• sexta-feira, 22 de julho de 2016 10:25

    Eram 40 bitucas de cigarro

    A crônica deveria se intitular “Um roteiro no interior de Tuparendi”, mas não poderia me omitir diante de 40 bitucas de cigarro.

    Eu, a Dé e a Thaíssa resolvemos almoçar ao ar livre, no Tape Porã. Maravilhoso! Até percebermos como nossos humanos-porcos cuidam dos bens públicos. Contei mais de 40 bitucas de cigarro em um metro quadrado atrás de um assento. Como não se indignar?

    Ah, sim, vou escrever sobre algumas visitas que tenho feito no interior de Tuparendi aos Ferro, Cavedon, Molinari, Perin, Facchinello, Zalamena e tantas outras famílias. Come-se bem, vive-se melhor ainda. Vive-se. Longevidade é marca acentuada de um povo que sedimentou sua fé e seu modo de vida. Adoro cada instante de aprendizado com essa gente pacata e resistente com histórias maravilhosas para contar.

    Eles também se queixam dos venenos nas lavouras. Eles se queixam das sangas sem peixes. E da solidão do campo sem jovens que obriga a muitos abandonarem tudo para viver nas vilas ou na cidade. Há incontáveis taperas, algumas de invejável estrutura de casa e galpões. Não há mais colonos jovens interessados em produzir alimentos, há um campo envelhecido e mecanizado.

    Quando você vai ao mercado e se depara com uma dúzia de ovos a R$ 7,00 ou um litro de leite a R$ 4,39 se pergunta: o que está acontecendo? Claro que há conjunções econômicas diversas, mas no caso do preço do leite e dos produtos agrícolas, Itálico Cielo diz que os atravessadores levam bem mais que o produtor. Há atravessadores demais até chegar a nossa mesa. É apenas um lado da moeda.

    Já falta alimento no planeta, simples assim. E usamos o potencial da terra para produzir soja que vira farelo para engordar animais de abate. E, num campo sem jovens, faltam braços para trabalhos mais complexos como a horticultura. O preço chegou à mesa enquanto festejamos aumento das exportações, saca de milho a R$ 50,00 e soja a R$ 90,00.

    Prepare-se para o futuro, que já é agora! E o ar custa caro...

    No interior de Tuparendi estão quase todos aposentados, mas eles estão preocupados com a reforma da Previdência. A real dessa nova alteração é que ela vai ferrar mais uma vez os pobres. Os nossos filhos irão pagar a conta. Ou até, nós mesmos, que estamos no mercado de trabalho. Lembro de uma família à qual minha mãe trabalhou nos anos 90. Eu tinha 14 anos e era metalúrgico. Os três filhos da patroa de minha mãe estudaram até os 27. Só depois foram trabalhar. Pergunte quem está melhor financeiramente? Quem teve as melhores oportunidades? Ricos estudam até perto dos 30 anos e depois ganham bem, não precisam do INSS. Pobres vão entrar no mercado aos 16 ou 18 anos e trabalhar até os 60 ou 65 para ter mixaria depois. Essa é a real da reforma da Previdência, de um INSS que não é deficitário como todos os governos tentam provar, é deficitário por excesso de sonegação mesmo...

    As 40 bitucas de cigarro mostram quão porcos somos e que a qualidade de vida em nossos ambientes urbanos ainda é um sonho a perseguir... como a tal da igualdade, porque certas notícias nos levam a pensar no Brasil em construção: “TEMER autoriza 41% de aumento ao Judiciário” ou “CAIXA vai financiar imóveis de até R$ 3 milhões”. Simples assim!

  • segunda-feira, 18 de julho de 2016 08:18

    A provocação do empresário

    Recebi um email indigesto durante a semana passada, a respeito das prisões envolvendo a Lei Rouanet, a fraude e os desvios.

    Pensei, repensei e, depois de muito refletir, respondi. Não é meu feitio responder provocações quando vêm endereçadas ao meu email. Raramente me exalto com algum leitor que me agride após discordar de texto. Com email, ocorre o mesmo. Porém, esse, em especial, mexeu com meus brios de jornalista e de artista.

    Em resumo, repassava a matéria da prisão dos fraudadores da Lei Rouanet, dos produtores culturais e envolvidos no esquema que lesou os cofres públicos em R$ 180 milhões e pagou até a dita festa de Jurerê. Até aí, tudo bem, que está certo. A sequência é um elogio ao Temer, que deveria ter mantido a posição de fechar o Ministério da Cultura, e esculhamba com produtores e com artistas que usam verbas públicas. “Vagabundos”, escreveu.

    Inflamou-me. É por isso, por pensamento desses, que nunca seremos a Alemanha, o Japão ou a Inglaterra, porque nossas políticas de educação e cultura são inconsistentes e porque não há continuidade em nada, nem mesmo em projetos que deram certo. Isso vale aos três níveis de governo.

    Inflamou-me porque novamente os produtores culturais e os artistas apanham. Mas, são os mesmos que criticam as falcatruas na LIC ou Rouanet que, quando procurados para financiar um projeto cultural, exigem o “retorno” daquela verba que sai do cofre da empresa. É o que denunciou a RBS não faz muito tempo... Ocorre que ao requerer devolução - por fora - do seu dinheiro, esse “doador” está obrigando o produtor e o artista a fraudarem notas e contratos (superfaturar) para encaixar a matemática nefasta. E aí, quem é o pilantra? Todos, porém, como sempre, a corda rompe no lado fraco.

    Se eu levar pela lógica de propor o fechamento do Ministério da Cultura, então fechemos o Congresso, o Senado e quase todos os ministérios, afinal são alvos constantes de denúncias por desvios e maracutaias. E talvez devêssemos fechar um sem fim de empresas (tipo mostrou a Zelotes).

    A real é que a podridão é do sistema, é do Brasil, e por conseguinte, do brasileiro. Disse um pensador renomado nesta semana, em evento literário: “não há governo desonesto com um povo honesto”. É isso! Todos falam que pagamos impostos demais, mas todos sabem como fazer para burlar o sistema.

    Como disse o Gilberto Kieling na Rádio Noroeste na semana passada: “se aplicássemos valores mais elevados em cultura, gastaríamos muito menos em saúde e segurança pública”. Disse tudo! A educação de hoje, tecnicista, não produz mudança cultural, produz resultado financeiro. Mudança, de verdade, é provocada pela transformação cultural, a capacidade de pensar.

    Quanto ao email: chega de reproduzir meias verdades. É preciso saber pensar!

    Quanto à cultura: claro que é imoral ter lei para financiar Bruna Surfistinha!

  • segunda-feira, 11 de julho de 2016 07:52

    Noroeste: um museu que anda

    Sei que o Zelindo, o Madril, o Mauri e outros vão se zangar, mas é exatamente isso que somos: museus que andam.
    Eu ainda trabalhava na metalúrgica quanto o Hilário Freisleben falava sobre “ser e estar”. Foi a vez primeira que pensei no conceito. Depois, quando ingressei na Noroeste, e isso já tem mais de 20 anos, entendi com maior plenitude o sentido destas duas palavras. Praticamente todos os profissionais com os quais trabalhei ao longo deste tempo realmente “são” Noroeste. São apaixonados pelo que fazem e pela empresa. E SER é imensamente maior que ESTAR.
    Olhar ao redor é ver um museu que anda. São tantas as histórias que precisaríamos escrever vários livros para narrar apenas um décimo do que vimos e ouvimos. É museu do riso esse Mauri Carlos, uma lenda do rádio. Dezenas de páginas obteríamos do Jairo que já foi “Esportes” Madril, do Zelindo “Cadeira de Balanço” Cancian, do Brizola “Chicotinho do Povo”, do Elói “Bolsa de Automóveis” de Ávila, do Luis Carlos “Taça Noroeste” Volkmer... Essa lista não tem fim.
    Abrir os arquivos do Jornal Noroeste (que guarda cada uma de suas edições, do número zero até o atual) é remover a poeira dos cristais. Santa Rosa completa 85 anos como município emancipado. O Noroeste contou 45 anos - mais da metade. Os prédios construídos, as grandes obras, os projetos revolucionários, as polêmicas políticas, os personagens importantes que já nos deixaram... Tudo está em nossas páginas.
    O que cada um de nós que é Noroeste contaria em sua biografia, caso a fizesse? O que cada museu vivo deixaria para o futuro ver?
    Eu, enquanto cronista e redator, não narraria tentações a que são expostos os jornalistas, especialmente na questão da grana. Os convites chegam, sempre chegam. Os limpos, como trabalhos nas assessorias de comunicação, bem como os abomináveis. Não, nem todos os fatos podem ser contados, afinal, há uma imensa caatinga entre o pantanal e a praia.
    Certo é que não inventamos fatos, no máximo jogamos um pouco mais de lenha na fogueira. E claro, cada um escolhe seu jeito de contar... A outra parte fica por conta de quem lê e ouve a Noroeste. Sabemos o quanto nos amam e o quanto nos odeiam também. Mas nem ódio é, é antes um “não considerar”, já considerando... afinal, ainda que estejamos riscados em suas agendas, ainda estamos nelas.
    É um imenso prazer ter assinado coluna nestes anos todos ao lado do Gilberto Kieling, em espaço que já foi do professor Alcides Vicini e do escritor Charles Kiefer. É de um orgulho sem medida saber que convivi com Sávio Araújo e Paulo Forgiarini, com os saudosos Clóvis Cerutti, Carmen La Rocca, Adriana Reich, Aldi Brandão e tantas outras figuras gigantescas.
    Um imenso prazer ser foto em preto e branco neste museu!

  • sábado, 2 de julho de 2016 11:55

    Os anúncios das pré-candidaturas

    Que semana! Em cada sala, em cada ambiente que adentrei, havia alguma conversa política, alguém para perguntar: quem ganha a eleição? Quem se elege vereador?
    Ora, o Santos empatou aos 37, e quando parecia tudo decidido o Grêmio foi buscar uma salvação aos 43 minutos finais. Bem assim está em Santa Rosa. Nada imutável ou martelo batido. O cenário é tão complexo que nem mesmo o anúncio de Orlando Desconsi, oficialmente pré-candidato, provocou marolas à beira-praia.
    O efeito do anúncio foi pequeno porque todos os santa-rosenses sabem, implicitamente, há meses que Orlando Desconsi concorre a prefeito. Aliás, sabem desde a eleição de 2012. Orlando se manteve em cena, nunca fugiu tacitamente do assunto. Deixou isso no ar. Por isso, o anúncio não chegou a ser surpresa!
    O assunto da hora é o PDT. A semana, assim como a anterior, vira e mexe traz à tona o PDT e suas movimentações. Para onde vai a sigla? Quem será o nome escolhido para uma eventual composição a prefeito ou vice? E, pelo que se sabe, está a mexer com os nervos de muita gente.
    Muito se fala sobre as eleições. Muito tenho ouvido sobre Orlando e Vicini, teoricamente candidatos. E perguntas mil sobre o PMDB. E sobre o Colla, que durante a semana fez seu ensaio.
    O que se diz é que Vicini não executou ou deu andamento vagoroso a obras e projetos deixados encaminhados por Orlando.
    O que se diz é que algumas pessoas, inclusive secretários, do governo Orlando, eram “malas” e que Orlando pouco saía do gabinete para ouvir as pessoas.
    O que se diz é que Orlando teria sua chance aumentada se pudesse descolar sua imagem da estrela petista. Isso é complicado, afinal, partido todos os candidatos têm.
    O que se diz é que Vicini não acabou com muitos vícios e usos do PP que vêm de décadas e que a cada regresso chama os mesmos ocupantes de cargos de confiança.
    Diz-se que uma pesquisa, não sei se registrada, mas que juram existir, teria mostrado empate técnico entre Orlando e Vicini nessa arrancada. E isso é recente. E dizem as boas línguas que a escolha do vice terá peso enorme na escolha final do eleitor.
    Diz-se que o fiel da balança poderia ser o PMDB, se ousasse vir com um nome forte e aliados de peso.
    E, no meio de tudo isso, há o Janor Duarte e toda a estrutura do Judiciário. E, da forma como foram as eleições recentes no Brasil, tenho minhas razões para crer que serviço não lhe faltará...