• sexta-feira, 22 de janeiro de 2016 11:13

    Calorão

    Com o calor escaldante dos últimos dias as pessoas se perguntam: e se a temperatura subir um pouco a cada verão, quanto tempo aguentaremos? Santa Rosa vai desaparecer antes do resto do planeta?

    Bom, não precisamos nos alarmar. É até possível que tenhamos verões mais amenos nos próximos anos. Mas o preocupante é que, no longo prazo, não é apenas uma impressão passageira. As medições de temperatura não deixam dúvida. O planeta está mais quente, e o ano de 2015 foi o mais quente dos últimos 138 anos.

    A preocupação, pois, tem razão de ser. E para quem vive em Santa Rosa também. Dias atrás contei a um conhecido que eu moro em Santa Rosa, e ele respondeu com outra pergunta:

    — Aquela cidade do calorão?

    Estamos ficando famosos, é não é pelo mosquito da dengue...

    ***

    Na última segunda-feira, em Porto Alegre, um ônibus lotação foi assaltado por um grupo de adolescentes. Para uma grande cidade isso já faz parte do cotidiano, não é novidade.

    Nesse caso, porém, o que surpreendeu é que os garotos queriam os aparelhos celulares dos passageiros. Pouco se importaram com o dinheiro. Levaram cerca de 20 celulares.

    Isso me fez lembrar o raciocínio de um famoso criminalista, que disse que os delitos de rua têm origem não apenas na pobreza extrema, mas também na ética individualista, hoje tão valorizada socialmente.

    Os jovens assaltantes deixaram claro que, para eles, o sucesso é representado pelo celular, e para chegar até ele o ato ilegal é apenas um meio.

    Na sociedade consumista as mercadorias foram transformadas em mecanismos destinados a preencher nossa solidão, esconder nossas carências afetivas e intelectuais e até simular um mundo de mérito e sucesso que, de fato, não existe. Vivemos cercados de mercadorias, e acreditamos que essa montanha de objetos nos fará melhores e mais felizes.

    A cultura do consumo gera frustração (pois nem tudo o que aparece na TV está ao nosso alcance) e, logo depois, a violência. Por isso rouba-se (ou mata-se) por um carro, um smartphone ou um tênis daquela marca famosa.

    Fazemos sacrifícios gigantescos para comprar a mercadoria da moda e logo após descobrimos que aquele objeto não supriu nossas carências. Continuamos incompletos e insatisfeitos, emocionalmente infantis. Até que uma nova mensagem publicitária nos conduza a novas compras. E assim passamos a viver num moto-contínuo do vazio existencial.

    O jovem pobre também não sabe disso. Ele sabe apenas o que a TV lhe ensinou, isto é, que a mercadoria lhe trará status e respeito, e que assim ele será feliz.

    Pois até essa ilusão o torna parecido com os outros jovens. Mas, infelizmente, talvez ele nunca perceba o mar de enganos em que está mergulhado.

  • segunda-feira, 18 de janeiro de 2016 08:36

    Curiosidades

    Confirmando a data anunciada há algum tempo aqui na coluna. Será no próximo dia 24 a festividade comemorativa aos 100 anos do Padre Arcanjo, na comunidade do Lajeado Tarumã. Faço o registro porque o Padre Arcanjo deixou muitas saudades por aqui, e ações comunitárias e caritativas que serão lembradas ainda por um longo tempo.
    Curiosidade: consta que a palavra “arcanjo” vem do grego, e significa “o primeiro mensageiro”, numa tradução livre. Catarinense de nascimento, Padre Arcanjo e veio para Santa Rosa em 1959, tendo falecido em 2003. Outra curiosidade: Em 1983 ofereceram-lhe o título de “cidadão santa-rosense”, mas o padre Arcanjo recusou a homenagem. Vinte anos mais tarde, o título foi novamente oferecido, e desta vez aceito. Mas o padre Arcanjo faleceu três dias antes de receber o título honorífico.
    ***
    Recebo a informação de que a Associação das Etnias de Santa Rosa está às voltas com projetos para tornar a Praça das Nações (no parque de exposições) um local aprazível, capaz de atrair a população e os turistas. O planejamento envolve até a construção de uma concha acústica no local. A notícia é boa.
    Pois esta semana fui brindado com um decálogo de como identificar se a sua casa tem elementos vindos da cultura alemã. Olhando a listagem de “pistas”, concluí que sou quase 100% alemão. Para saber se você cresceu com influência alemã, verifique os seguintes itens.
    Tudo começa com a comida. Muitas vezes a cuca substitui outras refeições, e a batata é elemento indispensável, especialmente no almoço. Salada de maionese é obrigatória aos domingos. O café da manhã é sempre uma mistura de comidas doces e salgadas (doce de frutas e salame sobre o pão são sempre bem-vindos). Sem falar do keschmier com wafle.
    Aliás, só mesmo o alemão para misturar a sobremesa com arroz! E o Natal deixa de existir se não aparecerem as bolachas pintadas!
    No linguajar, duas características impagáveis no sotaque. É regra finalizar as frases com o famoso “uma vez” e advérbios pouco ortodoxos.
    — Hugo, me traz aquela enxada uma vez!
    — Mas ela tá deitada ali do teu lado...
    A coisa fica realmente complicada com os nomes. Descendente de alemão SEMPRE necessita soletrar o nome, seja numa repartição pública, seja para emissão de uma nota fiscal numa loja. O atendente mal pergunta pelo nome e o cara já vai explicando:
    — Ervino Hammerschmitt Habitzreuter. Digita aí: aga-a-eme-eme-e-erre-esse.....
    Evidentemente, a fila para.
    Mas, em compensação, quando se trata de tratamentos afetivos, dentro do âmbito familiar, existem uma tendência de simplificar. O guri da casa é normalmente chamado de “néne” ou “púbi”. O gato é sempre “mitsi”.
    Agora, a característica mais forte e mais marcante de uma família alemã é a famosa “cabeça dura”. Ai de você se tentar teimar com o chefe da família! Você pode tentar, mas venha com argumentos fortes, tipo pesquisas científicas de Oxford, relatórios da Nasa, estatísticas do IBGE, e assim por diante. Se não tiver provas contundentes, você não tem a menor chance....

  • domingo, 10 de janeiro de 2016 00:34

    Para começar o ano falando de educação

    O Congresso chileno aprovou em dezembro último a lei do ensino universitário gratuito a partir de 2016, um passo importante na ampla reforma da educação que leva adiante o governo da presidente Michelle Bachelet.

    Ou seja, nós descobrimos espantados que o Chile, até o momento, não possui ensino universitário público e gratuito! E olha que tempos atrás o Chile foi saudado como o país do futuro! Na verdade, não tinha futuro nenhum. A ditadura de Pinochet promoveu exclusivamente o ensino privado. O resultado é óbvio: o Chile se ressente da falta de bons profissionais em todas as áreas, e o acesso das populações pobres não existe. Mas algo está sendo feito, e o Chile está retornando ao mundo civilizado.

    ***

    Enquanto isso, aqui no Brasil, podemos comemorar muita coisa, embora tenhamos um bom caminho pela frente. Temos mais de 7 milhões de universitários (não estou falando de ensino fundamental e médio). Uma década atrás era a metade. Só a prova do ENEM movimenta mais de 7 milhões de candidatos.

    65% dos estudantes que concluíram o curso superior em 2014 têm renda familiar de até 4,5 salários mínimos. A vida deles será melhor e menos penosa que a de seus familiares. Basta ver que 35% deles são os primeiros integrantes do grupo familiar a frequentar universidade.

    Mas isso não acontece apenas na esfera pública. As universidades privadas também se expandiram no Brasil na última década, muitas delas com apoio de programas como o PROUNI e o FIES. O número de municípios com ensino superior dobrou! Em 2001, 1.079 municípios tinham ensino superior. Em 2014, esse número saltou para 2.222 cidades. As instituições públicas de ensino superior saltaram de 183 para 301.

    Em termos de Brasil, os números sempre são gigantescos. Mas todos reconhecem (especialmente os educadores) que temos muito a caminhar, seja em qualidade técnica, seja em infraestrutura escolar. Mas não há dúvida: o Brasil tem outra cara. A cara da confiança, e a educação, ainda tão carente, virou prioridade para os brasileiros.

    ***

    Você sabia que o Acordo Ortográfico entrou em vigor no último dia 1º e que começamos 2016 com novas regras de ortografia?

    Pois é. O acordo foi adiado por três anos, mas agora parece ser definitivo. O objetivo é que os países que falam a língua portuguesa escrevam de maneira uniforme. A fala, é claro, não será modificada, pois isso tem a ver com hábitos, aspectos culturais, tradição etc.

    A partir de agora, precisamos de mais atenção na hora de escrever. As editoras brasileiras já publicam seus livros com as novas regras há muito tempo, o que é ótimo. Quem lê, assimila a nova escrita com mais naturalidade.

    Eu confesso que não me acostumei a escrever palavras como leem (eu gostava da velha “lêem”), ou ideia (era tão bonita a “idéia” com acento!). Estranho mesmo é que linguiça não tem mais o trema (comprar “lingüiça”, com trema, me parece até algo mais saboroso).

    Mas não há outro jeito. A solução é aprender. Mãos à obra!

  • segunda-feira, 4 de janeiro de 2016 07:58

    Alô, é da Terra?

    O astronauta britânico Tim Peake, que está na estação espacial internacional, tentou ligar para a família na noite de Natal, mas errou o número e foi atendido por uma espantada senhora que ouviu a seguinte saudação: "Alô, é do planeta Terra?". Mais tarde, esclarecido o equívoco, pediu desculpas. Dizem que a senhora aquela até hoje comenta com o marido: "Tem cada doido nesse mundo..."

    Pois eu nem imaginava que isso fosse possível. Uma ligação do espaço sideral com número errado! Aliás, eu nem sabia que eles podiam fazer ligações desde a estação espacial. Agora sei o que eles fazem para passar o tempo naquela imensidão espacial — ficam teclando no zape-zape. Deve ser isso.

    Fiquei imaginando se o astronauta, equivocadamente, ligasse para minha casa. Na noite de Natal o telefone toca e eu escuto:

    "Alô, é do planeta Terra?"

    "Papai Noel! Que surpresa!"

     

    Mas também podemos imaginar outras situações envolvendo a estranha ligação.

    "Alô, é do planeta Terra?"

    "Está bem, pai, eu sei que é tarde. Estou voltando pra casa..."

     

    "Alô, é do planeta Terra?"

    "Por gentileza, diga qual o sabor e o tamanho da pizza para a entrega..."

     

    "Alô, é do planeta Terra?"

    "Para reclamações, tecle 5. Para novos planos, tecle 4. Para ser atendido por um dos nossos atendentes, tecle qualquer coisa porque não vai adiantar nada mesmo..."

     

    "Alô, é do planeta Terra?"

    "Aqui é do Congresso Nacional. A coisa tá feia. Ligue mais tarde, lá por julho ou agosto".

     

    O dia 1º de janeiro também tem 24 horas, como todos os outros dias do ano, mas nós conseguimos transformá-lo num momento especial. Ele marca a transição no calendário e nós aproveitamos para renovar energias e esperanças. Nada de errado nisso.

    Um amigo meu comentou que, ao ouvir que 2016 será um ano de mudanças, decidiu comprar um caminhão. "Vou me dar bem fazendo fretes", concluiu. Simples.

    Mesmo que todos os projetos e todas as promessas desapareçam antes do final de março, temos a chance de viver três meses focados, esperançosos, tentando dar um novo rumo à vida. Ainda que a roda-viva (como dizia o Chico Buarque) impeça que tomemos as rédeas do destino, o fundamental é a nossa luta, a nossa peleia permanente. Vale o esforço. E vale recomeçar tudo a cada dia primeiro de janeiro...