sexta-feira, 26 de maio de 2017 08:49

Uma crônica sobre a vida

O Tuy volta e meia pede que eu escreva mais sobre a vida e suas nuances, que deixe de lado os temas políticos, que me aventure para dentro da selva que há em nós. Então, hoje é um bom dia para isso.

Chove lá fora. Muito. Meus cães dormem enfastiados. Um sabiá laranjeira se esconde no taquaral. O Rio das Antas ruge cerro a baixo quase a sair da caixa. Tudo é poético. Só me falta grana para pagar as contas e para iniciar um ousado projeto cultural no Galpão das Letras.

Hoje é um bom dia para escrever sobre a vida. Ou sobre as angústias. Acabo de receber um WhatsApp de meu irmão que lamenta a morte de seu cunhado de apenas 28 anos. Poxa, 28! Súbito assim como a morte, toda a beleza que vejo pela janela também desapareceu.

As nuvens do céu baixam ao meu eu. O temporal muda de lugar.

Em que momento tudo perdeu o sentido?

Em que momento tudo em nossas vidas passou a valer o quanto podemos ganhar financeiramente, comprar e usufruir?

Em que momentos aceleramos tanto que estar devagar se tornou ato criminoso?

A Europa e o mundo estão apavorados com a depressão, com o isolamento e com a ausência ou falência dos sonhos entre os jovens que nem mais querem casar e ter filhos. Não é o capitalismo, não é o socialismo... É o vazio.

Não há mais tempo para os amigos. Não há mais espaço para o lazer diário, o nosso momento se tornou o lazer do domingo - que são apenas 52 no ano. E os nossos vazios os preenchemos com celulares e a TV a cabo ou gatonet.

Então, o choque vem quando perdemos alguém próximo, quando alguém parte para a eternidade e sentimos não a ausência, mas sentimos a nossa morte estando vivos.

A morte de não fazer, a morte de não viver, a morte de estar sem tempo para curtir a essência porque todo o tempo é correr atrás da carreira e dos lugares mais elevados nas escadas.

A mãe da minha aluna partiu aos 36 anos, na semana passada. O cunhado do meu irmão partiu aos 28 nesta semana. Já faz tempo que passei dessas esquinas nos caminhos da vida.

E sempre penso que pode ser amanhã, que o próximo livro pode esperar mais algum tempo, que o melhor romance ficará para quando eu me aposentar e puder dedicar meses somente à escrita...

Tudo pode esperar, menos o café com o Tuy, a galinhada com o Sávio e a caminhada com o Thor e a Mel.

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