• sexta-feira, 15 de setembro de 2017 14:44

    Tempestades

    A tragédia da semana foi o furacão Irma, no Caribe. Não conheço furacões. O único que conheci se chamava Dorilda, morou algum tempo perto da casa dos meus pais, e arrasou dois ou três casamentos na vizinhança. Depois foi embora e nunca mais a vi. Ficou conhecida como “furacão Dorilda”, aquela do perfume de alfazema que tomava conta do quarteirão.

    Por aqui, no noroeste do Rio Grande, as únicas coisas que podem nos assombrar são alguma tempestade ou enchente, coisa pouca.

    Na região sul da América não temos ciclones, tufões ou furacões. Normalmente, estão acima da linha do equador. Pois é essa linha magnética, que divide o planeta em duas partes, que impede o deslocamento desses monstros para a América do Sul. Curioso, não é?

    Antigamente, na época das navegações, a linha do Equador marcava uma divisão cultural e religiosa. Abaixo do Equador existia o mundo novo, selvagem e sem religião. Surgiu então a expressão que, séculos depois, Chico Buarque tornaria famosa em uma de suas músicas: “não existe pecado do lado debaixo do Equador”. O comportamento sexual dos índios causava espanto nos europeus do século 16.

    Pois agora, temos outra divisão. Os furacões ficaram do lado de lá.

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    O assustador furacão Irma arrasou regiões inteiras no Caribe e nos mostrou uma realidade que às vezes não percebemos e que tem a ver com as agências de notícias internacionais, habituadas a distribuir a informação de forma inadequada.

    O furacão surgiu no Atlântico e foi se aproximando do continente americano causando estragos imensos na seguinte cronológica: Dominica, Guadalupe, Porto Rico, Ilhas Virgens, República Dominicana, Haiti, Jamaica, Ilhas Cayman, Cuba, Bahamas, e depois chegou à Flórida.

    E o que é que nós vimos nas notícias da TV e jornais? Somente notícias da Flórida! Parecia que nada estava acontecendo no mundo, a não ser a mobilização da Flórida e estados vizinhos, com cobertura 24 horas das agências de notícias. Países inteiros arrasados, mas a notícia importante era Miami.

    Perceberam onde está o erro, onde o noticiário internacional fracassou mais uma vez? O que realmente interessava? A Flórida, pois lá estão confortavelmente acomodados os jornalistas, à espera de relatos dos turistas.

    A preocupação deles parece clara. Imagina se o furacão causa o fechamento da Disney World?! Que horror!!

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    Ao contrário do que as pessoas imaginam, os furacões do Caribe recebem nomes femininos e masculinos, que são repetidos num ciclo de seis anos. Por exemplo, o nome Irma designará um novo furacão em 2023.

    Curiosamente, porém, os furacões mais devastadores têm nome de mulher. Pode ser mera casualidade, mas conheço muitas mulheres capazes de fazer estragos enormes. Podemos chamá-las de mulheres-tempestade.

    Existem dois tipos de mulheres-tempestade: a mulher-furacão e a mulher-tsunami. Não sabia disso? Pois observe com atenção. A mulher-furacão não controla a própria fúria. No menor desentendimento com o companheiro ou marido ela destrói o armário, a cozinha e é capaz de botar fogo na casa. Já a mulher-tsunami age de forma diferente. Ela chega fazendo ondinha, uma maré calma e sedutora. Mas quando vai embora leva tudo de arrasto, a casa, o carro, os móveis, o saldo da poupança.... Fique atento, pois, meu amigo...

  • sexta-feira, 8 de setembro de 2017 08:26

    Setembro tem sentido

    Nós, gaúchos, lembramos de modo automático de duas datas importantes do mês de setembro: a Independência e a Revolução Farroupilha. E o que é mais importante: são dois feriados que podem virar feriadões.
    A independência aconteceu em 1822, naquela cena clássica e sempre desmentida: Dom Pedro garbosamente montado num vistoso cavalo, às margens do riacho Ipiranga ainda não poluído.
    Já a invasão de Porto Alegre, momento que ficou como comemorativo da revolução farroupilha, aconteceu em 1835, e deu início à guerra.
    Apenas 13 anos separam os dois acontecimentos. Considerando que, na época, as notícias andavam a cavalo, ou sobre carroças, é bastante provável que muitos brasileiros de sul a norte sequer tinham tomado conhecimento da tal “independência”. Até porque o império que antes era português apenas tinha mudado de nome. Continuava sendo império, agora brasileiro, com imperador e tudo mais.
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    O fato é que Dom Pedro mal tinha organizado a casa e já recebia notícias desagradáveis sobre uma rebelião no sul. Os proprietários de terra reclamavam das taxas de comercialização de seus produtos e morriam de medo da concorrência da carne uruguaia e argentina.
    Mas temos de lembrar que as ideias republicanas também ajudaram a criar esse clima, por influência da Argentina (independência em 1816) e Uruguai (que conseguiu a independência definitiva do Brasil em 1828).
    Veja a sequencia: 1816, 1822, 1828 e 1835. O clima político na época era mesmo fervilhante, intenso, e cheio de ideais republicanos. Por isso é fácil entender que a revolução farroupilha não foi nenhum acidente, embora as razões econômicas do movimento fossem a preservação dos interesses dos latifundiários gaúchos e suas charqueadas.
    Mas além desse interesse imediato, o Rio Grande de então estava cercado pelo ideário da República, que varria toda a América do Sul. Não foi só a taxa de impostos do Império.
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    Pois esses dois feriados nos dão a oportunidade, também, de comemorar com churrascos espetaculares, regados com muita bebida e dança. Tudo sem qualquer remorso ou dor na consciência. Acho até que churrasco comemorativo não engorda...
    Se alguém mostrar espanto com o tamanho do churrasco, podemos responder muito solenemente:
    — São os ideais republicanos, tchê! Estamos comemorando desde 1835.
    Haja paleta, costela e picanha! O fato é que, aos trancos e barrancos, terminamos por construir uma cultura “gaúcha”, que é polêmica até hoje.
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    Mas lembro que não são apenas essas datas que marcam o mês de setembro. Existem outras. Faço questão de lembrar que no dia 22 começa a primavera, estação que dá por encerrado um inverno que não existiu. Estranho isso, não é? O inverno deste ano durou três dias!
    Pois, então, seja bem-vinda a primavera! Acho que vamos comemorar com um churrasco...

     

  • segunda-feira, 4 de setembro de 2017 07:28

    Governos

    O dia de hoje, 1º de setembro, não lembra nada? Semana da Pátria, talvez? Aquela coisa antiga do tempo em que, mesmo de forma escassa, tínhamos alguns motivos para nos orgulhar da nação e sonhar com o futuro. Coisa antiga mesmo.
    Pois nesse momento, 2017, em que o Brasil passa por situação vexatória perante o mundo, em que vê o patrimônio nacional fatiado e vendido (ou entregue), o sentimento patriótico simplesmente desapareceu. Não há como ser diferente.
    É só você parar para conversar com os amigos e outros conhecidos. O sentimento de desânimo é imenso. Enquanto isso, enquanto afundamos, os partidos políticos fazem maquiagem, modificando suas siglas para encobrir suas culpas. É realmente um deboche.
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    Entre as medidas milagreiras inventadas, e que em nada ajudam, está a reforma política, que inclui distritão e parlamentarismo. Alguém duvida que eles estão tentando desviar a atenção do que é importante?
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    Vejamos.
    A monarquia é aquele governo de origem divina e hereditária. Algo como se tivéssemos, por exemplo, lá no Maranhão, o Sarney I, o Sarney II, o Sarney III. Na França, a monarquia acabou na forca. No Brasil, foi apenas um susto de Dom Pedro que, ao acordar, ficou sabendo que já estávamos na república. Ele simplesmente fez as malas e se mandou. Muitos anos mais tarde falou-se novamente em monarquia.
    Mas a volta da monarquia foi rejeitada pelos brasileiros no plebiscito de 1993.
    O parlamentarismo é o sistema que, numa crise, permite a substituição do governo. Parece até simpático, não é? No Brasil, por exemplo, o primeiro-ministro Michel Temer seria substituído por Aécio Neves, que seria substituído por Rodrigo Maia, que seria substituído por Eduardo Cunha, que seria substituído por.... Envolve o fator confiança entre o parlamento e o governo. Existiu no Brasil entre 1961 e 1964. Não serviu pra nada. Nele, não há separação clara dos poderes. Se atualmente eles já se misturam, imaginem se o parlamentarismo for implementado. A turma seria sempre a mesma, só que sem votos. Tudo muito conveniente.
    O parlamentarismo também foi rejeitado pelos brasileiros em duas oportunidades: em 1963 e em 1993.
    Temos ainda o presidencialismo, nosso velho conhecido. Nele, existe clara separação de poderes entre o executivo e o legislativo. O governo administra, e não pode ser destituído em circunstâncias normais, exceto por golpes como o do ano passado. O presidencialismo brasileiro tem como fator negativo a necessidade de permanente negociação com o Congresso para aprovação de qualquer medida. No nosso caso, como todos sabemos, isso tem gerado um ambiente propício para chantagens, negociações atrás dos panos e na calada da noite. Mas tem como mérito a escolha direta da população e a possibilidade de uma gestão responsável da coisa pública.
    O presidencialismo foi escolhido pela população no plebiscito de 1993.
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    A palavra “casuísmo” significa qualquer medida tomada às pressas, sem princípios, apoiada por raciocínio falso e enganador. Essas inúmeras “reformas” que estão acontecendo são exatamente isso. Nossas lideranças parecem moscas tentando sair de uma sala cercada de vidraças.

     

  • sábado, 26 de agosto de 2017 11:03

    Gasolina

    Não é preciso repetir o que já sabemos. O preço da gasolina, nas alturas, é a nossa contribuição de cada dia para a turma do Palácio do Planalto e adjacências.

    Mas o que desejo comentar é a informação equivocada que anda circulando nas redes sociais acerca da emissão de cupom fiscal pelo posto de gasolina. A imagem distribuída dá a entender que se você pedir o cupom o posto vai pagar mais impostos, encarecendo assim o combustível.

    Pura bobagem. A comunicação do posto com a Secretaria da Fazenda do Estado é automática. Entregando ou não o cupom, o valor dos impostos será recolhido. Aquele valor que consta no rodapé do cupom representa o valor aproximado dos tributos. É isso. Não muda nada.

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    Apenas para lembrar, 47% do valor da gasolina é composto por tributos. Se você gastar, por exemplo, R$ 400,00 em combustível no mês, R$ 188,00 serão impostos.

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    Pois o adolescente procurou o pai para pedir o carro emprestado. O fim de semana se aproximava e ele tinha prometido dar umas bandas com os amigos.

    Na hora do jantar, indagou:

    — Pai, você teria coragem de me emprestar o carro neste fim de semana?

    O pai respirou fundo, lembrando que o tanque estava vazio:

    — Claro, filho. E você terá coragem de encher o tanque?

     

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    A equação é de fácil entendimento. O preço do combustível subiu, e muito. Mas, vale perguntar: algum automóvel deixou de circular? Suspeito que não. As ruas estão cheias. O carro é um fetiche, quase uma paixão. É símbolo de status, e não poucos sacrificam tudo o que têm para desfilar com seu automóvel.

    Pois bem. O governo queria aumentar a arrecadação é assumiu publicamente que fez a opção mais prática e rápida.

    Assim, de forma imediata e direta, todos os possuidores de veículos passaram a pagar mais impostos. Ao contrário do que aconteceu anteriormente, desta vez todos engoliram com amargura. Ninguém berrou.

    Talvez estejamos ficando cada vez mais parecidos com os bovinos...

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    Enquanto isso, por aqui mais uma vez foi suspenso o Musicanto. A novela já virou caso crônico de indecisão. Ora vai, ora não vai. Ora tem dinheiro, ora não tem.

    Está parecendo mesmo que a decisão é fazer o feijão-com-arroz. Falta ousadia, falta criatividade, falta vontade. Assim, a cidade se apequena. Talvez seja isso mesmo o que pretendem...