• terça-feira, 3 de fevereiro de 2015 09:29

    Mais energia

    A notícia quase passou desapercebida. Uma operação policial realizada na Lagoa do Quadros (perto do litoral gaúcho) apreendeu material de pesca que vinha sendo utilizado ilegalmente. Isso porque a apreensão se deu durante o período da piracema, em que a pesca está proibida.
    O mais surpreendente é que foram apreendidos 41.380 metros de rede! Isso são mais de 41 quilômetros! Praticamente a distância entre Santa Rosa e Porto Mauá.
    A malandragem (sem falar no desrespeito com a natureza) desta vez deu com os burros n’água. Digo, com a rede n’água. Vão responder processo pesado e pagar multa de valor considerável. Bem feito!
    O juiz federal de Santa Rosa concedeu a liminar que paralisa o processo de licenciamento ambiental da usina de Panambi. A decisão tem caráter provisório, é claro.
    A ação proposta pelo Ministério Público Federal foi notícia durante a semana, e nela está a acusação de que o lago da barragem atingiria parte do Parque Estadual do Turvo, onde também está situado o célebre Salto do Yucumã.
    Pensando bem, além de todos os outros danos ambientais das barragens, que já conhecemos, atingir um Parque Estadual já é demais.
    E por falar em geração de energia elétrica, até 2018 o Brasil vai gerar 15 gigawatts de energia somente com os parques eólicos que estão sendo construídos no Rio Grande do Norte, Piauí, Ceará, Bahia e Rio Grande do Sul. Atualmente a produção é de 5 GW, alcançando 12 milhões de pessoas.
    Para se ter uma ideia do que isso significa, esse volume de energia é maior do que o gerado pela usina de Itaipu. É uma grande mudança que está ocorrendo, de forma silenciosa. Até o final deste ano de 2015 o Brasil já estará entre os dez maiores produtores de energia eólica do mundo.
    A Alemanha é a líder mundial no aproveitamento de energia eólica e solar, denominadas “energias verdes”. O Brasil, com um litoral gigantesco, está seguindo o exemplo. Com o crescimento acelerado do setor, a energia eólica, em três anos, chegará a 10% da matriz energética brasileira.
    Na verdade, o modelo que contempla construção de usinas gigantes, como essas previstas para o rio Uruguai, já está ultrapassado.
    Muitos países do mundo adotam há algum tempo a estratégia de construir muitas pequenas usinas, praticamente sem impacto ambiental. Por outro lado, uma rede de pequenas usinas afasta o risco de colapsos no sistema.
    As barragens em questão foram pensadas no início da década de 70, mais ou menos 50 anos atrás. Será que suas premissas continuam válidas atualmente? Pergunta boa, não é?

  • sexta-feira, 23 de janeiro de 2015 09:58

    De tudo um pouco

    Pesquisas científicas recentes descobriram que um pãozinho francês tem mais miolo do que qualquer um dos participantes do BBB.
    Se você reza por gente atingida por desgraças na vida, está na hora de orar por aqueles que pagam para assistir ao Big Brother. Certamente, eles estão precisando de apoio espiritual muito forte...
    Como você já sabe, a expressão “Big Brother” tornou-se conhecida no livro “1984”, um clássico escrito pelo inglês George Orwell. O livro é um dos mais importantes e mais lidos do século XX, mas a quantidade de seus leitores não chega aos pés da audiência de apenas uma noite do programa da Globo.
    A expressão, que significa Grande Irmão, é uma metáfora para indicar o abuso do poder estatal que vigia e controla a vida privada dos cidadãos. A tecnologia atual está, em parte, comprovando o que o livrou previu. A privacidade é algo que está desaparecendo. E o que é mais interessante: a cada dia mais gente aparece mostrando a sua intimidade. Algo para Freud explicar, com certeza.
    Piadinha cretina. O cara encontra o amigo e convida para beber umas e outras no boteco conhecido como “Big Brother”. O amigo estranha o nome e pergunta:
    “Mas existem câmeras vigiando a gente?”
    “Não, não existe câmera nenhuma. Acontece que toda sexta-feira um frequentador é eliminado, geralmente por facada ou tiro. E quando a polícia chega, é todo mundo no paredão...”.
    Os juros para aquisição de casa própria subiram. O momento, portanto, é de análise cuidadosa antes de entrar em financiamento de longo prazo. Isso demonstra, como disse um amigo economista, que o melhor momento para comprar casa é o ano passado...
    Aliás, o que a economia nos mostra nesse início de ano é um processo de ajuste generalizado dos governos estadual e federal, o que envolve controle do orçamento público e da inflação. Evidentemente, isso significa más notícias. Dizem que dar notícia ruim ao eleitor nessa época é uma estratégia corriqueira, pois até a próxima eleição ele já terá esquecido. Para nós, portanto, resta confiar que essas medidas de austeridade resultem em equilíbrio econômico no futuro.

    Por isso mesmo, se você estava mergulhado no clima de alegre consumo, confiante de que isso nunca terminaria, tome cuidado. A hora é de analisar com cuidado as despesas futuras. Especialmente aquelas que comprometem o seu salário por meses a fio. Acho mesmo que jamais podemos cair na tentação e no impulso na hora de fazer compras. Não importa se a compra envolve um par de tênis ou um automóvel. Em qualquer situação, o raciocínio frio e calculista é sempre melhor do que o impulso.

  • terça-feira, 20 de janeiro de 2015 00:14

    Tempos estranhos

    Vivemos tempos estranhos, em que um atentado no centro de Paris suscita a preocupação de todos e desperta interpretações diversas. Afinal, o mundo está globalizado. O drama social da Nigéria e o dos cartunistas parisienses invadem a nossa casa. Será que o drama é mesmo religião ou apenas geopolítica? Perguntas para serem discutidas no programa Noroeste Debate, de amanhã, nas ondas da Noroeste AM.
    96% dos cientistas do mundo garantem que o planeta Terra está vivendo alterações climáticas preocupantes. Os outros 4% são aqueles que não acreditam nisso, ou que estão em dúvida acerca do que está acontecendo.
    Segundo o dramaturgo e ator americano Lewis Black, as pesquisas que apontam normalidade do clima vêm sendo financiadas pelo governo americano e por empresas petrolíferas. Para eles, o clima do planeta está ótimo e podemos continuar consumindo combustíveis fósseis nos próximos séculos.
    Em quem você aposta?

    A história é antiga. Quando o poder é questionado, ou se vê ameaçado, ele busca apoio e solidariedade interna. De preferência, elege (ou inventa) uma ameaça externa, e bingo! Seus problemas acabaram. Centenas de guerras entre vizinhos na história comprovam isso. Basta o governante provocar um atrito com forças externas, e, internamente, ele ficará fortalecido.
    A estratégia pode ser encontrada na obra de Maquiavel, e vem se reproduzindo mundo afora ao longo dos séculos. Durante quase cinco décadas os EUA e a União Soviética reinaram absolutos sobre um mundo dividido. Durante a guerra fria cada uma dessas potências era “dona” de metade do planeta.
    Mas, para desilusão de alguns, a União Soviética se dissolveu por conta dos conflitos no leste europeu e, subitamente, os EUA ficaram sem o seu tradicional e conveniente inimigo. E agora, o que fazer? A solução era encontrar um novo inimigo para manter a unidade interna e o apoio dos países amigos. E surgiu o terrorismo do 11 de setembro, aliás, muito bem vindo para quem lamentava o fim da guerra fria. Ele veio em boa hora, portanto. Ou será que foi criado e vem sendo alimentado? Perguntinha difícil de responder....
    O Ministério Público Federal está ajuizando ação em que deseja obrigar o Estado, a Fepam e o Ibama a elaborarem (e executarem) projetos de recuperação das áreas de preservação permanente nas margens do Uruguai.
    Sem entrar no mérito, cuja análise cabe à Justiça, a iniciativa soa estranha pois, atualmente, a preocupação é com os projetos de barragens, que podem redesenhar a fronteira com a Argentina e, evidentemente, também alterar profundamente as áreas de preservação.
    Não parece ter sentido estabelecer áreas de preservação que, em futuro próximo, serão eliminadas pela fronteira física dos lagos das barragens. Como se sabe, antes do represamento das águas as florestas que poderiam ser submersas são eliminadas, justamente para proteger o meio ambiente. Sei lá, mas não estou entendendo bem o objetivos disso tudo. Deve ser parte desse mundo estranho em que vivemos.

  • sexta-feira, 2 de janeiro de 2015 10:56

    Leituras de férias, muito além da cerveja

    Talvez você não acredite, mas há gente que não vê as férias apenas como momento para tomar cerveja e postar fotos no Facebook. E também há gente que não gasta suas férias vendo a escolha dos melhores do ano do Faustão. Ou seja, acredite, há gente que aproveita para ler aquilo que não conseguiu ler durante o ano, o que é um exercício altamente proveitoso para o cérebro. Por isso, além de lhe desejar um ótimo 2015, aqui vão algumas dicas de leitura para suas férias. Todos os livros indicados são lançamentos recentes. Ah, também pode bebericar uma cerveja, é claro..

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    A primeira dica é o livro “O último minuto”, que reafirma a qualidade do texto do escritor e tradutor Marcelo Backes (nascido em Campina das Missões). Hoje reconhecido nacionalmente, Backes é um autor que leva para a literatura as pessoas da nossa região, ou seja, da região de colonização (no caso do livro, os russos). Com um texto elaborado, a publicação da Companhia das Letras é um bom começo.
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    Para quem gosta de crônicas e textos reflexivos, a dica é o livro “A Menina Quebrada”, da jornalista Eliane Brun (nascida em Ijuí), que trabalha na Zero Hora e em outros importantes jornais brasileiros.
    A obra traz comentários e reflexões sobre o cotidiano, arte, política e relações entre as pessoas na sociedade agitada e frenética dos dias atuais. Eliane escreve com absoluta maestria, e cada texto é uma oportunidade para parar e pensar.
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    Chico Buarque (ele mesmo, o grande compositor) reafirma seu talento literário no livro “O Irmão Alemão”, que é um romance mas tem traços de autobiografia. Parece que a cada livro sua habilidade com o texto se torna mais evidente e cativante. O livro é divertido e o estilo primoroso, fazendo da leitura um grande prazer. Além de músico magistral, Chico Buarque, no seu sexto livro, firma-se como nome importante na literatura brasileira contemporânea.
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    Para finalizar, não posso deixar de indicar o livro mais lido e debatido este ano em todo o mundo, inclusive no Brasil. Um verdadeiro best-seller que está despertando debates em todo o planeta. Estou falando de “O Capital no Século XXI”, do francês Thomas Piketty, edição brasileira da editora Intrínseca.
    Na obra, Piketty analisa os últimos 200 anos da economia mundial, enfocando a geração de riquezas e a desigualdade entre as nações e, no plano doméstico, a desigualdade entre indivíduos de um mesmo país. A obra é para quem tem fôlego (quase 600 páginas), mas não é uma leitura apenas para especialistas em economia. Vale a pena, pois certamente será o livro mais discutido da década.
    Também vale aqui registrar a grande constatação do livro com base em números inquestionáveis, de que a desigualdade no mundo que cresceu nas últimas três décadas e nunca foi tão brutal quanto na atualidade. Nunca a riqueza do mundo esteve concentrada em tão poucas mãos. E deixa uma pergunta inquietante: essa realidade não é a mais séria ameaça às democracias?