segunda-feira, 12 de junho de 2017 08:31

Dias de chuva

ADona Mara publicou uma foto dela na cozinha a fazer calçavirada. Bah! Atiçou todas as memórias. Acho que dias de chuva são para alimentar saudade.
Entre trabalho, muito trabalho, tento não pensar nas calças-viradas. Leio notícias do julgamento da chapa Dilma/Temer a temer que salvem eles. Eu e o Sávio damos mais alguns passos no livro da professora Ana Maria. Vou lá fora, no chuvão, tratar os bezerros e volteio no pátio.
Dias de chuva são para fechar a casa e abrir o Facebook. Ali o fulano e a fulana reclamam a beça dos buracos na rua xis, outro posta fotos da rua ipselone, um terceiro reclama que os buracos fechados no sábado reabriram na segunda-feira, e outro vai mostrar o atoleiro do lajeado tal. Para tudo que eu quero descer desse trem!!!!! Está chovendo e eu só penso nas calças-viradas.
Dias de chuva são para ficar mais lerdo, descascando bergamota sob o copado de um galpão e olhar os animais que dormem... e dormem... e quando estão acordados ficam inquietos, aborrecidos com tanto aguaceiro. E nós? Inquietos também? Não. O tamborilar da água é para acalmar...
Os dias de chuva são especiais. Precisam ser aceitos como tais. Não dá para vivê-los como se estivéssemos a 30 graus de calor em céu azul. Dias de chuva são para nos lembrar que a velocidade pode não levar a cruzar a ponte, que talvez nem exista mais.
Dias assim são para lembrar os bolinhos de chuva da infância, aqueles que mergulhávamos em açúcar (antes de falarem em diabetes). Dias de comer pipocas com melado, ou tomar mate doce ou com leite quente para acostumar as crianças ao amargo que nos dá a estampa crioula.
Tudo isso vivi no meu Salgado Filho de piá. Dias assim eram de “festa” para o piazedo, dia de caçar ratos no galpão, dia de separar palha de milho para os colchões. E pro meu pai era dia de fazer cestos de taquaras ou trançar palha para as cadeiras de madeira.
Chove faz dias. Eu me aborreço com as estradas que se foram, com as coisas que não consigo fazer, com a roupa secando atrás da geladeira. Sim, sou tal qual cada um de vocês.
Mas em dias assim basta uma calça-virada para voltar ao tempo do “êpa”. Hoje em dias de chuva faço versos para tecer cestos de metáforas por onde escoará toda a água e ficará retido apenas o essencial.

 

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