suas emendas parlamentares porque isso sempre soa como a barganha e aliciamento...

    Por falar nisso, eu não tenho palavras para descrever a vergonhosa atuação do deputado estadual Jardel, aquele que foi ídolo do Grêmio nos anos 90. Um moço desses tem que sair preso do plenário!

    Salve-nos o Judiciário!

  • terça-feira, 6 de dezembro de 2016 09:05

    O vesgo e o pano pra manga!

    Que semana! Não bastassem todas as discussões acerca de Inter e Grêmio, em uma semana acompanhamos o caso da apreensão de alimentos vencidos nos mercados santa-rosenses (e a prisão dos servidores da Prefeitura), rimos ou choramos a morte de Fidel, vivemos o horror com a Chapecoense que impactou em todos, vimos a polícia baixando a lenha nos protestantes em Brasília e não vimos os deputados aprovarem a lei anticorrupção porque foi na surdina da madrugada (depois que eles alteraram tudo, em sua defesa pessoal), sem esquecer de mencionar o Senado que aprovou a PEC e o Moro que barrou 21 das 41 perguntas que seriam enviadas ao presidente Michel Temer no depoimento de investigação do Cunha.

    Estou carregado de ironia hoje e curioso para ver quantos irão à rua no domingo, dia 4, na manifestação verde e amarela contra a corrupção. Vou à esquina e observar se lá estarão os mesmos que se perfilaram em março e depois. Porque se a questão era combater a corrupção, sinto muito, mas o que sobrou é tanto ou mais podre que o que caiu. É tipo fruta picada por pássaro, bicha!

    Um cara que me manda email para festejar a morte do Fidel e mostra as benesses da ditadura no Chile e no Brasil. É isso que me irrita, essa doença nova desenvolvida pelos brasileiros que vesgueia o indivíduo. Esse mesmo moço bem-sucedido que chama Fidel de tirano e assassino (e ele foi isso também), não consegue ver as 30 mil mortes na ditadura argentina ou os 600 mil mortos pelos EUA e Inglaterra (os grandes civilizadores) na invasão ao Iraque. Ele é tão imbecil quanto o Trump, só não vê porque é vesgo.

    Socialmente, estamos tão “vesgos” que o impacto na imprensa e na comunidade tornou maior o furto dos quilos de carne feito por dois motoristas da Prefeitura (e um terceiro) que todo o risco oferecido pelos mercados ao vender produtos estragados. Tirou-se o foco dos comerciantes que transgridem para jogar pás de terra sobre aqueles que desviavam alguns quilos de comida.

    Claro que eles erraram e devem explicações à lei. Precisamos acabar com esse Brasil do “vou levar para casa, não dá nada, ninguém dará falta”. É o jeito do brasileiro de burlar as regras e depois se escandalizar com os políticos corruptos... E nesse contexto cabe perguntar: estando lá, fariam diferente? No entanto, olhando ao longe, até parece que o crime deles é muuuuuuito pior que o dos mercados. Isso é vesguice.

    Em um momento triste como este, em que choramos a tragédia da Chapecoense, devemos nos perguntar sobre o sentido da vida, sobre como queremos ser lembrados após nos tornarmos pó. A resposta deveria vir com termos como caráter, ética, grandeza, etc e tal. Quando times oferecem jogadores gratuitamente, times pedem para não rebaixar a Chape por três anos e o adversário oferece o título da Sul-americana dá para acreditar que é possível fazer diferente. Dá, mas é preciso sentir latejar dentro.

    P.S.: Tenho escrito, os políticos nacionais estão a semear uma revolta ainda maior que o Fora Dilma! É tanta podridão que sobra pano para muitas mangas.