• sexta-feira, 7 de novembro de 2014 15:05

    Reflexão eleitoral

    Superado o clima da eleição, com a poeira baixando, me aventuro em algumas reflexões que não poderiam ser feitas no calor da hora. Às vezes, é melhor esperar passar o nevoeiro.
    No Rio Grande do Sul o mito de que somos um Estado politizado parece que virou pó. Tivemos uma campanha sem debate. Duvido que a história gaúcha registre fato semelhante.
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    O jornalismo brasileiro está mergulhando em uma profunda reflexão. Neste pleito os donos da grande mídia expuseram-se. Passou o tempo em que eles defendiam a tal “imparcialidade”. A revista Veja, por exemplo, que já foi respeitável, assumiu de vez seu perfil de simples panfleto partidário. Hoje é um veículo que zomba da democracia. Talvez por isso esteja recebendo o desprezo dos leitores.
    O ano de 2015 servirá para a construção de uma nova postura jornalística. Os profissionais da área (nem todos, é claro) estão preocupados com a respeitabilidade e a responsabilidade social de seu trabalho. A eleição serviu para revelar as distorções. A crise da imprensa brasileira pode gerar um novo jornalismo, melhor do que o temos aí.
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    Em 1832, quase duzentos anos atrás, na Inglaterra, houve grande alarido sobre a proposta que estendia o direito de voto aos homens adultos que fossem donos de prédios urbanos. Foi a chamada “Reform Bills” inglesa. A proposta aumentava o número de eleitores, embora deixasse de lado 95% da população, que continuaria sem votar. Na ocasião, a aristocracia inglesa protestou com veemência. Eles achavam um absurdo, e algo muito perigoso, estender o voto a “tanta gente”.
    Citei o caso inglês apenas para dar uma ideia do quanto a democracia se consolidou no mundo ocidental desde então. Hoje o sufrágio universal está garantido na grande maioria das constituições.
    Para minha perplexidade, após as últimas eleições ouvi por aqui manifestações do tipo “pobre e nordestino não deveriam votar”, ou então “o bom mesmo era a ditadura”. Essas ideias, ingênuas e atrasadas, talvez fossem ouvidas na Inglaterra. Mas lá em 1832, é claro.
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    O voto feminino no Brasil é algo a ser estudado. As mulheres adquiriram o direito de voto em 1932, após uma longa batalha. E mesmo assim esse direito só foi concedido às mulheres casadas (que precisavam da autorização dos maridos), às viúvas e às solteiras que tivessem renda própria.
    Interessante é lembrar que a luta pelo voto feminino começou no Rio Grande do Norte, cinco anos antes, em 1927, quando quatro cidades passaram a aceitar o registro de eleitoras. Também foi no Rio Grande do Norte a eleição da primeira prefeita. Em 1929 a cidade de Lages elegeu Alzira Soriano como a primeira prefeita do Brasil.
    A experiência potiguar mostra que o nordestino está mais habituado ao voto do que imaginamos. Antes mesmo do restante do Brasil, onde a presença feminina nos partidos ainda é tímida, passados 82 anos da importante conquista. Está provado que as mulheres têm contribuição importante para a política. Por isso, é uma pena essa presença tão diminuta.

  • segunda-feira, 3 de novembro de 2014 08:17

    Juntos e separados

    A conversa é antiga, mas verdadeira. Por isso, vale a pena voltar a ela. As tecnologias que invadiram nossa vida são fascinantes, algumas verdadeiras maravilhas, mas estão modificando nosso comportamento e até afetando nosso cérebro.
    Não, não sou inimigo das tecnologias. Também estou mergulhado nelas, mas às vezes fico preocupado. Explico.
    Na Alemanha, um estudo minucioso comprovou que uma em cada três pessoas sente-se insatisfeita com a própria vida logo após acessar a rede social. A rede, com seu exibicionismo explícito, causa ressentimentos e inveja. Homens gostam de postar conteúdo promocional (suas realizações) e as mulheres destacam sua aparência pessoal e vida social. Embora a inveja seja um sentimento universal, a rede social tornou-a visceral. As pessoas experimentam frustração ao ver a “felicidade” dos outros.
    Já nos EUA, a Universidade de Michigan revelou que as redes sociais (no caso do estudo, o Facebook) têm relação direta com o bem estar psicológico das pessoas. Resumindo a conversa, quanto mais uma pessoa usa o Facebook, menos satisfeito é com a vida. Em geral, ela se dedica ao Facebook quando se sente solitária.
    O estudo também comprovou que, nos intervalos, quando interagem com outras pessoas, o nível de satisfação e o bem estar aumenta. Num grupo de pessoas (sem os “smartphones”, é claro), tendemos a prestar atenção nelas, ouvir o que têm a dizer, e por isso nos sentimos mais felizes.
    Essa sensação de bem estar tem a ver com a sensação de “estar presente”, de estar “focado” e concentrado. As novas tecnologias, ao contrário, têm como característica a distração e a dispersão de nossa mente.
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    Navegamos num oceano de imagens e publicações, mas isso não significa que nossa vida esteja melhor. Um sociólogo observou crianças na saída da escola durante meses, e descobriu algo assustador. A maioria delas era dominada por um sentimento de frustração e tristeza ao ver que os pais não observavam a porta de saída da escola, e sim os seus próprios “smartphones”. Não há, mesmo, como não ficar triste.
    A distração da tecnologia é um fenômeno que vem preocupando professores em todo o mundo. O clima em sala de aula, por exemplo, é assustador. E um grupo de jovens, lado a lado, mergulhados em seus “smartphones”, será que podemos chamar de convivência?
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    Mas, por incrível que pareça, já existem aplicativos para celulares e computadores que ajudam as pessoas a “esquecer” um pouco esse mundo de distrações. São pequenos programas que impedem, por exemplo, que você acesse a rede social no horário comercial. Outros impedem que você abra diversos programas no computador pessoal, ou seja, você só pode fazer uma tarefa de cada vez.
    Um dos programas permite que você defina o período de tempo que ficará ligado na rede social. Atingido o limite, o programa simplesmente desconecta-o da rede. E não adianta esbravejar. Ele só permitirá nova conexão após um longo período.
    Para alguns amigos, isso será enervante, eu sei. Mas, acreditem, muito útil.

  • sábado, 25 de outubro de 2014 11:13

    Morrer é complicado

    Tempos atrás nascíamos e morríamos dentro de casa, cercados por familiares e parentes. Hoje, a coisa mudou. Nascemos e morremos em hospitais.

    Talvez porque vivemos hoje em apartamentos, mas também porque, em tese, hospitais são mais assépticos, escondem o horror do fim. Livramo-nos do constrangimento. Familiares e amigos ficam sabendo da nossa morte pelos anúncios de rádio e jornal. Ou pela internet. É uma morte muito bem comportada, enfim. Um cadáver é uma coisa estranha, não combina com as residências modernas.

    E a velha morte é sempre uma novidade. Comentamos o fato e viramos as costas. No máximo, um comentário mais vulgar do tipo “bateu as botas”, “esticou a canela”, “foi para a cidade dos pés juntos”, e assim por diante.

    O alemão Schopenhauer dizia que o homem descobriu a morte e, com ela, a filosofia, o pensamento metafísico. É o que nos diferencia dos animais. Sabemos que vamos morrer e nos angustiamos com o que fazer com o tempo. O tempo que temos é restrito. Isso é uma droga!

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    No imaginário popular a morte tem várias formas, embora a maioria não consiga escolher como morrer. No Rio Grande do Sul ficou famosa a expressão “morte matada” para dizer que o sujeito foi morto por algum desafeto, de facada ou tiro. Mas também temos a morte de “desgraça” para falar do suicídio.

    Também falamos que o cara morreu “como um passarinho”, seja porque a morte foi rápida e digna, ou porque morreu de velhice (“apagou”). É a morte que todos gostaríamos de ter. Isso lembra o bêbado que entrou no velório e indagou:

    “Como morreu o finado?”

    “Morreu como um passarinho...”

    “Então, foi pedrada?”

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    Mas há quem garanta que é melhor ser um bundão vivo do que um valente morto. Talvez por isso que os valentes gostam de lápides cheias de pompas e elogios. Confesso que não vejo graça nenhuma nisso. Pois elogios, se são úteis enquanto estamos vivos, são absolutamente inúteis depois que morremos. Pelo menos para o finado.

    Houve um tempo em que um morto ilustre, ou rico, recebia um mausoléu em sua homenagem. Hoje, até a cremação nos atrai. Talvez porque nossa forma de ver a morte esteja mudando, o que não deixa de ser bom. Não haverá espaço no planeta para tantos túmulos, obviamente.

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    Ao contrário do que você possa estar imaginando, este texto não tem nada a ver com a eleição, embora saibamos que ao final de um processo eleitoral existam mortos e feridos. Ocorre que os políticos, contrariando as leis biológicas, têm a estranha capacidade de ressurgir das cinzas. Aguarde o próximo pleito e verá.

  • sexta-feira, 10 de outubro de 2014 15:00

    Rescaldo

    Não há como fugir do tema. As eleições poderiam ser algo corriqueiro na nossa democracia, mas ainda é traumatizante. E surpreende ver pessoas que perdem a pose, literalmente, quando o assunto é política, revelando, no bate-papo ou nas redes sociais, um inexplicável ódio. Sinal de que vida democrática ainda não faz parte de seu cardápio diário.

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    Quando, em 2013, ocorreram aquelas manifestações públicas Brasil afora, todos imaginavam que as urnas de 2014 trariam novidades para o quadro político. Houve quem imaginasse profundas transformações e novos ares para a vida pública.

    Abertas as urnas, a decepção foi profunda.

    Quer ver? A Câmara Federal, por exemplo, tem na sua nova composição nada menos que 248 milionários (quase 50%)! A informação toma como referência as declarações de bens dos eleitos à Justiça Eleitoral. No topo da lista está o PMDB com 39 milionários, seguido do PSDB com 32, PSD (24), PP (23) e PR (18).

    Ou seja, caro leitor, temos de admitir que nada mudou e não mudará.

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    Aliás, é incrível o número de candidatos que se dizem protagonistas da mudança. Eles aparecem em todas as eleições. Sempre desconfiei deles. Quem se intitula agente da mudança, na verdade deseja apenas que tudo continue como está, pois assim lhe é mais conveniente. O argumento da mudança, na verdade, é um auto-engano.

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    Repete-se a reclamação acerca dos votos obtidos por candidatos “paraquedistas” em Santa Rosa e municípios vizinhos. Alguns são absolutamente estranhos. Outros (imagino eu) sequer sabem onde fica Santa Rosa.

    O que está acontecendo? Nossos partidos são frágeis? Nossos candidatos são inconsistentes? Ou os cabos eleitorais daqui estão cobrando muito por seu trabalho? Não tenho a resposta. Aliás, são as lideranças locais devem procurá-la.

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    Concordo que a campanha foi bem comportada. Pouco barulho e pouca poluição visual. Tudo por conta da legislação rigorosa. Há quem goste, mas confesso que sinto saudade daquela alegre “bagunça” das eleições de outros tempos.

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    Vivemos na chamada “sociedade do espetáculo”, assim definida pelo escritor francês Guy Debord. O livro foi publicado em 1967, e desconfio que ele tinha razão.

    Talvez por isso as eleições deste ano conduziram a diversos cargos políticos pessoas que se tornaram conhecidas no mundo do espetáculo, como cantores, jogadores de futebol e atores de TV. Aqui no Estado duas figuras proeminentes da TV se candidataram em meio a muita polêmica, como você bem sabe.

    No centro do país, foram eleitos o Tiririca, Romário, Russomano e Bebeto, entre outros. A vida política se transforma num espetáculo. Apenas um espetáculo, lamentavelmente.