• segunda-feira, 3 de novembro de 2014 08:17

    Juntos e separados

    A conversa é antiga, mas verdadeira. Por isso, vale a pena voltar a ela. As tecnologias que invadiram nossa vida são fascinantes, algumas verdadeiras maravilhas, mas estão modificando nosso comportamento e até afetando nosso cérebro.
    Não, não sou inimigo das tecnologias. Também estou mergulhado nelas, mas às vezes fico preocupado. Explico.
    Na Alemanha, um estudo minucioso comprovou que uma em cada três pessoas sente-se insatisfeita com a própria vida logo após acessar a rede social. A rede, com seu exibicionismo explícito, causa ressentimentos e inveja. Homens gostam de postar conteúdo promocional (suas realizações) e as mulheres destacam sua aparência pessoal e vida social. Embora a inveja seja um sentimento universal, a rede social tornou-a visceral. As pessoas experimentam frustração ao ver a “felicidade” dos outros.
    Já nos EUA, a Universidade de Michigan revelou que as redes sociais (no caso do estudo, o Facebook) têm relação direta com o bem estar psicológico das pessoas. Resumindo a conversa, quanto mais uma pessoa usa o Facebook, menos satisfeito é com a vida. Em geral, ela se dedica ao Facebook quando se sente solitária.
    O estudo também comprovou que, nos intervalos, quando interagem com outras pessoas, o nível de satisfação e o bem estar aumenta. Num grupo de pessoas (sem os “smartphones”, é claro), tendemos a prestar atenção nelas, ouvir o que têm a dizer, e por isso nos sentimos mais felizes.
    Essa sensação de bem estar tem a ver com a sensação de “estar presente”, de estar “focado” e concentrado. As novas tecnologias, ao contrário, têm como característica a distração e a dispersão de nossa mente.
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    Navegamos num oceano de imagens e publicações, mas isso não significa que nossa vida esteja melhor. Um sociólogo observou crianças na saída da escola durante meses, e descobriu algo assustador. A maioria delas era dominada por um sentimento de frustração e tristeza ao ver que os pais não observavam a porta de saída da escola, e sim os seus próprios “smartphones”. Não há, mesmo, como não ficar triste.
    A distração da tecnologia é um fenômeno que vem preocupando professores em todo o mundo. O clima em sala de aula, por exemplo, é assustador. E um grupo de jovens, lado a lado, mergulhados em seus “smartphones”, será que podemos chamar de convivência?
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    Mas, por incrível que pareça, já existem aplicativos para celulares e computadores que ajudam as pessoas a “esquecer” um pouco esse mundo de distrações. São pequenos programas que impedem, por exemplo, que você acesse a rede social no horário comercial. Outros impedem que você abra diversos programas no computador pessoal, ou seja, você só pode fazer uma tarefa de cada vez.
    Um dos programas permite que você defina o período de tempo que ficará ligado na rede social. Atingido o limite, o programa simplesmente desconecta-o da rede. E não adianta esbravejar. Ele só permitirá nova conexão após um longo período.
    Para alguns amigos, isso será enervante, eu sei. Mas, acreditem, muito útil.

  • sábado, 25 de outubro de 2014 11:13

    Morrer é complicado

    Tempos atrás nascíamos e morríamos dentro de casa, cercados por familiares e parentes. Hoje, a coisa mudou. Nascemos e morremos em hospitais.

    Talvez porque vivemos hoje em apartamentos, mas também porque, em tese, hospitais são mais assépticos, escondem o horror do fim. Livramo-nos do constrangimento. Familiares e amigos ficam sabendo da nossa morte pelos anúncios de rádio e jornal. Ou pela internet. É uma morte muito bem comportada, enfim. Um cadáver é uma coisa estranha, não combina com as residências modernas.

    E a velha morte é sempre uma novidade. Comentamos o fato e viramos as costas. No máximo, um comentário mais vulgar do tipo “bateu as botas”, “esticou a canela”, “foi para a cidade dos pés juntos”, e assim por diante.

    O alemão Schopenhauer dizia que o homem descobriu a morte e, com ela, a filosofia, o pensamento metafísico. É o que nos diferencia dos animais. Sabemos que vamos morrer e nos angustiamos com o que fazer com o tempo. O tempo que temos é restrito. Isso é uma droga!

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    No imaginário popular a morte tem várias formas, embora a maioria não consiga escolher como morrer. No Rio Grande do Sul ficou famosa a expressão “morte matada” para dizer que o sujeito foi morto por algum desafeto, de facada ou tiro. Mas também temos a morte de “desgraça” para falar do suicídio.

    Também falamos que o cara morreu “como um passarinho”, seja porque a morte foi rápida e digna, ou porque morreu de velhice (“apagou”). É a morte que todos gostaríamos de ter. Isso lembra o bêbado que entrou no velório e indagou:

    “Como morreu o finado?”

    “Morreu como um passarinho...”

    “Então, foi pedrada?”

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    Mas há quem garanta que é melhor ser um bundão vivo do que um valente morto. Talvez por isso que os valentes gostam de lápides cheias de pompas e elogios. Confesso que não vejo graça nenhuma nisso. Pois elogios, se são úteis enquanto estamos vivos, são absolutamente inúteis depois que morremos. Pelo menos para o finado.

    Houve um tempo em que um morto ilustre, ou rico, recebia um mausoléu em sua homenagem. Hoje, até a cremação nos atrai. Talvez porque nossa forma de ver a morte esteja mudando, o que não deixa de ser bom. Não haverá espaço no planeta para tantos túmulos, obviamente.

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    Ao contrário do que você possa estar imaginando, este texto não tem nada a ver com a eleição, embora saibamos que ao final de um processo eleitoral existam mortos e feridos. Ocorre que os políticos, contrariando as leis biológicas, têm a estranha capacidade de ressurgir das cinzas. Aguarde o próximo pleito e verá.

  • sexta-feira, 10 de outubro de 2014 15:00

    Rescaldo

    Não há como fugir do tema. As eleições poderiam ser algo corriqueiro na nossa democracia, mas ainda é traumatizante. E surpreende ver pessoas que perdem a pose, literalmente, quando o assunto é política, revelando, no bate-papo ou nas redes sociais, um inexplicável ódio. Sinal de que vida democrática ainda não faz parte de seu cardápio diário.

    ***

    Quando, em 2013, ocorreram aquelas manifestações públicas Brasil afora, todos imaginavam que as urnas de 2014 trariam novidades para o quadro político. Houve quem imaginasse profundas transformações e novos ares para a vida pública.

    Abertas as urnas, a decepção foi profunda.

    Quer ver? A Câmara Federal, por exemplo, tem na sua nova composição nada menos que 248 milionários (quase 50%)! A informação toma como referência as declarações de bens dos eleitos à Justiça Eleitoral. No topo da lista está o PMDB com 39 milionários, seguido do PSDB com 32, PSD (24), PP (23) e PR (18).

    Ou seja, caro leitor, temos de admitir que nada mudou e não mudará.

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    Aliás, é incrível o número de candidatos que se dizem protagonistas da mudança. Eles aparecem em todas as eleições. Sempre desconfiei deles. Quem se intitula agente da mudança, na verdade deseja apenas que tudo continue como está, pois assim lhe é mais conveniente. O argumento da mudança, na verdade, é um auto-engano.

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    Repete-se a reclamação acerca dos votos obtidos por candidatos “paraquedistas” em Santa Rosa e municípios vizinhos. Alguns são absolutamente estranhos. Outros (imagino eu) sequer sabem onde fica Santa Rosa.

    O que está acontecendo? Nossos partidos são frágeis? Nossos candidatos são inconsistentes? Ou os cabos eleitorais daqui estão cobrando muito por seu trabalho? Não tenho a resposta. Aliás, são as lideranças locais devem procurá-la.

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    Concordo que a campanha foi bem comportada. Pouco barulho e pouca poluição visual. Tudo por conta da legislação rigorosa. Há quem goste, mas confesso que sinto saudade daquela alegre “bagunça” das eleições de outros tempos.

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    Vivemos na chamada “sociedade do espetáculo”, assim definida pelo escritor francês Guy Debord. O livro foi publicado em 1967, e desconfio que ele tinha razão.

    Talvez por isso as eleições deste ano conduziram a diversos cargos políticos pessoas que se tornaram conhecidas no mundo do espetáculo, como cantores, jogadores de futebol e atores de TV. Aqui no Estado duas figuras proeminentes da TV se candidataram em meio a muita polêmica, como você bem sabe.

    No centro do país, foram eleitos o Tiririca, Romário, Russomano e Bebeto, entre outros. A vida política se transforma num espetáculo. Apenas um espetáculo, lamentavelmente.

  • sábado, 4 de outubro de 2014 13:36

    O novo mundo do trabalho

    O mundo do trabalho muda, e seu emprego pode desaparecer. É isso mesmo! A realidade está sempre em mutação, e o trabalho também. Basta olhar o passado.
    Muitas profissões interessantes desapareceram, e outras surgiram.

    Aqui na fronteira com o rio Uruguai, tivemos no passado o “balseiro”, indivíduo com a atividade pesada de conduzir troncos de madeira rio abaixo. Também tivemos o “esquilador”, encarregado de tosquiar ovelhas, assim como o “alambrador”, que colocava cercas nas propriedades rurais. São figuras de um mundo que desaparece.

    Já tivemos profissões respeitadas como datilógrafo, técnico em mecanografia, digitador de computador, telegrafista e o professor de escola de datilografia. O leiteiro, por exemplo, fez parte da minha infância. Visita diária, o cara era respeitado no bairro.

    Outro que tinha meu respeito era o lanterninha do cinema, no caso, do Cine Odeon. Eu sonhava com uma atividade que me permitisse assistir aos filmes de graça. Também apreciava conversar com o vendedor de enciclopédias. Hoje desapareceram o vendedor, o autor e o editor daquelas coleções.

    Também estão nos dando adeus as atividades de revelador de fotografias, ascensorista, consertador de guarda-chuvas e costureira. O sapateiro, hoje, só conserta sapatos. Antigamente, fabricava não só os sapatos como outros artigos de couro, como as bolas de futebol da minha infância, aquelas com câmara de borracha (o sapateiro meu vizinho trocava a câmara com frequência porque o arame farpado do potreiro liquidava com a bola todo final de semana).

    ***

    É curioso, mas há menos de um século existiam na Europa profissões como acendedor de lampiões, limpadores de chaminés e caçadores de ratos. Todos muito necessários para a sociedade da época.

    Previsões atuais apontam como próximos desaparecimentos: carteiro, repórter, agente de viagens, leitor de medidor (luz, água, etc), cenógrafo de TV, cobrador de ônibus (em Curitiba eles já não existem), entre outros.

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    Mas não vamos chorar sobre o leite derramado. Há também as novas atividades exigidas pelo mercado. As profissões do futuro são boas alternativas, até porque nossos filhos não gostariam de exercer funções como as que mostrei acima. Entre elas estão aquelas relacionadas com eletricidade, energias alternativas, plásticos, subprodutos do petróleo, mecatrônica, automação, engenharias em geral, comunicação em rede, etc.

    Uma nova profissão será “condutor de drones”, voltada somente para profissionais de 5 a 15 anos de idade. No currículo, deve constar a experiência com games na internet. E também o “desintoxicador digital”, encarregado de limpar sua cabeça das tolices que você viu na internet durante a semana. Será uma espécie de profissional de saúde mental, indispensável no futuro mas necessário já nos dias de hoje, pelo menos para alguns conhecidos meus.

    Mas existem outras à sua escolha: guia turístico no Iraque, motorista de transportadora na Amazônia, proctologista de traficante, pastor evangélico no Irã, instrutor de homem-bomba e degustador de comida pet. Fique tranquilo. Você não ficará sem emprego...