sábado, 31 de março de 2018 09:42

A lagartixa fedorenta

A Páscoa requer um olhar para dentro, pede a nós que respiremos outros ares, que deixemos de lado os dias pesados, como estes que atravessamos, com muita podridão ao nosso redor, muito ódio, egoísmo e gente medíocre.

Na segunda-feira voltarei a me importar com o aumento de 20% no preço da luz, com o alto custo de vida nesta região que tem, inexplicavelmente, a gasolina e o gás mais caros do Brasil. Na semana que virá me importarei com as constantes destilações de raiva, com os joguinhos de poder e até com aquelas pessoas que maquinam o mal.

Até lá, vou pedir que abram as janelas. Vou abrir as janelas.

Eu morava em um apartamento, na Rua Minas Gerais, na época da morte da lagartixa. Um animal pequeno e esbranquiçado que descia pelas paredes, vindo do telhado, quase amigo meu de tantas vezes que o via. Era inofensivo, juro, até o dia de sua morte.

Não percebi quando ela deixou de vir acompanhar a novela conosco. Tampouco suspeitei que ela fosse a origem do fedor que começou a empestear a nossa moradia. Fedor muito intenso, na sala.

Onde? Procura aqui, ali, mexe no sofá, mexe na estante, move os livros de lugar... Nenhum sinal do ponto podre. Era como um rato morto em alguma fresta. Mas, onde? Parecia tão próximo... Como não víamos?

O cheiro era bastante insuportável no segundo dia. Nada vi. Desisti de procurar o cadáver. A saída era manter a casa aberta e esperar, pacientemente, que o fedor se desfizesse. Restava-nos suportar a náusea, ventilar, abrir as janelas ou buscar outros ares.

Alguns dias depois, realmente, a fedentina passou. Esqueci o fato, deletei da memória, afinal, havia outras urgências. Mas, algumas semanas depois, ao abrir a janela da sala encontrei a lagartixa, esmigalhada, prensada no vão das madeiras. Seca, já sem cheiro algum.

Por alguns dias, alguns breves momentos, aquele fedor foi mais urgente que o preço do gás, da luz, da gasolina...

Eu queria aproveitar a Páscoa para pensar nisso, nos dias insuportáveis para todos nós porque o “um” quer mais apenas para si mesmo ou porque prefere semear espinhos em solo já pedregoso e seco. Gente que apequena é o que mais tem!

Há dias insuportáveis em todos os lugares, porque as lagartixas morrem nas frestas das janelas. Há coisas pequenas, que não vemos, mas cheiram mal.

Então, cabe a nós trazer as flores que tornam o ar bem mais agradável. Abra as janelas da alma, abra as janelas da vida.

Boa Páscoa!

Faça seu comentário