• sexta-feira, 13 de novembro de 2015 11:08

    Calote

    Dias atrás, por conta de uma reforma doméstica inesperada, decidi fazer uma “faxina” nas gavetas, biblioteca, armários, e em todos esses lugares onde a gente costuma empilhar coisas. Dizem que nada como uma mudança (ou uma reforma) para nos livrarmos de coisas que, às vezes, são inúteis.

    Pois encontrei, no fundo de uma gaveta, uma crônica publicada aqui no Noroeste, com a data de 13 de junho de 1997. Ou seja, já se passaram 18 anos.

    O curioso, porém, é que naquele pequeno texto falávamos da visita que o então presidente argentino, Carlos Menem, fizera à cidade de Oberá, na fronteira com o Rio Grande.

    Na ocasião, houve mobilização também em Santa Rosa, e uma caravana seguiu para o país vizinho a fim de encontrar-se com o presidente Menem, liderada pelo presidente da Fenasoja, Sérgio Lunardi. A grande expectativa era sobre o anúncio da ponte sobre o rio Uruguai. Havia um clima de otimismo. A ponte estava mais próxima do que nunca!

    Pois veja só. Depois de 18 anos, o assunto continua como sempre esteve, ou seja, em banho-maria. Não deixa de ser interessante saber que esse é um tema que há três décadas surge e desaparece, e ressurge logo adiante. Parece um fantasma a nos atormentar. Atualmente, como diria o gaúcho, o projeto não é lento como tropeada de lesma, e sim parado como água de poço.

    ***

    Projeto de Lei do deputado Juliano Roso, do PCdoB, reconhece o MUSICANTO como evento de relevante interesse cultural para o Estado do Rio Grande do Sul. O projeto foi aprovado por unanimidade pela Assembleia Legislativa na última terça-feira.

    Concretamente, a homenagem é relevante porque permite ao nosso festival, além de notório reconhecimento, buscar verbas públicas com o “selo” de qualidade e reconhecimento da Assembleia. Não é pouca coisa.

    ***

    Afinal, o que representa, na prática, a redução do valor das Requisições de Pequeno Valor (RPVs) para 10 salários mínimos, aprovada na última terça-feira com o voto de minerva do presidente da Assembleia?

    Pois bem. Milhares de credores do Estado (a maioria deles servidores públicos), que esperavam por receber valores até 40 salários, vão ter que registrar esses valores em seus testamentos. Ou seja, talvez os filhos um dia recebam. Doravante, valores superiores a 10 salários serão todos tratados como precatórios.

    Além do lesar individualmente os cidadãos, o projeto tem repercussão nas contas do Estado. Ora, se o governo estadual comemora o aumento da fila dos precatórios, está dizendo, tacitamente, que não pretende pagar dívidas que foram reconhecidas pelo Poder Judiciário. O calote, portanto, é duplo, pois temos que lembrar que o Estado agiu injustamente (e por isso foi condenado). Nos próximos anos, o passivo se tornará tão gigantesco que, inevitavelmente, inviabiliza-rá o Rio Grande.

  • segunda-feira, 9 de novembro de 2015 06:44

    Alemão catofla

    É possível que muitos descendentes de germânicos não saibam, mas a Alemanha moderna somente se consolidou em 1871, quando foi formado o Império Alemão. Antes dessa data não existia uma nação alemã. O que havia era um grupo de estados que compunham a federação alemã, com leis e culturas diferentes. Eram 33 estados e quatro cidades-livres. Dizem que havia 300 entidades políticas na época, cada uma com um ponto de vista sobre questões políticas.

    A reunião dessa turma toda foi feita com mão-de-ferro pelo chanceler Otto von Bismarck, um dos políticos mais importantes da história europeia. O cara era bom mesmo. Afinal, consolidar e organizar o país com tanto alemão em volta não foi tarefa fácil.

    ***

    Estou dizendo isso para lembrar que a colonização alemã no Rio Grande do Sul, iniciada em 1824 (191 anos atrás) deu-se num período em que, de fato, a Alemanha não existia. Para cá vieram hamburgueses, bávaros e hessianos. Só mais tarde é que esse movimento passou a ser chamado de “imigração alemã”, cujo propósito era colonizar e ocupar o Rio Grande.

    ***

    Contam os historiadores que os primeiros alemães, na verdade, vieram com Pedro Álvares Cabral, e faziam parte de um grupo de artilheiros que acompanhava a esquadra, lá nos idos de 1500. Aliás, os primeiros textos a usarem a palavra “Brasil” são em alemão.

    Imagine o alemão chegando numa praia da Bahia e encontrando índias sem roupas. Depois do susto inicial, teria dito: “Quero ver a Frida andar assim na neve da Bavária”.

    ***

    Atualmente, a Europa atrai imigrantes, mas nem sempre foi assim. Desde a metade do século 18 até os anos 60 do século 20, a Europa “exportou” mais de 60 milhões de pessoas que rumaram para o Brasil, Estados Unidos e Austrália, entre outros lugares. Esse deslocamento populacional tinha motivos sérios, como as guerras, a miséria, a hostilidade religiosa, as perseguições étnica e religiosa.

    E entre as inúmeras contribuições trazidas pelos alemães e que se incorporaram à vida dos brasileiros estão, além da cerveja e da Oktoberfest, a criação de suínos e a salada de batatas. Daí o apelido “alemão batata”, que é uma forma carinhosa de lembrar que eles (os descendentes, entre os quais me incluo) adoram batatas no prato, seja de que forma for. Batata-palha, batata frita, batata recheada, nhoque de batata, maionese de batata, purê de batatas, batata gratinada, e assim por diante. Viva a batata!

    ***

    Não deu na imprensa (grande novidade!), mas o acordo firmado na visita feita por Ângela Merkel, ao Brasil, em agosto último, vai representar uma nova invasão alemã.

    Somente as fábricas da Audi, da Basf, e da Mercedes-Benz, representam investimentos de quase R$ 3 bilhões. Também os programas universitários envolvidos no acordo devem aumentar muito a circulação de estudantes entre os dois países. Ótimo. Vamos continuar comendo batatas. Ainda bem.

     

  • terça-feira, 3 de novembro de 2015 10:26

    Misoginia, o que é isso?

    O comentário geral, na semana, foi o excelente tema sugerido aos estudantes que faziam a prova do ENEM. A redação dizia respeito à violência contra as mulheres. Alguns comemoraram, outros reclamaram, mas o assunto proposto foi considerando muito bom porque é atual. Aliás, no Brasil ele é atual há mais de 500 anos. Quer ver por quê?

    ***

    No século XVI, quando teve início a colonização do Brasil, as potências Portugal e Espanha tinham influência cultural fortíssima do antigo império romano e dos árabes (por causa das invasões do passado). Essa cultura, é claro, também chegou ao Brasil. Segundo historiadores, a península ibérica (Espanha e Portugal) era basicamente uma região misógina.

    Para melhor entender, a palavra "misoginia" significa "ódio às mulheres". Na época elas eram consideradas seres de segunda classe, e tratadas como animais (em alguns países árabes isso continua a existir).

    Talvez essa seja a explicação para a misoginia que ainda existe na sociedade brasileira, fortemente marcada pelo machismo. Tem a ver com preconceito sexista e ideológico, e acompanha o patriarcado desde os tempos bíblicos, lamentavelmente.

    ***

    Sabemos que na história brasileira, ao longo dos séculos, a mulher sofreu as mais inimagináveis violências. Desde o tempo em que mulheres com problemas psicológicos eram levadas à fogueira até a atual discriminação, mais dissimulada, carregamos essa herança vergonhosa.

    Digo "herança" porque foi trazida pelos europeus. Entre os indígenas não há qualquer preconceito com mulheres.

    A violência vivida pelas mulheres no período colonial merece ser melhor estudada. A começar pela violência sexual praticada durante o período da escravidão. Mulheres brancas não tinham melhor sorte. A maioria tinha a simples função de "povoar a Colônia".

    Negras e índias eram as vítimas preferidas dessa violência. A média de vida de uma escrava, por exemplo, era inferior a 30 anos. O que vemos nesses 500 anos de história, e que tentamos esconder, é a mulher sendo comprada, brutalizada, desprezada. Esse modo de ver o mundo está arraigado na sociedade, de tal modo que, para muitos, um estupro não causa espanto.

    ***

    Mas esse quadro que nos envergonha tem um resultado, apesar dos pesares, positivo. A colonização (até mesmo porque havia poucas mulheres europeias por aqui) causou a miscigenação, isto é, a mistura de raças que resultou no Brasil mestiço que conhecemos hoje. Os europeus misóginos tinham uma queda por negras e índias.

    Dessa mistura, sim, devemos nos orgulhar. Mas da violência que a história nos impôs, não. Pensando bem, com essa conversa toda, acho que acabei de fazer uma reda-ção para o Enem. Será que esse texto mereceria uma boa nota no Exame?

  • segunda-feira, 19 de outubro de 2015 07:14

    Bom momento

    Algumas semanas atrás, num programa de rádio, argumentei que o Brasil vivia um ótimo momento. O assunto, claro, eram as questões éticas e políticas tão em voga nesse momento. Os amigos presentes não me perdoaram. “Como, assim, ótimo momento? E tudo o que está acontecendo? Você está cego, Gilberto?” Evidentemente, tive que “me virar nos 30” para explicar o que estava acontecendo.

    Meu otimismo não tinha nada de simpatia com o caixa 2, com a propina, com o suborno e muito menos com a chantagem que domina a política brasileira. O que me surpreendia é que, pela primeira vez nesses 500 anos de história, estas coisas estão vindo à tona.

    Todos sabem que há interesses fortíssimos. Nas altas esferas políticas e empresariais a questão é sempre rasteira, sempre sigilosa e maliciosa. Sempre foi. Mas quando isso vem a público, a situação é diferente.

    Inicialmente o bandido foi o PT, que ocupa o governo federal, mas não demorou muito e outras portas começaram a ser abertas e verificamos, com pouca ou nenhuma surpresa, que nos esquemas estavam também o PMDB, o DEM, o PP, o PSDB, o PPS e outros menores.

    Parece que ninguém consegue esconder mais nada. Virou briga de cachorro grande. Você já viu briga de cachorro grande? É coisa muito feia!...

    ***

    Talvez isso nos explique a tentativa de golpe que vem sendo veiculada, com o empenho nada leal de gente do tipo de Eduardo Cunha e seus amigos. Eventual êxito jogaria o país numa confusão tão brutal que até as investigações iriam pelo ralo, lançadas no esquecimento.

    O bugio (o macaco) e algumas espécies de besouro, quando ameaçados, jogam suas próprias fezes nos adversários. É uma tentativa de confundir o inimigo, o que também é feito pelo gambá, que usa a própria urina.

    Pelo visto, a estratégia do bugio está em alta em Brasília.

    ***

    Mas, sem qualquer equívoco ou trocadilho, quem vive um bom momento é o Encontro de Hortigranjeiros, cuja 31ª edição aconteceu no último final de semana.

    Confesso que sou um admirador desse evento, que tem relações profundas com a história econômica da região noroeste, que surgiu e cresceu como colônia.

    Quando vejo o que vêm fazendo os nossos pequenos agricultores, sinto orgulho. Sem falar que a região está provando ser possível a diversificação na produção e o êxito econômico em empreendimentos que não se resumam à monocultura.

    É só lembrar o que vimos no Parque de Exposição, e podemos respirar aliviados. A diversidade apresentada consolida o Encontro de Hortigranjeiros como um novo centro de negócios, capaz de atrair transações comerciais antes não imaginadas por aqui. As pequenas agroindústrias demonstram capacitação técnica elogiável, e os produtores individuais buscam atualização constante (tem o dedo da Emater nisso, é claro).

    A região ganha muito. Aliás, cada produtor ganha muito com tudo isso. Afinal, a agricultura familiar representa 84% das propriedades rurais do Brasil. Isso é muita gente.