• sábado, 19 de março de 2016 10:28

    Alto nível

    Quando falamos em diversas oportunidades que a leitura é algo importante para as pessoas e para o país, parece que estamos fazendo chover no molhado. Todos concordam com isso, mas é como se dissessem: “O problema é dos outros”. Sem falar nas velhas desculpas como “não tenho tempo”, “passou minha época de ler livros” etc.

    Há muitos anos a média de leitura dos brasileiros é a mesma, ou seja, quase nenhuma. Em média, não lemos dois livros por ano por habitante. Por isso mesmo, o nível dos comentários, por exemplo, no Facebook, é de chorar. Eles são o espelho dessa realidade sem livros e sem leitura. O espaço virtual das redes sociais abriga milhares de “comentaristas” que não entendem nada e são especialistas em agredir a língua portuguesa. E só.

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    Pois uma pesquisa organizada pela Unicamp, feita no final do ano passado, classificou os brasileiros em idade de trabalhar quanto à sua capacidade de entender e se expressar por meio de letras e números. O resultado é o seguinte: analfabetos (4%), rudimentar ou analfabeto funcional (23%), elementar (42%), intermediário (23%) e proficiente (8%).

    Um indivíduo “proficiente” é capaz de compreender e elaborar textos diferentes, além de ser capaz de opinar sobre o posicionamento ou estilo de um autor. Ele também é capaz de desenvolver planejamento, controle e elaboração de um projeto. Além disso, compreende gráficos e outros elementos textuais que permitem conhecer uma realidade.

    A regra é que uma pessoa com 12 anos de escola deveria estar nesse grupo.

    O que a pesquisa concluiu é que o grupo “proficiente” é muito pequeno, uma elite intelectual. São essas pessoas que, em tese, têm o hábito da leitura e se dão bem em seus empregos. Suas habilidades cognitivas, desenvolvidas através dos livros, os diferenciam do restante da população.

    Ocorre que essa classificação quanto ao desempenho intelectual tem a ver com as desigualdades econômicas do Brasil, obviamente. Mas também é resultado de uma certa indiferença com as letras, o que nos torna um país tido como “iletrado”. O livro não é um valor para a maioria das pessoas.

    Só para provocar, observe à sua volta. Veja quantas residências possuem livros. E quando você estiver em uma festa de aniversário, preste atenção no número de livros que serão presenteados ao aniversariante. Como regra geral, nenhum. Existe a ideia generalizada de que livro não será valorizado como presente.

    Enquanto isso, continuamos sendo apenas um país do futuro.

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    Fernando Keiber, além de formação superior em música, é atuante como produtor cultural em todo o Rio Grande. Pois o “Nando” decidiu assumir o Musicanto. Quando percebeu que a coisa estava emperrada, ele disse:

    “Deixa comigo!”

    Temos, pois, a garantia de que o Musicanto deste ano acontecerá, e com nível de qualidade de fazer matar as saudades das boas edições passadas. Menos mal, já que a vida cultural da cidade anda bem fraquinha.

  • sexta-feira, 4 de março de 2016 15:03

    Ninguém se deu conta

    A atual avalanche de notícias envolvendo questões político-partidários parece ter criado uma névoa sobre temas nacionais que realmente são importantes. Há, sem sombra de dúvida, um movimento antinacional por aí, especialmente no Congresso Nacional.

    Além da votação da emenda de José Serra (que entra para a história como um notório entreguista) que retirou da Petrobras a exclusividade na exploração do pré-sal, há outros projetos em tramitação que têm como objetivo enfraquecer as empresas públicas.

    Isso envolve a transformação dessas empresas em sociedades anônimas, colocando-as na mira de tiro da privatização, como a CEF, os Correios, o BNDES etc. Lembrando que Fernando Henrique Cardoso foi capaz de vender a preço vil a siderurgia e o minério brasileiros (vide CSN e VALE), não podemos duvidar de nada do que está sendo preparado por debaixo dos panos. O que vemos no futuro é um ambiente perigoso para a soberania do Brasil.

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    Talvez essa névoa que encobre os temas realmente importantes seja proposital. Algo que tem como objetivo confundir e retirar do debate público as questões vitais para a nação. Aliás, essa estratégia também não é novidade na nossa história.

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    Ninguém se deu conta, por exemplo, que a privatização do pré-sal, mesmo parcial, além de entregar uma fortuna incalculável ao capital estrangeiro, representará a quebra da soberania sobre o mar territorial brasileiro.

    Ninguém se deu conta (ou não lembra) que os recursos do pré-sal foram objeto de grande debate anos atrás, e ficou decidido, com aval da presidente Dilma, que essas rendas seriam aplicadas em educação e saúde. Pelo andamento das coisas, muito pouco disso acontecerá.

    Ninguém se deu conta de que a privatização de bancos públicos representará a desregulamentação total do mercado financeiro. Se hoje o cidadão é expoliado e desrespeitado, imagine o que pode acontecer no futuro.

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    Agora, mudando de assunto, uma dica para os amantes do cinema. A premiação do OSCAR é estritamente americana (não é o mundo do cinema, bem entendido), mas alguns dos premiados se sobressaem pela qualidade e pela temática.

    Anote a dica.

    O filme “Spotlight” envolve uma investigação sobre pedofilia na Igreja Católica, um belo trabalho. “O quarto de Jack” é sensível e inteligente, digno de uma análise sob o ponto de vista da psicologia. Considero o melhor desta safra.

    Já o filme “Ex-Machina” traz uma interessante reflexão sobre a relação homem-máquina que deve acontecer num futuro não tão distante. Também digno de nota é “A Garota Dinamarquesa”, que conta a história do primeiro ser humano que mudou de sexo, um tema bem contemporâneo.

    E para quem gosta do gênero aventura, vale assistir “Os oito odiados”, “O regresso” e “Mad Max: Estrada da fúria”, especialmente pelo suspense e pelos efeitos especiais que só o cinema é capaz de mostrar. Prepare a pipoca.

  • sábado, 27 de fevereiro de 2016 11:41

    Burocracia

    A palavra burocracia vem do francês “bureau”, que designa a mesa de trabalho. Daí, combinando “bureau” e “cracia”, temos o “poder da escrivaninha”.
    Pois agora o Senado Federal criou comissão que está estudando medidas legais para simplificar a vida do brasileiro, eliminando exigências absurdas de documentação, especialmente quando envolve a relação entre o cidadão e o poder público.
    Em 1979 o Brasil criou o Ministério da Desburocratização. Não durou dez anos. Chegou a eliminar a exigência de reconhecimento de assinatura em muitos documentos, mas logo a mania cartorial acabou com a iniciativa. O reconhecimento de assinatura está em toda a parte, como uma praga incontrolável. Sem falar nas incontáveis certidões que o cidadão se vê forçado a fornecer em todos os lugares.
    Estamos rezando para que a nova Comissão tenha êxito.
    A burocracia, em si, não é má, pois ela envolve a organização do Estado, com funções definidas e com objetivo de servir a nação. O que espanta é que a burocracia se torne um poder paralelo, comandado pelas instâncias inferiores do Estado. Aliás, não é só no setor público. Conheço empresas privadas que conseguem até mesmo espantar clientes e empregados tal o nível de burocracia que lhes impõe.
    A “arraia miúda”, quando quer emperrar o funcionamento de um projeto, por exemplo, é muito eficiente. Basta fazer uma “operação padrão”, levando as exigências legais às últimas consequências. Experimente legalizar um telhado que você fez ao lado de casa para abrigar o automóvel. Você experimentará o inferno!
    E um projeto pequeno de criação de porcos na sua propriedade rural!
    E um projeto de prevenção e combate ao incêndio!
    E um financiamento de imóvel próprio!
    São exemplos singelos de como a burocracia exacerbada é capaz de torturar o cidadão.
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    Os casos mais espantosos são aquelas inúmeras situações em que você vai fazer um simples requerimento aos órgãos públicos, entregando documentos diversos, e que incluem a sua assinatura reconhecida em Cartório. Ora, você está presente, com sua carteira de identidade, diante do servidor, e mesmo assim precisa que o Tabelião reconheça a sua assinatura! É bizarro!
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    Observe os balcões burocráticos. É um lugar onde o cidadão se vê impotente e humilhado. As frases que ele mais ouve são sempre desestimulantes:
    “Isso não pode!”
    “Tem que trazer três vias”.
    “Só depois de pagar as taxas”.
    “Vou marcar para a semana que vem”.
    “Estão faltando as certidões”.
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    E o chefe informou aos funcionários:
    “A partir de agora, nesta empresa, adotamos medidas para acabar com a burocracia”.
    “E quais são elas?”, perguntou alguém.
    “Ah... pergunte à minha secretária, que vai preencher um formulário em três vias e encaminhá-lo aos setores competentes...”

  • sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016 11:42

    Rescaldos do Carnaval que não houve

    Acabou o Carnaval (que em Santa Rosa não existiu). É como uma barreira no tempo. Todos esperam o carnaval. Alguns para fazer a festa, outros para que essa barreira seja ultrapassada e, enfim, começar o ano. A folia é um marco temporal.

    Mesmo sem evento na cidade, alguns blocos se organizaram e partiram para a folia em cidades da região, como Três de Maio, Horizontina, Ijuí e Santo Ângelo. O turismo, o dinheiro e as pessoas se deslocaram e Santa Rosa ficou vazia. Lamentavelmente.

    Carnaval não se faz por decreto. É preciso criar a tradição. É descabido dizer: “Esse ano não faremos. No ano que vem faremos”. Assim não dá.

    Desde criança sempre achei muito criativa a escolha dos nomes dos blocos carnavalescos. Alguns são históricos em capitais do Brasil. No Rio de Janeiro, o “Bloco das Carmelitas” surgiu de uma lenda (ou seria fato?) segundo a qual as freiras pulavam o muro do Convento para as festas de Momo. Em Recife, o famoso “Galo da Madrugada” é considerado o maior do mundo. O “Bola Preta”, no Rio, arrasta uma multidão pois não exige fantasia.

    Pois aqui em Santa Rosa também tivemos blocos (pequenos, é claro) que marcaram época e estão na lembrança de seus integrantes (hoje respeitáveis senhores e senhoras). Surgem, na memória, nomes como “Bloco Modelo 15”, “Lança Perfume”, “Xoxoteros”, “Banho de Cheiro”, entre outros.

    Mas alguns nomes estão à espera de pessoas dispostas a se organizaram para o próximo ano. Deixo aqui algumas sugestões. “Unidos da Ponte de Mauá”, por exemplo, poderia reunir um grande grupo já com uma certa idade. “Unidos do Engov” pode agregar qualquer folião. “Com barragem ou sem barragem não largo da beberagem” (para os futuros atingidos).

    Também teriam grande adesão blocos como “Libera o PPCI” (com participação do Corpo de bombeiros), “Manda a foto lá pra casa” (fantasia de policial rodoviário com radar), “Olvidei mi mujer no Posto Ypiranga” (bloco que teria participação ativa de hermanos argentinos), “Cachorro de madame” (com participação dos 50.000 cachorros de raça que existem na cidade) e “Mostra o fundo que eu libero o benefício” (esse bloco existe no Rio, com claro duplo sentido, formado por funcionários do INSS).

    E ainda temos como sugestão os blocos “Meu bem, volto na quarta” (imagine a briga!) e “Melhor aqui do que na UTI” (é claro!).

    Um amigo, ao ser perguntado se brincaria no Carnaval, respondeu sem pestanejar:

    — Estou no bloco “Unidos da hérnia de disco”.

    O líder do grupo deve ser um quiroprático....

    O número de multas de trânsito durante o Carnaval, no Rio Grande do Sul, deve chegar a uma marca história de cerca de 5.000. Ou algo próximo disso. Pois o folião multado recebeu a maldita notificação das mãos do guarda, sorriu, deu um tapinha amistoso no ombro do policial e saiu cantando: “Eu chorarei amanhã, hoje eu não posso chorar....”