• sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016 11:42

    Rescaldos do Carnaval que não houve

    Acabou o Carnaval (que em Santa Rosa não existiu). É como uma barreira no tempo. Todos esperam o carnaval. Alguns para fazer a festa, outros para que essa barreira seja ultrapassada e, enfim, começar o ano. A folia é um marco temporal.

    Mesmo sem evento na cidade, alguns blocos se organizaram e partiram para a folia em cidades da região, como Três de Maio, Horizontina, Ijuí e Santo Ângelo. O turismo, o dinheiro e as pessoas se deslocaram e Santa Rosa ficou vazia. Lamentavelmente.

    Carnaval não se faz por decreto. É preciso criar a tradição. É descabido dizer: “Esse ano não faremos. No ano que vem faremos”. Assim não dá.

    Desde criança sempre achei muito criativa a escolha dos nomes dos blocos carnavalescos. Alguns são históricos em capitais do Brasil. No Rio de Janeiro, o “Bloco das Carmelitas” surgiu de uma lenda (ou seria fato?) segundo a qual as freiras pulavam o muro do Convento para as festas de Momo. Em Recife, o famoso “Galo da Madrugada” é considerado o maior do mundo. O “Bola Preta”, no Rio, arrasta uma multidão pois não exige fantasia.

    Pois aqui em Santa Rosa também tivemos blocos (pequenos, é claro) que marcaram época e estão na lembrança de seus integrantes (hoje respeitáveis senhores e senhoras). Surgem, na memória, nomes como “Bloco Modelo 15”, “Lança Perfume”, “Xoxoteros”, “Banho de Cheiro”, entre outros.

    Mas alguns nomes estão à espera de pessoas dispostas a se organizaram para o próximo ano. Deixo aqui algumas sugestões. “Unidos da Ponte de Mauá”, por exemplo, poderia reunir um grande grupo já com uma certa idade. “Unidos do Engov” pode agregar qualquer folião. “Com barragem ou sem barragem não largo da beberagem” (para os futuros atingidos).

    Também teriam grande adesão blocos como “Libera o PPCI” (com participação do Corpo de bombeiros), “Manda a foto lá pra casa” (fantasia de policial rodoviário com radar), “Olvidei mi mujer no Posto Ypiranga” (bloco que teria participação ativa de hermanos argentinos), “Cachorro de madame” (com participação dos 50.000 cachorros de raça que existem na cidade) e “Mostra o fundo que eu libero o benefício” (esse bloco existe no Rio, com claro duplo sentido, formado por funcionários do INSS).

    E ainda temos como sugestão os blocos “Meu bem, volto na quarta” (imagine a briga!) e “Melhor aqui do que na UTI” (é claro!).

    Um amigo, ao ser perguntado se brincaria no Carnaval, respondeu sem pestanejar:

    — Estou no bloco “Unidos da hérnia de disco”.

    O líder do grupo deve ser um quiroprático....

    O número de multas de trânsito durante o Carnaval, no Rio Grande do Sul, deve chegar a uma marca história de cerca de 5.000. Ou algo próximo disso. Pois o folião multado recebeu a maldita notificação das mãos do guarda, sorriu, deu um tapinha amistoso no ombro do policial e saiu cantando: “Eu chorarei amanhã, hoje eu não posso chorar....”

  • sábado, 6 de fevereiro de 2016 09:48

    Contas num calorão desses

    Os gaúchos estão espantados com a conta da energia elétrica, especialmente após a elevação da alíquota do ICMS para 30% pelo governador Sartori. Pois um amigo não conseguia entender a fatura que lhe fora enviada. Onde, afinal, estavam os 30%? Vou tentar explicar aqui. Por isso, busque a sua fatura na gaveta e confira.

    A conta de energia é um paraíso de taxas e impostos, e inclui até a IP-CIP, que é a contribuição de iluminação pública, repassada para a Prefeitura, uma invenção até hoje não muito bem explicada.

    Some todos os valores que aparecem na conta (exceto a IP-CIP), inclusive o valor do ICMS. Assim: CONSUMO USO + BANDEIRA VERDE + ADICIONAL BANDEIRA VERMELHA + PIS/PASEP + COFINS + ICMS. Sobre esse total calcule 30%. Você obterá o valor do ICMS (que já aparece na conta, olhe bem). De imediato você perguntará: “Por que acrescentar o ICMS para calcular o ICMS?”.

    Aí está o inacreditável, meu incrédulo leitor! O valor do ICMS entra no cálculo do próprio ICMS, que também incide sobre o PIS/PASEP e sobre a COFINS, além do consumo, é claro.

    Agora, o resultado mágico! Pegue o valor do seu consumo e compare-o com o valor do ICMS que está sendo cobrado na fatura. Faça uma simples regra de três, para obter o percentual (ICMS x 100 / CONSUMO = PERCENTUAL). Você descobrirá, espantado, que na verdade está pagando 45,95%. Isso mesmo! Nós pagamos 45,95% de ICMS sobre o consumo de energia!

    E acredite: esse cálculo “por dentro”, também é usado para calcular o PIS/PASEP e a COFINS. Eles não são calculados sobre o consumo, mas sobre o total da fatura (que inclui o PIS/PASEP e a COFINS). Que maravilha!

    A matriz tributária brasileira é coisa de malandro. Além do ICMS incidir sobre ele próprio e sobre os outros tributos que aparecem na conta, incide também sobre os tributos e impostos recolhidos pelas distribuidoras, os quais estão embutidos no consumo.

    É um efeito cascata dissimulado que ninguém percebe. Ironicamente, ouvi muitas vezes na faculdade de Direito que no Brasil é proibida a bitributação (tributo sobre tributo). O professor devia estar brincando com a gente.

    O mais triste nessa história toda é que o Judiciário, através do STJ (Superior Tribunal de Justiça) considerou válido esse cálculo bizarro, injusto e matreiro. No mínimo, os ilustres ministros de toga preta devem viver em outro planeta.

    Dica de leitura para o verão: No livro “O quarto poder” o jornalista Paulo Henrique Amorim conta histórias divertidas (e algumas assustadoras) sobre a promíscua relação entre a imprensa e o poder político no Brasil.

    Com 50 anos de carreira, Amorim já trabalhou nos principais órgãos de imprensa do Brasil. Atualmente está na Record. Seu livro narra eventos importantes da nossa história recente, partindo de dentro dos círculos jornalísticos. Descobrimos que, no Brasil, a grande imprensa não existe para informar, mas para dissimular, controlar e manipular a opinião pública. Não perca.

  • sexta-feira, 22 de janeiro de 2016 11:13

    Calorão

    Com o calor escaldante dos últimos dias as pessoas se perguntam: e se a temperatura subir um pouco a cada verão, quanto tempo aguentaremos? Santa Rosa vai desaparecer antes do resto do planeta?

    Bom, não precisamos nos alarmar. É até possível que tenhamos verões mais amenos nos próximos anos. Mas o preocupante é que, no longo prazo, não é apenas uma impressão passageira. As medições de temperatura não deixam dúvida. O planeta está mais quente, e o ano de 2015 foi o mais quente dos últimos 138 anos.

    A preocupação, pois, tem razão de ser. E para quem vive em Santa Rosa também. Dias atrás contei a um conhecido que eu moro em Santa Rosa, e ele respondeu com outra pergunta:

    — Aquela cidade do calorão?

    Estamos ficando famosos, é não é pelo mosquito da dengue...

    ***

    Na última segunda-feira, em Porto Alegre, um ônibus lotação foi assaltado por um grupo de adolescentes. Para uma grande cidade isso já faz parte do cotidiano, não é novidade.

    Nesse caso, porém, o que surpreendeu é que os garotos queriam os aparelhos celulares dos passageiros. Pouco se importaram com o dinheiro. Levaram cerca de 20 celulares.

    Isso me fez lembrar o raciocínio de um famoso criminalista, que disse que os delitos de rua têm origem não apenas na pobreza extrema, mas também na ética individualista, hoje tão valorizada socialmente.

    Os jovens assaltantes deixaram claro que, para eles, o sucesso é representado pelo celular, e para chegar até ele o ato ilegal é apenas um meio.

    Na sociedade consumista as mercadorias foram transformadas em mecanismos destinados a preencher nossa solidão, esconder nossas carências afetivas e intelectuais e até simular um mundo de mérito e sucesso que, de fato, não existe. Vivemos cercados de mercadorias, e acreditamos que essa montanha de objetos nos fará melhores e mais felizes.

    A cultura do consumo gera frustração (pois nem tudo o que aparece na TV está ao nosso alcance) e, logo depois, a violência. Por isso rouba-se (ou mata-se) por um carro, um smartphone ou um tênis daquela marca famosa.

    Fazemos sacrifícios gigantescos para comprar a mercadoria da moda e logo após descobrimos que aquele objeto não supriu nossas carências. Continuamos incompletos e insatisfeitos, emocionalmente infantis. Até que uma nova mensagem publicitária nos conduza a novas compras. E assim passamos a viver num moto-contínuo do vazio existencial.

    O jovem pobre também não sabe disso. Ele sabe apenas o que a TV lhe ensinou, isto é, que a mercadoria lhe trará status e respeito, e que assim ele será feliz.

    Pois até essa ilusão o torna parecido com os outros jovens. Mas, infelizmente, talvez ele nunca perceba o mar de enganos em que está mergulhado.

  • segunda-feira, 18 de janeiro de 2016 08:36

    Curiosidades

    Confirmando a data anunciada há algum tempo aqui na coluna. Será no próximo dia 24 a festividade comemorativa aos 100 anos do Padre Arcanjo, na comunidade do Lajeado Tarumã. Faço o registro porque o Padre Arcanjo deixou muitas saudades por aqui, e ações comunitárias e caritativas que serão lembradas ainda por um longo tempo.
    Curiosidade: consta que a palavra “arcanjo” vem do grego, e significa “o primeiro mensageiro”, numa tradução livre. Catarinense de nascimento, Padre Arcanjo e veio para Santa Rosa em 1959, tendo falecido em 2003. Outra curiosidade: Em 1983 ofereceram-lhe o título de “cidadão santa-rosense”, mas o padre Arcanjo recusou a homenagem. Vinte anos mais tarde, o título foi novamente oferecido, e desta vez aceito. Mas o padre Arcanjo faleceu três dias antes de receber o título honorífico.
    ***
    Recebo a informação de que a Associação das Etnias de Santa Rosa está às voltas com projetos para tornar a Praça das Nações (no parque de exposições) um local aprazível, capaz de atrair a população e os turistas. O planejamento envolve até a construção de uma concha acústica no local. A notícia é boa.
    Pois esta semana fui brindado com um decálogo de como identificar se a sua casa tem elementos vindos da cultura alemã. Olhando a listagem de “pistas”, concluí que sou quase 100% alemão. Para saber se você cresceu com influência alemã, verifique os seguintes itens.
    Tudo começa com a comida. Muitas vezes a cuca substitui outras refeições, e a batata é elemento indispensável, especialmente no almoço. Salada de maionese é obrigatória aos domingos. O café da manhã é sempre uma mistura de comidas doces e salgadas (doce de frutas e salame sobre o pão são sempre bem-vindos). Sem falar do keschmier com wafle.
    Aliás, só mesmo o alemão para misturar a sobremesa com arroz! E o Natal deixa de existir se não aparecerem as bolachas pintadas!
    No linguajar, duas características impagáveis no sotaque. É regra finalizar as frases com o famoso “uma vez” e advérbios pouco ortodoxos.
    — Hugo, me traz aquela enxada uma vez!
    — Mas ela tá deitada ali do teu lado...
    A coisa fica realmente complicada com os nomes. Descendente de alemão SEMPRE necessita soletrar o nome, seja numa repartição pública, seja para emissão de uma nota fiscal numa loja. O atendente mal pergunta pelo nome e o cara já vai explicando:
    — Ervino Hammerschmitt Habitzreuter. Digita aí: aga-a-eme-eme-e-erre-esse.....
    Evidentemente, a fila para.
    Mas, em compensação, quando se trata de tratamentos afetivos, dentro do âmbito familiar, existem uma tendência de simplificar. O guri da casa é normalmente chamado de “néne” ou “púbi”. O gato é sempre “mitsi”.
    Agora, a característica mais forte e mais marcante de uma família alemã é a famosa “cabeça dura”. Ai de você se tentar teimar com o chefe da família! Você pode tentar, mas venha com argumentos fortes, tipo pesquisas científicas de Oxford, relatórios da Nasa, estatísticas do IBGE, e assim por diante. Se não tiver provas contundentes, você não tem a menor chance....