• sexta-feira, 2 de janeiro de 2015 10:56

    Leituras de férias, muito além da cerveja

    Talvez você não acredite, mas há gente que não vê as férias apenas como momento para tomar cerveja e postar fotos no Facebook. E também há gente que não gasta suas férias vendo a escolha dos melhores do ano do Faustão. Ou seja, acredite, há gente que aproveita para ler aquilo que não conseguiu ler durante o ano, o que é um exercício altamente proveitoso para o cérebro. Por isso, além de lhe desejar um ótimo 2015, aqui vão algumas dicas de leitura para suas férias. Todos os livros indicados são lançamentos recentes. Ah, também pode bebericar uma cerveja, é claro..

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    A primeira dica é o livro “O último minuto”, que reafirma a qualidade do texto do escritor e tradutor Marcelo Backes (nascido em Campina das Missões). Hoje reconhecido nacionalmente, Backes é um autor que leva para a literatura as pessoas da nossa região, ou seja, da região de colonização (no caso do livro, os russos). Com um texto elaborado, a publicação da Companhia das Letras é um bom começo.
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    Para quem gosta de crônicas e textos reflexivos, a dica é o livro “A Menina Quebrada”, da jornalista Eliane Brun (nascida em Ijuí), que trabalha na Zero Hora e em outros importantes jornais brasileiros.
    A obra traz comentários e reflexões sobre o cotidiano, arte, política e relações entre as pessoas na sociedade agitada e frenética dos dias atuais. Eliane escreve com absoluta maestria, e cada texto é uma oportunidade para parar e pensar.
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    Chico Buarque (ele mesmo, o grande compositor) reafirma seu talento literário no livro “O Irmão Alemão”, que é um romance mas tem traços de autobiografia. Parece que a cada livro sua habilidade com o texto se torna mais evidente e cativante. O livro é divertido e o estilo primoroso, fazendo da leitura um grande prazer. Além de músico magistral, Chico Buarque, no seu sexto livro, firma-se como nome importante na literatura brasileira contemporânea.
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    Para finalizar, não posso deixar de indicar o livro mais lido e debatido este ano em todo o mundo, inclusive no Brasil. Um verdadeiro best-seller que está despertando debates em todo o planeta. Estou falando de “O Capital no Século XXI”, do francês Thomas Piketty, edição brasileira da editora Intrínseca.
    Na obra, Piketty analisa os últimos 200 anos da economia mundial, enfocando a geração de riquezas e a desigualdade entre as nações e, no plano doméstico, a desigualdade entre indivíduos de um mesmo país. A obra é para quem tem fôlego (quase 600 páginas), mas não é uma leitura apenas para especialistas em economia. Vale a pena, pois certamente será o livro mais discutido da década.
    Também vale aqui registrar a grande constatação do livro com base em números inquestionáveis, de que a desigualdade no mundo que cresceu nas últimas três décadas e nunca foi tão brutal quanto na atualidade. Nunca a riqueza do mundo esteve concentrada em tão poucas mãos. E deixa uma pergunta inquietante: essa realidade não é a mais séria ameaça às democracias?

  • sexta-feira, 26 de dezembro de 2014 17:19

    Ainda é Natal

    Então a vizinha foi visitar a família ao lado, justo quando as crianças da casa estavam aprontando os enfeites natalinos, e estranhou a existência de duas árvores de Natal cheias de luzes e bolas coloridas.

    “Que crianças maravilhosas! Enfeitaram a casa enquanto os pais saíram!”

    Os malandrinhos riram, compreensivos.

    “Mas porque aquela segunda árvore, a menorzinha?”

    “Árvore? Não, aquilo é a bisavó. Nós a enfeitamos porque ela sempre fica muito deprimida nesta época do ano”.

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    De todas as histórias e lendas que povoam a humanidade, certamente a história do nascimento de Cristo é uma das mais cativantes. A história do menino que nasce numa manjedoura emociona até o maior dos ateus. A dramaticidade é um ponto alto da história. Os pais não encontram alojamento, e Maria dá à luz o menino num abrigo de animais. Logo após, aparecem os anjos e os reis magos. Ou seja, a tristeza do momento foi logo superada pela grandeza dos visitantes. Tudo meio fantasioso mas, cá entre nós, muito mágico.

    Aliás, se você não acredita em magia, o melhor mesmo é esquecer essas histórias envolvendo o Natal. Para nos envolvermos com ele temos de abandonar a racionalidade e nos deixar levar pelo encantamento. Somente assim é possível.

    O caráter religioso do anjo, é compreensível. Mas eu jamais entendi os reis. Como foram avisados? Como sabiam que Jesus nascera naquele local? A estrela seria assim tão precisa na sua tarefa de indicar o caminho? E como se encontraram, pois conta a história que chegaram juntos ao local do nascimento. E por que escolheram aqueles presentes, sem saber o que o outro traria? Teriam se telefonado antes? E quando viram os presentes que traziam, o rei que trouxe o ouro sentiu-se lisonjeado pela importância do seu presente, ou sentiu-se traído pelos outros que trouxeram apenas incenso e mirra?

    Sei lá. Essa parte da história ainda me parece confusa. E fico a imaginar uma encruzilhada, nos desertos da terra santa, onde os três se encontram sem prévio aviso:

    “O que fazes por aqui?”, pergunta o primeiro.

    “Estou dando uma voltinha, a noite está tão bonita.”

    “Eu também saí para tomar ar fresco e, agora que encontrei vocês, me dei conta que já andei 1.300 quilômetros. Que coisa, não?”

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    Dizem que houve uma grande discussão no local em que foi encontrado o menino. O debate envolvia o nome com o qual ele seria batizado. Maria e José se viram bombardeados por sugestões dos primeiros visitantes que, afinal, vinham de terras distantes e queriam dar ao garoto algum nome que identificasse a sua região.

    Por muito pouco Jesus não se chamou Natalino...

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    Na última terça-feira, 23, um grupo de ciclistas fez um passeio pela cidade trajando aquelas típicas boinas de Papai Noel. O passeio, com certeza, tem algo a ver com a inauguração de parte da ciclovia que ligará o Bairro Cruzeiro ao centro de Santa Rosa. Talvez tenha sido uma comemoração. O pequeno trecho é experimental, conforme explicou o Carlos Lozekan. Agora é torcer que o trajeto seja completado. Vai valer a pena.

  • sexta-feira, 12 de dezembro de 2014 15:41

    Ah, o Natal!

    Dizem que somos eternas crianças, não importa a idade. O que muda é o preço dos brinquedos. Acho que é uma verdade incontestável. A criança que fomos nunca nos abandona. Ou você nunca sentiu uma vontade irresistível de brincar com o carrinho de lomba dos meninos da vizinhança? Aposto que sim.
    Pois é essa a imagem que tenho do Natal. Um tempo de brinquedos, em que esperamos a noite de festa para desembrulhar aquele pacote tão desejado.
    Azar dos papais e mamães que têm que providenciar os presentes, organizar a festa, convidar parentes e garantir os pagamentos, é claro. Tudo meio difícil de explicar para a criançada, que às vezes surge com a pergunta: “Se é o Papai Noel que traz todos esses presentes, para que serve o papai?”
    Eu, por exemplo, jamais entendi como o Papai Noel, gordão daquele jeito, consegue passar por uma chaminé. Vou morrer com essa dúvida torturante na minha cabeça.
    Há quem não goste do Natal, e em certa medida eles têm razão. É um período estressante, de correria. As festas que não aconteceram durante o ano acontecem em dezembro. As ruas e lojas estão cheias. A publicidade grita aos nossos ouvidos. As luzinhas vindas da China, do Vietnã ou da Indonésia piscam em todo lugar. Pelo menos até a virada do ano elas sobrevivem. Depois, é lixo. A TV repete pela centésima vez aqueles filmes edificantes sobre o velhinho vestindo vermelho e a esperança de um mundo melhor.
    O Roberto Carlos reaparece das cinzas. Ele é uma espécie de fênix, que desaparece mas ressurge no Natal como mágica, me levando a suspeitar que aqueles filmes de zumbis têm algum fundo de verdade. E ainda temos de ouvir a Simone repetindo: “Então é Natal.....”
    Possivelmente este ano também veremos algum show televisivo daquele cantor de músicas natalinas, o Michel Trenó.
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    Dizem que o Papai Noel, antigamente, vestia azul. Mudou para o vermelho por conta de lobby da Coca-Cola. Todo Papai Noel deveria cobrar um extra da Coca-Cola pelo serviço gratuito dessa época do ano.
    Mas a cor não tem qualquer importância. O estranho mesmo continua sendo vestir roupa de inverno no nosso verão abrasador, e ainda lançar flocos de isopor imitando neve. É dose...
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    Não precisa encher sua casa de pisca-pisca. Quem nasceu nesse mês foi Cristo, não Thomas Edison.
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    Perdoe a si próprio pela comilança de dezembro. É uma necessária interrupção no seu controle alimentar. Pois, na verdade, o que engorda não é o que você come entre o Natal e o Ano Novo, e sim o que você come entre o Ano Novo e o Natal.
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    Mas para aliviar o estresse basta lembrar das crianças. Afinal, são elas que, de fato, mostram a alegria de que tanto se fala nessa época. Elas nos devolvem àquele tempo do qual nunca nos separamos. Por isso, seremos sempre crianças. Ainda bem.

     

  • sexta-feira, 5 de dezembro de 2014 15:11

    Mudanças em 2016?

    Acho que em 2016 o grande debate será a reforma política. Mais objetivamente falando, a reforma dos financiamentos das campanhas eleitorais.
    O grande problema é que quem financia a campanha governa junto com o eleito. Afinal, ninguém dá milhões de reais a um candidato simplesmente porque acha o cara simpático. Na verdade trata-se de um compromisso recíproco que tem consequências ao longo do tempo. A operação Lava-Jato mostrou a realidade que já conhecíamos há séculos, mas que nunca tinha se tornado tão pública. Pelo menos, não tão óbvia. Agora o Brasil discute alterações nessas regras.
    Mas temos um elemento complicador. O Congresso atual foi eleito pelas regras vigentes (muito dinheiro privado). Você acha que os congressistas querem mudar aquilo que os favorece?
    Eu duvido muito....
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    Uma mudança na lei vai representar um duro golpe nas velhas práticas da política brasileira (clientelismo, nepotismo, coronelismo, etc). Mas a desconfiança já existe. O Congresso não vai colaborar para que isso aconteça.
    Para que alguma coisa se torne real, só mesmo a pressão pública, e quando falo pressão pública temos que entender manifestações, organizações não-governamentais, OAB, CNBB, sindicatos e assim por diante.
    Se isso não acontecer, o Brasil continuará do mesmo jeito, fazendo de conta que muda, porque, afinal, os que desejam mudanças não são tantos quantos imaginamos.
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    Um ano atrás a OAB entrou com ação no STF questionando o financiamento empresarial de campanhas eleitorais. Os custos da eleição deste ano chegaram a espantosos R$ 5 bilhões! Praticamente tudo pago por empresas.
    Pois bem. No STF, com 6 votos já favoráveis, o ministro Gilmar Mendes pediu vistas e sentou sobre o processo que está parado há 6 meses. Eu disse seis meses!
    Seis meses para ler um processo que poderia ser lido em um dia. O ministro é um cara que lê muito devagar...
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    Mudando de assunto, mas voltando a um tema bem batido. Continuam as reuniões organizadas pela empresa contratada para a elaboração dos cadastros dos atingidos pelas barragens do complexo Garabi-Panambi.
    Consta que o cadastro deve ser concluído até 2017 (pelo menos é o que diz o cronograma). Só então é que o governo brasileiro saberá o real valor a ser investido. Até o momento, sem saber o que e quanto indenizar, o governo não tem a menor ideia do montante do empreendimento total.
    Com todo esse levantamento nas mãos (especialmente os dados financeiros), restará ao governo decidir o que fazer. Se o orçamento comportar e a obra for autorizada, 2018 será o ano em que tudo terá início.
    O tal cadastro é que definirá, enfim, a questão crucial para os moradores da região atingida, ou seja, o valor das indenizações. Há um grande número de fatores e variáveis a serem considerados. O valor final tem a ver com área construída, espécie de construção, área de proteção permanente, área privada e área pública, e assim por diante.
    Até lá teremos muita ansiedade e até alguns bate-bocas. Mas o fato é que hoje estamos na fase de levantamento de dados. E também sabemos que há muito espaço para o diálogo e a negociação. Mantenhamos a calma, pois.