• terça-feira, 8 de dezembro de 2015 09:32

    Dívidas, dívidas

    O assunto parece difícil para alguns, mas não é. Quem manda nos países, atualmente, não são os políticos (e seus atos de corrupção) e não são os líderes civis. Quem manda é o chamado “capital financeiro”, que representa a união do capital industrial com o dinheiro dos bancos. Muito tempo atrás havia uma divisão nítida. Tínhamos o dinheiro especulativo e o dinheiro produtivo. Hoje essa distinção acabou. Por isso parece confuso.
    De vez em quando ouvimos falar em “auditoria” da dívida pública brasileira. Segundo alguns especialistas da área, ela poderia ser reduzida em quase 70%, que é a parcela que foi sendo construída ao longo do tempo por contratos ilícitos ou irregulares, outros inúteis, e compromissos descartáveis assumidos pelos governos das três esferas.
    Para o próximo ano, conforme consta do site do Congresso, vamos pagar R$ 618 bilhões somente em juros da dívida. E não se trata de dívida externa. É dinheiro interminável que vamos pagar em impostos e que não será aplicado em serviços públicos. Vai engordar o capital financeiro! De certa maneira, podemos dizer que o sistema financeiro sequestrou o Brasil, que agora está a seu serviço.
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    Mas por que a mídia não comenta esse tipo de coisa? Ora, a mídia brasileira se confunde com o capital financeiro! Além disso, eventual quebradeira de empresas públicas pode significar uma nova onde de “privatizações”, isto é, aquele processo fácil em que o dinheiro público vai parar nas mãos privadas, velho conhecido nosso.
    É claro que uma auditoria não é coisa fácil e encontra resistências enormes. No Equador, pequeno país da América Central, o presidente Rafael Correa percebeu que sua pátria estava sendo sangrada. Contratou especialistas europeus e norte-americanos para a tarefa de auditar os contratos. A dívida foi reduzida em 70% e os serviços prestados à população melhoraram rapidamente.
    Mas nada disso é impune. Sempre tem algum astuto que acusa Correa de ser um “populista”, mas esconde o fato de que ele melhorou muito a vida dos equatorianos. A explicação é simples: está sobrando menos grana para os especuladores...
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    É essa coragem que nos falta. Talvez por essa razão que nada se fala a respeito do assunto no Brasil. Os verdadeiros beneficiários do nosso endividamento não têm qualquer interesse em falar do assunto. Não são bobos. Segundo especialistas, tal como aconteceu no Equador, parte da nossa dívida está prescrita. São contratos feitos há décadas, que são renovados, aditados, alterados, aumentados, sem que nada seja feito.
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    Por isso, quando você fala em poderosos do mundo, esqueça nomes como Barak Obama, Clinton, Ângela Merkel e outros. Atualmente devemos falar de Citicorp, JP Morgan, Chase, Goldman Sachs, Santander, Itaú e outros devoradores da renda mundial.
    A propósito, para melhor entendimento, aí vai a dica de três documentários sobre o tema, que estão disponíveis nas locadoras e na internet: “Trabalho Interno” (sobre a crise da bolha de 2008), “Dividocracia” (sobre a questão da Grécia), e Catastroika (que mostra os estragos que a ideia do estado mínimo pode provocar na economia).

  • segunda-feira, 30 de novembro de 2015 08:14

    Asneiras e burrices

    Causou surpresa em muita gente a informação de que a China está comprando, do Brasil, cerca de 1 milhão de jegues. Serão 300 mil jumentos por ano. Lá a carne do burro é considerada uma iguaria, e consumida cotidianamente. Atualmente a China importa estes animais da Índia, e os pratos servidos em restaurantes são caros.

    Mas não podemos fazer confusão de linguagem. Jumento, asno e burro são designações regionais para o mesmo animal. Eu, com meus escassos conhecimento veterinários, não sei distinguir um bicho do outro, se é que existe alguma diferença.

    Você sabe do que estou falando, mesmo que, além de lembrar do animal, você também lembre do vizinho que deixa seu cão latindo a noite inteira na casa ao lado.

    Pois as pessoas se espantam com o fato, mas não lembram que consomem carne de ovelha, vaca, galinha e outros bichinhos muito mais simpáticos que um jumento. Questão de gosto e paladar. Coisas que não se discutem, como diz a sabedoria popular. E há quem diga que o pastel de burro é muito bom.

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    A missão do governo brasileiro que esteve recentemente na China revelou outra proposta excêntrica. Um empresário de lá quer importar 10 mil toneladas de casca de tangerina, a nossa velha conhecida bergamota, para fazer óleos, essências e perfumes. Não podemos duvidar de mais nada...

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    Pois o burro foi meio de transporte ao longo da História, a começar por Jesus Cristo, que entrou em Jerusalém montado num burrinho. No Brasil, foi importante transporte para os bandeirantes, e, para o nordestino, tem até hoje a mesma importância do camelo para os beduínos dos desertos africanos, muito embora esteja perdendo terreno para veículos motorizados, como a motocicleta.

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    Estranho também é o que vem acontecendo em Santa Rosa. Na semana passada o prefeito confirmou, taxativamente, que teríamos carnaval no próximo ano. Dias depois, o secretário de cultura comunicou à imprensa exatamente o contrário. Segundo ele, as escolas de samba desistiram do desfile.

    Com isso, a conclusão é inevitável. Não temos Musicanto, não temos Carnaval, não temos Festival de Cinema, não temos desfile Farroupilha e nem da Semana da Pátria. Estamos evoluindo rapidamente para o passado. O meu medo é que sejamos, em breve, confundidos com os bichos que serão exportados para a China.

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    Em janeiro próximo tem festa do centenário do nascimento do padre Arcanjo Moratelli, lá no Lajeado Tarumã. Para quem não teve a oportunidade de conhecê-lo, o padre Arcanjo, como era conhecido, virou uma espécie de “padre dos pobres” aqui não região.

    Em sua atuação como sacerdote, deixava de lado as burocracias eclesiásticas e tratava a todos com uma simplicidade perturbadora. Lembrar dele (e homenageá-lo) é uma proposta que merece aplausos. Ele sempre mereceu.

  • sexta-feira, 13 de novembro de 2015 11:08

    Calote

    Dias atrás, por conta de uma reforma doméstica inesperada, decidi fazer uma “faxina” nas gavetas, biblioteca, armários, e em todos esses lugares onde a gente costuma empilhar coisas. Dizem que nada como uma mudança (ou uma reforma) para nos livrarmos de coisas que, às vezes, são inúteis.

    Pois encontrei, no fundo de uma gaveta, uma crônica publicada aqui no Noroeste, com a data de 13 de junho de 1997. Ou seja, já se passaram 18 anos.

    O curioso, porém, é que naquele pequeno texto falávamos da visita que o então presidente argentino, Carlos Menem, fizera à cidade de Oberá, na fronteira com o Rio Grande.

    Na ocasião, houve mobilização também em Santa Rosa, e uma caravana seguiu para o país vizinho a fim de encontrar-se com o presidente Menem, liderada pelo presidente da Fenasoja, Sérgio Lunardi. A grande expectativa era sobre o anúncio da ponte sobre o rio Uruguai. Havia um clima de otimismo. A ponte estava mais próxima do que nunca!

    Pois veja só. Depois de 18 anos, o assunto continua como sempre esteve, ou seja, em banho-maria. Não deixa de ser interessante saber que esse é um tema que há três décadas surge e desaparece, e ressurge logo adiante. Parece um fantasma a nos atormentar. Atualmente, como diria o gaúcho, o projeto não é lento como tropeada de lesma, e sim parado como água de poço.

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    Projeto de Lei do deputado Juliano Roso, do PCdoB, reconhece o MUSICANTO como evento de relevante interesse cultural para o Estado do Rio Grande do Sul. O projeto foi aprovado por unanimidade pela Assembleia Legislativa na última terça-feira.

    Concretamente, a homenagem é relevante porque permite ao nosso festival, além de notório reconhecimento, buscar verbas públicas com o “selo” de qualidade e reconhecimento da Assembleia. Não é pouca coisa.

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    Afinal, o que representa, na prática, a redução do valor das Requisições de Pequeno Valor (RPVs) para 10 salários mínimos, aprovada na última terça-feira com o voto de minerva do presidente da Assembleia?

    Pois bem. Milhares de credores do Estado (a maioria deles servidores públicos), que esperavam por receber valores até 40 salários, vão ter que registrar esses valores em seus testamentos. Ou seja, talvez os filhos um dia recebam. Doravante, valores superiores a 10 salários serão todos tratados como precatórios.

    Além do lesar individualmente os cidadãos, o projeto tem repercussão nas contas do Estado. Ora, se o governo estadual comemora o aumento da fila dos precatórios, está dizendo, tacitamente, que não pretende pagar dívidas que foram reconhecidas pelo Poder Judiciário. O calote, portanto, é duplo, pois temos que lembrar que o Estado agiu injustamente (e por isso foi condenado). Nos próximos anos, o passivo se tornará tão gigantesco que, inevitavelmente, inviabiliza-rá o Rio Grande.

  • segunda-feira, 9 de novembro de 2015 06:44

    Alemão catofla

    É possível que muitos descendentes de germânicos não saibam, mas a Alemanha moderna somente se consolidou em 1871, quando foi formado o Império Alemão. Antes dessa data não existia uma nação alemã. O que havia era um grupo de estados que compunham a federação alemã, com leis e culturas diferentes. Eram 33 estados e quatro cidades-livres. Dizem que havia 300 entidades políticas na época, cada uma com um ponto de vista sobre questões políticas.

    A reunião dessa turma toda foi feita com mão-de-ferro pelo chanceler Otto von Bismarck, um dos políticos mais importantes da história europeia. O cara era bom mesmo. Afinal, consolidar e organizar o país com tanto alemão em volta não foi tarefa fácil.

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    Estou dizendo isso para lembrar que a colonização alemã no Rio Grande do Sul, iniciada em 1824 (191 anos atrás) deu-se num período em que, de fato, a Alemanha não existia. Para cá vieram hamburgueses, bávaros e hessianos. Só mais tarde é que esse movimento passou a ser chamado de “imigração alemã”, cujo propósito era colonizar e ocupar o Rio Grande.

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    Contam os historiadores que os primeiros alemães, na verdade, vieram com Pedro Álvares Cabral, e faziam parte de um grupo de artilheiros que acompanhava a esquadra, lá nos idos de 1500. Aliás, os primeiros textos a usarem a palavra “Brasil” são em alemão.

    Imagine o alemão chegando numa praia da Bahia e encontrando índias sem roupas. Depois do susto inicial, teria dito: “Quero ver a Frida andar assim na neve da Bavária”.

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    Atualmente, a Europa atrai imigrantes, mas nem sempre foi assim. Desde a metade do século 18 até os anos 60 do século 20, a Europa “exportou” mais de 60 milhões de pessoas que rumaram para o Brasil, Estados Unidos e Austrália, entre outros lugares. Esse deslocamento populacional tinha motivos sérios, como as guerras, a miséria, a hostilidade religiosa, as perseguições étnica e religiosa.

    E entre as inúmeras contribuições trazidas pelos alemães e que se incorporaram à vida dos brasileiros estão, além da cerveja e da Oktoberfest, a criação de suínos e a salada de batatas. Daí o apelido “alemão batata”, que é uma forma carinhosa de lembrar que eles (os descendentes, entre os quais me incluo) adoram batatas no prato, seja de que forma for. Batata-palha, batata frita, batata recheada, nhoque de batata, maionese de batata, purê de batatas, batata gratinada, e assim por diante. Viva a batata!

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    Não deu na imprensa (grande novidade!), mas o acordo firmado na visita feita por Ângela Merkel, ao Brasil, em agosto último, vai representar uma nova invasão alemã.

    Somente as fábricas da Audi, da Basf, e da Mercedes-Benz, representam investimentos de quase R$ 3 bilhões. Também os programas universitários envolvidos no acordo devem aumentar muito a circulação de estudantes entre os dois países. Ótimo. Vamos continuar comendo batatas. Ainda bem.