sábado, 8 de julho de 2017 10:06

A galinhada e o cemitério

Calma! As palavras do título são meros acasos para reportar aos assuntos da coluna e, na verdade, sequer dizem o teor desta.
Abro a net e me deparo com uma enxurrada de notícias ruins. Quadrilhas e mais quadrilhas de todos os pês que nos assaltam quase impunes. Traficantes, PCC, pacotes dos governos, brigas nas escolas, etc e tal. Credo! Pare esse trem que eu quero descer!
Percebo então que mergulhamos tão profundamente em nossos aparelhos celulares e redes sociais que nem sempre sabemos onde está a margem na qual encontraremos um galho para nos agarrarmos. Aos poucos, nos afogamos nesse rio caudaloso da net a ponto de esquecermos se lá fora chove ou faz frio. É bem mais simples olhar o visor do celular que abrir a janela!
Aqui entra na prosa a galinhada na casa do Sávio. Pouco importa a fartura da mesa, a nossa sociedade na Editora ou os negócios pendentes. Importa é que tiramos algumas horas para conversar, rir, prosear sobre os cães, os filhos e coisas de outrora. Sem Tv, sem celular, sem papo cabeça de jornalista e advogado. A galinhada é o momento pausa para a família. Não há o que pague isso que acompanha a galinhada.
Pensava nisso ontem, quando peguei meus cães e fui esperar a Dé no estradão. Há poucos meses a minha filha percebeu um cemitério velho, praticamente abandonado, na terra dos Fehlauer. Pois, aproveitei a caminhada para ver de perto aquele santuário esquecido no meio da lavoura. Agora alguém começou a cercar a área que nem acesso tem mais. Vi túmulos estragados, lápides que não podem mais ser lidas, coisas quebradas.
Ali não está mais a morte. Eu não a vi. Eu vi a nossa pressa. Quem se importa em visitar um cemitério onde estão parentes que há muito partiram? Quem para a perguntar ao vazio o porquê das coisas? Eu percebi a mudança da estrada velha que passava ali perto, eu percebi o êxodo rural que ceifou as comunidades do interior, e percebi o vento cantando canção com as folhas do azevém para os finados.
Estamos assim, cemitérios pálidos! Pequenos municípios da região convivem com altíssimos índices de depressão. Não é apenas efeito do agrotóxico. É o abandono de quem ficou. É a solidão de quem não se junta para uma galinhada descompromissada, uma canastra com risadas soltas ou uma roda de prosa ao redor de um fogão a lenha.
A sociedade coletiva está adoentada há anos. Ganhamos mais, vivemos mais anos, sonhamos mais e compramos nossas sofisticadas ilhas-net onde construímos castelos.
Aceleramos tanto que sequer percebemos os vazios em nossos dias, em nossas almas. E quando os percebemos eles já são buracos imensos. Então, já não há mais margem, não há mais o galho do sarandi ao qual se agarrar.
Junte-se. Juntem-se. Pague a galinhada se for preciso. Vale a pena. E ria, nem que for das tragédias.

 

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