• segunda-feira, 21 de setembro de 2015 08:14

    Jogo de osso e outros jogos

    Esta Semana Farroupilha sem desfile em Santa Rosa ficou meio tristonha. Pode perguntar a qualquer tradicionalista. Por isso, decidi fazer uma homenagem à infância da gauchada. É algo que, em certa medida, ficou no passado, na época em que os campos (e não as lavouras) dominavam a paisagem do Rio Grande. Uma época que também levou para as cidades todos os costumes e tradições do campeiro.

    Seguidamente ouço pessoas (já adultas) que não escondem a saudade das brincadeiras da infância. E quem não tem? Lamentam elas que as crianças de hoje desconhecem coisas que animaram a infância de muitos gauchinhos.

    Acontece que, no Rio Grande do Sul, há brincadeiras clássicas e divertidas. Lamentavelmente, muitas delas ficaram no passado. E não adianta falar delas às crianças de hoje. Elas não saberão do que você está falando. Veja só.

    O jogo do osso, também conhecido como "tava", era bem típico da campanha, onde os açougues eram tão comuns. Era, literalmente, praticado com partes do esqueleto do gado. Normalmente, a peça do jogo era o osso do jarrete do animal. Depois de limpo, era usado para lançamentos que contavam pontos, dependendo da posição do osso no chão. O jogo, é claro, gerava uma espécie de linguagem própria (de origem castelhana), para cada lance. São expressões como "suerte declinada", "gueso", "parada copada" e outras.

    Não há como explicar isso para a criançada de hoje.

    Mas além do jogo do osso, havia também o truco, que é muito popular ainda hoje, inclusive entre os jovens.

    Outras brincadeiras não envolviam o jogo, propriamente dito. A "tropa de osso" era a reprodução de uma fazenda utilizando ossos de animais. Uma simbologia interessante, feita com imaginação da criança imitando o mundo adulto.

    Tenho certeza que, a essa altura da conversa, você já deve estar lembrando de outras marcas da infância aqui no Rio Grande. A funda, ou bodoque (hoje censurada por questões ecológicas), era um instrumento indispensável na vida dos guris. A pandorga era a marca registrada do mês de agosto. O pião e a piorra exigiam incontáveis horas de treinamento para um bom desempenho.

    A bolita (com diversas variantes, como o jogo de gude) também faz parte do imaginário. Assim como o trabuco, feito de taquara com a munição das bolinhas de cinamomo. Coisas de guri moleque, é claro, porque as gurias tinham diversão garantida com as "bruxas de pano", bonecas criadas por elas mesmas.

    Eu, particularmente, cheguei a ser considerado uma "fera" no jogo das "cinco-marias". Usávamos caroços de pêssego ou aquelas trouxinhas de pano, preenchidas com areia, que as nossas mães não cansavam de costurar e remendar.

    Bueno, vou parar por aqui, senão logo teremos gaúcho chorando de saudades, coisa que não fica bem em marmanjo...

  • segunda-feira, 14 de setembro de 2015 07:50

    Caíram os butiás do bolso

    Me caíram os butiás do bolso! Através de uma simples referência no Facebook, descobri uma página que está envolvendo dezenas (ou centenas?) de santa-rosenses de meia idade, que compartilham fotografias antigas de Santa Rosa.
    Não sei de quem foi a iniciativa, mas desconfio que um dos principais envolvidos é o Pedro Berwian, que mora na cidade de Antíqua, na Guatemala. Da América Central, ele tem postado inúmeras contribuições. Também são participantes ativos o Cláudio Franke, o Wilson Mallez, a Amarilis Floriano, o João Fernando Parise, o Carlos Losekan e muitos outros.
    A diversão é garantida para essa galera. O número de participantes aumenta dia a dia. Alguns deles, que já não residem na cidade, estão revirando baús de lembranças na casa dos pais, descobrindo imagens empoeiradas.
    Todos saboreiam ver imagens que já estavam esquecidas na memória. Tem foto de formatura, de parada estudantil, de baile carnavalesco e também da paisagem urbana quando Santa Rosa era apenas um bucólico vilarejo, com raros automóveis e pessoas que já partiram para outras querências.
    Alguns dos colabores da página se divertem vendo as “carinhas” do tempo da adolescência ou juventude. Bate uma saudade... Aliás, olhar fotografias antigas é sempre divertido, além de trazer à tona o nosso lado nostálgico.
    Tenho visto as postagens, e gosto delas. Mas, cá entre nós, pelas fotos descobri que alguns amigos andam escondendo a data de nascimento...
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    O butiá está despertando interesse dos técnicos, em seminários e projetos em todo o Rio Grande do Sul. Foi tema de seminário na última Expointer.
    Estuda-se a criação da rota turística que será chamada de “Rota dos Butiazais”, na qual estaria incluído o vizinho município de Giruá, onde a Festa do Butiá já envolve mais de 80 famílias de pequenos produtores rurais. O interessante é saber que ainda existem plantações de butiá em cidades como Pelotas, Tapes, Santa Vitória do Palmar e Barra do Ribeiro, na zona sul do Estado.
    Pois a expressão “me caíram os butiás do bolso” é muito utilizada em todo o Rio Grande para descrever uma situação em que nos vemos espantados. Como o gaúcho guarda os butiás no bolso da bombacha, um sobressalto faz com que as frutas caiam.
    Por outro lado, falando em preferência pessoal, eu desconheço suco de fruta mais saboroso do que aquele feito com butiá. E a cuca recheada, então, nem se fala! Experimente e você jamais esquecerá.
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    Fiz a apresentação para o livro que será lançado nesta sexta, no SESC, na programação da Jornada de Literatura. A obra reúne textos de autores locais, com o título “Santa-rosenses — Histórias Especulativas em uma cidade interiorana”. Para sua execução, teve apoio do Fundo Municipal de Cultura.
    O livro, bem diagramado e com design interessante, traz narrativas curtas de pessoas que gostam da cidade e, é claro, de escrever. Aliás, são histórias saborosas que fazem o livro merecer espaço na estante lá de casa.
    Este é mais um bom motivo para você comparecer ao SESC neste final de semana. A programação é extensa e boa.

  • terça-feira, 8 de setembro de 2015 08:50

    Coisas estranhas

    A rede social Facebook é gigantesca. O que ela representa você já sabe, e já deve ter perdido muito tempo em frente ao computador mexendo com ela.

    Mas esta semana descobri algo inesperado. Fiquei sabendo que já existem cerca de 20 milhões de mortos cujos “perfis” continuam existindo na rede. E o mais curioso, segundo o próprio Facebook, é que muitos desses perfis continuam sendo alimentados pelos familiares dos falecidos.

    O “perfil” é o conjunto de dados e postagens de um usuário. Quando alguém morre, estas informações continuam lá, a não ser que algum parente solicite que sejam apagadas. Mas quando o parente (amigo, namorada, etc) continua a alimentar as informações, já é estranho demais.

    O fato é meio sinistro, meio macabro. Mas pode nos reservar alguma surpresa. Enviar pedido de amizade por gerar resposta do tipo: “Fulano morreu em 2012, mas a sogra dele aceitou seu pedido de amizade”. Cruzes!

    Curiosa mesmo foi a pesquisa divulgada pela UFF (Universidade Federal Fluminense), em seu laboratório de química.

    Os estudos revelaram de 86% das cédulas do dinheiro brasileiro (o real) analisadas pela Universidade apresentam vestígios de cocaína. Isso mesmo, cocaína. A explicação é que os usuários da droga usam as cédulas para fazer “canudos” para aspirar o entorpecente.

    Claro que a quantidade que permanece nas cédulas é inofensiva para quem manuseia o dinheiro. Outra constatação interessante. As cédulas de maior valor são usadas para a cocaína, enquanto as de menor valor mostram resquícios de crack. A relação é bem evidente.

    Por isso, fique atento. Se você é daqueles que gostam do cheiro do dinheiro, isso agora pode ser mal interpretado...

    No Rio Grande do Sul, especificamente, ainda não fizeram pesquisa semelhante. Fico me perguntando se aqui também encontrariam vestígios de cocaína e crack. Acho que o percentual seria pequeno, ou pelo menos inferior àquele encontrado no Rio de Janeiro.

    Por aqui, as chances maiores é de se encontrar vestígios de erva mate, bosta de cavalo ou fumo de cigarro importado do Paraguai.

    Já que estamos falando de estranhezas, nada mais estranho do que este mês de setembro sem desfile da pátria e sem desfile gaúcho. É como se tivessem arrancado o chão debaixo de nossos pés. É esse o sentimento de frustração que vejo nas pessoas, que até agora não entenderam os argumentos apresentados para os cancelamentos.

    E quando dissemos, dias atrás, que o desfile farroupilha poderia ser feito a pé, ou com poucos cavalos, as pessoas logo lembraram dos livros do Cyro Martins, médico, gaúcho de Quaraí, que escreveu, além de outras, três obras importantes da nossa literatura que ficaram conhecidas como a Trilogia do gaúcho a pé: “Sem rumo”, “Porteira Fechada” e “Estrada Nova”.

    Nesse setembro sem desfile, fica, pois, a sugestão de leitura.

     

  • segunda-feira, 24 de agosto de 2015 08:27

    Primavera

    A primavera ainda não chegou (ela virá no próximo dia 23 de setembro) mas as árvores já anteciparam a floração. Na cidade, os ipês estão atraindo fotógrafos profissionais e amadores que registram, no momento certo, a beleza de suas flores brancas, amarelas e lilás.

    As fotografias, é claro, vão parar na internet. São belas, muito belas. Os fotógrafos se apressam porque sabem que aquela flor logo vai desaparecer. Seu brilho e sua beleza são breves, passageiras. Em poucos dias não haverá flores.

    Nisso está uma grande indagação sobre a natureza, seja das plantas, seja dos seres humanos. Por que a beleza é tão fugaz? Por que tudo que é belo tem vida curta?

    Veja o exemplo da flor do cactus, também conhecida como “flor da noite”. Ela se abre ao entardecer e se fecha quando surge a luz do sol. Tem a duração de uma noite! Esse talvez seja o maior exemplo da fugacidade da beleza.

    A beleza é passageira, mas nós não aceitamos isso. Por isso inventamos a arte. Mas a razão disso, eu desconheço. Deixo a resposta para os filósofos, os poetas e os fabricantes de cosméticos...

     

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    Bons professores de português garantem: o plural de lilás é mesmo “lilás”. Mas há quem discorde, sugerindo “lilases”.

    Para nós, a confusão mesmo é se a flor do ipê, nessa variedade, é lilás, roxa, vinho ou violeta. Parece que a diferença fundamental está no comprimento da onda de luz refletida em cada cor. Aí já é muita confusão e exige conhecimentos técnicos.

    O que sei é que, juntamente com as brancas e amarelas, somos brindados pela sua beleza. Nem que seja por tão pouco tempo.

     

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    Teremos um desfile farroupilha sem cavalos? Este é o grande debate do momento no Rio Grande. A preocupação envolve indícios da doença chamada “mormo”, com alguns focos já detectados no Estado.

    A doença é infecto-contagiosa, causada por uma bactéria. Atinge os equínos, mas pode também afetar o ser humano. Em termos técnicos, é uma zoonose. O problema é que não existe tratamento eficaz com vacina. O animal fica infectado pelo resto de sua vida. O controle se dá pela interdição das propriedades e o abate dos animais infectados. Prejuízo econômico na certa.

    Por isso, não temos outra saída senão entender a situação. Se assim for determinado pelas autoridades, o melhor é a gauchada desfilar a pé. Ou, se for o caso, atender as exigências da área da saúde. Algo meio estranho, mas necessário.

    Aliás, gaúcho sem cavalo não é nenhuma novidade.

     

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    Já o desfile de 7 de setembro foi cancelado por “medida de economia”. Se tinham intenção de fazer piada, juro que ficou bem sem graça.