• domingo, 24 de maio de 2015 09:34

    Barragens à vista

    As rádios argentinas estão divulgando um áudio publicitário envolvendo a construção das barragens de Garabi e Panambi. O áudio é longo, tem cerca de cinco minutos. Diz, entre outras coisas, que todos os direitos dos atingidos serão respeitados e que o meio ambiente não sofrerá agressão.

    A iniciativa tem objetivos óbvios. Como a resistência às barragens, do outro lado do rio, é muito forte, começou a campanha de contrapropaganda.

    Isso significa que a partir de agora entramos num outro terreno, num outro clima. A guerra de interpretações e convencimentos começou. Por outro lado, o movimento dos atingidos por barragens continua trabalhando em sentido contrário.

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    Existe, ainda, o aceno dos “royalties” que serão destinados às prefeituras dos municípios atingidos. Alguns políticos sonham com valores altos, mas a coisa não é bem assim. Talvez seja apenas um ilusão.

    Segundo dados da Eletrobrás, a usina de Panambi vai gerar cerca de R$ 55 mil para cada município. O movimento dos atingidos pelas barragens faz uma comparação bem simples. Essa “receita” é a mesma proporcionada por 300 vacas leiteiras. O valor, se confirmado, é pequeno, muito pequeno.

    Isso resolve alguma coisa? Duvido.

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    A audiência pública realizada em fevereiro, em Porto Mauá, parece já ter dado algum resultado. O Ministério Público Federal passou a acompanhar tudo o que está acontecendo.

    Entre os diversos questionamentos (além da questão da proteção à reserva do Yucumã) está a real necessidade de geração de mais energia. Os promotores querem descobrir, com clareza, o quadro energético do sul do Brasil.

    A bacia do rio Uruguai, formada pelos rios Canoas e Pelotas, conta com sete hidrelétricas de médio e grande porte já construídas: Itá, Machadinho, Barra Grande, Campos Novos, Monjolinho, Foz do Chapecó e Passo Fundo. Do lado argentino, há pouco tempo foi inaugurada a gigantesca barragem de Yaciretá.

    Ou seja, já estamos cercados por barragens. Aí está a dúvida. Precisa mais?

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    Temos que admitir. A questão das barragens, além dos aspectos econômicos propriamente ditos, tem um componente sentimental.

    De modo especial para nós, que vivemos próximos à fronteira, o Uruguai representa belas paisagens e histórias envolvendo pescarias, balseiros e contrabandos. Tudo isso mexe com a nossa imaginação, nossas memórias e nossos sentimentos.

    Sabemos, também, que as barragens significam o fim do rio Uruguai. Em quase toda a extensão da fronteira Brasil-Argentina haverá apenas lagos e reservas. O rio que move nossa imaginação estará morto.

    Apenas não sabemos em que data dará seu último suspiro.

  • sexta-feira, 15 de maio de 2015 16:46

    Coisas da cidade (e dos livros)

    Tem Feira do Livro na praça da Bandeira. Pois bem. Não vou estender a conversa acerca da importância do livro, esse velho companheiro da humanidade. Você sabe muito bem disso.

    Hoje temos até mesmo livros digitais, que são úteis em algumas circunstâncias. O surpreendente, mesmo, é a paixão das pessoas pelo livro em papel. Já ouvi amigos dizerem que, tão bom quanto o conteúdo, é o cheiro do papel. Eu mesmo já me flagrei cheirando livros em livraria.

    O hábito de manusear livros é tão arraigado que ele, o livro, sobrevive num tempo em que tudo parece virtual, até os negócios, até os amores.

    Pois abrir o livro resiste a esse mundo célere, marcado pela pressa, pela urgência. Abrir um livro e beber um mate nos parece sinônimo de felicidade.

    Concordo plenamente.

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    A ciclovia, que gerou polêmica e algumas resistências, finalmente está consolidada. A utilização é crescente. Aliás, também é crescente o número de ciclistas na cidade motivados por aquele espaço físico. Até ha pouco tempo muitos expressavam o medo de transitar com bicicletas. Pois este medo acabou.

    É visível, também, que os motoristas já se acostumaram com a ciclovia ao lado da pista no sentido bairro-centro. Era apenas uma questão de tempo.

    A ciclovia veio para ficar. E é muito bem vinda, diga-se.

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    Hoje à noite, no Hotel Imigrantes, os advogados da região estarão reunidos para palestra e debate sobre o novo Código de Processo Civil.

    Embora seja um tema de interesse direto do mundo jurídico, ele alcança a toda a população. O judiciário abarrotado, lento e quase paralisado que temos hoje preocupa a todos os brasileiros. Se você reclama do Legislativo e do Executivo, nem queira saber do caos do Judiciário.

    Existe a esperança que o novo código, que entra em vigor no início do próximo ano, contribua para a agilização e efetividade da prestação jurisdicional. O Brasil precisa disso.

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    O programa vale-livro, da Prefeitura, destinou vales de R$ 15,00 para os estudantes e de R$ 20,00 para professores. Eles certamente serão “descontados” na Feira do Livro, beneficiando muita gente.

    Pois convido você a fazer uma comparação simples, mas provocativa. No último Gre-nal, em Porto Alegre, uma cadeira bem posicionada no Beira-Rio custou R$ 400,00. Levando a esposa, o torcedor pagou R$ 800,00.

    Com tal valor daria para comprar, por exemplo, 26 livros de R$ 30,00. O que você acha?

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    Gosto da frase atribuída ao Joseph Conrad, que disse: “O autor só escreve metade do livro. A outra metade é completada pelo leitor”.

    É fácil de entender. Cada leitor, com suas emoções e experiências, complementa aquilo que escritor colocou no papel. Isso torna os livros tão interessantes. Servem até para troca de ideias entre os leitores de um mesmo livro, como se o texto ainda estivesse incompleto.

  • sexta-feira, 8 de maio de 2015 08:49

    Da criação do mundo

    Acho que a Assembleia Legislativa do RS anda meio sem trabalho. É só ver o projeto que está causando polêmica na casa dos deputados gaúchos: a deputada Liziane Bayer (PSB) quer que as escolas ensinem o criacionismo.
    Pois bem. É surpreendente que o tema ganhe espaço nos debates do legislativo, por isso acho que eles estão com bastante folga no trabalho.
    O criacionismo tem por base as histórias dos livros sagrados, especialmente a Bíblia, e as leva ao pé da letra. Esse é o erro. Para eles, o mundo foi criado em seis dias. E foi criado há mais ou menos 6.000 anos. Ou seja, é uma concepção puramente religiosa, baseada na fé.
    Já a verdade científica é bem diversa. Até a Igreja Católica, que já mandou para a fogueira quem contrariasse seus dogmas, hoje acata o que a ciência revelou nos últimos séculos. A evolução das espécies é realidade observável pela ciência, que comprova a existência de seres humanos há milhões de anos. O universo, bilhões de anos.
    A questão é separar o que é simbolismo da fé, das religiões, daquilo que é constatação científica. Não há oposição ou contestação entre uma e outra. A evolução não significa, necessariamente, que as pessoas não possam acreditar em Deus. Mas para as mentes atrasadas, a questão continua a ser esta, infelizmente.
    ***
    Isso, porém, não é novidade. Pesquisa feita nos EUA revelou que quase metade da população não acredita na evolução, preferindo acreditar na história de Adão e Eva e do barro que teria sido soprado pelo Criador. No Brasil, chega a 25% da população.
    Pobres dos professores de biologia!
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    Falando em evolucionismo, lembro da história da menina que perguntou à mãe sobre a origem da espécie humana. A mãe explicou:
    “Deus criou Adão e Eva. Assim a raça humana se reproduziu e se multiplicou”.
    Depois, a menina fez a mesma pergunta ao pai e este explicou:
    “Há milênios existiam macacos que evoluíram até chegarem aos humanos que você conhece hoje”.
    Confusa, a garotinha voltou a comentar o assunto com a mãe e esta respondeu:
    “Olha, filha, é muito simples: eu falei da minha família e o papai falou da dele...”
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    Alerta para a Prefeitura de Santa Rosa. Aqueles postes de metal, instalados no centro da cidade para a iluminação natalina, são ocos e estão cheios dágua. A cada chuva, os postes enchem. Para esvaziar pode levar semanas, pois a evaporação é lenta.
    Constatei o fato a partir de vídeo divulgado na internet, pois o fato ocorreu em outra cidade do país. Observando os postes em Santa Rosa, dá para ver que, em alguns deles, a base está apodrecendo por ação corrosiva da ferrugem.
    Ou seja, tem água lá dentro. E possivelmente mosquitos....

     

  • sexta-feira, 24 de abril de 2015 14:44

    Tiradentes

    É estranho como não debatemos o significado da Inconfidência Mineira, lembrada no feriado da última terça-feira. Aliás,
    “lembrada” chega a ser um exagero. É um feriado, apenas. E o debate sobre o significado da Inconfidência acaba em nada.
    Talvez isso se deva à importância que nós, gaúchos, damos à Revolução Farroupilha, embora ambas tenham tido motivação semelhante. Enquanto os mineiros queriam a independência em relação a Portugal (em 1792), os gaúchos buscavam a independência em relação ao governo central da época (em 1835).
    Pois a figura de Tiradentes ainda é a de um herói da república. Traídos por Silvério dos Reis, Tiradentes e seus amigos foram presos. O único a reconhecer que conspirava contra Portugal foi Tiradentes. Passou dois anos na prisão e depois foi morto, esquartejado e seu corpo exposto à execração pública.
    Na verdade, ele nunca foi um herói ou expoente político. Tinha suas ambições, mas jamais destacou-se como celebridade da época. Exerceu diversas atividades para sobreviver e surpreendeu a todos ao dizer: “Eu sou o único culpado”. O inusitado é que Tiradentes também foi coletor de impostos, tendo se revoltador justamente contra a alegada cobrança injusta de tributos.
    Quando o Império português decidiu cobrar as dívidas vencidas dos nobres de Minas Gerais a coisa complicou. Aliás, isso não é novidade no Brasil desde aquela época. Ainda hoje é só tentar cobrar os bilhões da sonegação e você vai ver o circo pegar fogo!
    Mas o que aconteceu com o traidor, se na época não existia a tal “delação premiada”? Joaquim Silvério dos Reis entrou para a história como o dedo-duro, o alcaguete. Endividado, decidiu denunciar o movimento libertário esperando o perdão das dívidas. Parte de suas dívidas foram efetivamente perdoadas, com a ajuda de alguns políticos ligados à Corte Portuguesa. Mas passou o resto da vida com a fama de traidor. Dizem que o seu túmulo, em São Luiz do Maranhão, foi destruído por populares pouco depois da sua morte.
    ***
    Após a morte de Tiradentes, os republicanos trataram de divulgar sua imagem e sua morte a fim de favorecer a ideias de independência. Também os militares (alferes era o equivalente a subtenente) passaram a utilizar a imagem do mártir para fortalecer as corporações.
    Mas o Tiradentes da época não despertou comoção popular. Sua imagem de mártir foi obras de outros, com interesses diversos. Até a sua atuação como “subversivo” foi de pouca importância, conforme os documentos da época comprovam.
    Mas o simbolismo de Tiradentes é inegável.
    Ajudou a divulgar as ideias de independência quando isso era tido como crime abominável. Aliás, o poder do império não deixava muita margem a discussões, embora tenha havido um longo processo até a condenação final. Ficou a imagem do mártir e do homem que auxiliou a abrir as veredas da independência que aconteceria poucos anos depois.
    ***
    E a professora perguntou ao Joãozinho:
    “Diga tudo o que você sabe sobre o Tiradentes”.
    “Ele foi enforcado, professora”.
    “É só isso?”
    “Qual é, profe? O cara foi enforcado e a senhora acha pouco?”