• segunda-feira, 9 de novembro de 2015 06:44

    Alemão catofla

    É possível que muitos descendentes de germânicos não saibam, mas a Alemanha moderna somente se consolidou em 1871, quando foi formado o Império Alemão. Antes dessa data não existia uma nação alemã. O que havia era um grupo de estados que compunham a federação alemã, com leis e culturas diferentes. Eram 33 estados e quatro cidades-livres. Dizem que havia 300 entidades políticas na época, cada uma com um ponto de vista sobre questões políticas.

    A reunião dessa turma toda foi feita com mão-de-ferro pelo chanceler Otto von Bismarck, um dos políticos mais importantes da história europeia. O cara era bom mesmo. Afinal, consolidar e organizar o país com tanto alemão em volta não foi tarefa fácil.

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    Estou dizendo isso para lembrar que a colonização alemã no Rio Grande do Sul, iniciada em 1824 (191 anos atrás) deu-se num período em que, de fato, a Alemanha não existia. Para cá vieram hamburgueses, bávaros e hessianos. Só mais tarde é que esse movimento passou a ser chamado de “imigração alemã”, cujo propósito era colonizar e ocupar o Rio Grande.

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    Contam os historiadores que os primeiros alemães, na verdade, vieram com Pedro Álvares Cabral, e faziam parte de um grupo de artilheiros que acompanhava a esquadra, lá nos idos de 1500. Aliás, os primeiros textos a usarem a palavra “Brasil” são em alemão.

    Imagine o alemão chegando numa praia da Bahia e encontrando índias sem roupas. Depois do susto inicial, teria dito: “Quero ver a Frida andar assim na neve da Bavária”.

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    Atualmente, a Europa atrai imigrantes, mas nem sempre foi assim. Desde a metade do século 18 até os anos 60 do século 20, a Europa “exportou” mais de 60 milhões de pessoas que rumaram para o Brasil, Estados Unidos e Austrália, entre outros lugares. Esse deslocamento populacional tinha motivos sérios, como as guerras, a miséria, a hostilidade religiosa, as perseguições étnica e religiosa.

    E entre as inúmeras contribuições trazidas pelos alemães e que se incorporaram à vida dos brasileiros estão, além da cerveja e da Oktoberfest, a criação de suínos e a salada de batatas. Daí o apelido “alemão batata”, que é uma forma carinhosa de lembrar que eles (os descendentes, entre os quais me incluo) adoram batatas no prato, seja de que forma for. Batata-palha, batata frita, batata recheada, nhoque de batata, maionese de batata, purê de batatas, batata gratinada, e assim por diante. Viva a batata!

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    Não deu na imprensa (grande novidade!), mas o acordo firmado na visita feita por Ângela Merkel, ao Brasil, em agosto último, vai representar uma nova invasão alemã.

    Somente as fábricas da Audi, da Basf, e da Mercedes-Benz, representam investimentos de quase R$ 3 bilhões. Também os programas universitários envolvidos no acordo devem aumentar muito a circulação de estudantes entre os dois países. Ótimo. Vamos continuar comendo batatas. Ainda bem.

     

  • terça-feira, 3 de novembro de 2015 10:26

    Misoginia, o que é isso?

    O comentário geral, na semana, foi o excelente tema sugerido aos estudantes que faziam a prova do ENEM. A redação dizia respeito à violência contra as mulheres. Alguns comemoraram, outros reclamaram, mas o assunto proposto foi considerando muito bom porque é atual. Aliás, no Brasil ele é atual há mais de 500 anos. Quer ver por quê?

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    No século XVI, quando teve início a colonização do Brasil, as potências Portugal e Espanha tinham influência cultural fortíssima do antigo império romano e dos árabes (por causa das invasões do passado). Essa cultura, é claro, também chegou ao Brasil. Segundo historiadores, a península ibérica (Espanha e Portugal) era basicamente uma região misógina.

    Para melhor entender, a palavra "misoginia" significa "ódio às mulheres". Na época elas eram consideradas seres de segunda classe, e tratadas como animais (em alguns países árabes isso continua a existir).

    Talvez essa seja a explicação para a misoginia que ainda existe na sociedade brasileira, fortemente marcada pelo machismo. Tem a ver com preconceito sexista e ideológico, e acompanha o patriarcado desde os tempos bíblicos, lamentavelmente.

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    Sabemos que na história brasileira, ao longo dos séculos, a mulher sofreu as mais inimagináveis violências. Desde o tempo em que mulheres com problemas psicológicos eram levadas à fogueira até a atual discriminação, mais dissimulada, carregamos essa herança vergonhosa.

    Digo "herança" porque foi trazida pelos europeus. Entre os indígenas não há qualquer preconceito com mulheres.

    A violência vivida pelas mulheres no período colonial merece ser melhor estudada. A começar pela violência sexual praticada durante o período da escravidão. Mulheres brancas não tinham melhor sorte. A maioria tinha a simples função de "povoar a Colônia".

    Negras e índias eram as vítimas preferidas dessa violência. A média de vida de uma escrava, por exemplo, era inferior a 30 anos. O que vemos nesses 500 anos de história, e que tentamos esconder, é a mulher sendo comprada, brutalizada, desprezada. Esse modo de ver o mundo está arraigado na sociedade, de tal modo que, para muitos, um estupro não causa espanto.

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    Mas esse quadro que nos envergonha tem um resultado, apesar dos pesares, positivo. A colonização (até mesmo porque havia poucas mulheres europeias por aqui) causou a miscigenação, isto é, a mistura de raças que resultou no Brasil mestiço que conhecemos hoje. Os europeus misóginos tinham uma queda por negras e índias.

    Dessa mistura, sim, devemos nos orgulhar. Mas da violência que a história nos impôs, não. Pensando bem, com essa conversa toda, acho que acabei de fazer uma reda-ção para o Enem. Será que esse texto mereceria uma boa nota no Exame?

  • segunda-feira, 19 de outubro de 2015 07:14

    Bom momento

    Algumas semanas atrás, num programa de rádio, argumentei que o Brasil vivia um ótimo momento. O assunto, claro, eram as questões éticas e políticas tão em voga nesse momento. Os amigos presentes não me perdoaram. “Como, assim, ótimo momento? E tudo o que está acontecendo? Você está cego, Gilberto?” Evidentemente, tive que “me virar nos 30” para explicar o que estava acontecendo.

    Meu otimismo não tinha nada de simpatia com o caixa 2, com a propina, com o suborno e muito menos com a chantagem que domina a política brasileira. O que me surpreendia é que, pela primeira vez nesses 500 anos de história, estas coisas estão vindo à tona.

    Todos sabem que há interesses fortíssimos. Nas altas esferas políticas e empresariais a questão é sempre rasteira, sempre sigilosa e maliciosa. Sempre foi. Mas quando isso vem a público, a situação é diferente.

    Inicialmente o bandido foi o PT, que ocupa o governo federal, mas não demorou muito e outras portas começaram a ser abertas e verificamos, com pouca ou nenhuma surpresa, que nos esquemas estavam também o PMDB, o DEM, o PP, o PSDB, o PPS e outros menores.

    Parece que ninguém consegue esconder mais nada. Virou briga de cachorro grande. Você já viu briga de cachorro grande? É coisa muito feia!...

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    Talvez isso nos explique a tentativa de golpe que vem sendo veiculada, com o empenho nada leal de gente do tipo de Eduardo Cunha e seus amigos. Eventual êxito jogaria o país numa confusão tão brutal que até as investigações iriam pelo ralo, lançadas no esquecimento.

    O bugio (o macaco) e algumas espécies de besouro, quando ameaçados, jogam suas próprias fezes nos adversários. É uma tentativa de confundir o inimigo, o que também é feito pelo gambá, que usa a própria urina.

    Pelo visto, a estratégia do bugio está em alta em Brasília.

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    Mas, sem qualquer equívoco ou trocadilho, quem vive um bom momento é o Encontro de Hortigranjeiros, cuja 31ª edição aconteceu no último final de semana.

    Confesso que sou um admirador desse evento, que tem relações profundas com a história econômica da região noroeste, que surgiu e cresceu como colônia.

    Quando vejo o que vêm fazendo os nossos pequenos agricultores, sinto orgulho. Sem falar que a região está provando ser possível a diversificação na produção e o êxito econômico em empreendimentos que não se resumam à monocultura.

    É só lembrar o que vimos no Parque de Exposição, e podemos respirar aliviados. A diversidade apresentada consolida o Encontro de Hortigranjeiros como um novo centro de negócios, capaz de atrair transações comerciais antes não imaginadas por aqui. As pequenas agroindústrias demonstram capacitação técnica elogiável, e os produtores individuais buscam atualização constante (tem o dedo da Emater nisso, é claro).

    A região ganha muito. Aliás, cada produtor ganha muito com tudo isso. Afinal, a agricultura familiar representa 84% das propriedades rurais do Brasil. Isso é muita gente.

  • domingo, 11 de outubro de 2015 00:01

    Campanhas

    A eleição dos novos conselheiros tutelares, no último final de semana, levou muita gente às urnas. Mas ouvi pessoas comentando, em tom de crítica, que a escolha se transformou numa disputa nos moldes de uma campanha eleitoral.

    Confesso que não vi nada de inconveniente ou exagerado nisso. A escolha, feita pelos eleitores da cidade, teve pouca influência de partidos ou de interesses econômicos. Afinal, proteger crianças e adolescentes, atualmente, não é tarefa fácil. Exige uma boa dose de desprendimento dos interessados.

    Quanto à forma de escolha, ela lembra que em muitos países os delegados de polícia e os juízes são escolhidos dessa forma. Em 33 dos 50 estados norte-americanos os juízes são escolhidos pelo voto direto. No Brasil, a forma usada é o concurso público. Mas não se tem notícia de que a escolha pelo voto produza maus delegados e maus juízes. Aliás, é claro que existem decepções, mas o concurso público também não é garantia de nada.

    No Brasil há juristas que defendem a eleição popular para os ministros das Cortes Superiores (STJ e STF), mas a sugestão está longe de obter apoio majoritário. Enquanto isso, a experiência da escolha dos conselheiros tutelares vai se consolidando, com bons resultados.

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    Acho muito legal a ideia do “Outubro Rosa”, que mantém viva a campanha contra o câncer de mama. Ela envolve muita gente, esclarece, informa, previne.

    Eu, por exemplo, que tenho pouca familiaridade com as coisas da medicina, descobri que homem também pode ter câncer de mama (embora seja raro). Por outro lado, descobri também que o câncer feminino tem diversos subtipos, que definem qual a terapia a ser seguida. Descoberta a tempo a doença, há 98% de chance de cura. Descobri, ainda, que o “outubro rosa” acontece em muitos países do mundo. O importante, mesmo, é que a campanha alcance a todas as mulheres, sem exceção. O exame anual, por um profissional médico, é indispensável e inadiável.

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    Tem vereador por aí com problemas de insônia. Acontece que em Santo Ângelo um vereador decidiu apresentar projeto que reduz para R$ 1.500,00 os subsídios mensais dos edis. O problema é que ele precisará recolher assinaturas de 10% do eleitorado da cidade para que o projeto seja votado na Câmara. Mas, com certeza, já angariou a simpatia de muita gente por lá.

    O problema da insônia dos nossos vereadores é de simples entendimento. E se essa moda pega também aqui em Santa Rosa?

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    A comissão de Educação, Cultura e Esporte do Senado Federal aprovou preliminarmente o projeto do senador Romário (o baixinho bom de bola) que prevê a oferta curricular do ensino da Constituição no ensino fundamental e médio.

    Mais um golaço. Acho que a Constituição é o nosso pacto social. Estudá-la é garantir a democracia, a compreensão dos direitos e deveres, a igualdade, e de tudo que faz a cidadania. Dias atrás descobri que, na Escola Visconde de Cairu, aqui em Santa Rosa, o estudo da Constituição é feito de forma voluntária. Ótimo. Belíssima iniciativa.