sábado, 19 de setembro de 2015 00:49

Os muros das explicações

 

Os arames farpados na Hungria, o muro da vergonha na divisa dos EUA com o México e a volta do movimento separatista têm muito em comum.

Acho que, no fundo, se fizéssemos um levantamento entre os gaúchos, detectaríamos um percentual elevado de simpatizantes do separatismo. Na Semana Farroupilha, no auge do orgulho, vou ser indelicado com alguns. E certamente, até comigo mesmo, porque por muitos anos vesti a bandeira separatista.

Sempre entendi que o Rio Grande do Sul era melhor e diferente do restante do País. Mentira. Somos iguais, porque somos humanos. E em alguns aspectos, talvez até piores, principalmente em questão aos preconceitos. Mas, claro, temos incontáveis virtudes. Não há como desmentir a coragem do gaúcho, a lealdade, o amor pelas tradições e tantas outras coisas que poderia mencionar.

Eu amo o meu Rio Grande, a ponto de usar bandeira sempre que posso. Não escolheria outro Estado para viver e se pudesse dizer a Deus onde pretendia nascer, diria, exatamente ali, no Sul do Brasil. O que nos falta para sermos um país? Nada. Basta comparar ao Uruguai. O que me irrita é o oportunismo...

O que me irrita nesta hora, quando os barcos estão à deriva - tanto o Brasil quanto o Estado perdidos em meio aos temporais - é a intensidade com que os aproveitadores trabalham. “O Sul é o Meu País” ganha adesões a cada dia e planeja um plebiscito nos três estados sulinos. No fundo, estão dizendo: “Somos melhores. Não queremos mais fazer parte dessa nhaca toda”.

É assim que começaram muitos movimentos traumáticos da humanidade, como as ditaduras, as guerras e os ódios que perduram por séculos. É o sentimento de que um é melhor. Hitler pensava assim. Os norte-americanos pensam assim enquanto semeiam suas matanças pelo mundo. Foi com sentimento igual que dizimamos os índios na América e o Estado Islâmico trucida milhões de inocentes.

Se você se choca com a criança síria morta na praia, com aqueles navios entulhados de imigrantes que naufragam no Mediterrâneo ou com as cercas de arames farpados da Hungria ou com o muro da vergonha que os americanos construíram para ignorar a pobreza mexicana, então não há lógica no separatismo que ganha força. Não somos melhores. Somos humanos, todos. Ter imenso orgulho em ser gaúcho, isso sim, mas para gritar a todos que temos uma identidade cultural própria e a valorizamos.

A repórter húngara que chutou pai e filho imigrantes que furaram o cerco policial para fugir da barbárie da guerra é igual ao repórter de qualquer cidade, inclusive Santa Rosa, que divulga nomes de pobres coitados registrados nas ocorrências policiais, mas se acovarda quando o assunto envolve gente que tem grana. Ela chutou porque tinha medo, como disse. Chutou por covardia e por se achar melhor. O pior de nós ressurge quando entendemos que somos melhores que os outros.

Não sejamos melhores. Sejamos grandes. Sejamos justos. E assim andemos de cabeça altiva, como os Farroupilhas, a bradar: Sirvam nossas façanhas de modelo a toda terra!

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